Abedalá ibne Ume Maquetume (; m. ou depois) foi um dos primeiros convertidos ao islamismo, muezim, transmissor de hádices e companheiro de Maomé. Pertencente ao clã dos amiritas, ramo dos coraixitas, destacou-se por sua dedicação ao ensino do Alcorão, por ter exercido repetidamente a administração de Medina durante as ausências do Profeta e por sua atuação como um dos muezins da comunidade muçulmana. Cego desde o nascimento ou desde a infância, conforme diferentes tradições, foi um dos primeiros habitantes de Meca a aceitar o islamismo e emigrou para Medina juntamente com Muçabe ibne Omeir ou logo após ele. Na cidade, ensinou o Alcorão, residiu inicialmente na Sufa e, segundo a tradição, substituiu Maomé na direção da comunidade em treze ocasiões.

O nome de Ume Maquetume permaneceu especialmente ligado ao episódio que motivou a revelação dos primeiros versículos da sura Abasa, nos quais Maomé foi repreendido por voltar momentaneamente sua atenção aos líderes coraixitas em detrimento de seu pedido de instrução religiosa. Sua trajetória exerceu influência duradoura na tradição islâmica, servindo de fundamento para diversas normas jurídicas relativas às pessoas com deficiência, especialmente quanto ao exercício da liderança religiosa, à participação nas campanhas militares e à frequência às orações coletivas. Também é lembrado por sua atuação ao lado de Bilal ibne Rabá como muezim de Maomé e por sua participação, segundo algumas tradições, na Batalha de Cadésia, onde teria morrido ou sofrido os ferimentos que ocasionaram sua morte.

Vida

Ibne Ume Maquetume nasceu em Meca e pertencia ao clã dos amiritas, ramo dos coraixitas. Seu pai era Caice ibne Zaida, descendente de , enquanto sua mãe, Ática binte Abedalá Almaquezumia, era conhecida pela cúnia Ume Maquetume, da qual derivou o sobrenome pelo qual seu filho se tornou célebre. Segundo a tradição, seu nome antes do islamismo era Huceine, tendo recebido de Maomé o nome Abedalá após sua conversão. As fontes divergem quanto ao seu prenome original, sendo registrado como Abedalá pelos estudiosos de Medina e como Anre pelos do Iraque. As tradições também divergem quanto à origem de sua cegueira. Algumas afirmam que nasceu cego, enquanto outras sustentam que perdeu a visão ainda na infância, circunstância que teria dado origem à cúnia de sua mãe. Foi um dos primeiros habitantes de Meca a aceitar o islamismo. Embora algumas tradições afirmem que somente emigrou para Medina pouco depois da Batalha de Badre, a opinião predominante sustenta que realizou a Hégira juntamente com Muçabe ibne Omeir — ou logo após ele —, na missão enviada para ensinar o islamismo aos habitantes de Medina depois do Primeiro Pacto de Ácaba. De fato, Albucari considera Muçabe e Ibne Ume Maquetume os primeiros emigrantes a chegarem à cidade.

Em Medina, dedicou-se ao ensino do Alcorão ao lado de Muçabe ibne Omeir. Após a construção da Sufa, residiu ali durante algum tempo, mudando-se depois para a residência que passou a ser conhecida como Dar Alcurra (ou Dar Alguida), posteriormente pertencente a Macrama ibne Naufal. Sempre que Maomé se ausentava de Medina para expedições militares ou outras missões, confiava-lhe a administração da cidade e a direção das orações dos fiéis que nela permaneciam. Segundo a tradição, Ibne Ume Maquetume exerceu essa função em treze ocasiões distintas. O episódio mais conhecido de sua vida ocorreu ainda em Meca, quando Maomé procurava persuadir alguns líderes coraixitas a aceitar o islamismo. Ibne Ume Maquetume aproximou-se de Maomé pedindo-lhe que lhe ensinasse aquilo que Deus lhe havia revelado. Diante da interrupção, Maomé demonstrou momentâneo desagrado, ocasião em que foram revelados os primeiros versículos da sura Abasa, censurando essa atitude. Depois desse episódio, Maomé passou a tratá-lo com especial consideração, recebendo-o frequentemente com as palavras: "Bem-vindo aquele por causa de quem meu Senhor me repreendeu".

Apesar de sua cegueira, Ibne Ume Maquetume manifestou repetidamente o desejo de participar das campanhas militares. Após a revelação do versículo , que isentava pessoas com deficiência da obrigação de combater, declarou que ainda assim desejava acompanhar os exércitos muçulmanos e pediu que lhe fosse confiado o estandarte. Segundo uma tradição, participou da Batalha de Cadésia usando armadura e empunhando uma bandeira negra. Algumas fontes afirmam que regressou a Medina, onde morreu em consequência dos ferimentos recebidos em combate, enquanto outras relatam que caiu como mártir na própria batalha.

Legado

Ibne Ume Maquetume desempenhou papel importante no desenvolvimento da jurisprudência islâmica relativa às pessoas com deficiência. Diversas normas referentes à participação dos deficientes na vida religiosa e social da comunidade muçulmana foram estabelecidas em razão de episódios envolvendo sua pessoa. Entre elas figuram a possibilidade de um deficiente exercer a administração temporária da comunidade, dirigir as orações como imame, participar das campanhas militares quando o desejasse, bem como disposições relativas à frequência às orações coletivas e à permissão para manter cães de guarda por motivo de necessidade. Durante o período medinense, Ibne Ume Maquetume exerceu, ao lado de Bilal ibne Rabá, a função de muezim de Maomé. Enquanto Bilal costumava anunciar o primeiro chamado antes do amanhecer, Ibne Ume Maquetume era responsável pelo segundo chamado, realizado apenas depois que lhe informavam o surgimento da aurora e a entrada do horário da oração matinal, em razão de sua cegueira.

Certa ocasião, alegando tanto sua deficiência visual quanto a distância entre sua residência e a mesquita, pediu permissão a Maomé para deixar de comparecer às orações em congregação. O Profeta, entretanto, recusou o pedido por considerar que, enquanto pudesse ouvir o chamado à oração, continuava obrigado a comparecer à mesquita. Em compensação, autorizou-o a manter um cão para sua proteção. Os hádices transmitidos por Ibne Ume Maquetume sobre esse episódio foram preservados nas coleções de Abu Daúde Assijistani, Anaçai e Ibne Maja. Além de sua atuação como muezim, Ibne Ume Maquetume destacou-se como transmissor de hádices. Entre os principais transmissores de suas tradições figuram Anas ibne Maleque, o mucadrame Zir ibne Hubaixe e os tabis Abedalá ibne Xadade, Abederramão ibne Abi Laila e .

Bibliografia

Categoria:Árabes do século VI Categoria:Árabes do século VII Categoria:Companheiros de Maomé Categoria:Amiritas (coraixitas) Categoria:Conquista muçulmana da Pérsia Categoria:Pessoas cegas