miniaturadaimagem|Carlos Cabral Nunes (n. 1971) Carlos Cabral Nunes (Moçambique, 1971) é um curador de arte, galerista, artista multimédia, realizador e ativista cultural radicado em Lisboa. Figura central e disruptiva no panorama artístico português e do espaço da Lusofonia, destaca-se pelo seu pioneirismo na aplicação das novas tecnologias às artes, pela salvaguarda do património do movimento surrealista e pela projeção e mapeamento internacional de artistas do Sul Global através do conceito curatorial de "Arte Global". Biografia e Primeiros Anos

Nascido em Moçambique no início da década de 1970, a sua juventude foi profundamente marcada pelas vivências multiculturais e pelos processos de transição política pós-colonial em África. Em 1985, com apenas catorze anos, iniciou o seu percurso de criação artística no domínio do teatro através do Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis (F.A.O.J.).

Fixou-se no interior de Portugal, na cidade da Guarda, onde desenvolveu um intenso foco na descentralização e agitação cultural. Em 1987, tirou formação em fotografia e técnicas de revelação em laboratório e, em 1989, frequentou cursos regionais de serigrafia com o professor Tony Palmeira e de dança-capoeira com o professor brasileiro Gato.

Ainda na Guarda, no final da década de 1980, período em que assinava publicamente apenas como Carlos Cabral, fundou e dirigiu a editora discográfica independente Área Total (ativa entre 1988 e 1992). A editora desempenhou um papel icónico no fomento do rock alternativo e da música de vanguarda nacional, editando trabalhos seminais de bandas como os Telectu e os Mão Morta (com o álbum O.D., Rainha do Rock & Crawl). Paralelamente, concebeu o G.I.C. Numenépa (Grupo de Intervenção Cultural Numenépa), um coletivo informal de vanguarda dedicado à difusão de fanzines artesanais, ações estéticas na rua e mail art (arte postal), desenhando uma rede de resistência fora dos eixos de Lisboa e do Porto.

Em 1990, mudou-se em definitivo para a capital. Entre 1990 e 1991, ingressou numa especialização como Animador em Assuntos Comunitários, que incluiu formação no Gabinete do Parlamento Europeu em Portugal e um estágio institucional no Parlamento Europeu em Bruxelas, na Bélgica. Formação Técnica e Especialização Multimédia

O perfil de Carlos Cabral Nunes caracteriza-se por um cruzamento entre as artes plásticas tradicionais e as tecnologias de comunicação digitais emergentes na viragem do milénio. Ao longo da década de 1990 e inícios de 2000, empreendeu um vasto percurso de especialização técnica internacional:

Música e Engenharia de Som: Frequentou workshops de composição e improvisação musical com Peter Kowald e Carlos Zíngaro no Goethe-Institut (1996), técnica vocal com Fernando Serafim (1996) e um seminário avançado sobre a teoria e aplicação de sistemas estereofónicos com o engenheiro de som alemão Jorg Wuttke (1996). Em 1998, estudou técnicas de composição com o maestro vanguardista Emanuel Nunes na Fundação Calouste Gulbenkian. Cinema e Escrita de Ficção: Concluiu o curso de Escrita para Cinema e Televisão com o professor Paulo Filipe Monteiro na Fundação Calouste Gulbenkian (1997). Frequentou em Munique o Interactive Digital Moviemaking Workshop liderado por Chris Hales (1999) e o programa de gestão Management of a TV Channel em Atenas (1999). Em 2001, formou-se em Kolding, na Dinamarca, no curso Arista's Story Editor. Sistemas de Autor e iTV: Entre 1997 e 1998, tirou a formação avançada Digital Multimedia Authoring no Arthouse Multimedia Centre for the Arts, em Dublin (Irlanda), focando-se no desenvolvimento de CD-ROMs e internet interativa. Em Portugal, publicou o "Manual de Director 6.5", o primeiro livro técnico escrito em território nacional dedicado à programação neste sistema de autor de referência. Em 2004, especializou-se em Documentários Interativos e Televisão Interativa (iTV) em Bechyné, na República Checa.

O Manifesto da Arte Global e o Colectivo Multimédia Perve

Em 12 de fevereiro de 1997, Carlos Cabral Nunes fundou formalmente na Amadora a Associação Juvenil e Cultural "Colectivo Multimédia Perve". Como base identitária da instituição, redigiu o Manifesto da Arte Global.

O conceito teórico de Arte Global postula a rejeição das barreiras entre disciplinas estéticas e combate diretamente o eurocentrismo imperante no mercado artístico contemporâneo. O manifesto estrutura-se na inter-relação de diferentes formas de expressão artística (artes visuais, som, multimédia, literatura, rituais populares e performance) em torno de um único acontecimento cultural, funcionando como uma ferramenta de inclusão, ativismo e descentralização social.

A partir deste manifesto, o Colectivo organizou grandes eventos comunitários como o 1º Encontro de Arte Global (Amadora, 1999) — que incluiu a aplicação multimédia 7 Interactive Films — e o 2º Encontro de Arte Global (Lisboa, 2008–2009), que centrou as suas conferências no Panteão Nacional e no ISPA em torno do legado e da figura de Mário Cesariny. Atividade Galerista e a Coleção Lusofonias

Em março do ano 2000, na sequência de um aturado trabalho de pesquisa artística efetuado em Moçambique, Carlos Cabral Nunes fundou e assumiu a direção artística da Perve Galeria, estabelecendo a sua sede definitiva no centro histórico de Alfama, em Lisboa.

A linha de curadoria da galeria implementou de forma prática as premissas do seu manifesto, focando-se no mapeamento e na reabilitação histórica de criadores injustamente marginalizados ou subvalorizados pelos circuitos institucionais comerciais ocidentais. Cabral Nunes tornou-se um dos primeiros agentes europeus a dar destaque sistemático à arte contemporânea africana e dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa).

Desta matriz nasceu a Coleção Lusofonias, um dos acervos artísticos privados mais relevantes dedicados à produção moderna e contemporânea de língua portuguesa, agregando obras de mestres como Malangatana, Reinata Sadimba, Ernesto Shikhani, Teresa Roza d'Oliveira, Manuel Figueira e Pancho Guedes. Desde 2009, a coleção tem sido alvo de contínuas itinerâncias internacionais, com destaque para a grande mostra apresentada na Galeria Nacional de Arte em Dakar, no Senegal (2010), e no India International Centre em Nova Deli (2015).

Em novembro de 2013, expandindo o raio de ação social do coletivo, fundou e assumiu a direção da Casa da Liberdade - Mário Cesariny, um espaço polivalente em Alfama com características museológicas destinado a abrigar e a dinamizar o património artístico e documental herdado do poeta e pintor surrealista. Em 2022, fundou ainda o 27ARTeZoo, um espaço experimental ao ar livre em Alfama acessível de forma gratuita ao público 24 horas por dia. Intervenção Cívica: O Caso Miró (2013–2014)

Carlos Cabral Nunes alcançou uma forte notoriedade pública e política em Portugal ao assumir a liderança cívica da campanha de contestação contra a venda das 85 obras de Joan Miró. O acervo artístico, outrora pertença do Banco Português de Negócios (BPN), fora integrado na esfera do Estado após a nacionalização da instituição bancária. Entre 2013 e 2014, o Governo português planeou a sua alienação num leilão internacional em Londres através da leiloeira Christie's, com o intuito de abater o valor obtido na dívida pública.

Como primeiro subscritor da petição nacional "Manutenção em Portugal das obras de Miró", Cabral Nunes reuniu milhares de assinaturas, servindo-se da Casa da Liberdade como centro operacional da contestação. Em janeiro de 2014, foi ouvido na Assembleia da República perante a Comissão de Educação, Ciência e Cultura, onde acusou formalmente a tutela governamental de "vandalismo cultural".

Paralelamente, interpôs uma contestação jurídica ao exigir junto da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) a classificação urgente das obras como interesse nacional, criando um impasse legal de exportação. O eco mediático internacional e as providências cautelares geradas pela sociedade civil forçaram a Christie's a cancelar oficialmente o leilão em fevereiro de 2014. A coleção permaneceu em Portugal, ficando depositada de forma permanente no Museu de Serralves, no Porto. Para assinalar a vitória civil, o curador organizou na Perve Galeria a exposição coletiva de tributo "(Con)Tributos da Liberdade a Joan Miró" (2014). Obra Artística e Projetos Multimédia

Em paralelo com as suas funções curatoriais, mantém uma produção autoral regular como artista plástico e programador interativo:

Exposições Individuais (Solo)

2026 – "M.ART II": Casa da Liberdade - Mário Cesariny, Lisboa. Exposição retrospetiva comemorativa de 40 anos de carreira artística, agregando e revisitando todas as fases e suportes da sua linguagem transdisciplinar. 2020 – "A Timeline for the Future. Stories of Tenderness, Love and Sorrow": FADA Gallery Exhibition Hall – Bilkent University, Ancara, Turquia. Primeira grande antologia individual a nível internacional, estruturada num percurso narrativo conceptual em três partes. 2003 – "Zoomorfismos da Cor": Perve Galeria, Lisboa. Mostra artística de pintura e fotografia. 2002 – "(nós) Para Lá do Mar": Galeria do Instituto Português da Juventude (IPJ), Parque das Nações, Lisboa. 2002 – "M. Art": Perve Galeria, Lisboa. Primeira retrospetiva individual assente em pintura, desenho e instalações digitais interativas.

Projetos de Arte Digital e Multimédia

"Endless Art | The Escher Project" (2009–presente): Instalação de arte digital interativa de base evolutiva, desenvolvida em coautoria com o prestigiado artista multimédia britânico Chris Hales. A obra valeu-lhe uma prestigiada residência artística em agosto de 2011 na XVI Bienal de Vila Nova de Cerveira. Série Documental "N.O.M.A." (2003–presente): Projeto de mapeamento histórico de vultos da arte em África e na Europa, composto por uma série televisiva de 24 documentários em vídeo (incluindo curtas-metragens de referência dedicadas a Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas e Ernesto Shikhani), uma coleção de 12 CDs áudio e suportes em DVD-ROM. Monografias Digitais Interativas (2002): Desenvolvimento técnico e captação de imagem para os arquivos informáticos interativos (inéditos) Pixel, Poema e Prestidigitação com Mário Cesariny, Luz 4D com Cruzeiro Seixas e Ser Morfométrico com Nadir Afonso. Software Educativo "A Extinção dos Dinossauros" (2003–2004): Conceção e programação interativa de um protótipo de software pedagógico distribuído pelas escolas nacionais, financiado pelo Programa Nónio do Ministério da Educação.

Prémios e Distinções

O trabalho de inovação digital e curadoria desenvolvido por Carlos Cabral Nunes foi alvo de diversas condecorações nacionais e internacionais:

Membro Permanente e Fellow da EADM (2001): Eleito com duplo estatuto honorário pela European Academy of Digital Media (Academia Europeia de Media Digitais) em Utrecht, Países Baixos. Grande Prémio Multimédia XXI (2001): Atribuído pela Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC) pelo protótipo do CD-ROM Trilogia com Artur Bual, entregue pelo Ministro da Ciência e Tecnologia, Mariano Gago. 1º Troféu Jovem Multimédia XXI (2001): Concedido pela APDC pelo desenvolvimento técnico do CD-ROM Noma Kan Djan – Arte em Moçambique. Prémio Nacional de Multimédia (2001): Duplamente premiado pela Associação para a Promoção do Multimédia em Portugal (APMP) nas categorias de "Design Visual e Interação" e de "Conteúdos", recebendo ainda uma Menção Honrosa do Júri. Nomination ao Europrix (2001): Nomeado e finalista na categoria "Discovery, Culture and Knowledge" do Europrix - Top Talent Award na Feira do Livro de Frankfurt. Prémio Juventude da Bienal de Cerveira (2001): Distinguido na categoria de Arte Contemporânea pela instalação interativa Inventário Cromático, apresentada originalmente na FIL sob o patrocínio do ICAM.