Obra reunida é uma coletânea de textos da escritora uruguaia radicada no Brasil Maria do Carmo de Mello Rego, publicada em Brasília em 2025 pelo Senado Federal, na Coleção Escritoras do Brasil, coordenada pela Biblioteca do Senado Federal. A publicação reúne três obras da autora publicadas no Brasil no final do século XIX: Guido (paginas de dôr), de 1895; Lembranças do Matto Grosso, de 1897; e Artefactos indigenas de Matto Grosso, publicado em 1899 no periódico Archivos do Museu Nacional.
As duas primeiras obras foram originalmente publicadas no Rio de Janeiro pela Typographia Leuzinger, enquanto Artefactos indigenas de Matto Grosso apareceu no volume 10 de Archivos do Museu Nacional.
O volume contém uma apresentação de Maria Ester de Siqueira Rosin Sartori e notas de Alessandra Marinho da Silva, André Luiz Lopes de Alcântara, Maria Helena de Almeida Freitas e Mônica Almeida Rizzo Soares. A revisão textual é de Mariana Sanmartin de Mello
Conteúdo
Guido: Páginas de Dor
Guido (paginas de dôr) foi publicado originalmente no Rio de Janeiro pela Typ. Leuzinger, em 1895. De caráter autobiográfico, o texto relata a adoção e a convivência da autora com Piududo, menino do povo bororo que recebeu o nome Guido, bem como sua morte ainda criança.
A narrativa começa com a passagem de um grupo de bororos por Cuiabá durante o período em que Francisco Rafael de Melo Rego, marido da autora, presidia a província de Mato Grosso. Maria do Carmo relata ter pedido ao cacique Boroiaga que lhe enviasse uma criança órfã. Em 12 de junho de 1888, recebeu Piududo, que passou a criar como filho.
A edição original foi precedida por uma apresentação do Visconde de Taunay, datada de 2 de maio de 1894. A própria Maria do Carmo afirma ter enviado a Taunay a primeira parte do relato sem inicialmente pretender publicá-la e atribui a ele o estímulo recebido durante o período de luto.
Na apresentação da edição de 2025, Maria Ester de Siqueira Rosin Sartori interpreta Guido como um texto memorialístico e confessional relacionado à maternidade adotiva, ao luto e às relações estabelecidas entre a autora, integrante da elite não indígena, e o menino bororo.
Lembranças de Mato Grosso
Publicado originalmente como Lembranças do Matto Grosso, em 1897, pela Typ. Leuzinger, o livro reúne recordações da viagem e da permanência de Maria do Carmo na então província de Mato Grosso.
A narrativa acompanha o percurso da autora do Rio de Janeiro a Cuiabá e contém descrições de localidades, paisagens, costumes e relações sociais observadas durante as viagens pelo território mato-grossense. Sartori relaciona esses registros à escrita autobiográfica, memorialística e regionalista da autora.
Na organização da edição de 2025, a seção dedicada a Lembranças de Mato Grosso compreende Do Rio de Janeiro a Cuiabá, Cuiabá, Rio Paraguai – Vila Maria, Curupira, Rosa a Bororó e Batismo dos Bororós.
Rosa, a Boróró (episodio verdadeiro) havia sido publicada separadamente na Revista Brazileira, em 1895, antes da edição de Lembranças do Matto Grosso. O texto apresenta Rosa, mulher bororo que atuou como intérprete nas relações entre seu povo e integrantes das expedições de ocupação e aldeamento realizadas na região.
Artefatos Indígenas de Mato Grosso
Artefactos indigenas do Matto Grosso foi publicado em 1899 no volume 10 de Archivos do Museu Nacional do Rio de Janeiro. O texto descreve objetos de diferentes povos indígenas reunidos pela autora durante sua permanência em Mato Grosso e registra informações sobre sua procedência e seus usos.
A atividade de Maria do Carmo como colecionadora também aparece em Guido, no qual a autora registra ter doado ao Museu Nacional uma coleção de artefatos indígenas que havia reunido e inicialmente destinado ao filho. Segundo a apresentação de Sartori, esse conjunto integrou posteriormente o acervo etnográfico do Museu Nacional e foi perdido no incêndio ocorrido em 2018.
Edição de 2025
A edição de 2025 reúne os três textos em ordem cronológica de publicação: Guido, de 1895; Lembranças de Mato Grosso, de 1897; e Artefatos Indígenas de Mato Grosso, de 1899. A publicação atualizou a ortografia e, quando considerado necessário pelos editores, a pontuação, procurando preservar o restante do texto original.
Os nomes próprios em língua portuguesa tiveram a grafia atualizada, enquanto nomes estrangeiros foram mantidos conforme apareciam nos textos. Na designação dos povos indígenas, foram preservadas as formas utilizadas por Maria do Carmo, com notas indicando grafias contemporâneas quando pertinentes.
Os editores também assinalam a presença, nos originais, de termos atualmente considerados inadequados para designar povos indígenas. A edição diferencia as notas originalmente escritas pela autora das notas explicativas e bibliográficas acrescentadas pela equipe editorial.
Além dos textos de Maria do Carmo, a publicação inclui a apresentação Maria do Carmo de Mello Rego: uma voz singular na literatura brasileira, de Maria Ester de Siqueira Rosin Sartori, uma bibliografia da autora, uma breve bibliografia sobre ela e a relação das fontes consultadas.
Categoria:Livros de 2025