thumb|Rosa heráldica na bandeira de Campllong, Girona, Espanha thumb|Rosa heráldica como chave de abóbada na sacristia de Landshut thumb|Rosa heráldica em uma moeda britânica de 2 xelins

A rosa é uma peça comum em heráldica, utilizada tanto como carga sobre um escudo de armas quanto isoladamente, como emblema heráldico. A rosa heráldica tem forma estilizada, composta por cinco lóbulos (pétalas) simétricos, cinco pontas (sépalas ou espinhos) intercaladas entre eles e um botão circular ao centro. É um dos símbolos vegetais mais comuns da heráldica, ao lado do lírio, que também possui representação estilizada na flor-de-lis.Slater, Stephen (2006). The Illustrated Book of Heraldry. Londres: Hermes House, p. 90.

A rosa foi o símbolo da dinastia Tudor inglesa, e a rosa de dez pétalas conhecida como rosa Tudor (dita «rosa dupla») está associada à Inglaterra. A flor figura ainda de forma destacada nas armas da Casa de Lippe e no selo de Lutero.

Além de peça heráldica, o vocábulo inglês «rose» também nomeia um esmalte moderno, tratado adiante em secção própria; note-se que, ao contrário do que se poderia esperar, a palavra «rosa» em si não denomina nenhum esmalte na heráldica lusófona.Ver Cor-de-rosa, secção sobre heráldica.

Aparência A forma normal da rosa heráldica é a de cinco pétalas, imitando o aspeto de uma roseira brava de sebe. É representada isolada e vista de frente, sem haste, com uma sépala voltada para baixo e uma pétala para cima (distribuição 1:2:2); quando invertida, diz-se virada. As pétalas são normalmente vermelhas e as sépalas verdes — uma rosa nessas condições é blasonada como «pontada e bespicada ao natural» (barbed and seeded proper); se as sépalas e a semente central tiverem esmaltes diferentes, a rosa é dita «pontada e bespicada» dessa(s) tinta(s). A rosa de Lippe, por exemplo, é blasonada «de goles, pontada e bespicada de ouro».

O centro da flor — chamado por vezes botão — costuma ser tingido de ouro, em contraste com as pétalas. Quando cercado por um cálice de cinco pontas de esmalte próprio, diz-se «bespicada» (termo heraldicamente correto, ainda que botanicamente impreciso).

Distinção com o quinquefólio. Pela forma de cinco lóbulos, a rosa heráldica é aparentada ao quinquefólio (cinquefoil), figura correspondente a cinco folhas dispostas em roseta, com o centro vazio ou perfurado e sem semente aparente. Nos primeiros rolos de armas medievais, os dois motivos eram tratados por diferentes arautos como equivalentes e intercambiáveis — as armas atribuídas à família inglesa D'Arcy, por exemplo, surgem ora blasonadas como rosas, ora como quinquefólios.Fox-Davies, A. C. (1909). A Complete Guide to Heraldry, cap. XVIII. Londres e Edimburgo: T. C. and E. C. Jack. A heráldica posterior passou a distingui-los com mais rigor: a rosa mantém sempre o botão central e as sépalas intercaladas entre as pétalas, ao passo que o quinquefólio é representado de centro aberto, sem qualquer botão.

Atributos de blasão Diversas variações da rosa simples recebem termo próprio no blasão: Gambada ou tigada (também «pedunculada»): quando representada com haste.L.-A. Duhoux d'Argicourt, Alphabet et figures de tous les termes du blason, L. Joly, 1899, p. 99. Folheada: quando a haste é acompanhada de folhas — como no escudo parlante da casa Rossetti, cuja rosa gambada e folheada é também chamada rosa-damascena. Botoada (boutonnée): quando o botão central tem esmalte diferente do resto da flor. Pontada ou pontuada (pointée; em italiano punteggiata): quando as pontas ou sépalas que separam as pétalas têm esmalte diferente.Nicolas Viton de Saint-Allais, Dictionnaire encyclopédique de la noblesse de France, vol. 2, p. 370. Ao natural: quando representada em tons de castanho e verde, imitando a flor real, em vez das tintas heráldicas convencionais.

Variações compostas Rosa dupla: combinação de duas rosas, uma dentro da outra, célebre pelo uso pelos Tudor.Parker, James (1894). «Rose». Em A Glossary of Terms Used in Heraldry; versão web de Saitou e Jim Trigg (2004). Consultado em 29 de março de 2009. Rosa-em-sol (rose-en-soleil): rosa rodeada de raios. Rosa coroada: encimada por uma coroa. Chapeleta: grinalda de folhas com quatro flores, dentro da qual podem surgir rosas. Conjugação com outras peças: não é raro, em emblemas, que a rosa apareça unida a outra carga — como no célebre emblema de Catarina de Aragão, uma romã unida à rosa dupla de seu marido, Henrique VIII de Inglaterra.Parker, op. cit. Número de pétalas: embora o normal sejam cinco pétalas, existem — botanicamente impróprias, mas simbolicamente intencionais — rosas de quatro, seis ou até oito pétalas, mais raras na heráldica. Rosa multiplicada (gefüllt): quando vários círculos concêntricos de pétalas, cada vez menores, se sobrepõem na mesma tinta; as pétalas podem ainda aparecer enroladas, o que também deve ser mencionado no blasão.Walter Leonhard, Das große Buch der Wappenkunst, 2.ª ed., Callway, Munique, 1978.Robert Markley, Die BLV-Rosen-Enzyklopädie, 4.ª ed., blv, Munique, 2005, p. 10–19.

Ramos de rosa, hastes e folhas surgem por vezes isolados nas armas, sem a flor — entre as figuras florais mais antigas da heráldica. Campos e panejamentos de elmo podem aparecer «semeados» ou «juncados» de pequenas rosas.

Simbologia e origem A rosa foi, desde a Antiguidade, associada ao prazer e ao amor — flor dos deuses Baco e Vénus/Afrodite — o que levou o cristianismo tardo-antigo e altomedieval a vê-la, a princípio, como flor de sentido erótico e até licencioso, lembrando também as festas de Flora em Roma, nas quais rosas eram espalhadas pelas ruas; por associação chegou a ser ligada aos órgãos genitais femininos e à menstruação. Ainda assim, entre os povos germânicos, a rosa contava-se entre as peças de escudo preferidas.

Ao longo da Idade Média, a flor passou a integrar a iconografia cristã como símbolo (rosa mystica), invocação da Virgem Maria e inspiração para as grandes rosáceas góticas. Em sua variante «multiplicada», tornou-se emblema de discrição e segredo (a locução latina «sub rosa dictum», «dito sob a rosa»), sentido presente em representações da flor em fechos de abóbada de antigos mosteiros e câmaras municipais, bem como em confessionários.Robert Markley, Die BLV-Rosen-Enzyklopädie. 4.ª ed., blv, Munique, 2005, p. 18–19.

Rosas históricas específicas

Rosa de Lencastre A «Lancashire Rose» é a rosa heráldica da Casa de Lencastre, de goles, botoada de prata e pontada de verde, envolvida na Guerra das Duas Rosas contra a Casa de Iorque.

Rosa de Iorque A «Yorkshire Rose» é a rosa branca, botoada de ouro e pontada de verde, da Casa de Iorque. Depois da guerra dinástica, foi ainda adotada como insígnia do jacobitismo na Inglaterra e na Escócia; antes da Primeira Guerra Mundial, uma das principais organizações jacobitas britânicas chamava-se «Order of the White Rose».

Rosa Tudor A «Tudor Rose» resulta da fusão das rosas de Lencastre e de Iorque, sendo representada sempre branca sobre vermelha (ou vermelha de coração branco), botoada de ouro e pontada de verde, sobre campo de qualquer outra tinta, e sempre blasonada «ao natural». Funciona como emblema floral da Inglaterra, tal como o cardo está associado à Escócia; aparece no terreno das armas do Reino Unido e do Canadá, bem como uma rosa vermelha isolada no colar da Ordem da Jarreteira.

Rosa de Lippe A «Lippische Rose» é uma rosa vermelha, botoada e pontada de ouro, emblema heráldico do Distrito de Lippe e presente também nas armas do estado alemão da Rena-do-Norte-Vestfália.

Rosa de Lutero A «Lutherrose», ou rosa de Lutero, combina uma rosa branca pontada de verde com um grande botão central vermelho em forma de coração, carregado de uma cruz latina de negro; foi usada por Martinho Lutero como selo pessoal e é hoje símbolo reconhecido do luteranismo, surgindo também nas armas de diversas cidades alemãs.

Uso histórico As rosas heráldicas ocupam lugar de destaque na história inglesa: as duas casas reais rivais do século XV eram conhecidas pelas suas insígnias heráldicas — a rosa vermelha de Lencastre e a rosa branca de Iorque —, donde o longo conflito entre ambas passou a ser designado Guerra das Duas Rosas.Slater, p. 29. Rosas vermelhas e brancas surgem, respetivamente, na heráldica cívica do Lancashire e de Yorkshire.

No sistema de brisura usado na Inglaterra e no Canadá, uma pequena rosa é a marca de diferenciação do sétimo filho. Em Portugal, um lambel com três rosas serviu para diferenciar as armas dos Príncipes da Beira. Rosas figuram ainda nas armas da Finlândia e integram as insígnias dos oficiais (até coronel) do Exército finlandês.

Exemplo: os cinco ramos dos Vítkovici Um exemplo notável do uso sistemático de rosas de tintas distintas para diferenciar ramos de uma mesma linhagem é o da casa boémia dos Vítkovici (em alemão, Wittigonen):Milan Buben, Heraldik, ed. revista, Albatros, Praga, 1986. Casa de Rosenberg: rosa vermelha, bespicada de ouro, em prata; Casa de Landštejn: rosa de prata, bespicada de ouro, em vermelho; Casa de Nová Hradec (Neuhaus): rosa de ouro, em azul; Ramo de Ústí e Stráž: rosa azul, bespicada de ouro, em ouro; Senhores de Krumlov: rosa verde sem sépalas, bespicada de ouro, em prata.

Rosa heráldica como marca d'água A chamada «rosa de Altenburg» foi usada como marca d'água pela fábrica de papel de Penig, por volta de 1538.

O esmalte rose Distinta da figura da flor, existe uma tintura heráldica moderna e não tradicional que, mesmo em português, mantém o nome inglês «rose» — e não «rosa», termo que, na heráldica lusófona, não denomina esmalte algum. Foi introduzida na heráldica canadiana a partir do final do século XX e é hoje reconhecida pela Autoridade Heráldica do Canadá como esmalte, ao lado do azul, do goles, do sinople e do negro; figura, por exemplo, nas armas da ex-primeira-ministra canadiana Kim Campbell.Canadian Heraldic Authority (Volume II), Otava, 1995, p. 380. Não deve ser confundida com a «carnation», esmalte usado ocasionalmente na heráldica francesa para representar a tez humana clara, de tom bege-acastanhado mais intenso e menos saturado do que o «rose».Appleton, David B. (2002). «New Directions in Heraldry». baronage.co.uk, p. 3. Por ser mais recente do que a obra de referência de Arthur Charles Fox-Davies (1909), da qual derivam os padrões gráficos de tramas hoje usados para representar esmaltes em preto e branco, o «rose» ainda não possui trama própria.

Galeria

Ver também Rosa (símbolo) Rosa de Tudor Quinquefólio Guerra das Duas Rosas Cor-de-rosa

Referências

Categoria:Cargas heráldicas Categoria:Rosas