Abu Aláqueme Auana ibne Aláqueme ibne Auana ibne Uazre Alcalbi (; m. 764, 770 ou 775) foi um historiador, genealogista e conhecedor de poesia árabe estabelecido em Cufa. É considerado uma das principais autoridades antigas para a história do primeiro Período Omíada, e seus relatos constituem uma importante via de preservação da tradição historiográfica proveniente da Síria omíada. Auana compôs duas obras históricas hoje perdidas, o , dedicado principalmente aos acontecimentos do primeiro século da Hégira, e o , sobre e a dinastia omíada. A primeira é considerada a mais antiga obra conhecida do período islâmico a receber explicitamente o título de "História", enquanto a segunda é apontada como a primeira dedicada especificamente a um califa e a uma dinastia. Embora seus escritos não tenham sobrevivido independentemente, seu conteúdo foi extensamente preservado por historiadores posteriores. Auana serviu como fonte para Hixame ibne Maomé Alcalbi, Almaidani, Albaladuri e Atabari, entre outros, sendo particularmente importante para a reconstrução da história política, administrativa e social dos primeiros omíadas. Apesar de ter sido acusado por alguns autores de favorecer a dinastia, os fragmentos conservados incluem tradições de diferentes orientações e, segundo a Encyclopaedia of Islam, fornecem poucas evidências de parcialidade sistemática.
Vida
Auana era filho de , vice-governador omíada do Coração em 727 e, posteriormente, governador de Sinde. Sua família pertencia à tribo dos calbitas da Síria, embora Auana estivesse estabelecido em Cufa, no Iraque. Aláqueme serviu como representante de no governo do Coração e, durante sua administração de Sinde, fundou as cidades de e . A genealogia e a filiação tribal de Auana, contudo, são controversas. Algumas fontes apresentam-no como Auana ibne Aláqueme ibne Auana ibne Iade ibne Uazre e o consideram calbita, enquanto afirmava que o pai de Aláqueme era um escravo que exercia o ofício de alfaiate. Outros autores também consideraram tardia ou inventada sua associação aos calbitas. Sua data de nascimento é desconhecida, mas provavelmente nasceu em Cufa antes de 90 A.H. (709). Cego de nascença, tornou-se conhecedor da poesia e das genealogias árabes e da história do primeiro período omíada. Segundo Ibne Anadim, era um narrador cufano versado em poesia e genealogia, e a tradição posterior atribui-lhe a condição de primeiro autor do período islâmico a empregar o título "História" para uma obra. A data de sua morte também varia nas fontes: Ibne Anadim situa-a em 147 A.H. (764), a Encyclopaedia of Islam registra ainda 153 A.H. (770), e Almaidani a coloca em 158 A.H. (775). Embora a tradição historiográfica muçulmana proveniente da Síria omíada tenha em grande parte desaparecido, provavelmente após a região cair sob o domínio do Califado Abássida em 750, vestígios dela podem ter sido preservados nos relatos de Auana. Auana é considerado uma importante fonte de informações sobre o período omíada. Para compor suas narrativas, teria recorrido a relatos transmitidos por membros dos calbitas, por testemunhas diretas dos acontecimentos e por pessoas próximas a elas. É citado com frequência na história de Atabari em assuntos relativos à Síria e serviu como fonte histórica para Hixame ibne Maomé Alcalbi e Almaidani. Suas tradições também foram utilizadas por Alasmai, , e Albaladuri.
Obra
Duas obras históricas de Auana são mencionadas pelas fontes, embora nenhuma tenha sobrevivido. A primeira, ("Livro da História"), era dedicada aos acontecimentos do primeiro século da Hégira. A julgar pelos fragmentos transmitidos por autores posteriores, abrangia o período dos quatro primeiros califas, as Guerras da Apostasia, as primeiras conquistas muçulmanas, o conflito entre Ali ibne Abi Talibe e Moáuia I, a abdicação de Haçane ibne Ali e os acontecimentos ocorridos no Iraque e na Síria até o final do reinado de Abedal Maleque ibne Maruane. A segunda, ("Vida de Moáuia e dos Banu Omaia"), apresentava cronologicamente a história de Moáuia I e dos demais califas omíadas. Segundo Mustafa Fayda, trata-se da primeira obra conhecida no mundo islâmico dedicada especificamente a um califa e a uma dinastia. Embora ambas as obras ainda apresentassem elementos poéticos e características próprias da narrativa tradicional, constituíram uma etapa importante no desenvolvimento da historiografia islâmica.
Apesar do desaparecimento das duas obras, parte significativa de seu conteúdo pode ser reconstruída por meio das citações de autores posteriores. Atabari cita Auana em 51 passagens, das quais, à exceção de uma relativa a Omar e outra à Batalha do Camelo, todas tratam de acontecimentos compreendidos entre os governos de Moáuia e Abedal Maleque. Albaladuri também o cita frequentemente a respeito desse período e, no , preserva ainda relatos seus referentes à conquista do Iraque e à do Tabaristão durante o governo de Solimão ibne Abedal Maleque. Por essa razão, Auana é considerado uma das principais autoridades para a história do primeiro período omíada. Auana raramente identifica as fontes de seus relatos, embora demonstre preocupação em estabelecer a cronologia dos acontecimentos. Suas narrativas são geralmente pormenorizadas e caracterizadas por uma exposição clara, abrangendo, além dos acontecimentos políticos, assuntos relacionados à poesia, à literatura, à vida social e à administração. Seu interesse pela poesia e por episódios literários levou ainda à preservação de numerosos relatos seus no Livro de Canções e em outras obras literárias.
As fontes divergem quanto à orientação política de sua historiografia. Segundo a TDV, em suas narrativas sobre os omíadas Auana frequentemente privilegiava tradições de origem síria favoráveis à dinastia, razão pela qual foi acusado de partidarismo omíada e até de fabricar relatos em seu favor. A mesma fonte observa, contudo, que os fragmentos preservados também incluem tradições contrárias aos omíadas provenientes do Iraque e de Medina. A Encyclopaedia of Islam registra igualmente as acusações de parcialidade em favor dos e dos omíadas, mas considera que as citações conservadas de suas obras fornecem poucas evidências de preconceito sistemático em favor dos omíadas, de Cufa ou dos calbitas. A maior parte dos relatos de Auana preservados pela tradição historiográfica foi transmitida por Hixame ibne Maomé Alcalbi, Almaidani e Alhaitame ibne Adi, embora outras vias de transmissão também sejam conhecidas. A Encyclopaedia of Islam ressalta, porém, que não há fundamento para a afirmação, atribuída por Iacute Alhamaui a uma de suas fontes, de que Auana teria sido a origem da maior parte das informações utilizadas por Almaidani.
Bibliografia
Categoria:Árabes do século VIII Categoria:Pessoas do Califado Abássida Categoria:Pessoas do Califado Omíada Categoria:Calbitas Categoria:Naturais de Cufa