O Mission District (em espanhol: Distrito de la Misión), comumente conhecido como Mission (em espanhol: La Misión), é um bairro de São Francisco, no estado da Califórnia, Estados Unidos. Um dos bairros mais antigos da cidade, o Mission District recebeu esse nome em referência à Mission San Francisco de Asís, fundada em 1776 pelos espanhóis. Historicamente, o Mission é um dos principais centros da comunidade hispânica da cidade. História Período indígena Antes da chegada dos missionários espanhóis, a área que atualmente compreende o Mission District era habitada pelos Ohlone, povo indígena que ocupava grande parte da região da Baía de São Francisco. O grupo Yelamu, pertencente aos Ohlone e falante de um dialeto ramaytush, habitou a região por mais de dois milênios. Os missionários espanhóis chegaram à região no final do século XVIII e encontraram os Yelamu vivendo em duas aldeias situadas às margens do Mission Creek. Período espanhol miniaturadaimagem|esquerda|A Mission San Francisco de Asís, que deu nome ao bairro e à cidade, foi fundada pelo padre Francisco Palóu em 9 de outubro de 1776

Foi nessa região que o padre espanhol Francisco Palóu fundou a Mission San Francisco de Asís em 29 de junho de 1776. Em 1783, a missão foi transferida das margens da Laguna Dolores para sua localização atual.

Relatos históricos indicam que frades franciscanos utilizaram mão de obra forçada de indígenas ohlone para concluir a construção da missão em 1791.

Esse período marcou o início do declínio da cultura Yelamu. A população indígena vinculada à Mission Dolores diminuiu de cerca de 400 pessoas para apenas 50 entre 1833 e 1841. Período mexicano Os ranchos pertencentes a famílias califórnias (descendentes de espanhóis e mexicanos), como os Valenciano, Guerrero, Dolores, Bernal, Noé e De Haro, permaneceram na região, separada da povoação de Yerba Buena — posteriormente rebatizada como São Francisco e então centrada na atual Portsmouth Square — por uma estrada de tábuas de madeira com cerca de duas milhas (3,2 km), mais tarde pavimentada e renomeada como Mission Street.

As terras ao redor da igreja da missão, então praticamente abandonada, transformaram-se em um importante centro de entretenimento popular, onde eram realizadas touradas, rinhas entre touros e ursos, corridas de cavalos, partidas de beisebol e duelos.

Um famoso parque recreativo com cervejaria, conhecido como The Willows, localizava-se às margens do Mission Creek, imediatamente ao sul da Rua 18, entre as ruas Mission e San Carlos. Primeiro período norte-americano miniaturadaimagem|esquerda|O Pioneer Race Course em 1853

Entre 1865 e 1891, um grande conservatório e jardim zoológico conhecido como Woodward's Gardens ocupou dois quarteirões delimitados pelas ruas Mission, Valencia, 13th e 15th. Nas décadas seguintes à Corrida do Ouro da Califórnia, a cidade de São Francisco expandiu-se rapidamente, e as terras da Mission foram urbanizadas e subdivididas em lotes residenciais destinados principalmente a imigrantes da classe trabalhadora, sobretudo alemães, irlandeses e italianos, além de receberem empreendimentos industriais.

À medida que a cidade crescia após a Corrida do Ouro, o Mission District passou a abrigar o primeiro estádio profissional de beisebol da Califórnia, inaugurado em 1868 com o nome de Recreation Grounds. Com capacidade para cerca de 17 mil espectadores, localizava-se na esquina das ruas Folsom e 25th, e parte de sua área corresponde atualmente à Garfield Square. No século XX, o bairro também abrigou outros dois estádios de beisebol: o Recreation Park, situado nas ruas 14th e Valencia, e o Seals Stadium, localizado nas ruas 16th e Bryant. Ambos foram utilizados pelas equipes Mission Reds e San Francisco Seals.

Os imigrantes irlandeses estabeleceram-se na Mission no final do século XIX. Além de trabalharem para a administração municipal, contribuíram significativamente para a criação das escolas católicas do bairro.

Terremoto e mudanças populacionais

miniaturadaimagem|O monumento California Volunteers of the Spanish-American War, erguido em 1906 pelo escultor californiano Douglas Tilden

Durante os primeiros anos da Califórnia como estado, entre o século XIX e o início do século XX, um grande número de trabalhadores imigrantes irlandeses e alemães-americanos mudou-se para a região. Por volta de 1900, o Mission District ainda era um dos bairros menos densamente povoados de São Francisco, sendo habitado principalmente por famílias brancas da classe trabalhadora e da classe média baixa, que viviam em casas unifamiliares e edifícios de dois apartamentos. Após o terremoto de 1906, o desenvolvimento urbano intensificou-se, pois muitos moradores e estabelecimentos comerciais deslocaram-se para o bairro, transformando a Mission Street em um dos principais corredores comerciais da cidade.

Em 1901, a prefeitura de São Francisco proibiu novos sepultamentos dentro dos limites municipais, medida que contribuiu para o desenvolvimento da cidade vizinha de Colma, destinada a concentrar os cemitérios da região.

Durante o terremoto de 1906, um único hidrante ainda em funcionamento — conhecido como Golden Fire Hydrant — foi responsável por impedir que o Mission District fosse consumido pelos incêndios provocados pelo desastre. Na década de 1910, como as estradas para Colma ainda eram precárias, era comum utilizar os bondes para transportar corpos até os cemitérios da cidade vizinha. Em razão dessa facilidade de acesso, a Valencia Street tornou-se um importante centro de funerárias e casas funerárias.

miniaturadaimagem|esquerda|A filial Mission da Biblioteca Pública de São Francisco foi inaugurada em 1916

Em 1926, a comunidade polonesa de São Francisco transformou uma igreja localizada na esquina das ruas 22nd e Shotwell na sede do Clube Polonês de São Francisco, atualmente conhecido como Dom Polski ("Casa Polonesa"). Durante esse período, a comunidade irlandesa também consolidou sua presença no bairro, tendo entre seus moradores o etimólogo Peter Tamony.

Entre as décadas de 1940 e 1960, um grande contingente de imigrantes mexicanos estabeleceu-se na região após ser deslocado do antigo "bairro mexicano" localizado em Rincon Hill, demolido para a construção do acesso oeste da Ponte da Baía de São Francisco–Oakland. Esse processo foi acompanhado pela saída de parte da população branca para outros bairros, conferindo ao Mission District o forte caráter latino pelo qual permanece conhecido. A imigração proveniente da América Central, intensificada a partir da década de 1960, ampliou ainda mais essa característica, fazendo com que os centro-americanos passassem a superar numericamente os habitantes de origem mexicana. Décadas de 1970–1990 miniaturadaimagem|The Women's Building é coberto pelo mural MaestraPeace, executado pelo coletivo Mujeres Muralistas em 1994

Nas décadas de 1960 e 1970, a população chicana e latina da porção oeste da Mission (incluindo o corredor da Valencia Street) diminuiu parcialmente, enquanto um número crescente de jovens de classe média passou a residir na região, entre eles pessoas gays e lésbicas, ao lado da já existente comunidade LGBTQ latina.

Um dos principais movimentos políticos surgidos na comunidade durante o início da década de 1970 foi protagonizado pelos Los Siete de la Raza, grupo formado por sete jovens latinos do Mission District acusados do assassinato de um policial de São Francisco em 1969. A comunidade organizou uma ampla campanha em apoio aos jovens, considerados por muitos moradores agentes de transformação social. Os integrantes do grupo incentivavam estudantes do Mission District a ingressar no ensino superior, colaboravam com organizações comunitárias, contribuíram para a implantação de serviços bilíngues gratuitos por meio do Centro de Salud — iniciativa posteriormente adotada por outros hospitais locais — e também participaram de programas de café da manhã gratuito, de um jornal comunitário e do Comitê de Defesa Los Siete.

miniaturadaimagem|esquerda|O Victoria Theatre, fundado em 1908, é o teatro em funcionamento mais antigo de São Francisco

Da metade da década de 1970 até os anos 1980, o corredor da Valencia Street concentrou uma das comunidades lésbicas mais visíveis e numerosas dos Estados Unidos. Locais como o The Women's Building, o Osento Bathhouse, a livraria Old Wives Tales, o Artemis Cafe, o Amelia's e o The Lexington Club tornaram-se importantes referências dessa comunidade.

No final da década de 1970 e início da de 1980, o corredor da Valencia Street também tornou-se um importante centro da cena punk rock. Bandas como The Offs, The Avengers, Dead Kennedys e Flipper apresentavam-se regularmente em casas como The Offensive, The Deaf Club, Valencia Tool & Die e The Farm. O antigo quartel de bombeiros da 16th Street, conhecido como The Compound, abrigava o chamado punk mall, conjunto de estabelecimentos dedicados à cultura punk. Na South Van Ness localizavam-se a produtora Target Video e a revista Damage, enquanto a antiga cervejaria Hamm's foi transformada em um espaço de moradia e ensaios para músicos, conhecido como The Vats. Em 1995, o San Francisco Chronicle apelidou o bairro de "Nova Boêmia".

Nas décadas de 1980 e 1990, o bairro recebeu um grande fluxo de imigrantes e refugiados provenientes da América Central, América do Sul, Oriente Médio, Filipinas e da antiga Iugoslávia, que fugiam de guerras civis e da instabilidade política em seus países de origem. Muitos desses imigrantes estabeleceram bancos, empresas e sedes regionais ao longo da Mission Street.

Década de 1990–presente miniaturadaimagem|O Schoenstein Organ Building serviu como sede da Schoenstein & Co. entre 1924 e 2004

Do final da década de 1990 até a década de 2010, especialmente durante a bolha da Internet, um grande número de jovens profissionais urbanos passou a morar na Mission. A chegada desse novo perfil de moradores é amplamente associada ao processo de gentrificação, que provocou forte aumento dos aluguéis e dos preços dos imóveis. Como consequência, diversas famílias latinas de classe média e muitos artistas mudaram-se para o bairro de Outer Mission ou deixaram São Francisco em direção aos subúrbios da East Bay e da South Bay. Apesar disso, muitos imigrantes mexicanos e centro-americanos continuaram vivendo na Mission, embora o alto custo da moradia tenha provocado uma redução de aproximadamente 20% da população latina durante a década encerrada em 2011. Ainda assim, em 2008 o bairro continuava sendo reconhecido como um importante centro artístico.

Em 2000, os latinos representavam cerca de 60% da população do Mission District. Em 2015, essa proporção havia diminuído para 48%, e um estudo financiado pela prefeitura estimou que poderia chegar a 31% em 2025.

Apesar dessas transformações, o Mission District continua sendo o principal centro cultural da comunidade mexicana e chicana de São Francisco e, em menor escala, das comunidades nicaraguense, salvadorenha e guatemalteca da Área da Baía de São Francisco. Embora estabelecimentos comerciais latino-americanos estejam espalhados por praticamente todo o bairro, a distribuição residencial permanece desigual. A maior parte da população chicana e latina concentra-se nas porções leste e sul da Mission, enquanto as áreas norte e oeste são predominantemente mais ricas e habitadas por população branca.

Desde 2017, a parte norte da Mission, juntamente com o bairro vizinho de Tenderloin, abriga uma comunidade falante da língua maia iucateque, formada por imigrantes oriundos da região da Península de Iucatã, no México, que começaram a chegar na década de 1990. Essa presença é refletida no nome em língua maia do In Chan Kaajal Park, inaugurado em 2017 ao norte da 17th Street, entre as ruas Folsom e Shotwell. Geografia miniaturadaimagem|esquerda|O Mission Dolores Park, inaugurado em 1906, é um dos principais espaços públicos e marcos do Mission District