Cerca de 300 mil demissões no serviço civil federal dos Estados Unidos foram anunciadas pela segunda administração Trump, quase todas atribuídas ao Departamento de Eficiência Governamental. Em 26 de agosto de 2025, a Partnership for Public Service afirmou que pouco menos de 200 mil trabalhadores federais já haviam deixado seus empregos. Em 14 de julho de 2025, a CNN havia contabilizado ao menos 51.224 trabalhadores demitidos ou visados para demissão. Em 12 de maio de 2025, o The New York Times contabilizava mais de 58.500 cortes confirmados, mais de 76.000 acordos de recisão voluntária ("buyouts") de funcionários e mais de 149.000 outras reduções planejadas; os cortes totalizavam 12% dos 2,4 milhões de trabalhadores civis federais. Até março de 2026, 9% do funcionalismo federal havia sido eliminado. thumb|Comparação das mudanças no emprego civil federal a partir do mês de dezembro anterior ao início de cada mandato presidencial. Dados até junho de 2025. O funcionalismo federal foi reduzido em etapas: uma ordem executiva retirou de servidores civis proteções contra demissões; um programa incentivou trabalhadores a pedir demissão; agências foram fechadas; e uma série de reduções de quadro (RIF, na sigla em inglês) foi planejada. Críticos argumentam que as demissões reduziram serviços essenciais, violaram a lei, aumentaram o poder da presidência e derivaram de teorias da conspiração sobre um "Estado profundo". A Casa Branca afirmou que as medidas geraram economia de gastos, reduziram regulamentações e diminuíram o papel do governo na sociedade. Em alguns momentos, o governo revogou notificações de demissão. Juízes federais consideraram muitas das demissões ilegais, mas se recusaram a reintegrar os trabalhadores, citando decisões recentes da Suprema Corte favoráveis às alegações de autoridade executiva ampla do governo.

incluíram elogios, críticas e processos judiciais.

Antecedentes Projeto 2025

Em 2023, o Projeto 2025 apresentou políticas para reduzir agências, aumentar o poder presidencial e substituir servidores civis por pessoas leais ao governo. Já no fim de seu primeiro mandato, o indicado Russ Vought foi diretor interino do Escritório de Administração e Orçamento (OMB). Durante sua campanha, Donald Trump prometeu indicar Vought para o mesmo cargo, e o Congresso o aprovou em 6 de fevereiro.

Vought também foi descrito como um dos arquitetos do Projeto 2025. No Capítulo 2 do manifesto, Vought escreve que o papel do diretor da OMB é "alinhar a burocracia com todas as decisões orçamentárias, regulatórias e administrativas", tarefa que não conseguiria cumprir se "não tiver conhecimento do que as agências estão fazendo", devendo, portanto, adquirir "visibilidade suficiente sobre as profundezas ocultas da tomada de decisão das agências".

Para o deputado John Rose (R-TN), apenas o Projeto 2025 explica a sequência de ordens executivas. A CNN analisou as primeiras 53 e constatou que 36 seguiam o projeto; Paul Dans, que foi chefe de gabinete do OPM durante o primeiro governo Trump e supervisionou o Projeto 2025 na Heritage Foundation, disse que era “exatamente o trabalho que [o Projeto 2025] se propôs a fazer”. A Politico identificou 37 casos em que as ordens se alinham com o projeto, algumas quase palavra por palavra.

DOGE

Durante sua campanha para um segundo mandato, Trump atacou os "burocratas" que estariam "destruindo este país", chamando-os de "corruptos" e dizendo que "não trabalham nada". Ele promoveu teorias da conspiração segundo as quais um "Estado profundo" trabalharia ativamente contra ele e contra os Estados Unidos, e prometeu removê-lo do poder.

Após vencer a eleição presidencial de 2024, Trump escolheu Elon Musk, o maior doador individual de sua campanha, para liderar uma nova iniciativa, batizada de Departamento de Eficiência Governamental (DOGE, na sigla em inglês), com o objetivo de realizar demissões em massa e outras medidas. Musk defendeu a automação e a privatização. Musk comemorou as demissões nas redes sociais.

Cerca de 300 mil demissões foram anunciadas pela segunda administração Trump, quase todas atribuídas ao DOGE.

Implementação

A redução do funcionalismo federal ocorreu em várias etapas sobrepostas.

Schedule F Em 28 de janeiro de 2025, Trump emitiu uma ordem executiva para retirar proteções legais "contra demissões políticas" de milhares de servidores federais.

Programa de demissão voluntária diferida

Ainda em 28 de janeiro, o governo ofereceu um acordo de "demissão diferida" que, até meados de fevereiro, cerca de 75 mil trabalhadores federais aceitaram.

Demissões de funcionários em estágio probatório Em 13 de fevereiro, Charles Ezell, diretor interino do Escritório de Administração de Pessoal (OPM), assinou uma diretriz instruindo as agências federais a demitir funcionários em estágio probatório — geralmente, trabalhadores federais que ocupam seus cargos há menos de um ano, ou que haviam sido promovidos ao serviço excepcionado durante esse período. Ezell orientou as agências a comunicar aos funcionários demitidos que seu desempenho havia sido inadequado, sem necessidade de apresentar qualquer evidência.

Dependendo da agência, os funcionários receberam notificações que afirmavam que a agência "não tem mais necessidade de seus serviços", ou que havia "determinado que você não demonstrou aptidão ou qualificações para continuar empregado, pois seus conhecimentos, habilidades e competências não atendem às necessidades atuais do departamento". Outra variante afirmava "infelizmente, a agência constata que você não está apto para continuar empregado, pois sua capacidade, conhecimento e habilidades não se ajustam às necessidades atuais da agência, e seu desempenho não foi adequado para justificar a continuidade do vínculo com a agência". Embora a causa alegada fosse o baixo desempenho, alguns funcionários haviam recebido a avaliação máxima possível ou sequer haviam tido seu desempenho avaliado. Outros haviam recebido "avaliações de desempenho excelentes" no ano anterior.

Reduções de quadro Em 13 de fevereiro, o diretor da OMB, Vought, e o diretor interino da OPM, Ezell, ordenaram que as agências federais enviassem, até 13 de março, planos para reduzir seus quadros de pessoal por meio de demissões. Eles afirmaram que as agências "deveriam se concentrar em funcionários cujos cargos não sejam exigidos por lei e que enfrentem licenças não remuneradas em paralisações do governo — normalmente cerca de um terço do funcionalismo federal, ou 700 mil funcionários". Em maio, um juiz federal concedeu uma liminar suspendendo temporariamente as ações de redução de quadro em grandes agências, questionando a autoridade legal das ordens de RIF implementadas pelo Executivo.

Em julho, Noah Peters argumentou em juízo que os planos de redução de quadro não deveriam ser tornados públicos.

Rescisões

Após as ordens de rescisão de contratos do governo, mais de 1 milhão de trabalhadores federais perderam seus direitos de negociação coletiva.

Em alguns casos, o governo Trump posteriormente percebeu que havia demitido pessoas em posições críticas e precisou reintegrá-las, como funcionários do Departamento de Agricultura envolvidos no combate à disseminação do vírus da gripe aviária H5N1 e funcionários da Administração Nacional de Segurança Nuclear. Como os ex-funcionários federais não tinham mais acesso às suas contas de e-mail do governo, seus antigos supervisores às vezes não sabiam como contatá-los. A Food and Drug Administration recontratou parte do pessoal responsável pela avaliação de dispositivos médicos e segurança alimentar. Horas depois de demitir 950 funcionários do Indian Health Service em 14 de fevereiro, Robert F. Kennedy Jr., secretário de Saúde e Serviços Humanos, os reintegrou.

Litígios Analistas jurídicos descreveram tais demissões como preparando o terreno para casos na Suprema Corte que poderiam ampliar o poder de Trump sobre agências independentes do poder executivo criadas pelo Congresso para ficarem isoladas do controle presidencial, com base em uma interpretação maximalista da teoria do executivo unitário. Suas ações foram descritas por especialistas jurídicos como sem precedentes ou em violação da lei federal, e com a intenção de substituir funcionários por trabalhadores mais alinhados à sua agenda. Trump criticou e demitiu autoridades que divulgaram fatos, estatísticas e análises contrárias às suas opiniões, e ordenou que fossem removidas ou refeitas de acordo com suas preferências. Em artigo revisado por pares, Donald Moynihan descreveu as demissões em massa como uma reestruturação antiestatista do governo americano centrada na lealdade política.

Tribunais inferiores suspenderam as demissões. Contudo, em 8 de julho de 2025, a Suprema Corte anulou essas decisões, permitindo, assim, que as reduções do funcionalismo continuassem. A Politico descreveu os cortes como a maior tentativa de reorganizar o governo federal desde a profissionalização do serviço civil. O veículo descreveu a decisão da Corte como uma "grande reviravolta na conhecida sabedoria pré-Trump de que os trabalhadores federais gozavam de proteções significativas de emprego" e que ela permitiria "que Trump e futuros presidentes usassem a ameaça de demissões para pressionar trabalhadores federais a cumprir ordens de nomeados políticos, ou para eliminar dissidentes". As demissões provocaram grandes saídas de especialistas, resultando na perda de conhecimento institucional e expertise técnica no governo federal.

Em 12 de setembro, o juiz federal William Alsup decidiu que a OPM ordenou ilegalmente as demissões de funcionários em estágio probatório, mas se recusou a determinar a reintegração, observando que "a Suprema Corte deixou suficientemente claro, por meio de seu chamado 'expediente de emergência', que anulará medidas judiciais de reintegração relativas a contratações e demissões dentro do Executivo, não apenas neste caso, mas em outros". Em 24 de setembro, a juíza federal Ana C. Reyes decidiu que o governo demitiu ilegalmente 17 inspetores-gerais, mas se recusou a reintegrá-los, observando que Trump simplesmente os demitiria novamente após conceder o aviso prévio de 30 dias exigido pelo Congresso. A Suprema Corte suspendeu a reintegração de vários membros democratas de agências federais após seus desligamentos terem sido considerados ilegais por juízes federais, e sinalizou abertura para reverter o caso de 1935 Humphrey's Executor v. United States, que impedia demissões sem justa causa em agências independentes para isolá-las de pressões políticas.

Durante a paralisação do governo federal dos Estados Unidos em 2025, o governo Trump anunciou uma nova onda de 4.100 reduções de quadro, o que gerou vários processos judiciais. A juíza Susan Illston bloqueou temporariamente as demissões, citando declarações públicas de Vought e Trump que, segundo ela, evidenciavam motivações políticas explícitas, como quando Trump disse que os cortes visariam apenas "agências democratas". Até 25 de outubro, a Politico descrevia as demissões como caóticas e semelhantes às do DOGE, com centenas de funcionários sendo demitidos por engano e várias agências resistindo à quantidade de cortes exigida por Vought.

Agências

Perdas