A caixa de Ward (do inglês Wardian case) foi um tipo primitivo de terrário — um recipiente fechado, de madeira e vidro, concebido para transportar plantas vivas e protegê-las durante longas viagens. Inventada em Londres no início do século XIX, teve grande importância na transferência de plantas entre continentes, permitindo que espécies que antes morriam durante as travessias marítimas sobrevivessem à viagem. É considerada a antecessora direta do terrário e do vivário modernos.
Origem
A caixa recebe o nome de Nathaniel Bagshaw Ward (1791–1868), médico e botânico amador de Londres. Ward interessava-se por fetos, mas as suas tentativas de os cultivar no jardim eram frustradas pelo ar carregado de fuligem de carvão do leste da cidade.
Por volta de 1829, Ward colocou a crisálida de uma mariposa numa garrafa de vidro selada com um pouco de terra húmida, para observar a sua metamorfose. Passado algum tempo, reparou que no interior do recipiente fechado tinham germinado e prosperado um feto e uma gramínea — precisamente as plantas que não conseguia cultivar ao ar livre. Ward percebeu que o vidro criava um microclima húmido, em que a água transpirada pelas plantas condensava e regressava ao solo, mantendo-as vivas sem rega e protegidas do ar poluído.
Ward publicou as suas conclusões em 1842, no livro On the Growth of Plants in Closely Glazed Cases. Um botânico escocês, A. A. Maconochie, terá concebido um dispositivo semelhante cerca de dez anos antes, mas não publicou as suas observações, pelo que o crédito da invenção coube a Ward.
Descrição e funcionamento
A caixa de Ward tinha a forma de uma pequena estufa, construída em madeira com inserções de vidro. O seu funcionamento assentava no ciclo fechado da água: a humidade evaporada do solo e transpirada pelas plantas condensava no vidro e escorria de volta para a terra, mantendo um ambiente húmido estável e dispensando rega durante a viagem. Este sistema protegia as plantas da salinidade do ar marítimo e das variações extremas de temperatura a bordo. Com o tempo, as caixas foram aperfeiçoadas com ripas cruzadas para fixar os vasos em travessias agitadas e com aberturas de ventilação cobertas de zinco perfurado, para impedir a entrada de roedores.
Impacto no transporte de plantas
Em 1833, Ward pôs a invenção à prova, enviando fetos e gramíneas em duas caixas seladas por via marítima de Inglaterra para a Austrália e de regresso; ao fim de mais de um ano de viagem, as plantas mantinham-se vivas. O efeito sobre as taxas de sobrevivência foi notável: o viveirista George Loddiges, primeiro a usar as caixas comercialmente, relatou que antes perdia cerca de dezanove em cada vinte plantas importadas por via marítima, proporção que se inverteu com a nova técnica.
As caixas entraram em uso regular nos Jardins Botânicos Reais de Kew por volta de 1847, com um modelo padrão capaz de transportar cerca de 28 plantas. O botânico Joseph Hooker foi um dos primeiros a usá-las para enviar plantas de expedições, embora nem sempre com êxito.
Consequências económicas e coloniais
A caixa de Ward tornou possível a transferência de culturas comercialmente valiosas dos seus habitats de origem para plantações coloniais com climas semelhantes, com consequências económicas de grande escala. Na década de 1840, foi usada para transportar plantas de chá da China para a Índia, contribuindo para o estabelecimento das regiões produtoras de Assam e Darjeeling e para o fim do monopólio chinês do chá.
A árvore-da-borracha (Hevea brasiliensis) foi levada da América do Sul, via Kew, para colónias asiáticas como o Ceilão e a Malásia, que em poucas décadas se tornaram as principais produtoras mundiais, provocando o colapso da produção amazónica. A quina (Cinchona), de cuja casca se extrai a quinina usada contra a malária, foi transferida dos Andes para a Índia e Java, tornando o antipalúdico mais acessível e facilitando a expansão europeia em regiões tropicais.
Estas transferências não foram isentas de efeitos negativos: nas plantas transportadas viajavam também doenças e espécies animais, e várias plantas tornaram-se invasoras nos novos territórios.
Uso doméstico e declínio
Além do transporte, versões ornamentais da caixa tornaram-se um objeto decorativo popular nos salões vitorianos, permitindo cultivar plantas exóticas em casa apesar do fumo e da fuligem urbanos. Estas caixas alimentaram a chamada pteridomania, a moda vitoriana de colecionar fetos, e são consideradas as antecessoras diretas do terrário doméstico moderno.
O uso das caixas de Ward prolongou-se até meados do século XX, sendo progressivamente substituídas pelo transporte aéreo e por sacos de polietileno. O último envio conhecido em Kew através de uma caixa de Ward ocorreu em 1962, com uma remessa de plantas provenientes das Fiji.
Ver também Terrário Vivário Nathaniel Bagshaw Ward Jardins botânicos reais de Kew Estufa
Referências
Bibliografia
Categoria:Botânica Categoria:História da botânica Categoria:Jardinagem Categoria:Invenções do Reino Unido