A Operação Pike foi um plano anglo-francês de bombardeio estratégico proposto nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial para destruir as instalações de produção de petróleo no Cáucaso. O comodoro do ar John Slessor supervisionou o planejamento direcionado contra a indústria petrolífera soviética. O planejamento militar britânico contra a União Soviética ocorreu durante os dois primeiros anos (1939–1941) da Segunda Guerra Mundial, quando, apesar da neutralidade formal soviética, os britânicos e franceses, como Aliados iniciais, concluíram que o Acordo Comercial Germano-Soviético de 19 de agosto de 1939 e o Pacto Germano-Soviético de 23 de agosto de 1939 tornavam Stalin um cúmplice de Hitler e da Alemanha Nazista. O plano previa a destruição da indústria petrolífera soviética para provocar o colapso da economia soviética e privar a Alemanha dos recursos fornecidos por Moscou.
O Plano Após a conclusão do Pacto Germano-Soviético, a Grã-Bretanha e a França passaram a se preocupar com o fornecimento contínuo de petróleo dos soviéticos para os alemães. O sentimento anticomunista em ambos os países também aumentou nos primeiros meses da Segunda Guerra Mundial devido à assistência econômica prestada pela União Soviética à Alemanha e às suas ações agressivas no Leste Europeu. O planejamento teve início logo após a Invasão soviética da Polônia em setembro de 1939 e intensificou-se depois que Stalin iniciou a Guerra de Inverno contra a Finlândia em novembro de 1939. O plano incluía a tomada do norte da Noruega e da Suécia e um avanço em território finlandês para confrontar tropas e forças navais soviéticas no Mar Báltico. O plano foi considerado custoso e ineficaz para lidar diretamente com a ameaça alemã, sendo então reduzido à tomada da Noruega e das minas de minério de ferro suecas (Plano R 4). Políticos britânicos e franceses eram favoráveis à continuação do conflito entre a Finlândia e a URSS para legitimar seu ataque às forças soviéticas.
Os estrategistas identificaram a dependência da Alemanha em relação às importações de petróleo soviético como uma vulnerabilidade que poderia ser explorada. Apesar da oposição inicial de alguns políticos, o governo francês ordenou que o general Maurice Gamelin iniciasse um "plano de possível intervenção com vistas a destruir a exploração de petróleo russa", e o embaixador dos Estados Unidos, William Bullitt, informou ao presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt que os franceses consideravam os ataques aéreos da Força Aérea Francesa na Síria contra Bacu como "a maneira mais eficiente de enfraquecer a União Soviética". De acordo com o relatório do general Gamelin submetido ao primeiro-ministro francês em 22 de fevereiro de 1940, a escassez de petróleo paralisaria o Exército Vermelho, a Força Aérea Soviética e o maquinário das fazendas coletivas soviéticas, o que tornaria provável uma fome generalizada e até o colapso do governo soviético:
Uma importante fonte de matérias-primas também seria negada à Alemanha por meio da destruição dos campos petrolíferos. Preparações sérias por parte dos britânicos começaram após o fim da Guerra de Inverno, em março de 1940. Em abril, os planos para atacar instalações de produção de petróleo nas cidades caucasianas de Bacu, Batumi e Grozny estavam concluídos. Os bombardeiros decolariam de bases no Irã, Turquia e Síria sob o "Plano Aéreo Ocidental 106", com o codinome de Operação Pike. Os franceses propuseram acelerar o cronograma, mas os britânicos foram mais cautelosos por receio de uma aliança militar germano-soviética aberta caso os Aliados atacassem os soviéticos.М.И Мельтюхов Упущенный шанс Сталина. Советский Союз и борьба за Европу: 1939–1941 (Документы, факты, суждения). – М.: Вече, 2000 С. 262–263
O governo soviético antecipou os ataques aliados e, de 25 a 29 de março de 1940, o comando do Distrito Militar Transcaucasiano realizou um exercício de mapa militar. De acordo com o cenário simulado, as forças "pretas", continuando suas ações contra as forças "marrons" na Frente Ocidental, atacavam em cooperação com as forças "azuis" e "verdes"; elas eram repelidas pelos "vermelhos" no Cáucaso, que então iniciavam uma contraofensiva em direção a Erzurum e Tabriz.Упущенный шанс Сталина С. 264 Alguns historiadores não encaram os planos britânicos de ataque como projetos operacionais definitivos, considerando-os apenas planos de contingência. O historiador soviético-letão Vilnis Sīpols observou que os estados-maiores britânico e francês desenvolveram planos estratégicos para atacar a URSS pelo sul, mas nenhum dos governos tomou a decisão política final de invadir.В.Я. Сиполс. Тайны дипломатические. М.,1997. С.210.
Missões de reconhecimento Durante o mês de março de 1940, após o término da Guerra de Inverno, os britânicos realizaram voos secretos de reconhecimento para fotografar áreas dentro da URSS, utilizando técnicas de fotografia estereoscópica em alta altitude e alta velocidade pioneiramente desenvolvidas por Sidney Cotton. Utilizando aeronaves Lockheed Model 12 Electra Junior especialmente modificadas, sem insígnias e pintadas com um esquema de camuflagem azul desenvolvido por Cotton (que comandava a Unidade de Desenvolvimento Fotográfico da RAF - PDU), o Secret Intelligence Service (MI6) lançou voos de reconhecimento em alta altitude a partir da base da RAF em Habbaniya, no Reino do Iraque. Uma dessas missões ocorreu em 30 de março de 1940. Voando sobre a região montanhosa do sudeste do Curdistão, no espaço aéreo iraniano, ao longo da costa do Mar Cáspio e depois rumo ao norte em direção a Bacu, a aeronave entrou no espaço aéreo soviético às 11h45 após um voo de quatro horas. Sobrevoando a área por uma hora e realizando seis passagens fotográficas com sua câmera aérea de , a aeronave deixou Bacu às 12h45 e retornou a Habbaniya. Outra surtida de reconhecimento foi realizada em 5 de abril a partir de Habbaniya, desta vez cruzando o espaço aéreo turco para alcançar Batumi. O voo enfrentou fogo antiaéreo soviético e um caça soviético tentou interceptá-lo. Os britânicos obtiveram todas as informações necessárias para a interpretação de fotografias e mapeamento das instalações petrolíferas soviéticas.
Preparações para a campanha aérea A análise das fotografias pela PDU revelou que a infraestrutura petrolífera em Bacu e Batumi era particularmente vulnerável a ataques aéreos, já que ambas podiam ser abordadas a partir do mar; dessa forma, o alvo mais difícil, Grozny, seria bombardeado primeiro para explorar o elemento-surpresa. Os campos de petróleo seriam atacados com bombas incendiárias, e testes conduzidos no Royal Arsenal em Woolwich revelaram que os tanques de armazenamento de derivados leves nas refinarias poderiam ser detonados com explosivos de alto impacto. Em 1.º de abril, quatro esquadrões compostos por 48 bombardeiros Bristol Blenheim Mk IV foram transferidos para o Comando do Oriente Médio da RAF e suplementados com bombardeiros monomotores Vickers Wellesley para missões noturnas. Uma força francesa de 65 bombardeiros Martin Maryland e uma força complementar de 24 bombardeiros pesados Farman F.222 foram alocadas para operações noturnas durante a campanha. Os franceses estavam preparando novos aeródromos na Síria com previsão de estarem prontos até 15 de maio. A campanha tinha duração prevista de três meses e mais de de bombas foram alocadas para a operação, sendo 404 bombas semiperfurantes de , 554 bombas de uso geral de , 5.188 bombas de uso geral de e 69.192 bombas incendiárias de .
Captura alemã dos planos aliados A invasão alemã da Europa Ocidental iniciada em 10 de maio de 1940 e a rápida queda da França descarrilaram os planos. Os alemães capturaram um trem retido na vila de La Charité-sur-Loire que continha caixas de documentos secretos evacuados de Paris. Entre eles estavam relatórios e planos detalhados da Operação Pike. Em 4 de julho de 1940, o Deutsches Nachrichtenbüro (Agência de Notícias Alemã) divulgou trechos dos documentos capturados relativos à Operação Pike e afirmou:
A campanha de bombardeio estratégico contra os alvos soviéticos foi adiada e, posteriormente, abandonada.
Reativação contra a Alemanha Após o ataque da Alemanha contra a URSS (Operação Barbarossa) em junho de 1941, a Operação Pike foi reativada como um plano de contingência a ser executado caso as forças alemãs ocupassem os campos petrolíferos caucasianos.
Análise e consequências Embora os britânicos e os franceses tenham elaborado a operação para enfraquecer tanto a Alemanha quanto a União Soviética, o resultado provavelmente teria sido desastroso para os Aliados. Se o ataque tivesse ocorrido antes da invasão da França, a Grã-Bretanha correria o risco de enfrentar sozinha uma aliança germano-soviética formal após a derrota francesa, o que também teria atrasado o conflito germano-soviético subsequente. Caso tivesse sido executada em 1942 para negar os campos de petróleo do Cáucaso ao avanço alemão, o sucesso na destruição da infraestrutura teria prejudicado gravemente a própria capacidade defensiva dos soviéticos. A Operação Pike foi motivada em grande parte pelo desejo de ação ofensiva e pela tentativa de evitar o impasse direto no front durante a Guerra de Mentira, aliada ao excesso de confiança dos defensores do bombardeio estratégico e à intenção de golpear a Alemanha e a URSS simultaneamente.
Ver também Acordo Anglo-Soviético (1941) Tratado Anglo-Soviético de 1942 Tratado Franco-Soviético de Assistência Mútua Negociações de Moscou de 1939 Operação Catherine Operação Unthinkable
Referências
Bibliografia
Leitura adicional
Ligações externas That Time Britain and France Almost Bombed the Soviet Union por Patrick Osborn Relatório de 13 de janeiro de 1940 do Comissário do Povo para Assuntos Internos da URSS, L. P. Beria, ao Ministro da Defesa da URSS, K. E. Voroshilov, sobre a decisão do Conselho Supremo de Guerra dos Aliados de iniciar uma guerra contra a URSS no Arquivo Militar Estatal Russo (RGVA).
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