Os nizaritas ou Banu Nizar (), também chamados Nizaria (Nizāriyya), eram um agrupamento genealógico e tribal árabe tradicionalmente considerado descendente de Nizar, filho de Maade e neto de Adenane. Nas classificações genealógicas árabes, o nome Nizar tornou-se uma das principais designações coletivas dos adenanitas ou árabes setentrionais e foi empregado em oposição aos agrupamentos meridionais designados como iamanitas ou catanitas. Algumas classificações dividiam os árabes simplesmente entre iamanitas e nizaritas, enquanto outras distinguiam três grandes grupos, Nizar, Iêmem e Cudaa.
Genealogia e composição
Segundo a genealogia tradicional, os nizaritas descendiam dos quatro filhos atribuídos a Nizar: Modar, Rebia, Iade e Anemar. Na prática, contudo, a designação esteve associada sobretudo aos descendentes de Modar e Rebia, que constituíam os dois grandes agrupamentos dos árabes setentrionais e eram conjuntamente denominados ibnā Nizār, "os dois filhos de Nizar". As tribos que reivindicavam descendência de Iade e Anemar raramente eram incluídas entre os nizaritas; além disso, algumas tradições genealógicas consideravam ambos filhos de Maade e, portanto, irmãos de Nizar, em vez de seus filhos. Nizar era, assim, considerado principalmente o ancestral comum de Modar e Rebia, duas das quatro grandes divisões tribais mencionadas por determinadas classificações, ao lado de Cudaa e Iêmem. Como a maior parte das tribos adenanitas era genealogicamente reunida através de Nizar, seu nome acabou sendo empregado em sentido mais amplo para designar os árabes setentrionais em oposição a Catã, ancestral tradicional dos árabes meridionais. Ibne Abede Albarre chegou a registrar que todos os adenanitas eram conhecidos coletivamente como nizaritas. A terminologia, entretanto, nunca foi inteiramente uniforme. Os mesmos grupos podiam ser designados a partir de ancestrais situados em diferentes níveis da genealogia, de modo que nizaritas coexistia com denominações como maaditas, derivada de Maade, e outras designações mais específicas, sobretudo modaritas e rebiaítas. Segundo Küçükaşcı, as fontes relativas à Jailia, especialmente a poesia, tendem a mencionar mais frequentemente os nomes das tribos descendentes de Adenane e Catã do que esses dois ancestrais mais remotos. Maade também aparece com frequência relativamente elevada, e a designação maadita teria sido amplamente utilizada para os árabes setentrionais. O nome Nizāriyya, por sua vez, era aplicado aos descendentes de Nizar, considerados superiores aos de Maade em número, qualidades e prestígio segundo a tradição genealógica.
Distribuição e expansão
A tradição situa a dispersão inicial dos descendentes de Nizar depois de um conflito entre este e seu irmão Cudaa. Enquanto os cudaaítas teriam migrado para diferentes partes da Península Arábica, os filhos de Nizar e seus descendentes espalharam-se sobretudo pela Tiama e pelo Négede. Os relatos sobre essa expansão são preservados nas obras históricas e literárias juntamente com numerosas narrativas de caráter lendário, o que dificulta a reconstrução de seus movimentos iniciais. A expansão das tribos classificadas como nizaritas prosseguiu depois do surgimento do islã e acompanhou as conquistas e migrações árabes para fora da península. Seus integrantes estabeleceram-se em regiões tão distantes quanto o Coração, o Norte da África e o Alandalus. A importância de determinados grupos na ocupação dos territórios conquistados deixou marcas na própria geografia administrativa e tribal do mundo islâmico; na Jazira, por exemplo, regiões de assentamento ficaram conhecidas como Diar Modar e Diar Rebia, em referência aos dois principais ramos tradicionalmente associados a Nizar. Um exemplo da utilização do nome como categoria abrangente ocorreu durante a fundação de Cufa. Sade ibne Abi Uacas instalou as tribos nizaritas a oeste da mesquita central da nova cidade. Embora os grupos iamanitas fossem inicialmente predominantes em Cufa, os bairros ocupados pelos árabes setentrionais passaram coletivamente a ser conhecidos pelo nome de Nizar. A denominação continuou em uso durante o Período Abássida, quando os árabes setentrionais ainda podiam ser identificados dessa maneira.
Antiguidade e identidade
A antiguidade dos nizaritas como identidade coletiva é objeto de interpretações divergentes. Giorgio Levi Della Vida observou que o nome Nizar é raramente atestado no período pré-islâmico e que somente após a Batalha de Marje Raite, em 684, passou a aparecer frequentemente como designação étnica e política. O confronto acentuou a polarização entre os agrupamentos árabes convencionalmente classificados como setentrionais e meridionais, e Nizar passou a ser empregado em oposição a Iêmem e Catã. Nesse contexto, a categoria era suficientemente maleável para permitir tentativas de incorporar grupos cuja genealogia tradicional não era nizarita. Os calbitas, por exemplo, tradicionalmente classificados entre os árabes meridionais, chegaram a ser genealogicamente aproximados de Nizar em razão de sua importância política entre os apoiadores da dinastia omíada.
Della Vida rejeitou, por isso, a interpretação dos nizaritas como uma tribo historicamente constituída. Em sua análise, Nizar tampouco poderia ser equiparado a Maade como denominação de uma confederação efetiva que reunisse tribos de origens distintas; constituiria antes uma construção genealógica cuja importância coletiva foi ampliada para atender às circunstâncias políticas das rivalidades tribais. Essa interpretação não significa, contudo, que o próprio nome Nizar seja uma criação do período omíada. Sua mais antiga ocorrência conhecida remonta ao : o epitáfio do rei lácmida , morto em 328, menciona Nizar separadamente como uma subdivisão de Maade submetida à autoridade do rei. A inscrição demonstra que uma coletividade designada por esse nome era conhecida vários séculos antes do período omíada.
Küçükaşcı utiliza essa e outras evidências para atribuir maior antiguidade à identidade nizarita. Além da inscrição de 328, aponta ocorrências de Nizar e dos nomes de seus descendentes na poesia atribuída à Jailia e tradições segundo as quais Abede Almotalibe, ao assumir a sicaia em Meca, teria recebido também a "bandeira de Nizar". Os nizaritas são ainda mencionados, juntamente com os mudlijitas e , entre os grupos conhecidos no período pré-islâmico por especialistas em e , enquanto Ibne Alcalbi os incluiu entre as tribos que teriam sido as primeiras a modificar os ritos da peregrinação atribuídos pela tradição islâmica a Abraão. Para Küçükaşcı, esse conjunto de testemunhos contradiz a interpretação de Nizar como uma designação surgida exclusivamente em consequência das rivalidades políticas do período omíada.
Período islâmico
Embora o islã condenasse a solidariedade e rivalidade tribal, a oposição entre os grandes agrupamentos genealógicos dos árabes persistiu depois das conquistas muçulmanas e adquiriu considerável importância política durante o Califado Omíada. Nas disputas entre os árabes setentrionais e meridionais, intensificadas sobretudo depois da Batalha de Marje Raite, o nome Adenane era comparativamente pouco utilizado, enquanto Nizar aparecia regularmente como contraponto a Iêmem, Azede e Catã. A terminologia política continuava, porém, variável: em diferentes contextos, Nizar podia coexistir com Maade, Modar e Caice como designação dos agrupamentos setentrionais, sem que esses nomes correspondessem necessariamente a unidades tribais de composição idêntica. As rivalidades entre esses agrupamentos atravessaram os períodos omíada e abássida e estiveram associadas a numerosas revoltas e conflitos políticos e religiosos. A persistência do nome Nizar durante o Califado Abássida demonstra que seu emprego como categoria coletiva dos árabes setentrionais sobreviveu ao contexto político no qual, segundo Della Vida, adquirira especial proeminência. Ao mesmo tempo, a variedade das classificações preservadas pelas fontes — algumas dividindo os árabes entre Nizar e Iêmem, outras distinguindo Nizar, Iêmem e Cudaa, e outras empregando categorias como Maade, Modar ou Caice — evidencia que nizaritas funcionava como uma identidade genealógica e política de extensão variável, e não como o nome de uma única tribo de composição estável.
Bibliografia
Categoria:Nizaritas (tribo)