Os iaditas (), também conhecidos como Banu Iade (), foram um agrupamento tribal árabe tradicionalmente incluído entre os árabes do norte. Segundo a genealogia seguida por Hixame ibne Alcalbi e outros genealogistas árabes, descendiam de Iade, filho de Nizar ibne Maade ibne Adenane e irmão dos ancestrais epônimos dos modaritas, rebiaítas e anemaritas, embora genealogistas iemenitas tenham atribuído aos iaditas uma origem catanita. Originalmente estabelecidos na Tiama, no oeste da Península Arábica, alcançaram posição de destaque na região de Taife e são associados pelas tradições medievais à custódia da Caaba antes dos cuzaaítas. Após perderem sua posição na Tiama, diferentes grupos iaditas migraram entre os séculos III e IV em direção à Arábia Oriental e ao Iraque, em movimentos distintos que resultaram no estabelecimento de comunidades junto ao Eufrates, em , Hira e na região de Sindade. Alguns participaram da formação da confederação dos tanuquitas, enquanto outros se estabeleceram diretamente em áreas próximas aos domínios sassânidas.
Durante os séculos seguintes, os iaditas desempenharam papel significativo entre as tribos árabes da Mesopotâmia e da Síria. Parte deles esteve vinculada aos lácmidas de Hira e ao sistema político e militar sassânida, enquanto outros conservaram maior autonomia e realizaram incursões contra o Sauade. A crescente pressão exercida por esses grupos provocou campanhas sassânidas, culminando durante o reinado de em sua derrota, dispersão e reassentamento: alguns permaneceram na Mesopotâmia, enquanto outros se dirigiram à Síria e aos territórios do Império Bizantino. O cristianismo difundiu-se entre parcelas da tribo, particularmente entre os grupos ligados a Hira e posteriormente estabelecidos em território bizantino. Durante as conquistas muçulmanas do , diferentes comunidades iaditas combateram tanto ao lado dos sassânidas quanto dos bizantinos; parte aderiu ao islã, enquanto outros se retiraram para território bizantino, de onde cerca de quatro mil foram posteriormente expulsos por Heráclio sob pressão do califa Omar . Depois disso, a tribo perdeu importância política como agrupamento independente, embora seus membros continuassem presentes no mundo islâmico, sobretudo no Iraque e no Alandalus, onde se destacou a conhecida família do célebre médico Avenzoar (m. 1162).
História
Origens
Os iaditas eram um ramo dos árabes do norte pertencente ao agrupamento tribal de Maade. Segundo a tradição genealógica seguida por Hixame ibne Alcalbi e pelos autores que dele dependeram, o ancestral epônimo dos iaditas, Iade, era filho de Nizar ibne Maade ibne Adenane e irmão de Modar, Rebia e Anemar, todos eles também considerados ancestrais de grandes grupos tribais árabes. Essa genealogia, contudo, foi objeto de controvérsia na Idade Média: genealogistas entre os árabes do Iêmem sustentavam que os iaditas pertenciam aos árabes meridionais catanitas. Mishin considera um argumento significativo em favor da tradição adenanita um verso atribuído ao poeta iadita Abu Duade, no qual os membros da tribo são chamados descendentes de Nizar; caso o verso tenha sido transmitido sem alteração nesse ponto, ele indicaria que os próprios iaditas do se consideravam adenanitas. Segundo outra tradição genealógica, os taquifitas, posteriormente estabelecidos em Taife, também constituiriam um ramo dos iaditas. Os territórios originais dos iaditas situavam-se na Tiama, região costeira da Arábia ocidental. Segundo a tradição de Hixame ibne Alcalbi transmitida por Albacri, os agrupamentos descendentes de Maade dividiram entre si a região, cabendo aos iaditas e aos anemaritas as terras que se estendiam dos limites dos territórios dos modaritas até Najrã. Como os domínios atribuídos aos modaritas se estendiam de Meca às montanhas de e áreas adjacentes, Mishin observa que essas indicações, embora imprecisas, permitem situar os iaditas na parte meridional da Tiama, próxima do Iêmen. Algumas linhagens avançaram ainda mais para o sul. O clã de Anaque ibne Anre, ramo dos dumaítas (Banu Dumai), teria alcançado o Iêmem, estabelecido-se junto aos madijitas e acabado incorporado a eles, adotando consequentemente outra genealogia. Ibne Abede Albarre também registra uma migração de iaditas e anemaritas para o Iêmen e sua posterior identificação com os habitantes da região.
Mishin relaciona cautelosamente a esses grupos meridionais a mais antiga referência não árabe conhecida aos iaditas, a inscrição sul-arábica Abadān 1, datada de julho de 360. Nela, os responsáveis pela inscrição relatam campanhas realizadas a serviço dos governantes do reino unificado de Himiar e Sabá e mencionam a captura de Talaba ibne Salul, identificado como chefe dos iaditas, bem como a derrota e morte de seus irmãos. Como o texto da inscrição não foi inteiramente decifrado e relata acontecimentos de diferentes anos, não é possível determinar onde nem exatamente quando ocorreu o confronto. Mishin considera, porém, mais provável que os iaditas nela mencionados fossem aqueles estabelecidos mais próximos do Iêmen. Os iaditas que permaneceram na Tiama teriam vivido durante algum tempo na região de Taife e alcançado grande prosperidade e poder. A tradição de Hixame ibne Alcalbi transmitida por Albacri destaca particularmente dois grupos, Burde e Ailã, denominados os "dois gâmamas" dos iaditas, expressão que Mishin interpreta, no contexto da sociedade árabe da época, como referência às linhagens mais ricas e poderosas do agrupamento. Segundo o mesmo conjunto de tradições, os iaditas, ou sobretudo esses seus grupos mais fortes, exerciam forte pressão sobre os modaritas e rebiaítas. As fontes medievais também atribuem aos iaditas a custódia do santuário de Meca antes dos cuzaaítas. Maomé ibne Habibe identifica como guardião da Caaba o iadita Uaqui ibne Salama ibne Zoar, enquanto Aliacubi atribui a função a outro iadita chamado Talaba. Mishin considera possível que, depois de se fortalecerem em Taife, os iaditas tenham estendido sua influência a Meca.
As tradições sobre o fim desse predomínio são divergentes. Segundo Albacri, uma epidemia teria atingido os iaditas, sendo interpretada por um homem piedoso da tribo como punição pelas injustiças cometidas contra seus parentes; outra tradição preservada pelo mesmo autor atribui sua saída da Tiama a uma guerra contra uma aliança de modaritas e rebiaítas, que os teria derrotado na batalha de Hanique. Maomé ibne Habibe conserva uma versão diferente, segundo a qual o conflito teria sido provocado pela morte de um modarita por um iadita e culminado na derrota destes na batalha de Almadide. Nessa narrativa, os iaditas teriam tentado levar consigo a Pedra Negra de Meca e, não conseguindo fazê-lo, escondê-la. Mishin ressalta, porém, que tradições muito semelhantes sobre epidemias, expulsão de Meca e ocultação da Pedra Negra também foram associadas aos jurumitas, razão pela qual considera necessário tratar com cautela os detalhes desses relatos. A expulsão da Tiama, qualquer que tenha sido sua forma histórica, permaneceu na memória tribal: uma tradição afirma que os iaditas chegaram a utilizar sua partida da região como marco cronológico. Alguns permaneceram em Taife, entre eles os descendentes de Caci ibne Munabi, dos quais, segundo essa tradição, se originaram os taquifitas; estes posteriormente passaram a reivindicar uma genealogia modarita, embora Mishin registre que alguma memória de sua vinculação aos iaditas teria persistido.
Períodos sassânida e bizantino
Os iaditas desempenharam papel significativo entre os árabes da Mesopotâmia e da Síria durante o período pré-islâmico. Sua migração da Arábia ocidental para o Iraque não parece ter ocorrido como um deslocamento único de toda a tribo. A partir das diferentes tradições preservadas nas fontes, Mishin distingue três movimentos migratórios de grupos iaditas, ocorridos por rotas e em momentos distintos entre o início do e o começo do IV. Alguns grupos passaram pela região de Barém, onde linhagens iaditas se associaram a tribos como os azeditas e os cudaaítas asatenos para formar a confederação dos tanuquitas. Esses tanuquitas deslocaram-se posteriormente para os cursos inferior e médio do Eufrates, estabelecendo-se inclusive em Hira, e sua migração para o Iraque deve ter sido concluída, segundo Mishin, no máximo até o fim do primeiro quartel do . Uma segunda corrente migratória teria alcançado o Iraque aproximadamente em meados do sem passar pela região de Barém. Segundo uma tradição transmitida por Albacri, esses iaditas, depois de deixarem a Tiama, estabeleceram-se inicialmente no Négede e avançaram posteriormente para o norte em direção ao Iraque, passando por locais como Axaxique, Assalabia e Zubala. Mishin considera vários elementos dessa narrativa pouco verossímeis, sobretudo a afirmação de que os iaditas teriam atravessado vitoriosamente o centro do território sassânida, mas observa que Assalabia e Zubala se encontravam na rota que posteriormente ligaria Baguedade, Cufa, Medina e Meca. A tradição menciona ainda negociações entre os iaditas e um marzobã persa. Caso esse elemento reflita uma realidade histórica, Mishin considera possível relacioná-lo ao período em que os primeiros soberanos sassânidas mantinham marzobãs em Hira, o que situaria ao menos a etapa final dessa migração aproximadamente no segundo ou terceiro quartel do .
Uma terceira migração teria partido novamente da região de Barém. Segundo as tradições utilizadas por Mishin, a chegada dos abedalcaicitas e dos xanitas (Banu Xane ibne Áfeça) à região provocou conflitos com os iaditas ali estabelecidos. Os rebiaítas teriam se aliado aos azeditas contra eles, levando grupos iaditas a partir em direção ao Iraque, perseguidos pelos xanitas. Mishin observa que não há dados que permitam datar precisamente esse conflito, mas, relacionando-o à expansão dos abedalcaicitas e aos acontecimentos do reinado de , situa essa terceira corrente migratória em algum momento anterior ao início do . Assim, segundo sua reconstrução, alguns grupos iaditas chegaram ao sul do Iraque juntamente com os tanuquitas até o início do , outros aproximadamente em meados do mesmo século por uma rota que não passava por Barém e um terceiro conjunto migrou de Barém sob pressão dos rebiaítas, no mais tardar no início do . Essa multiplicidade de movimentos pode explicar a distribuição dos iaditas por áreas consideravelmente afastadas entre si. As fontes situam uma importante comunidade na região de Sindade, entre Hira e , enquanto outra se concentrava em , junto à rota do Eufrates para a Síria. Tradições preservadas por Atabari relatam conflitos entre os iaditas de Aine Ubague e Jadima Alabraxe, governante dos tanuquitas, e situam entre eles Adi, pai de Anre, fundador da dinastia lácmida. Para Mishin, a presença dessas personagens permite constatar a existência de uma comunidade iadita em Aine Ubague já na primeira metade do , possivelmente antes. Na ausência de outros dados, ele apenas aventa a possibilidade de que fossem iaditas originalmente chegados ao Iraque com os tanuquitas e posteriormente deslocados para montante do Eufrates, aos quais podem ter se juntado integrantes de outras correntes migratórias.