Jassas ibne Murra (; fl. final do – c. ) foi um membro da casa dirigente dos xaibanitas, ramo dos becritas, conhecido sobretudo por ter matado o chefe taglibita Culaibe ibne Rebia, episódio tradicionalmente considerado o estopim da Guerra de Albaçus. Era filho de Murra ibne Dul, um dos senhores de Xaibane, e irmão de Jalila binte Murra, esposa de Culaibe. Segundo a tradição preservada no Kitab al-Aghani, sua mãe era Haila binte Munquide, dos tamimitas, irmã de Albaçus, personagem que deu nome ao conflito.
O assassinato de Culaibe foi associado nas tradições à agressão contra Sarabi, camela de Sade ibne Xumais Aljurmi, protegido de Jassas e de Albaçus. Depois que Culaibe feriu o animal, Jassas teria considerado o ato uma afronta à proteção concedida ao jarmita e posteriormente matou o cunhado. A recusa dos becritas em entregar Jassas aos taglibitas para satisfazer a vingança pelo sangue de Culaibe transformou o assassinato numa disputa coletiva e deu origem à prolongada Guerra de Albaçus. O conflito inicialmente envolveu sobretudo os xaibanitas, mas progressivamente arrastou outros grupos becritas e taglibitas e tornou-se um dos mais célebres ciclos guerreiros atribuídos à Jailia.
As tradições divergem acerca da morte de Jassas. Ibne Alatir registra como versão mais difundida que, perseguido pelos taglibitas quando tentava refugiar-se junto de seus parentes maternos na Síria, combateu um grupo comandado por Abu Nuaira Ataglibi, matou seu chefe e numerosos adversários, mas sofreu ferimentos dos quais posteriormente morreu. O mesmo autor conserva uma versão alternativa segundo a qual foi morto por Hájeras ibne Culaibe, seu sobrinho e filho de Culaibe com Jalila, depois que este descobriu a identidade do pai e de seu assassino. Outra tradição situa sua morte no Dia de Quida, tradicionalmente datado de cerca de 534.
Vida
Jassas era filho de Murra, um dos senhores dos xaibanitas, ramo dos becritas, e pertencia aos murraítas, a casa dirigente de Xaibane. As fontes divergem acerca de sua maternidade. Segundo Ibne Hasme, sua mãe era uma mulher dos tamimitas pertencente aos anritas (Banu Anre ibne Sade ibne Zaíde Manate), enquanto o Kitab al-Aghani de Abu Alfaraje Alisfaani identifica-a como Haila binte Munquide, também tamimita, e apresenta Jassas como o mais novo dos dez filhos homens de Murra. A mesma tradição identifica Albaçus como irmã de Haila e, portanto, tia materna de Jassas. Sua irmã Jalila era casada com Culaibe ibne Rebia, chefe dos taglibitas, tribo aparentada aos becritas por sua descendência comum de Uail, de modo que Jassas mantinha relações familiares diretas com aquele que posteriormente mataria. Albaçus vivia sob a proteção de Jassas, acompanhada por Sade ibne Xumais Aljurmi, um jarmita igualmente acolhido por ele e proprietário de uma camela chamada Sarabi. Segundo a narrativa tradicional reproduzida por Nicholson, as tensões começaram quando Culaibe encontrou no território sob seu controle vestígios de uma camela desconhecida. Ao visitar posteriormente a pastagem na companhia de Jassas, identificou Sarabi entre os animais do cunhado. Ibne Alatir conserva de maneira mais pormenorizada a discussão que então teria ocorrido: ao perguntar a quem pertencia a camela, Culaibe ouviu de Jassas que era de seu protegido jarmita. Ordenou que Sarabi não voltasse às pastagens que havia reservado, mas Jassas respondeu que ela acompanharia seus próprios animais onde quer que estes pastassem. Culaibe ameaçou então atravessar-lhe o úbere com uma flecha caso voltasse a encontrá-la, ao que Jassas replicou que, se isso acontecesse, atravessaria com a ponta de sua lança o peito de Culaibe. Algum tempo depois, Culaibe encontrou novamente Sarabi entre os animais e cumpriu sua ameaça, atingindo-lhe o úbere com uma flecha. Ferida, a camela retornou ao acampamento, onde Sade lamentou publicamente a humilhação sofrida. Albaçus, ao ver o animal, também lamentou a afronta e censurou a incapacidade de seu grupo de proteger aqueles que se encontravam sob sua guarda.
Albaçus teria então recitado versos dirigidos a Sade nos quais lamentava a perda da segurança de que desfrutara anteriormente e apresentava a agressão como prova de que seus hóspedes já não recebiam proteção adequada. Segundo Nicholson, a provocação atingiu Jassas particularmente porque, segundo os valores de hospitalidade e proteção atribuídos pela narrativa aos árabes daquele período, permitir impunemente uma agressão contra um hóspede constituía motivo de vergonha. Ibne Alatir acrescenta que Jassas procurou tranquilizar Albaçus e Sade declarando que mataria em compensação um camelo maior que Sarabi, chamado Galal (Ghallāl), garanhão de Culaibe reputado como sem igual em seu tempo. A declaração constituía, porém, uma ameaça velada contra o próprio Culaibe. Jassas passou então a procurar uma oportunidade para surpreender o cunhado e, alguns dias depois, ao descobrir que este saíra desarmado, seguiu-o e o matou. O assassinato não foi inicialmente apresentado como uma decisão coletiva dos becritas. Ao tomar conhecimento da morte de Culaibe, Murra teria censurado Jassas, advertindo-o de que sua ação provocaria uma guerra entre Becre e Taglibe. Segundo uma das tradições, Jassas foi acorrentado e mantido numa tenda enquanto os chefes das famílias becritas discutiam como responder às exigências de vingança dos taglibitas. Uma tradição atribuída a Mucatil e preservada por Almubarrade situa também nesse contexto uma troca de versos entre Jassas e seu irmão Nadla. Jassas declarou ao irmão que havia provocado contra ele uma guerra capaz de fazer um velho engasgar-se com água pura, ao que Nadla respondeu que, se Jassas lhe trouxera uma guerra, não seria indolente nem teria armas débeis diante dela.
As tentativas de solucionar a crise sem uma guerra aparecem de maneira mais desenvolvida na tradição preservada por Ibne Abede Rabi. Representantes taglibitas procuraram Murra e apresentaram-lhe sucessivamente diferentes alternativas para satisfazer a vingança pelo sangue de Culaibe: restaurar o morto à vida, entregar Jassas para ser morto, entregar Hamame, considerado equivalente a Culaibe, ou oferecer a própria vida. Murra respondeu que não poderia ressuscitar Culaibe e afirmou que Jassas havia fugido e que desconhecia seu paradeiro. Recusou também entregar Hamame, que descreveu como pai de dez, irmão de dez e tio de dez, todos cavaleiros de seu povo, e declarou que tampouco se entregaria voluntariamente. Como alternativas, ofereceu aos taglibitas um dos filhos que ainda estavam consigo, permitindo-lhes escolher qual deles matar em compensação, ou o pagamento de mil camelas, pelo qual se dispunha a apresentar um fiador entre os descendentes de Uail. Os taglibitas recusaram as propostas, e as negociações terminaram sem acordo. Segundo a narrativa reproduzida por Nicholson, quando os becritas decidiram não entregar Jassas, comprometeram-se coletivamente a defendê-lo, sacrificando um camelo e jurando sobre seu sangue. A recusa em abandoná-lo converteu assim o assassinato de Culaibe numa disputa coletiva entre os dois grupos e marcou o início da Guerra de Albaçus.
A guerra não permaneceu restrita aos xaibanitas. Segundo Nicholson, as demais divisões dos becritas inicialmente se mantiveram afastadas do conflito, por considerarem que os xaibanitas estavam claramente em erro, mas o prolongamento das hostilidades acabou ampliando a participação tribal. Almualhil, irmão de Culaibe, assumiu papel destacado entre os taglibitas e fez da vingança pela morte do irmão um dos principais objetivos de sua atuação. As tradições distinguem cinco grandes confrontos no decorrer da guerra: os dias de Unaiza, Uaridate, Anaí, Adanaibe e Alcuçaibate. A escalada das hostilidades atingiu diretamente a família de Jassas. No Dia de Uaridate, um dos grandes confrontos do conflito, morreu seu irmão Hamame, um dos senhores dos xaibanitas e antigo companheiro de bebida de Almualhil. Uma tradição atribui sua morte ao próprio Almualhil, enquanto outra identifica como seu assassino o taglibita Naxira ibne Aguate. Entre os becritas que inicialmente procuraram permanecer afastados encontrava-se Alharite ibne Ubade, que, segundo a tradição conservada por Almaidani, justificava sua neutralidade por considerar que os becritas haviam cometido a injustiça inicial. À medida que as baixas se multiplicavam, porém, membros da tribo procuraram convencê-lo a intervir. Alharite ainda tentou promover uma reconciliação e enviou Bujair, variadamente apresentado como seu filho ou sobrinho, a Almualhil com uma proposta destinada a encerrar o conflito.
Bujair foi morto por Almualhil no Dia de Uaridate. Alharite teria inicialmente afirmado que sua morte seria bem empregada caso seu sangue servisse para reconciliar Becre e Taglibe, mas mudou de posição ao saber que Almualhil declarara tê-lo matado apenas em compensação pela correia da sandália de Culaibe. Interpretando a afirmação como uma humilhação, abandonou sua neutralidade e entrou na guerra. Sua intervenção contribuiu para alterar o equilíbrio do conflito em favor dos becritas. Nicholson relata uma batalha decisiva na qual estes, comandados por Alharite, colocaram suas mulheres atrás dos combatentes, munidas de pequenos odres e bastões e instruídas a fornecer água aos seus e matar os inimigos feridos. Antes do confronto, os guerreiros becritas rasparam a cabeça para que pudessem reconhecer-se durante o combate, circunstância da qual derivou o nome atribuído à batalha, o Dia da Tosquia. O confronto terminou numa grande vitória becrita e quebrou o poder dos taglibitas.
As tradições divergem acerca das circunstâncias da morte de Jassas. Segundo Ibne Alatir, quando os taglibitas intensificaram sua perseguição contra ele, Murra aconselhou o filho a refugiar-se junto de seus parentes maternos na Síria. Jassas inicialmente recusou, mas acabou partindo secretamente acompanhado de cinco homens. Ao saber de sua fuga, Almualhil enviou Abu Nuaira Ataglibi em sua perseguição à frente de trinta homens escolhidos entre seus mais valentes companheiros. Os dois grupos encontraram-se e travaram um combate no qual Abu Nuaira e quase todos os taglibitas teriam sido mortos. Jassas, embora tenha matado pessoalmente Abu Nuaira e, segundo o relato, outros quinze adversários, sofreu ferimentos graves dos quais morreu posteriormente; apenas dois homens de cada grupo teriam sobrevivido. Ibne Alatir registra também uma versão alternativa segundo a qual Jassas foi morto por Hájeras, filho de Culaibe e de sua própria irmã Jalila, depois que o jovem descobriu a identidade de seu pai e de seu assassino. O historiador observa, contudo, que a versão segundo a qual Jassas morreu em consequência dos ferimentos recebidos no combate contra Abu Nuaira era a mais difundida. Outra tradição situa sua morte no Dia de Quida, um dos últimos grandes confrontos da guerra, tradicionalmente datado de cerca de 534.
Bibliografia
Categoria:Árabes do século VI Categoria:Murraítas (xaibanitas) Categoria:Pessoas envolvidas na Guerra de Albaçus Categoria:Árabes do século V Categoria:Tamimitas