Alharite ibne Ubade (; m. ) foi um chefe, guerreiro, poeta e sábio árabe da Jailia, pertencente aos dubaiaítas dos caicitas, ramo dos becritas. Conhecido pela cúnia Abu Almondir, embora também seja registrado como Abu Bujair, tornou-se chefe dos dubaiaítas ainda jovem e adquiriu posição de destaque entre os becritas. As tradições lhe atribuem grande longevidade e preservam numerosos episódios relacionados à sua reputação como chefe e guerreiro.

Alharite é conhecido sobretudo por sua participação na Guerra de Albaçus, prolongado conflito entre becritas e taglibitas. Inicialmente recusou-se a participar da guerra por considerar que os becritas haviam cometido a injustiça que a provocara e procurou favorecer uma reconciliação entre os adversários. Sua posição mudou depois que Bujair, apresentado nas diferentes tradições como seu filho ou sobrinho, foi morto por Almualhil no Dia de Uaridate. Alharite abandonou então a neutralidade e entrou pessoalmente no conflito. A tradição associa a esse momento sua célebre cássida sobre a égua Anama (al-Naʿāma), na qual expressou sua decisão de vingar Bujair; o corte da cauda e dos pelos da fronte da montaria realizado nessa ocasião teria posteriormente se tornado costume entre os antigos árabes.

À frente dos becritas, Alharite infligiu pesadas perdas aos taglibitas e, no Dia de Quida, chegou a capturar Almualhil, mas o libertou em cumprimento a uma promessa feita antes de reconhecer sua identidade. Segundo uma das tradições sobre o término da Guerra de Albaçus, Alharite continuou combatendo até que os taglibitas recorreram a um estratagema para satisfazer seu juramento de não aceitar a paz até que a própria terra lhe falasse em favor deles; cumprida literalmente a condição, cessou os combates e reconciliou-se com Taglibe. Outra tradição atribui a pacificação à mediação do rei lácmida . Pouco se conhece sobre seus últimos anos, e sua morte é situada aproximadamente cinquenta anos antes da Hégira, por volta de 570.

Vida

Alharite pertencia aos dubaiaítas dos caicitas, um dos ramos dos becritas. Era filho de Ubade ibne Dubaia e conhecido pela cúnia Abu Almondir, embora algumas fontes também registrem Abu Bujair. Aparece nas fontes como um dos chefes, guerreiros, poetas e sábios dos árabes da Jailia. As fontes também lhe atribuem grande longevidade, embora não seja conhecida a data de seu nascimento. Ainda jovem, Alharite adquiriu notoriedade num conflito entre os dubaiaítas e os saducitas, outro ramo dos becritas, associado aos xaibanitas. Segundo a narrativa reunida por Louis Cheikho, Muamar ibne Suar, servo do chefe saducita Inrane ibne Nabi, conduziu os camelos de seu senhor à fonte de Aine Cuaira (ʿAyn Quwayra), onde estes se encontraram com os camelos de Ubade, que estavam sob os cuidados de Alharite. Surgiu uma disputa na qual Alharite matou Muamar e, quando Fudail, filho de Inrane, interveio, matou-o também. Ao retornar à residência paterna e contar o ocorrido, foi severamente censurado por Ubade, que declarou pretender entregá-lo a Inrane em compensação pela morte de Fudail para evitar que o incidente desencadeasse uma guerra. Alharite respondeu que sua entrega já não impediria as hostilidades. Os dubaiaítas ainda procuraram uma composição com Inrane, mas as negociações fracassaram e teve início a guerra entre os dois grupos. Num dos primeiros grandes confrontos, travado junto ao monte Munauar (Jabal Munawwar), os dubaiaítas foram derrotados, irmãos de Alharite foram mortos e Aquil ibne Maruane, então chefe dos dubaiaítas, foi capturado. Depois da derrota, Alharite, ainda jovem, foi escolhido para comandar seu grupo. Num combate subsequente contra os saducitas, seu pai Ubade foi morto, enquanto Alharite matou Nácer ibne Maçude, um dos destacados guerreiros adversários; os dois lados se separaram sem vitória decisiva. As hostilidades prosseguiram e posteriormente envolveram outros grupos tribais. Farrukh igualmente associa a juventude de Alharite a esse conflito e registra a morte de seu pai durante as hostilidades.

Depois desses acontecimentos, Alharite adquiriu reputação entre seu povo e aparece nas tradições relativas ao , célebre confronto da Jailia no qual grupos dos rebiaítas combateram forças associadas aos himiaritas. Segundo Cheikho, distinguiu-se pessoalmente no combate, enfrentando e matando cavaleiros himiaritas. A tradição apresenta Alharite como uma das figuras becritas que inicialmente se recusaram a participar da Guerra de Albaçus. O conflito tivera origem no assassinato do chefe taglibita Culaibe ibne Rebia por Jassas ibne Murra, membro dos xaibanitas, depois que Culaibe feriu a camela Sarabi, pertencente ao jarmita Sade ibne Xumais Aljurmi, protegido de Albaçus binte Munquide. Como Alharite não participara do assassinato nem da disputa que o provocara, teria procurado manter-se afastado da sucessiva vingança entre os descendentes de Becre e Taglibe. Sua posição não era inteiramente isolada entre os becritas, pois tradições posteriores mencionam também outros grupos de Becre que inicialmente permaneceram fora da guerra. Segundo a tradição conservada por Almaidani, Alharite justificava sua neutralidade por considerar que os becritas haviam cometido a injustiça inicial e preferia deixar os demais grupos envolvidos resolverem entre si a vingança de Culaibe. À medida que as mortes entre os becritas se multiplicavam, porém, membros da tribo procuraram convencê-lo a intervir. Alharite ainda tentou obter uma reconciliação e enviou Bujair, variadamente apresentado na tradição como seu filho ou sobrinho, a Almualhil, irmão de Culaibe e principal chefe taglibita na guerra, com uma proposta destinada a encerrar o conflito.

A missão terminou com a morte de Bujair pelas mãos de Almualhil no Dia de Uaridate, um dos grandes combates da Guerra de Albaçus. Segundo a TDV, Almualhil matou nesse confronto tanto Bujair quanto Hamame, irmão de Jassas e seu antigo companheiro de bebida. Na versão de Almaidani, Bujair foi enviado a Almualhil com uma mensagem de Alharite afirmando que este se mantivera afastado porque reconhecia a injustiça cometida contra os taglibitas, mas que a vingança pela morte de Culaibe já havia sido satisfeita. Almualhil, contudo, matou o jovem e declarou que sua vida constituía apenas compensação pela correia da sandália de Culaibe (bi-shisʿ naʿl Kulayb). Ao receber inicialmente a notícia da morte, Alharite teria reagido com resignação, afirmando que seria uma boa morte se o sangue de Bujair servisse para reconciliar Becre e Taglibe. Quando soube, porém, das palavras atribuídas a Almualhil, interpretou-as como uma humilhação que tornava impossível conservar sua neutralidade. Farrukh igualmente situa a morte de Bujair como o acontecimento que levou Alharite a abandonar sua posição anterior e entrar pessoalmente na Guerra de Albaçus. A tradição associa a essa decisão a célebre composição na qual Alharite repetidamente ordena que lhe aproximem sua égua Anama (al-Naʿāma). Nela, lamenta Bujair, recorda sua anterior recusa em participar do conflito e anuncia sua entrada na guerra contra Taglibe. Segundo a tradição registrada pela TDV, Alharite repetiu mais de cinquenta vezes na cássida a expressão Qarribā marbaṭ al-Naʿāma minnī (“Aproximem de mim a montaria de Anama”). Como expressão de sua determinação em obter vingança, teria cortado a cauda e os pelos da fronte da égua, gesto que posteriormente se tornou costume entre os antigos árabes. Ibne Alatir acrescenta que Anama era uma égua sem igual em seu tempo; depois de montá-la, Alharite assumiu a liderança dos becritas na guerra e passou a combater ao lado deles.

O primeiro grande confronto no qual teria participado foi o Dia de Quida, também conhecido como Dia do Raspar das Cabeças. Segundo a tradição preservada por Ibne Alatir, esta última denominação devia-se ao fato de os becritas terem raspado os cabelos antes da batalha para que pudessem reconhecer uns aos outros durante o combate. Alharite combateu pessoalmente e infligiu pesadas perdas aos taglibitas. Durante esse mesmo confronto, capturou Almualhil sem reconhecer a identidade do prisioneiro. Perguntou-lhe onde poderia encontrar Adi, nome pessoal de Almualhil, e prometeu libertá-lo caso o conduzisse até ele. Almualhil exigiu que Alharite jurasse cumprir a promessa e, depois de obtê-la, revelou ser ele próprio Adi. Preso pela palavra dada, Alharite não o matou; cortou-lhe a madeixa frontal e o libertou. A tradição atribui-lhe depois versos nos quais lamentava ter tido Almualhil em suas mãos sem reconhecê-lo. Depois da libertação de Almualhil, Alharite prosseguiu a guerra contra os taglibitas e jurou não fazer a paz com eles até que a própria terra lhe falasse em seu favor. À medida que se multiplicavam seus combates contra Taglibe e os taglibitas se mostravam incapazes de resistir-lhe, estes teriam recorrido a um estratagema para permitir que Alharite cumprisse literalmente o juramento. Cavaram uma passagem subterrânea no caminho por onde ele passaria e nela ocultaram um homem, instruído a recitar-lhe um verso quando se aproximasse. Ao passar Alharite pelo local, o homem dirigiu-se a ele por sua cúnia, Abu Almondir, pedindo que poupasse os sobreviventes e declarando que «uma parte do mal é menor que outra». Como a voz procedera debaixo da terra, considerou-se satisfeita a condição do juramento. Alharite interrompeu então os combates, e becritas e taglibitas reconciliaram-se.

Nessa versão da tradição, portanto, a intervenção de Alharite foi decisiva para a fase final da Guerra de Albaçus: sua entrada no conflito fortaleceu os becritas contra os taglibitas, enquanto sua posterior aceitação da paz permitiu encerrar as hostilidades. As fontes preservam, contudo, diferentes tradições acerca do término da guerra. Enquanto essa versão atribui a reconciliação diretamente à decisão de Alharite, outra situa a paz sob a mediação do rei lácmida , que teria promovido um acordo entre becritas e taglibitas em . Pouco se conhece sobre a vida de Alharite depois dos acontecimentos associados à Guerra de Albaçus. As tradições biográficas atribuem-lhe grande longevidade, mas não preservam informações seguras sobre seus últimos anos. al-Ziriklī situa sua morte aproximadamente cinquenta anos antes da Hégira, correspondente a cerca de 570, sem indicar sua idade ao morrer. Uma tradição literária incluiu Alharite e Caice ibne Maçude, entre outros notáveis árabes, numa delegação enviada por à corte do xainxá sassânida , onde Alharite teria pronunciado um discurso em defesa dos árabes. A notícia é incompatível com a cronologia tradicional do biografado, pois Cosroes II ascendeu ao trono apenas em 590, cerca de vinte anos depois da data atribuída à morte de Alharite. A própria Tazkirat al-Hamduniyya, depois de reproduzir a tradição, considera o relato fabricado e aponta entre os indícios de sua inautenticidade o fato de os personagens árabes nele reunidos pertencerem a épocas muito distantes entre si.

Bibliografia

Categoria:Dubaiaítas Categoria:Poetas árabes do século VI Categoria:Pessoas envolvidas na Guerra de Albaçus