Abu Ubaide Alá Maomé ibne Inrane ibne Muça ibne Saíde ibne Ubaide Alá Almarzubani Alcorassani Albaguedadi (; Baguedade, 296 ou 297 A.H. / 909–910 – Baguedade, 2 de Xaual de 384 A.H. / ), mais conhecido simplesmente como Almarzubani, foi um estudioso, homem de letras e transmissor de akhbār do Califado Abássida. Descendente de uma família originária do Coração, formou-se em Baguedade com estudiosos como Ibne Duraide, Abu Becre ibne Alambari, e e tornou-se um dos mais prolíficos estudiosos árabes do adabe no .
Sua residência em Baguedade tornou-se um importante centro de reuniões eruditas e literárias, nas quais recebia numerosos estudiosos e homens de letras. Almarzubani manteve relações com membros da elite política, entre eles o emir buída Adude Adaulá, e desfrutou de elevada reputação entre vários contemporâneos; incluiu-o entre as maḥāsin al-dunyā, as "excelências do mundo", e suas obras chegaram a ser mais valorizadas por seus contemporâneos que as de Aljaiz. Sua reputação como transmissor, contudo, foi posteriormente objeto de controvérsia entre tradicionalistas, em parte devido à diversidade dos materiais que recolhia e aos métodos de transmissão que empregava.
Ibne Anadim, contemporâneo de Almarzubani, atribuiu-lhe mais de cinquenta obras, cuja extensão conjunta foi posteriormente calculada pelos bibliógrafos em mais de 45 mil fólios. Sua produção abrangia poesia, filologia, biografia, crítica literária e akhbār, mas apenas uma pequena parcela sobreviveu, frequentemente em excertos ou abreviações. Entre suas obras mais importantes estão o perdido al-Muqtabas fī akhbār al-nuḥāt wa-l-udabāʾ wa-l-shuʿarāʾ wa-l-ʿulamāʾ, vasta coleção de biografias de estudiosos e homens de letras; o al-Muwashshaḥ fī maʾākhidh al-ʿulamāʾ ʿalā l-shuʿarāʾ, dedicado à crítica da poesia; e o parcialmente preservado Muʿjam al-shuʿarāʾ, que originalmente reunia cerca de cinco mil poetas. Outras grandes compilações dedicadas à poesia e à história literária perderam-se quase inteiramente, fazendo com que apenas uma fração de sua extensa produção seja atualmente conhecida.
Vida
Abu Ubaide Alá Maomé ibne Inrane ibne Muça ibne Saíde ibne Ubaide Alá Almarzubani Alcorassani Albaguedadi nasceu em Baguedade em 296 ou 297 A.H. (909–910). Sua família, rica e influente, era originária do Coração, e seu pai atuava na corte califal de Baguedade como representante do governador daquela região. Almarzubani recebeu sua formação na própria Baguedade. Estudou hádice com e , enquanto estudou língua, literatura e akhbār com alguns dos principais estudiosos de sua época, entre eles Ibne Duraide, Abu Becre ibne Alambari, e . Almarzubani dedicou grande parte de sua vida ao estudo, à escrita e à reunião de estudiosos em sua residência. Sua casa situava-se na rua de Anre Arrumi, na parte oriental de Baguedade, não muito distante do Tigre, em meio a jardins, e tornou-se um centro frequentado pelos círculos eruditos e literários da cidade. Seus majālis podiam prolongar-se por vários dias e eram acompanhados de comida e bebida; os participantes que desejassem permanecer dispunham de alojamento, e o próprio Almarzubani afirmou que sua residência podia acomodar até cinquenta pessoas. Ecos dessas reuniões sobreviveram na literatura posterior, entre eles nos Amālī de . Sua posição nos círculos intelectuais de Baguedade foi acompanhada de relações com membros da elite política.
O emir buída Adude Adaulá tinha-o em elevada consideração e, segundo a tradição transmitida sobre ambos, quando passava diante de sua residência durante suas estadias em Baguedade, parava junto ao portão até que Almarzubani aparecesse, para certificar-se de que estava bem. A reputação de Almarzubani como transmissor foi objeto de avaliações divergentes. Alazari, mestre de Alcátibe Albaguedadi, acusou-o de consumir nabīdh, professar o mutazilismo e não ser digno de confiança na transmissão, enquanto outros chegaram a qualificá-lo de mentiroso. Alcátibe rejeitou expressamente esta última acusação, afirmando que Almarzubani não era mentiroso e relacionando as reservas a seu respeito ao seu madhhab e à sua forma de transmissão. Sua atividade intelectual abrangia materiais provenientes de ambientes muito diferentes: reuniu notícias sobre Abu Hanifa e os mutazilitas, assim como sobre poetas xiitas, e compilou a poesia de Iázide ibne Moáuia, além de combinar em suas transmissões procedimentos de ijāza e samāʿ. Frequentava também círculos xiitas. Sellheim considera que essa amplitude de interesses e métodos contribuía para que Almarzubani não correspondesse aos critérios mais rígidos de transmissão adotados por determinados tradicionalistas. As críticas contra ele foram posteriormente retomadas por Ibne Aljauzi e contribuíram para a formação de uma reputação desfavorável nas fontes biográficas posteriores. Sellheim considera que tais julgamentos foram influenciados por divergências acerca dos métodos de transmissão e por preconceitos confessionais. Essa reputação contrasta com a elevada consideração de que desfrutou entre vários contemporâneos.
Alcátibe Albaguedadi caracterizou-o como transmissor de akhbār e tradições relativas ao adabe, enquanto , um dos principais filólogos de sua época, incluiu-o entre as maḥāsin al-dunyā, as "excelências do mundo". Suas obras eram, entre seus contemporâneos, mais valorizadas que as de Aljaiz. Apesar da intensidade de sua atividade intelectual e das numerosas reuniões realizadas em sua residência, relativamente poucos discípulos de Almarzubani são identificados nominalmente pelas fontes biográficas. Entre aqueles que transmitiram dele estavam , e . Almarzubani morreu em Baguedade na sexta-feira, 2 de Xaual de 384 A.H. (9 de novembro de 994), com cerca de 85 anos, e foi sepultado em sua própria propriedade. A oração fúnebre foi conduzida por Abu Becre Alcuarizmi (m. 1012), xeique dos hanafitas.
Obras
Almarzubani foi um autor extraordinariamente prolífico, cuja produção se concentrou sobretudo na literatura, filologia, poesia, biografia e transmissão de akhbār. Seu contemporâneo Ibne Anadim, que registrou suas obras no Fihrist ainda durante a vida do autor, relacionou mais de cinquenta títulos, acompanhando muitos deles de indicações sobre seu conteúdo e extensão. Os bibliógrafos posteriores, que em grande medida reproduziram essa relação, contabilizaram em conjunto mais de 45 mil fólios de obras atribuídas a Almarzubani. Apenas pequena parcela dessa produção chegou aos tempos modernos, em vários casos não na forma original, mas através de excertos e abreviações posteriores. Sellheim relaciona essa perda tanto ao progressivo abandono das obras de Almarzubani quanto às calamidades que atingiram Baguedade antes da conquista mongol de 1258, particularmente as grandes inundações ocorridas na cidade. A TDV atribui igualmente à invasão mongol papel importante no desaparecimento da maior parte de sua produção.
Entre suas maiores obras estava o al-Muqtabas fī akhbār al-nuḥāt wa-l-udabāʾ wa-l-shuʿarāʾ wa-l-ʿulamāʾ (), coleção biográfica em dezoito volumes dedicada a gramáticos, homens de letras, poetas e estudiosos, incluindo representantes das tradições de Baçorá e Cufa. Segundo Sellheim, o autógrafo da obra, composto de mais de três mil fólios, esteve conservado na biblioteca da Madrassa Nizamia de Baguedade. No início do , foram preparados a partir desse manuscrito dois resumos, um muntakhab em quatro volumes e um mukhtār de pelo menos dois. O primeiro, elaborado por , recebeu o título Shihāb al-qabas min Kitāb al-Muqtabas e não se sabe se sobreviveu. O segundo, preparado por , foi intitulado al-Mukhtār min Kitāb al-Muqtabas fī akhbār al-naḥwiyyīn; sua primeira parte sobreviveu e foi posteriormente publicada em fac-símile por Fuat Sezgin.
O al-Muwashshaḥ fī maʾākhidh al-ʿulamāʾ ʿalā l-shuʿarāʾ () é uma obra de crítica literária na qual Almarzubani reuniu críticas formuladas por estudiosos aos poetas e a seus versos. Segundo Ibne Anadim, a obra compreendia cerca de 300 fólios e, diferentemente de grande parte da produção de Almarzubani, chegou integralmente aos tempos modernos. A compilação utiliza numerosas fontes orais e escritas e reúne, segundo critérios de crítica erudita, notícias relativas aos poetas e observações acerca de seus versos, constituindo simultaneamente uma antologia e uma obra de crítica literária. Foi publicada inicialmente no Cairo em 1924 e recebeu posteriormente uma edição preparada por ʿAlī Muḥammad al-Bijāwī, também no Cairo, em 1965. Outra de suas principais obras é o Muʿjam al-shuʿarāʾ (), também denominado al-Muʿjam fī asmāʾ al-shuʿarāʾ, repertório de poetas organizado alfabeticamente. A obra original compreendia cerca de mil fólios e reunia aproximadamente cinco mil poetas, acompanhados de versos pelos quais eram conhecidos. Apenas parte da obra chegou aos tempos modernos: conserva-se sua segunda metade, ainda assim com numerosas omissões e lacunas.
A parte preservada do Muʿjam al-shuʿarāʾ foi publicada por Fritz Krenkow no Cairo em 1354 A.H. (1935) e posteriormente por ʿAbd al-Sattār Aḥmad Farrāj no Cairo em 1379 A.H. (1960). A edição de Farrāj incorporou material adicional e procurou reconstruir, a partir de citações encontradas em obras posteriores, parte do conteúdo desaparecido do Muʿjam. Outros fragmentos e passagens atribuídos à porção perdida foram posteriormente reunidos por Ibrāhīm al-Sāmarrāʾī em Min al-ḍāʾiʿ min Muʿjam al-shuʿarāʾ li-l-Marzubānī, publicado em Beirute em 1984. Almarzubani dedicou uma obra específica às poetisas, o Ashʿār al-nisāʾ (), que originalmente teria compreendido entre 500 e 600 fólios. A obra ainda era utilizada no por Abede Alcadir Albaguedadi, que dela reproduziu passagens na Khizānat al-adab. Sobreviveu um fragmento antigo de 59 fólios pertencente à terceira parte da obra, contendo akhbār e versos de cerca de sessenta mulheres pertencentes a dezesseis antigas tribos árabes. Esse fragmento foi editado por Sāmī Makkī al-ʿĀnī e Hilāl Nājī e publicado em Baguedade em 1976.
O Akhbār al-Sayyid al-Ḥimyarī (), contendo notícias sobre o poeta , foi publicado em Najafe por Muḥammad Hādī al-Amīnī em 1965, mas não figura como obra independente na relação dos escritos de Almarzubani transmitida por Ibne Anadim. Sellheim considera possível que o texto corresponda a um fragmento de uma de suas grandes compilações perdidas, o al-Mustamirr ou o al-Mufīd. O primeiro, que teria entre seis e 10 mil fólios, reunia notícias sobre poetas mais recentes, de Baxar ibne Burde a Ibne Almutaz, enquanto o al-Mufīd, com cerca de cinco mil fólios, tratava sobretudo de poetas menos conhecidos da Jailia e do período islâmico. Este último era subdividido em diferentes categorias, entre elas poetas cegos ou caolhos e poetas xiitas, carijitas, judeus e cristãos. Também foi publicado sob o nome de Almarzubani o Akhbār shuʿarāʾ al-Shīʿa (), contendo notícias e versos de 27 poetas xiitas. O texto preservado, contudo, é um resumo preparado por Sayyid Muḥsin al-Amīn al-ʿĀmilī e não apresenta nenhuma cadeia de transmissão; além disso, o nome de Almarzubani aparece apenas na página de título. Sellheim considera que, caso o material efetivamente remonte a Almarzubani, pode representar outro fragmento do perdido al-Mufīd.