Alcali (; Manzicerta, 901 – Córdova, 20 de abril de 967), nome pelo qual ficou conhecido Abu Ali Ismail ibne Alcácime ibne Aizune ibne Harune ibne Issa ibne Maomé ibne Solimão Alcali Albaguedadi (), foi um filólogo, lexicógrafo e estudioso da língua árabe e da literatura árabe. Formado principalmente em Baguedade por alguns dos mais importantes estudiosos de sua época, adquiriu amplos conhecimentos de língua, poesia, akhbār, genealogia e Dias Árabes, além de estudar hádice e as leituras do Alcorão. Em 939–940 deixou o Iraque em direção ao Alandalus e chegou a Córdova em 942, onde recebeu o patrocínio de e, sobretudo, de , dedicando-se ao ensino e à produção de obras.

Alcali tornou-se uma das principais figuras na transmissão da tradição filológica iraquiana ao Ocidente islâmico, levando consigo parte de sua biblioteca e difundindo no Alandalus obras, divãs e conhecimentos adquiridos no Oriente. Embora suas posições gramaticais fossem em geral mais próximas da escola de Baçorá, não se vinculava rigidamente às disputas entre esta e a escola de Cufa. Produziu numerosas obras linguísticas e literárias, das quais apenas uma parcela sobreviveu. Entre as mais importantes estão o al-Amālī, compilação resultante das aulas que ministrou em Córdova e Medina Azara, e o al-Bāriʿ fī l-lugha, considerado o primeiro dicionário escrito no Alandalus e uma das maiores obras lexicográficas produzidas na região.

Vida

Abu Ali Ismail nasceu em Manzicerta, ao norte do lago de Vã, em 288 A.H. (901). Segundo a autobiografia de Alcali preservada por seu discípulo , seu ancestral Solimão, cujo nome aparece também como Salmane, fora liberto do califa omíada Abedal Maleque ibne Maruane ou de seu filho Maomé. Em 303 A.H. (915–916), Alcali deixou sua terra natal e dirigiu-se a Moçul, onde estudou com . Depois de uma permanência prolongada na cidade, seguiu para Baguedade, à qual chegou em 305 A.H. (917) acompanhado por um grupo proveniente de Calícala, cidade fronteiriça da região de Erzurum. Ao observar a consideração dispensada aos homens da fronteira e esperando beneficiar-se dela durante seus estudos, adotou a nisba Alcali, pela qual se tornou conhecido. Alcali permaneceu cerca de 23 anos em Baguedade e ali recebeu formação de alguns dos principais estudiosos de sua época. Estudou língua e akhbār com Ibne Duraide, Abu Becre ibne Alambari, , , , Alaquefaxe Alasgar e , discípulo de Abu Alabás Talabe. Sob a orientação de , estudou aprofundadamente o Kitāb de Sibauai segundo a interpretação de Almubarrade. Leu ainda as obras de Ibne Cutaiba com Abu Jafar, filho do próprio autor, e as de com um filho deste.

Sua formação abrangia também as ciências religiosas. Estudou hádice com e e estudou o Alcorão com , considerado uma das principais autoridades de sua época nas leituras corânicas. Frequentou também em Samarra as aulas de Ibne Alambari. Ao final de sua permanência no Iraque, Alcali possuía amplos conhecimentos de poesia, sira, genealogia, Dias Árabes, língua e biografias de gramáticos. Em 328 A.H. (939–940), Alcali deixou Baguedade em direção ao Alandalus. Segundo Sellheim, sua viagem ocorreu aparentemente a convite do príncipe Aláqueme, filho do emir . A tradição reproduzida pela TDV afirma que Alcali não recebera no Iraque a consideração que julgava correspondente à sua erudição e que, durante a viagem para o Alandalus, foi recebido com honras nas cidades por onde passou. Permaneceu algum tempo em Cairuão antes de chegar a Córdova em 27 de Xabã de 330 A.H. (17 de maio de 942). Abederramão III e Aláqueme receberam-no favoravelmente, e Alcali teria composto nessa ocasião uma cássida em louvor ao soberano e acerca de sua viagem ao Alandalus. Sobretudo com o apoio de Aláqueme, dedicou-se ao ensino e à composição de obras, alcançando posição de autoridade nos círculos eruditos andalusinos e sendo consultado em questões de sua especialidade.

Alcali tornou-se uma das principais figuras na transmissão da tradição filológica iraquiana ao Ocidente islâmico. Levou consigo para Córdova grande parte de sua biblioteca e, no Alandalus, transmitiu obras e tradições que estudara no Iraque. Quando não possuía determinado livro ou quando este se perdera durante sua passagem por Cairuão, recorria à memória para ditar seu conteúdo ou produzia comentários e observações críticas com base na tradição iraquiana que conhecia, levando também em consideração testemunhos de outras tradições. Sua atividade contribuiu assim para a circulação no ambiente intelectual andalusino de numerosos divãs e obras de língua e literatura provenientes do Oriente. Como gramático, não se vinculava rigidamente às controvérsias entre as escolas de Baçorá e Cufa, recorrendo ao próprio julgamento nas questões disputadas, embora suas posições fossem em geral mais próximas da tradição baçorana. Entre os numerosos discípulos que formou no Alandalus estavam Azzubaidi, , , e ; alguns de seus alunos exerceram posteriormente importantes funções públicas. Alcali morreu em Córdova em 356 A.H. (967). A tradição preservada por Azubaidi situa sua morte em Rabi II, enquanto fornece a data mais precisa de sábado, 7 de Jumada I de 356 A.H. (20 de abril de 967), informação que Sellheim considera provavelmente derivada de Jafar, filho de Alcali.

Obras

Alcali produziu numerosas obras dedicadas sobretudo à língua árabe, gramática, lexicografia, poesia e literatura, embora apenas uma parcela de sua produção tenha sobrevivido. Seus escritos resultaram em grande medida do conhecimento adquirido durante sua formação no Iraque e da atividade de ensino que desenvolveu posteriormente no Alandalus, onde transmitiu materiais da tradição filológica oriental. Entre as obras que lhe são atribuídas figuram grandes compilações lexicográficas, coleções de materiais literários e linguísticos e trabalhos dedicados a questões específicas da língua. Sua obra mais conhecida é o al-Amālī (), compilação formada a partir das aulas que ditou em Córdova e Medina Azara. Segundo a tradição, Alcali iniciou essas sessões em 350 A.H. (961–962), realizando-as inicialmente às quintas-feiras na Mesquita de Azara e posteriormente na Grande Mesquita de Córdova. A obra reúne materiais de natureza variada relacionados à língua e à literatura árabes, entre eles poemas, notícias históricas e literárias, provérbios, expressões raras, questões lexicais e gramaticais e explicações de versos, acompanhados de tradições que Alcali recebera de seus mestres no Oriente. Sua organização reflete o caráter das sessões de ditado das quais se originou, em vez de uma exposição sistemática por assuntos. Sellheim caracteriza seu conteúdo como abrangendo praticamente todos os tipos de questões filológicas relacionadas à ʿarabiyya.

O al-Amālī circulou amplamente e foi objeto de trabalhos posteriores. Uma edição publicada pela Dar al-Kutub no Cairo em 1926 foi considerada por Sellheim a melhor edição disponível da obra. Seu terceiro volume contém o Dhayl al-Amālī wa-l-Nawādir, juntamente com o Tanbīh de Abu Ubaide Albacri, dedicado à correção de passagens do trabalho de Alcali. Albacri escreveu também um comentário ao conjunto da obra, intitulado Simṭ al-laʾālī fī sharḥ Amālī al-Qālī (), posteriormente publicado por ʿAbd al-ʿAzīz al-Maymanī em três volumes no Cairo em 1936. Outra de suas principais obras foi o al-Bāriʿ fī l-lugha (), considerado o primeiro dicionário escrito no Alandalus. Foi organizado, com algumas diferenças na ordenação das letras, segundo o sistema baseado nos pontos de articulação empregado por Alcalil ibne Amade Alfaraídi no Kitāb al-ʿAyn e foi dedicado a Aláqueme II. Sellheim calcula que a obra completa teria aproximadamente fólios, enquanto a tradição reproduzida pela TDV lhe atribui cerca de cinco mil. Dois juzʾ chegaram aos tempos modernos e foram editados por Hāshim al-Ṭaʿʿān em Baguedade em 1975.

Alcali escreveu ainda o al-Maqṣūr wa-l-mamdūd (), dicionário de nomes maqṣūr e mamdūd igualmente organizado segundo os pontos de articulação dos sons. A obra foi estudada e editada por Aḥmad ʿAbd al-Majīd Harīdī, inicialmente como dissertação de mestrado apresentada à Universidade do Cairo em 1972 e posteriormente publicada. Sellheim registra a existência de dois manuscritos da obra e sua publicação no Cairo. Outra obra, o Kitāb Afʿalu min kadhā (), reúne provérbios árabes construídos segundo a fórmula comparativa afʿalu min. Contém 360 provérbios distribuídos por 123 assuntos e foi editado por Muḥammad Fāḍil Ibn ʿĀshūr e publicado em Túnis em 1972. Sobrevive também um manuscrito do Kitāb al-Ṣila (), conservado na , em Istambul. Entre as demais obras atribuídas a Alcali figuram al-Ibil wa-nitājuhā wa-jamīʿ aḥwālihā, sobre os camelos, sua reprodução e características; Tafsīr al-Qaṣāʾid al-Muʿallaqāt wa-iʿrābuhā wa-maʿānīhā, dedicado às Muallaqat; Ḥulā al-insān, também referido como Khalq al-insān; al-Khayl wa-ṣifātuhā, sobre os cavalos e suas características; Faʿaltu wa-afʿaltu; Fihrist Abī ʿAlī wa-akhbāruh wa-tasmiyat kutubihī wa-tawālīfih, catálogo relacionado ao próprio Alcali, suas notícias, livros e escritos; Lugha majmūʿa; e Maqātil al-fursān. Nem todas as obras posteriormente registradas sob seu nome são consideradas autênticas. O Kitāb al-Masāʾil al-Shīrāziyya, relacionado a Alcali por Carl Brockelmann, aparentemente não possui ligação com ele, enquanto um Kitāb al-Amthāl que lhe foi atribuído em um catálogo de manuscritos corresponde na realidade ao Kitāb al-Amthāl de Hâmeza Alisfaani.

Bibliografia

Categoria:Manzicerta Categoria:Turcos do século IX Categoria:Pessoas do Califado Abássida Categoria:Escritores do Alandalus