A Batalha de Uaridate ou Dia de Uaridate () foi um dos principais combates da Guerra de Albaçus, conflito da Arábia pré-islâmica travado entre os taglibitas e os becritas, dois grupos pertencentes aos rebiaítas. Segundo a tradição preservada no Kitab al-Aghani, ocorreu depois do Dia de Unaiza, após um período sem combates entre os dois grupos, e terminou numa vitória dos taglibitas, que infligiram grandes perdas aos adversários. Ibne Abede Rabi igualmente apresenta Uaridate como uma vitória taglibita acompanhada por grande mortandade entre os becritas.

Entre os episódios mais destacados do combate figura a morte de Bujair ibne Alharite pelas mãos do chefe taglibita Almualhil. Uma das versões preservadas no Kitab al-Aghani afirma que Inru Alcaice ibne Abane tentou dissuadir Almualhil de matá-lo, mas este recusou e declarou que a vida de Bujair constituía apenas compensação pela correia da sandália de seu irmão Culaibe ibne Rebia. As tradições associam também a Uaridate a morte de Hamame ibne Murra, irmão de Jassas e antigo companheiro de Almualhil. Ibne Abede Rabi e Maomé ibne Habibe atribuem sua morte no combate ao taglibita Naxira ibne Aguate, embora outras versões preservadas no Kitab al-Aghani a situem posteriormente ou atribuam seu assassinato ao próprio Almualhil.

A morte de Bujair adquiriu particular importância nas tradições sobre o desenvolvimento posterior da guerra. Segundo Almaidani, Alharite ibne Ubade, que até então permanecera afastado do conflito, decidiu participar das hostilidades depois de saber da declaração de Almualhil sobre a correia da sandália de Culaibe. A decisão foi associada a uma célebre composição na qual Alharite ordenava repetidamente que lhe aproximassem sua égua Anama (al-Naʿāma), após o que teria assumido a liderança dos becritas na guerra. O confronto deixou ainda numerosos vestígios na tradição poética da Guerra de Albaçus: Uaridate e a morte de Bujair são mencionados diretamente numa cássida atribuída a Almualhil, enquanto a intervenção de Alharite foi igualmente celebrada na poesia atribuída ao chefe becrita. A localização de Uaridate apresenta dificuldades: Iacute Alhamaui registra um lugar desse nome próximo de Sumaira, enquanto o geógrafo Ḥamad al-Jāsir distingue essa localidade daquela associada à Guerra de Albaçus, que situa na Alta Négede.

Antecedentes

A Guerra de Albaçus foi um conflito da Arábia pré-islâmica travado entre os taglibitas e os becritas, grupos aparentados pertencentes aos rebiaítas. Segundo as tradições árabes, sua origem esteve ligada à morte do chefe taglibita Culaibe ibne Rebia, cuja posição entre as tribos teria sido acompanhada pela imposição de restrições ao acesso a áreas de pastagem e pontos de água. Um dos episódios associados ao agravamento das tensões envolveu Sarabi, uma camela cuja propriedade varia segundo as fontes e que teria sido morta ou ferida por Culaibe depois de entrar numa área reservada por ele. A afronta atingiu Albaçus binte Munquide, tia materna do becrita Jassas ibne Murra, e os versos de lamento que lhe são atribuídos foram tradicionalmente interpretados como uma incitação para que o sobrinho reagisse. Jassas posteriormente matou Culaibe, embora as fontes preservem versões diferentes das circunstâncias do assassinato e relacionem o confronto tanto ao episódio da camela quanto às disputas sobre pastagens e águas. A morte de Culaibe deu início a uma sucessão de vinganças entre becritas e taglibitas que ficou conhecida como Guerra de Albaçus. Entre os principais dirigentes taglibitas durante o conflito figurou Almualhil, irmão de Culaibe, cuja poesia preservou referências a diferentes combates travados durante a guerra.

Localização

Iacute Alhamaui, no Muʿjam al-buldān, registra Uaridate (Wāridāt) como um lugar situado à esquerda da estrada para Meca para quem se dirigia à cidade. Citando Abu Ubaide Açacuni, afirma que Arrabai (al-Rabāʾiʿ) ficava à esquerda de Sumaira (Sumayrāʾ) e Uaridate à sua direita e que os acidentes geográficos da região apresentavam coloração escura, circunstância à qual relaciona o nome de Sumaira. Na mesma entrada, menciona expressamente o Dia de Uaridate como um combate conhecido entre becritas e taglibitas, no qual teria morrido Bujair ibne Alharite. O geógrafo moderno Ḥamad al-Jāsir distingue, contudo, diferentes lugares chamados Uaridate. Ao tratar da localidade mencionada por Iacute, identifica um monte chamado Uaridate ao norte de Sumaira, a cerca de 160 quilômetros a sudeste de Hail. Em seguida, distingue expressamente dessa localidade outra Uaridate mencionada nos relatos da Guerra de Albaçus, que situa na Alta Négede.

Batalha

Segundo a tradição preservada no Kitab al-Aghani, depois do Dia de Unaiza os becritas e taglibitas permaneceram algum tempo sem combater até voltarem a se enfrentar no Dia de Uaridate. O confronto terminou com uma vitória dos taglibitas, que infligiram grandes perdas aos becritas. Entre os mortos estava Bujair, cuja morte é atribuída a Almualhil. Uma versão mais circunstanciada preservada na mesma obra apresenta Bujair como o primeiro cavaleiro encontrado por Almualhil em Uaridate. Inru Alcaice ibne Abane, que comandava a vanguarda taglibita, tentou dissuadi-lo de matar Bujair, advertindo-o de que o jovem pertencia a uma família que permanecera afastada da guerra e que sua morte seria vingada. Almualhil não lhe deu ouvidos e matou Bujair, declarando que sua vida constituía apenas compensação pela correia da sandália de Culaibe ibne Rebia; segundo a narrativa, Bujair respondeu que, se os seus parentes aceitassem essa equivalência, ele próprio também a aceitaria. Ibne Abede Rabi também apresenta Uaridate como uma vitória taglibita acompanhada por grande mortandade entre os becritas. Entre os mortos, menciona Xatame e Abede Xemece, filhos de Moáuia ibne Amir ibne Dul ibne Talaba, conjuntamente chamados de Axatamanes, e Saiar ibne Alharite ibne Saiar. A mesma tradição inclui entre os mortos Hamame, irmão germano de Jassas.

As tradições divergem, contudo, quanto às circunstâncias e mesmo ao combate em que Hamame morreu. Ibne Abede Rabi atribui sua morte em Uaridate ao taglibita Naxira ibne Aguate e relata que Almualhil, ao passar pelo cadáver do antigo companheiro, declarou que, depois de Culaibe, nenhum dos mortos lhe era mais caro. Maomé ibne Habibe preserva uma narrativa mais circunstanciada que igualmente situa sua morte em Uaridate. Segundo seu relato, Hinde binte Moáuia, mãe de Naxira e protegida de Hamame, pretendera matar o filho recém-nascido por não possuir meios para sustentá-lo, mas Hamame impediu-a e forneceu-lhe uma escrava, uma camela leiteira e um camelo de montaria. Durante Uaridate, Hamame saiu para fornecer água e leite aos seus companheiros, quando Naxira o avistou, aproximou-se furtivamente e o matou com uma lança, fugindo depois para junto dos seus parentes. A tradição atribui a Hinde versos nos quais lamentava as consequências da morte de Hamame para os órfãos. Outra tradição preservada no Kitab al-Aghani desloca, porém, a morte de Hamame para um confronto posterior. Segundo Mucatil, depois de Uaridate ocorreu o Dia de Alhinu e, posteriormente, o de Alcuçaibate, no qual Hamame teria sido morto. Outra narrativa conservada na mesma obra separa igualmente as mortes de Bujair e Hamame no tempo: depois de relatar a morte do primeiro em Uaridate, afirma que transcorreu algum tempo antes de Almualhil encontrar Hamame e matá-lo.

Poesia

Uaridate é mencionado diretamente na poesia atribuída a Almualhil. Na longa cássida preservada por Ibne Abede Rabi sobre os confrontos da Guerra de Albaçus, o poeta recorda a morte de Bujair, afirmando tê-lo deixado ensanguentado em Uaridate e relacionando sua morte aos Banu Ubade:

Os versos integram a mesma composição na qual Almualhil evoca diferentes episódios da guerra e recorda aos becritas as derrotas sofridas diante dos taglibitas. A associação entre os versos e o confronto é preservada também por Almubarrade, que identifica Bujair como filho de Alharite e afirma que este se mantivera afastado da guerra. Segundo sua narrativa, Bujair participou ao lado de seu povo do Dia de Uaridate, descrito como um dos confrontos célebres entre as duas tribos, foi capturado e morto por Almualhil. A passagem foi igualmente comentada por Alcali, que, depois de reproduzir o verso referente a Uaridate, identifica Bujair como filho de Alharite ibne Ubade e atribui sua morte a Almualhil. Segundo a tradição que preserva, Alharite inicialmente considerou a morte do filho um possível meio de reconciliação entre Becre e Taglibe, mas sua atitude mudou quando soube da declaração depreciativa atribuída a Almualhil sobre o valor da morte de Bujair.

A tradição associa à decisão de Alharite uma composição na qual lamenta Bujair, recorda sua anterior recusa em participar da guerra e repetidamente ordena que lhe aproximem sua égua Anama (al-Naʿāma). Segundo Durmuş, Alharite teria repetido mais de cinquenta vezes na cássida a expressão Qarribā marbaṭ al-Naʿāma minnī ("Aproximem de mim a montaria de Anama"). Como demonstração de sua determinação em obter vingança, teria cortado a cauda e os pelos da fronte da égua, gesto que, segundo a mesma tradição, posteriormente se tornou costume entre os antigos árabes. Ibne Alatir descreve Anama como uma égua sem igual em seu tempo e afirma que, depois de montá-la, Alharite assumiu a liderança dos becritas e passou a combater ao lado deles.

Rescaldo

A morte de Bujair foi associada pelas tradições à entrada de Alharite na Guerra de Albaçus. Segundo a tradição preservada por Almaidani, Alharite havia permanecido afastado do conflito por considerar que os becritas haviam cometido a injustiça inicial contra os taglibitas e enviou Bujair a Almualhil com uma mensagem na qual afirmava que a vingança pela morte de Culaibe já havia sido satisfeita. Ao receber inicialmente a notícia de que Bujair fora morto, Alharite teria reagido com resignação e declarado que sua morte seria bem empregada caso seu sangue servisse para reconciliar Becre e Taglibe. Sua atitude mudou quando soube que Almualhil afirmara ter matado Bujair apenas em compensação pela correia da sandália de Culaibe. Alharite interpretou a declaração como uma humilhação e decidiu abandonar sua neutralidade e participar da guerra. Farrukh igualmente apresenta a morte de Bujair como o acontecimento que levou Alharite a abandonar sua posição anterior e entrar pessoalmente no conflito.

Bibliografia

Categoria:Batalhas do século V Categoria:Batalhas do século VI Categoria:Batalhas da Guerra de Albaçus