thumb|Tabela de correspondência dos alfabetos da língua tártara da Crimeia em latino (Jaꞑalif) e cirílico durante a transição para o cirílico, em 1938 Na União Soviética, a cirilização () foi uma campanha, do fim da década de 1930 à década de 1950, para substituir sistemas de escrita oficiais baseados no alfabeto latino (como o Jaꞑalif ou o Alfabeto Unificado do Norte), introduzidos durante o programa anterior de latinização, por novos alfabetos baseados no cirílico.
História Antecedentes O programa de cirilização não pode ser separado das mudanças de visão da liderança da União Soviética sob Josef Stalin em meados da década de 1930. Quando o líder passou a governar em termos absolutos, preocupava-se com o surgimento de grupos que pudessem se tornar seus inimigos, especialmente vindos do exterior, como a Turquia (que faz fronteira com a República Socialista Soviética do Azerbaijão). O país tinha "irmãos" na forma de povos turcos na União Soviética (como os turcomenos e os azeris). Além disso, vários emigrantes antissoviéticos que ali se estabeleceram, como os do Musavat, do Azerbaijão, escreviam em turco (que utilizava o alfabeto latino desde 1928), que, na percepção soviética, não era muito diferente da língua azeri na União Soviética (que também utilizava o alfabeto latino desde o início da década de 1920).
No mesmo período, a prática da korenizatsiya (indigenização) foi oficialmente encerrada; em seu lugar, o governo soviético passou a enfatizar as vantagens culturais e linguísticas da língua russa como uma "língua progressista" e a "língua oficial da revolução", ao passo que todos os países socialistas precisariam utilizar apenas o russo por ser uma "língua completa". No discurso ideológico do Partido Comunista, afirmava-se que, como as diversas línguas e culturas estavam se desenvolvendo bem e pacificamente, era chegada a hora de essas culturas se unirem numa só nação, a nação soviética, que usaria uma única língua, o russo (teoria jafética). Com isso, esperava-se que os soviéticos se tornassem um Homo sovieticus leal à liderança do Partido Comunista. Em sentido oposto, a cultura indígena passou a ser vista como "nacionalismo burguês", incompatível com o espírito do "internacionalismo proletário". O alfabeto latino, anteriormente utilizado em muitas línguas, passou também a ser considerado uma "escrita burguesa" que sustentava a opressão, de modo que os povos que o utilizavam seriam "difíceis de desenvolver em conjunto".
Na realidade, a preocupação dos formuladores de políticas soviéticos com a "separação" entre os povos que utilizavam línguas escritas em alfabeto latino e aqueles que utilizavam o cirílico já era debatida desde a década de 1920. Em 1929, por exemplo, Semyon Dimanstein, funcionário soviético da política de nacionalidades, criticou a política de latinização como um meio de "separar os povos turcos da Rússia".
Relacionava-se a isso o uso de duas línguas (o russo e outras línguas) que empregavam sistemas de escrita diferentes. Considerava-se que o uso de alfabetos latinos, incentivado desde a década de 1920, dificultava o aprendizado da língua russa pelos povos não russos. Segundo uma declaração apresentada por uma das seções do PCUS: [Os estudantes]... agora precisam familiarizar-se simultaneamente com dois sistemas de escrita completamente diferentes num período relativamente curto, frequentemente confundindo as letras de uma escrita com as de outra.Докладная записка Ямальского (Ненецкого) окружкома Омскому обкому ВКП(б) о переводе ненецкого латинизированного алфавита на русскую основу. Цитируется по: Судьбы народов Обь-Иртышского Севера. Тюмень, 1994
Com a transição para o cirílico, esperava-se que os povos não russos pudessem aprender russo com mais facilidade. Turcólogos soviéticos, como Nikolai Baskakov, afirmavam que aprender o alfabeto cirílico era um grande instrumento para acelerar a assimilação dos não russos à cultura russa. Outro argumento sustentava que a transição para o cirílico não constituía uma "submissão" da cultura não russa à cultura russa, mas sim "a maneira mais racional" de desenvolver a cultura de uma região, uma forma de amizade com o povo russo e um sinal de unidade internacionalista para toda a população soviética.
Outro fator era a existência de diversas línguas que anteriormente já utilizavam escritas cirílicas, como chuvaxe, mari e as línguas mordóvias, para as quais a transição ao alfabeto latino era, na prática, ineficaz em razão da grande quantidade de literatura previamente escrita em cirílico. Fatores econômicos também tiveram influência, pois a impressão em dois alfabetos (cirílico e latino) era considerada ineficiente.
Embora muitos considerem que a transição do latino para o cirílico tenha ocorrido principalmente por fatores políticos, durante a campanha de cirilização fontes soviéticas argumentavam que fatores linguísticos também eram importantes para sustentar o processo. Por exemplo, alegava-se que a escrita cirílica representava melhor cada som que a escrita latina; alguns afirmavam que o cirílico era mais fácil de aprender; e outro argumento sustentava que o alfabeto latino não era adequado às línguas que seriam cirilizadas.
Processo A cirilização de muitas línguas começou em 1936–1937 e continuou até a década de 1950. Em geral, o processo foi precedido por campanhas e propaganda nos meios de comunicação soviéticos. Alegava-se, por exemplo, que entre os povos que escreviam suas línguas no alfabeto latino havia um "entusiasmo" pela mudança do sistema de escrita para o cirílico. Diversas declarações foram feitas para destruir a imagem do alfabeto latino; na República Socialista Soviética do Azerbaijão, por exemplo, dizia-se que aqueles que escreviam em alfabeto latino ou o promoviam eram portadores do espírito do panturquismo ou inimigos do povo, enquanto, na República Socialista Soviética Turcomena e na República Socialista Soviética Autônoma da Moldávia, aqueles que rejeitavam a mudança para o cirílico eram apresentados como "inimigos do povo, nacionalistas burgueses e agentes pró-trotskistas-bukharinistas".
A situação foi facilitada pelo Grande Expurgo, que ajudou os defensores do projeto de cirilização a eliminar aqueles considerados pró-latinização. O rígido controle do regime stalinista no fim da década de 1930 fez com que praticamente não houvesse discussão sobre a transição. Ainda assim, em todas as decisões oficiais relativas à passagem do latino ao cirílico, o governo soviético frequentemente afirmava que havia um "pedido direto do povo soviético" no processo — durante a transição da língua tártara, por exemplo, os soviéticos alegavam que a medida tinha apoio de "trabalhadores, intelligentsia e colcozianos tártaros", e, na língua turcomena, o processo começou com uma carta de apoio de um grupo de professores da cidade de Baýramaly.
A primeira língua cuja escrita foi alterada do latino para o cirílico foi a cabardina, em 1935–1936, seguida, em 1936, pelas línguas dos povos indígenas do Norte. Posteriormente, o projeto de cirilização foi aplicado a quase todas as línguas cuja escrita havia sido anteriormente latinizada, como cazaque, basquir e tártaro; em 1941, 60 das 67 línguas escritas da União Soviética já haviam sido cirilizadas. O projeto continuou na década de 1950, quando novas línguas foram cirilizadas, como curdo (1946) e dungan (1953). O processo de cirilização também atingiu Estados satélites soviéticos no início da década de 1940, como a Mongólia e a Tuva, em suas respectivas línguas oficiais (mongol e tuvano). No entanto, diversas línguas não passaram pelo processo, entre elas estoniano, letão, lituano, finlandês, georgiano, carélio, armênio e iídiche.
As línguas abcázia e osseta foram casos especiais: essas duas línguas não foram inicialmente cirilizadas, mas convertidas para o alfabeto georgiano; apenas na década de 1950 o abcázio e o osseta começaram a utilizar o cirílico. Algumas línguas que ainda não possuíam forma escrita durante o auge da campanha de latinização, como a gagaúza, também receberam posteriormente alfabetos baseados no cirílico.
Em geral, o processo de conversão para o cirílico em muitas línguas tendeu a ser apressado. Em quirguiz, basquir e usbeque, por exemplo, pouco depois de a nova ortografia dessas línguas ter sido oficialmente adotada, os parlamentos locais aprovaram decretos mudando o sistema de escrita do latino para o cirílico. Isso fez com que muitos dos novos alfabetos baseados no cirílico fossem implementados com pouca consideração pelas características específicas de cada língua. Segundo o turcólogo Baskakov, os alfabetos latinos anteriormente utilizados correspondiam melhor aos aspectos fonéticos das línguas turcomanas do que o cirílico. O desenvolvimento dos aspectos linguísticos das línguas recém-cirilizadas foi então dificultado por acontecimentos como a Segunda Guerra Mundial e pelos efeitos do Grande Expurgo, que eliminou as elites locais existentes. A publicação do dicionário tártaro-russo em alfabeto cirílico, por exemplo, só se tornou possível após a desestalinização, em meados da década de 1950.
Características Inicialmente, em quase todos os projetos dos novos alfabetos cirílicos, decidiu-se utilizar apenas as 33 letras do alfabeto russo, com o acréscimo de apóstrofos, dígrafos, trígrafos e tetrágrafos para as línguas não russas.Борыкъуей Т’ут’а. Буквар. — Налшык, 1936.Татар аьдяби телененъ алфавиты хъям орфографиясе. — Казан, 1938. No entanto, esse sistema mostrou-se muito inconveniente e não refletia a riqueza fonética de muitas línguas. Como resultado, letras adicionais foram introduzidas em diversos alfabetos (tártaro, cazaque, iacuto, etc.). Nas décadas de 1940 e 1950, em algumas línguas (por exemplo, altai), dígrafos também foram substituídos por letras adicionais.
Embora a propaganda soviética afirmasse que a mudança para o cirílico era melhor para as línguas afetadas, em muitos casos os novos alfabetos cirílicos não estavam bem adaptados às línguas. Na língua evenki, por exemplo, existem fonemas que não existem em russo, mas ainda assim eram escritos utilizando-se as letras russas já existentes, sem a criação de novas letras. Também se observa que, em várias línguas, alterações ortográficas foram posteriormente realizadas ou propostas, como no tártaro.
Efeitos Como mencionado anteriormente, a cirilização não pode ser separada do processo de russificação. Em geral, esse processo foi acompanhado por esforços para incorporar em grande escala palavras da língua russa às línguas não russas.
Há exemplos em muitas línguas turcomanas. Segundo uma estimativa, inicialmente apenas cerca de 25 a 40 palavras russas foram incorporadas, mas, no fim da década de 1960, milhares de palavras russas já haviam sido absorvidas, muitas delas de uso comum. Em contraste, a korenizatsiya era caracterizada por esforços para purificar as línguas locais de influências estrangeiras (nas línguas turcomanas, mediante a substituição de palavras árabes e persas tomadas por empréstimo). Nesse período, também houve tentativas de substituir palavras tomadas do persa e do árabe por palavras tomadas do russo; por exemplo, şura foi substituída por sovet, e cumhuriyet por respublika. Além disso, a grafia dessas novas palavras seguia a língua russa; por exemplo, a palavra russa , pronunciada com um V palatalizado, era grafada sovet em azeri com base na grafia russa, enquanto no turco, que não foi afetado pelas regras soviéticas de cirilização, adotou-se a grafia sovyet, que reflete o V palatalizado do original. O uso de uma grafia nativizada na língua iacuta é controverso.