A cirurgia cerebral ablativa é a ablação cirúrgica de tecido do cérebro por diferentes métodos para tratar determinados distúrbios neurológicos ou psicológicos. A palavra “ablação” deriva do latim ablatus, que significa "removido" ou "levado embora". Porém, em muitos procedimentos, eo tecido cerebral não é removido, mas destruido no próprio local. As destruições produzidas nesse caso são irreversíveis. Alguns núcleos cerebraispodem ser utilizados como alvo, tanto na cirurgia ablatica quanto na estimulação cerebral profunda. Os alvos incluem os núcleo motores do tálamo, o globo pálido e o núcleo subtalâmico.
Aplicações
Doença de Parkinson direita|miniaturadaimagem|333x333px|Um neuroestimulador, também conhecido como "marca-passo cerebral", implantado em um homem adulto como parte de uma cirurgia cerebral ablativa. A doença de Parkinson é uma doença degenerativa progressiva dos núcleos da base, caracterizada pela perda de neurônios dopaminérgicos da substância negra, pars compacta (SNc). A ablação cirúrgica tem sido utilizada no tratamento da doença de Parkinson. Na década de 1990, o globo pálido era um alvo cirúrgico comum. A palidotomia unilateral melhora o tremor e a discinesia em um lado do corpo (o lado oposto ao da cirurgia cerebral), entretanto, verificou-se que a palidotomia bilateral provocava deterioração irreversível da fala e da cognição.
Duas outras abordagens cirúrgicas que evoluíram rapidamente para o tratamento da doença de Parkinson são a estimulação cerebral profunda (ECP) e as terapias restaurativas.
A estimulação cerebral profunda consiste na implantação cirúrgica de um neuroestimulador, conhecido como "marca-passo cerebral", que envia impulsos elétricos para regiões específicas do cérebro. Em geral, a ECP é considerada preferível à cirurgia ablativa, pois produz efeitos semelhantes, além de ser ajustável e reversível.
O desenvolvimento da estimulação cerebral profunda representou um importante avanço no tratamento da doença de Parkinson. Ela pode ser utilizada no controle de tremores resistentes aos medicamentos ou de complicações motoras relacionadas ao tratamento farmacológico, beneficiando entre 4,5% e 20% dos pacientes em algum momento da evolução da doença. A estimulação em alta frequência frequentemente produz efeitos comportamentais semelhantes aos obtidos por meio das lesões ablativas.
Na Austrália, pacientes com doença de Parkinson são avaliados por equipes especializadas em estimulação cerebral profunda, que analisam os possíveis benefícios e riscos da técnica para cada indivíduo. O objetivo destas diretrizes é auxiliar neurologistas e clínicos gerais a identificar pacientes que possam se beneficiar do encaminhamento a uma equipe de ECP. Indicações comuns para encaminhamento incluem flutuações motoras e/ou discinesias não controladas adequadamente com terapia medicamentosa otimizada, tremor refratário a medicamentos e intolerância à terapia medicamentosa. Recomenda-se o encaminhamento precoce para avaliação da ECP assim que a terapia medicamentosa otimizada deixar de proporcionar controle motor satisfatório.
O tálamo constitui outro possível alvo cirúrgico para tratamento do tremor; em alguns países, também é utilizado o núcleo subtalâmico, embora isso não ocorra nos Estados Unidos devido aos seus efeitos adversos potencialmente graves. A estimulação ou lesão de regiões do tálamo tem sido utilizada para diversas condições psiquiátricas e neurológicas, sendo os núcleos motores do tálamo o principal alvo nos distúrbios do movimento. A talamotomia representa outra opção cirúrgica para a doença de Parkinson. Entretanto, mesmo quando bem-sucedida, ela não controla completamente a rigidez muscular, que costuma ser substituída por hipotonia. Além disso, podem ocorrer complicações importantes. Por exemplo, uma talamotomia ventrolateral esquerda em pacientes destros pode provocar piora da linguagem verbal, enquanto uma talamotomia direita pode causar déficits visuoespaciais. Para pacientes nos quais a ECP não é viável, a ablação do núcleo subtalâmico demonstrou ser segura e eficaz. A ECP não é indicada para determinados pacientes, como aqueles com imunodeficiência. Outro fator limitante é seu elevado custo, tornando sua realização inviável em muitas regiões menos favorecidas economicamente. Nesses casos, cria-se uma lesão permanente no núcleo subtalâmico, considerada uma alternativa cirúrgica mais acessível. A cirurgia costuma ser realizada no hemisfério cerebral não dominante, buscando evitar substituições frequentes do neuroestimulador. Pacientes que apresentam excelente resposta à estimulação, sem efeitos colaterais, e necessitam trocar o marca-passo cerebral podem optar pela realização de uma lesão permanente na mesma região. Os parâmetros utilizados durante a estimulação servem como referência para determinar o tamanho ideal da lesão. Para identificar com maior precisão a região cerebral que será destruída, foram desenvolvidas novas técnicas, como o mapeamento por microelétrodos.
Cefaleias em salvas As cefaleias em salvas ocorrem em padrões cíclicos ou em salvas, o que dá nome à condição. A cefaleia em salvas é um dos tipos mais dolorosos de dor de cabeça. Crises frequentes de cefaleia em salvas podem durar de semanas a meses. Tentativas foram feitas para tratar a cefaleia em salvas por meio da ablação do nervo trigêmeo, porém os resultados não foram muito eficazes. Outros tratamentos cirúrgicos para cefaleia em salvas estão atualmente em investigação.
Transtornos psiquiátricos A psicocirurgia ablativa continua sendo utilizada em alguns centros de diversos países. Nos Estados Unidos, existem alguns centros, incluindo o Hospital Geral de Massachusetts, que realizam procedimentos de psicocirurgia ablativa.Massachusetts General Hospital Functional and Stereotactic Neurosurgery Center . Bélgica, Reino Unido, e Venezuela são outros exemplos de países onde essa técnica ainda é empregada. Na República Popular da China, a ablação cirúrgica foi utilizada para tratar transtornos psicológicos e neurológicos, especialmente a esquizofrenia, mas também depressão clínica e transtorno obsessivo-compulsivo.
Posteriormente, a agência oficial de notícias Xinhua informou que o Ministério da Saúde da China proibiu o procedimento para o tratamento da esquizofrenia e restringiu severamente sua aplicação para outras condições. Em estudos mais recentes, a estimulação cerebral profunda (ECP) vem começando a substituir a cirurgia cerebral ablativa no tratamento de transtornos psiquiátricos graves, geralmente resistentes às terapias convencionais, como o transtorno obsessivo-compulsivo.
Métodos A ablação experimental envolve a perfuração de orifícios no crânio de um animal e a inserção de um eletrodo ou de um pequeno tubo, denominado cânula, no cérebro por meio de um aparelho estereotáxico. Uma lesão cerebral pode ser criada conduzindo corrente elétrica através do eletrodo, o que danifica a área-alvo do cérebro. Da mesma forma, substâncias químicas podem ser introduzidas pela cânula, causando danos à região de interesse. Comparando o comportamento do animal antes e depois da lesão, o pesquisador pode prever a função do segmento cerebral danificado. Recentemente, os lasers demonstraram ser eficazes na ablação tanto do tecido cerebral quanto do cerebelo. Uma tecnologia a laser chamada ablação a laser guiada por ressonância magnética, por exemplo, permite grande precisão na localização e no tamanho da lesão, causando pouco ou nenhum dano térmico aos tecidos adjacentes. O Hospital Infantil do Texas foi um dos primeiros a utilizar esse método guiado por ressonância magnética para destruir e tratar lesões cerebrais de forma eficaz e precisa. Um exemplo notável é o de um paciente desse hospital que deixou de apresentar crises convulsivas frequentes devido ao sucesso desse tratamento. A ablação a laser guiada por ressonância magnética também é utilizada para tratar tumores no cérebro, na próstata e no fígado. O aquecimento e o congelamento também são métodos alternativos empregados na cirurgia cerebral ablativa.
Lesões simuladas Uma lesão simulada é um método utilizado por pesquisadores para produzir uma lesão placebo em animais submetidos à ablação experimental. Sempre que uma cânula ou um eletrodo é inserido no tecido cerebral, ocorre um dano adicional não intencional causado pelo próprio instrumento. A lesão simulada consiste simplesmente na inserção do instrumento de lesão exatamente no mesmo local onde seria colocado em uma lesão convencional, porém sem a aplicação de qualquer procedimento químico ou elétrico. Essa técnica permite que os pesquisadores comparem adequadamente os resultados com um grupo-controle apropriado, controlando os danos provocados apenas pela inserção do instrumento, independentemente da lesão planejada.
Lesões excitotóxicas Uma lesão excitotóxica consiste na injeção de um aminoácido excitatório no cérebro por meio de uma cânula. O aminoácido é utilizado para destruir neurônios, estimulando-os de forma excessiva até sua morte. O ácido caínico é um exemplo de aminoácido excitatório empregado nesse tipo de lesão. Uma vantagem importante desse método é sua especificidade. As substâncias químicas são seletivas, pois não danificam os axônios dos neurônios vizinhos, afetando apenas os neurônios-alvo.
Lesões por radiofrequência As lesões por radiofrequência são produzidas por eletrodos inseridos no tecido cerebral. A corrente de radiofrequência é uma corrente alternada de frequência muito elevada. Quando essa corrente atravessa o tecido, produz calor suficiente para destruir as células da região ao redor da ponta do eletrodo. Diferentemente das lesões excitotóxicas, as lesões por radiofrequência destroem todos os tecidos localizados nas proximidades da ponta do eletrodo. O uso de cirurgia ablativa no núcleo accumbens é o método errado para tratar vícios, além de poder fornecer informações valiosas sobre como o núcleo accumbens funciona.
Ver também
Ablação (inteligência artificial), processo análogo usado em redes neurais artificiais. Psicocirurgia
Referências
Categoria:Neurociência Categoria:Cérebro Categoria:Doença de Parkinson