A Peregrinação de Despedida () foi a peregrinação à Meca realizada por Maomé em 10 A.H. (632), poucos meses antes de sua morte. Foi o único haje realizado por ele depois da Hégira de Medina segundo a tradição predominante preservada pelas fontes. Acompanhado por uma grande multidão de muçulmanos, Maomé percorreu a rota entre Medina e Meca e executou publicamente os ritos da peregrinação, permitindo que seus companheiros observassem diretamente sua maneira de realizá-los.
Durante a peregrinação, Maomé passou por lugares associados às principais etapas do haje, entre eles Mina, o monte Arafate e , realizando a circunvolução da Caaba, a permanência em Arafate, os apedrejamentos rituais e o sacrifício de animais. As tradições preservam numerosos pormenores acerca de seus atos e instruções durante essas etapas, incluindo decisões sobre a ordem dos ritos e a execução da peregrinação. Em diferentes momentos do percurso, particularmente em Arafate e Mina, Maomé também pronunciou discursos posteriormente associados ao Sermão de Despedida, nos quais abordou questões religiosas, sociais e jurídicas, como a inviolabilidade da vida e dos bens, a abolição de práticas da Jailia, as relações entre homens e mulheres e a organização do calendário islâmico.
A peregrinação tornou-se uma referência para a prática islâmica do haje e recebeu sua denominação tradicional em razão do caráter de despedida atribuído aos pronunciamentos de Maomé e de sua morte ainda em 632. Durante os discursos, advertiu os presentes de que talvez não voltasse a encontrá-los naquele lugar e pediu que suas palavras fossem transmitidas aos ausentes. Embora tenha se difundido a designação Peregrinação de Despedida, as fontes preservam também a denominação Peregrinação do Islã (Ḥajjat al-Islām), atribuída por uma tradição a Ibne Abas.
Antecedentes
Embora existam diferentes opiniões acerca da data em que o haje se tornou obrigatório para os muçulmanos, considera-se geralmente que isso ocorreu em 9 A.H. (631). Naquele ano, após regressar da Expedição de Tabuque, Maomé não dirigiu pessoalmente a peregrinação. Segundo uma das tradições transmitidas para explicar sua ausência, a prática pré-islâmica do , pela qual se modificava a posição dos meses sagrados no calendário, faria com que a peregrinação daquele ano fosse realizada antes de sua época própria, no mês de Dulcada. Maomé confiou então a direção da peregrinação a Abu Becre. A abolição do naci foi posteriormente associada aos versículos 36–37 da sura at-Tawbah, que reafirmaram o número de doze meses do ano e condenaram a alteração dos meses sagrados. Outra explicação transmitida para a ausência de Maomé na peregrinação de 9 A.H. relaciona-a à permanência de práticas pré-islâmicas no santuário de Meca, entre elas a presença de politeístas e o costume de alguns peregrinos realizarem nus a circunvolução da Caaba. Naquele ano, Ali foi enviado para anunciar que, depois daquela peregrinação, os politeístas não poderiam continuar realizando o haje e que ninguém poderia circunvolver a Caaba nu. No ano seguinte, 10 A.H. (632), Maomé anunciou sua intenção de realizar o haje. A notícia atraiu a Medina numerosos muçulmanos que desejavam acompanhá-lo e aprender diretamente sua maneira de executar os ritos. As fontes fornecem números divergentes para os participantes, mencionando cerca de 100, 114 ou 124 mil pessoas, além de estimativas ainda maiores. A peregrinação assumiu particular importância por constituir a primeira ocasião em que Maomé realizou o haje diante de uma multidão dessa dimensão, permitindo-lhe demonstrar os ritos e transmitir instruções aos participantes.
Viagem a Meca
Maomé partiu de Medina em 25 de Dulcada de 10 A.H. (22 de fevereiro de 632), acompanhado por suas esposas e por um grande número de muçulmanos. A primeira etapa foi , local situado nas proximidades de Medina que servia como micate para os peregrinos provenientes da cidade. Maomé permaneceu ali durante a noite enquanto seus companheiros e os animais destinados ao sacrifício se reuniam. Segundo Aluaquidi, vestiu duas peças de tecido e, depois de realizar a oração, marcou os animais destinados ao sacrifício no lado direito e adornou-os com sandálias. Em Dul Hulaifa, Maomé declarou formalmente sua intenção de realizar a peregrinação e pronunciou a , sendo acompanhado pelos peregrinos. As tradições divergem acerca da modalidade de peregrinação que pretendia realizar e do momento exato em que pronunciou a talbia, divergências que posteriormente estiveram relacionadas às discussões jurídicas sobre o haje de tipo ifrade, quirane e tamatu. Após deixar Dul Hulaifa, a comitiva seguiu pela estrada de Meca, enquanto novos grupos de peregrinos se juntavam a ela ao longo do percurso. A viagem prosseguiu por sucessivas etapas da rota entre Medina e Meca. A comitiva passou por Aljufa, Cudaide, Usfã e , antes de alcançar Marre Azarã. Aluaquidi preserva uma cronologia particularmente detalhada da parte final do trajeto: Maomé esteve em Cudaide no sábado, chegou a Usfã no domingo, passou posteriormente por Algamim e alcançou Marre Azarã na segunda-feira.
Arafate e Musdalifa
Na manhã de 9 de Dulrija, depois de realizar a oração da alvorada em Mina e aguardar o nascer do sol, Maomé partiu em direção ao monte Arafate. Passou por sem se deter e estabeleceu-se em Nâmira, onde uma tenda havia sido preparada para ele. A escolha de Arafate tinha também significado em relação às práticas da Jailia. Os coraixitas costumavam permanecer em Musdalifa durante a peregrinação, enquanto os demais árabes seguiam até Arafate. Segundo Aluaquidi, Maomé afirmou que já realizava a parada em Arafate antes mesmo do início de sua missão profética, em desacordo com a prática dos coraixitas. Depois do meio-dia, Maomé deixou Nâmira montado em sua camela, Caçuá, e dirigiu-se ao vale de , onde se dirigiu aos peregrinos. Após o discurso, Bilal ibne Rabá pronunciou o chamado à oração, e Maomé realizou sucessivamente as orações do meio-dia e da tarde, com um chamado à oração e duas icamas. Em seguida, dirigiu-se ao local da parada em Arafate, onde permaneceu voltado para a direção da oração até o pôr do sol.
Após o pôr do sol, Maomé deixou Arafate em direção a Musdalifa, recomendando aos peregrinos que avançassem com tranquilidade. Ao chegar, realizou conjuntamente as orações do pôr do sol e da noite e permaneceu ali durante a noite. A tradição transmitida por Aluaquidi diverge quanto à forma precisa dessa combinação: uma versão menciona uma única icama, enquanto outra registra um adã e duas icamas. Antes da alvorada, Maomé permitiu que pessoas consideradas vulneráveis, entre elas mulheres e crianças, partissem antecipadamente de Musdalifa em direção a Mina. Depois de realizar a oração da alvorada, permaneceu na região de , nas proximidades do local conhecido como , até que o dia clareasse. Partiu antes do nascer do sol e, no caminho para Mina, atravessou rapidamente o vale de .
Sacrifício e permanência em Mina
Ao aproximar-se de Mina na manhã de 10 de Dulrija, Maomé dirigiu-se à , levando consigo seixos provenientes de Musdalifa. Ao alcançar a jamarate, lançou sete pedras enquanto permanecia montado em sua camela e encerrou a talbia com o apedrejamento. Em seguida, Maomé dirigiu-se ao local destinado ao sacrifício em Mina. Segundo Aluaquidi, declarou que toda Mina constituía lugar apropriado para o sacrifício e abateu pessoalmente 63 animais. Uma porção de cada animal sacrificado foi então colocada numa panela, e Maomé comeu da carne e bebeu do caldo. As tradições relativas à peregrinação registram um total de cem animais destinados ao sacrifício, formado pelos que Maomé havia levado de Medina e pelos trazidos por Ali do Iêmem. Concluído o sacrifício, Maomé raspou a cabeça e deixou o estado de irame. Aluaquidi reúne diferentes tradições acerca do corte dos cabelos, segundo as quais eles foram distribuídos entre os presentes e parte dos companheiros raspou a cabeça, enquanto outros apenas encurtaram os cabelos. Maomé teria invocado três vezes uma bênção sobre aqueles que rasparam a cabeça e, depois de solicitado pelos presentes, incluiu também aqueles que apenas a apararam. Uma das tradições acrescenta que cortou o bigode, aparou a barba e as unhas e, depois desses procedimentos, perfumou-se e vestiu sua roupa.
Depois do corte dos cabelos, Maomé respondeu a dúvidas acerca da ordem em que alguns peregrinos haviam executado os ritos do dia. Aluaquidi registra o caso de um homem que afirmou ter raspado a cabeça antes de realizar o sacrifício e recebeu a instrução de prosseguir com o sacrifício sem preocupação; outro declarou ter sacrificado antes de realizar o apedrejamento e foi igualmente instruído a completar o rito restante. Maomé também mandou anunciar aos peregrinos que aqueles eram dias destinados à alimentação, à bebida e à lembrança de Deus. Depois dirigiu-se a Meca, onde realizou a deambulação da Caaba. Durante esse rito permaneceu montado, de modo que os peregrinos pudessem vê-lo e dirigir-lhe perguntas. Também saudou a Pedra Negra com um bastão e bebeu água do Poço de Zenzem. Aluaquidi relata que Maomé ordenou que lhe enchessem um balde em Zenzem, do qual bebeu e derramou água sobre a cabeça. Depois retornou a Mina, onde permaneceu durante os dias seguintes e realizou os demais apedrejamentos rituais.
Últimos dias e retorno a Medina
thumb|300px|Ilustração anônima de Os Vestígios dos Séculos Passados, de Albiruni, representando Maomé proibindo o naci durante a Peregrinação de Despedida; cópia otomana do de um manuscrito do XIV (Ilcanato) (códice de Edimburgo)
Maomé permaneceu em Mina durante os dias seguintes ao sacrifício, realizando os apedrejamentos rituais das jamarates. As pedras eram lançadas depois que o sol ultrapassava o meridiano, começando pela jamarate menor, seguida pela intermediária e pela Jamarate Alacaba. Aluaquidi registra ainda concessões feitas durante esses dias: os pastores receberam permissão para passar a noite fora de Mina, a fim de cuidar dos rebanhos, e aqueles que necessitassem poderiam realizar o apedrejamento durante a noite. Suas esposas figuram entre aqueles que realizaram o apedrejamento durante a noite. Concluídos os ritos em Mina, Maomé deixou o local e dirigiu-se novamente às proximidades de Meca. Antes da partida definitiva, Aixa manifestou o desejo de realizar uma unra, pois sua menstruação a impedira de completar os ritos da mesma maneira que alguns dos demais peregrinos quando da chegada a Meca. Maomé enviou-a então, acompanhada de seu irmão , a , nos limites do santuário, de onde ela assumiu novamente o estado de irame e realizou a unra. A partida chegou a ser momentaneamente condicionada também à situação de Safia binte Huiai, que havia menstruado. Maomé perguntou se isso impediria a comitiva de partir, mas, ao ser informado de que ela já havia realizado os ritos necessários, concluiu que sua condição não retardaria a viagem.