Adelheid Luise "Adele" Spitzeder (; 9 de fevereiro de 1832 – 27 ou 28 de outubro de 1895), também conhecida por seu nome artístico Adele Vio, foi uma atriz, cantora popular e estelionatária alemã. Inicialmente uma jovem atriz promissora, Spitzeder tornou-se uma conhecida banqueira privada em Munique quando seu sucesso no teatro começou a declinar. Operando o que possivelmente foi o primeiro esquema Ponzi registrado, ela oferecia altos retornos sobre os investimentos, utilizando continuamente o dinheiro de novos investidores para pagar os anteriores. No auge de seu sucesso, fontes contemporâneas a consideravam a mulher mais rica da Baviera.
Ao abrir seu banco em 1869, Spitzeder conseguiu resistir durante alguns anos às tentativas de desacreditá-la, até que as autoridades conseguiram levá-la a julgamento em 1872. Como os esquemas Ponzi ainda não eram ilegais, ela foi condenada por irregularidades contábeis e administração indevida do dinheiro dos clientes, recebendo uma pena de três anos de prisão. Seu banco foi fechado, e 32.000 pessoas perderam 38 milhões de florins, valor equivalente a quase 400 milhões de euros em valores de 2017, provocando uma onda de suicídios. Sua fortuna pessoal, composta por obras de arte e dinheiro, foi confiscada.
Após sua libertação da prisão em 1876, Spitzeder viveu às custas de benfeitores e tentou, sem sucesso, voltar a atuar em Altona e Berlim. Deixou a Alemanha rumo a Viena, mas a polícia local impediu que ela obtivesse um contrato para atuar. Retornou então a Munique em 1878 para publicar suas memórias. Em 1880, foi novamente presa por tentar abrir um novo banco sem as autorizações necessárias, mas posteriormente foi libertada sem ser acusada. Spitzeder passou a se apresentar como cantora popular, vivendo às custas de amigos e benfeitores, mas nunca abandonou completamente sua vida criminosa, o que resultou em novos julgamentos e períodos de encarceramento. Morreu de parada cardíaca em 27 ou 28 de outubro de 1895, em Munique.
Spitzeder nunca se casou, mas manteve vários relacionamentos com mulheres. Publicamente, cultivava a imagem de uma mulher cristã piedosa que ajudava os pobres, o que contribuiu para o sucesso de seus negócios. Primeiros anos Adelheid Luise Spitzeder nasceu em 9 de fevereiro de 1832, em Berlim. Seus pais eram os atores e cantores Josef Spitzeder e Elisabeth "Betty" Spitzeder-Vio. Ela tinha seis meio-irmãos do primeiro casamento de seu pai com Henriette Schüler. Seus pais se conheceram em Berlim, onde ambos estavam contratados pelo Königsstädtisches Theater, Josef como diretor e Betty como atriz; eles se casaram em 1831. Naquele mesmo ano, ele se apresentou como convidado no Teatro Nacional de Munique, recebendo elogios da crítica. O rei Ludwig I ofereceu a ele e à esposa um salário anual de 6.000 florins caso aceitassem um contrato permanente no Teatro Nacional, o que levou a família a se mudar para Munique. Quando Josef Spitzeder morreu repentinamente em 13 de dezembro de 1832, Ludwig I concordou em ajudar Betty pagando pela educação dos filhos. Betty então se casou com Franz Maurer e, em 1840, conseguiu um contrato no Carltheater, em Viena, onde Spitzeder frequentou uma Höhere Mädchenschule dirigida pela ordem das Ursulinas; após um ano, ingressou no internato do convento. Em 1844, ela e sua mãe voltaram para Munique, onde a família vivia com os meio-irmãos e primos de Spitzeder. Aos 16 anos, ela frequentou uma escola renomada dirigida por Madame Tanche. Depois de deixar a escola de Tanche, recebeu aulas particulares de línguas estrangeiras, composição musical e piano.
Carreira como atriz miniaturadaimagem|Spitzeder como jovem atriz ()|alt=Uma jovem com cabelos pretos presos para cima, olhando severamente Desejando seguir os passos de seus pais e contrariando a vontade de sua mãe, Spitzeder estudou com as atrizes de Munique Konstanze Dahn e Charlotte von Hagn. Em 1856 ou 1857, estreou no Hofbühne, em Coburgo, recebendo grande aclamação por interpretar Debora e Maria Stuart. Em suas memórias, afirmou que o duque de Coburgo e o duque de Württemberg elogiaram seu talento. Como não havia vagas em Coburgo, deixou o Hofbühne e conseguiu um contrato em Mannheim, antes de retornar a Munique para alguns papéis como convidada no Teatro Nacional. Embora lhe tenham oferecido um contrato para atuar ali, ela sabia que, devido à forte concorrência, receberia apenas papéis secundários e, por isso, decidiu trabalhar no teatro de Brno. Segundo sua autobiografia, seu sucesso ali provocou conflitos com os demais atores, o que a levou a deixar o contrato após seis meses por motivos de saúde. Em seguida, retornou a Munique por seis meses para se recuperar. Apesar da insistência de sua mãe, voltou a atuar em Nuremberg, onde permaneceu contratada por um ano. Depois disso, atuou em Frankfurt, Berna, Zurique, Mogúncia e Karlsruhe. Depois de retornar a Munique para visitar sua mãe, recebeu uma oferta para atuar em Pest, com salário anual de 3.000 florins, que recusou a pedido de sua mãe. Sua mãe ofereceu-lhe uma pensão vitalícia de 50 florins por mês caso recusasse o emprego. Ainda assim, aceitou um último contrato em Altona. Durante um de seus contratos, conheceu Emilie Stier, cujo nome artístico era Branizka, uma atriz com quem logo iniciou um relacionamento amoroso.
Apesar dos diversos contratos ao longo de muitos anos, ela não conseguiu alcançar sucesso duradouro nos palcos. A fonte contemporânea Der Neue Pitaval reconhecia que ela possuía o talento necessário, mas atribuía sua falta de sucesso à sua aparência. Em sua biografia de Spitzeder, Julian Nebel cita um contemporâneo que a descreveu como tendo um "rosto quadrado, pouco bonito, com traços grosseiros, do qual sobressai um nariz longo e largo; a boca é larga, o queixo pontudo,...os olhos cinzentos difíceis de interpretar, uma verdadeira sapatão".: "Ein wenig schönes, eckiges Gesicht mit groben Zügen, aus dem eine lange, breitflügelige Nase hervorsteht; breit ist der Mund, spitz das Kinn, die grauen Augen von schwer zu bedeutendem Ausdruck, ein richtiges Mannsweib."
Incapaz de restringir seu estilo de vida, começou a viver às custas de seus credores e acumulou dívidas significativas em Hamburgo e Zurique enquanto trabalhava nessas cidades. Em 1868, retornou a Munique com sua namorada Emilie para aguardar ofertas de trabalho de agentes teatrais, mas não recebeu nenhuma que lhe interessasse. Desanimada e sem dinheiro, tinha apenas a pensão de 50 florins concedida por sua mãe para sobreviver. O dinheiro, porém, não era suficiente para custear seu estilo de vida, que incluía morar em hotéis e hospedarias com sua namorada e seis cães. Spitzedersche Privatbank miniaturadaimagem|alt=Spitzeder representada como uma mulher de aparência severa, usando um vestido comprido, com uma grande cruz no peito e um bilhete na mão esquerda|Desenho de Spitzeder na edição de 15 de março de 1873 de Harper's Weekly
Spitzeder logo precisou pedir dinheiro emprestado a agiotas para manter seu estilo de vida. No final de 1869, conheceu a esposa de um carpinteiro no bairro de Au, em Munique, então uma das áreas mais pobres da cidade. Depois de conquistar sua confiança, Spitzeder afirmou conhecer alguém que pagaria à mulher um rendimento de 10% ao mês sobre seus investimentos. A mulher entregou-lhe 100 florins e recebeu imediatamente 20 florins, correspondentes aos rendimentos de dois meses, com a promessa de receber outros 110 florins dentro de três meses. Segundo um relato contemporâneo publicado no Harper's Weekly, Spitzeder também colocou um anúncio no principal jornal da cidade, o Münchner Neueste Nachrichten, solicitando um empréstimo de 150 florins com a promessa de pagar 10% de juros após dois meses. Outra fonte contemporânea, um artigo de 1872 do Münchner Neueste Nachrichten que citava sua acusação, afirma que suas primeiras atividades de empréstimo de dinheiro começaram na primavera de 1869.
Crescimento dos negócios Os serviços bancários de Spitzeder rapidamente se tornaram assunto corrente nas comunidades mais pobres de Munique, graças à divulgação favorável por meio do boca a boca, e logo mais pessoas passaram a entregar-lhe suas economias. Em 1869, ela fundou oficialmente a Spitzedersche Privatbank. Como seus clientes eram em sua maioria trabalhadores dos arredores setentrionais de Munique, especialmente da cidade de Dachau, seu banco também passou a ser conhecido como "Dachauer Bank". Alguns agricultores venderam suas propriedades para viver apenas dos juros. Muitos cristãos das classes populares desconfiavam dos agiotas judeus e preferiam fazer negócios bancários com uma cristã, e ela logo precisou alugar cômodos adicionais em seu hotel para acomodar seus até quarenta funcionários. Uma de suas funcionárias era Rosa Ehinger, cuja beleza e charme Spitzeder utilizava para atrair homens jovens ao banco.
As práticas comerciais e a contabilidade de Spitzeder eram pouco convencionais e caóticas. O dinheiro era depositado em grandes sacos e em diversos armários. Seus funcionários, todos ou quase todos sem treinamento em contabilidade, regularmente simplesmente retiravam dinheiro, enquanto a contabilidade se limitava a registrar os nomes dos depositantes e os valores que haviam depositado, muitas vezes assinados apenas com "XXX" por seus clientes analfabetos. Seu negócio dependia exclusivamente da aquisição de novos clientes em ritmo suficientemente rápido para pagar os clientes existentes com o dinheiro recém-obtido. Segundo algumas fontes, o seu foi o primeiro esquema Ponzi conhecido. Publicações contemporâneas em língua inglesa, como o Harper's Weekly, referiam-se a ele como o "golpe de Spitzeder". Em sua tese de doutorado, Hannah Davies relata o caso de Johann Baptist Placht, que em 1874 foi acusado de operar um esquema Ponzi em Viena, e observa que seus contemporâneos comparavam seu modelo de negócios ao de Spitzeder. Ao contrário de Placht e de outros fraudadores, Spitzeder nunca alegou investir o dinheiro e explicitamente não oferecia garantias, o que, paradoxalmente, levou os clientes a confiar ainda mais nela.
Em outubro de 1871, a proprietária do hotel onde ela vivia e trabalhava já não estava disposta a tolerar o fluxo de clientes. Spitzeder mudou-se para a casa no número 9 da Schönfeldstraße, próxima ao Englischer Garten, que comprou por 54.000 florins com o dinheiro de seus clientes. Incluindo os funcionários do banco, havia 83 pessoas trabalhando em sua casa, muitas das quais eram intermediários que recebiam uma comissão de 5% a 7% por cada novo cliente. Ela logo expandiu seus negócios e começou a comprar e vender casas e terrenos por toda a Baviera, adquirindo sozinha 17 casas em locais privilegiados de Munique. Em 1871, recebia de 50.000 a 60.000 florins por dia, embora tivesse reduzido o rendimento pago aos clientes para 8% ao mês. Apesar do tamanho de seus negócios, o banco não possuía instalações próprias, e todas as operações eram realizadas primeiro nos quartos de seu hotel e posteriormente em sua casa. Em 1871, Spitzeder possuía vários milhões de florins e obras de arte avaliadas em vários milhões. Segundo um relato contemporâneo publicado no Harper's Weekly, no auge de sua fortuna, em 1872, ela era considerada a mulher mais rica da Baviera. Confrontos com as autoridades e concorrência