O efeito kappa ou dilatação perceptiva do tempo é uma ilusão da percepção temporal que pode ocorrer quando uma pessoa estima o tempo decorrido entre estímulos sensoriais apresentados em sequência em locais distintos. Ao perceber uma sequência de estímulos, a pessoa tende a superestimar o tempo entre dois estímulos sucessivos quando a distância entre eles é suficientemente grande e a subestimá-lo quando essa distância é suficientemente pequena.
Em diferentes modalidades sensoriais O efeito kappa pode ocorrer com estímulos visuais, como flashes de luz, auditivos, como tons, ou táteis, como toques na pele. Muitos experimentos sobre o efeito kappa foram realizados com estímulos visuais. Por exemplo, imagine três fontes de luz, X, Y e Z, que emitem flashes sucessivos no escuro, com intervalos de tempo iguais entre eles. Se as fontes estiverem em posições distintas, com X e Y mais próximas entre si do que Y e Z, o intervalo entre os flashes de X e Y será percebido como mais curto do que o intervalo entre os flashes de Y e Z."Tau- and Kappa-Effects". Elsevier's Dictionary of Psychological Theories. Oxford: Elsevier Science & Technology, 2006. Credo Reference. 29 de maio de 2008. O efeito kappa também foi observado com estímulos auditivos cuja frequência varia ao longo da sequência. Em alguns tipos de experimento, porém, o efeito kappa auditivo não foi observado. Em 2011, Roy e colaboradores obtiveram um resultado oposto ao previsto pelo efeito kappa, pois "o aumento da distância entre as fontes sonoras que delimitam os intervalos de tempo leva a uma diminuição da duração percebida". No tato, a primeira apresentação do efeito kappa foi feita por Suto em 1952, com o nome de "efeito S". Em 2007, Goldreich chamou o efeito kappa de "dilatação perceptiva do tempo", por analogia com a dilatação temporal da teoria da relatividade.
Teorias baseadas na expectativa de velocidade Na física, a velocidade relaciona o espaço percorrido ao tempo decorrido. Para explicar o efeito kappa, foram propostas teorias sobre as expectativas do cérebro quanto à velocidade dos estímulos.
Expectativa de velocidade constante Na hipótese da velocidade constante, proposta por Jones e Huang em 1982, o cérebro incorpora uma expectativa prévia de velocidade ao estimar intervalos de espaço e tempo. Mais precisamente, espera intervalos de tempo que produzam um movimento com velocidade constante, ou seja, um movimento uniforme. Nessa hipótese, o efeito kappa ocorre quando aplicamos nosso conhecimento sobre o movimento a sequências de estímulos, o que às vezes nos leva a cometer erros.Dra. Molly J. Henry, Instituto Max Planck de Ciências Cognitivas e Cerebrais Humanas, Leipzig, Alemanha. Em um experimento que deu apoio à hipótese de uma expectativa de movimento uniforme na percepção temporal, os participantes observaram oito pontos brancos que surgiam sucessivamente em uma mesma direção, ao longo de uma linha reta horizontal. Quando o intervalo de tempo era constante e a distância entre os pontos variava, o efeito kappa foi observado, em concordância com a hipótese da velocidade constante. Porém, quando os intervalos de tempo e as distâncias entre os pontos variavam, o padrão de respostas previsto pela hipótese não foi observado. Uma possível explicação é a dificuldade de perceber um movimento uniforme em padrões tão irregulares. O contexto dos eventos observados pode, assim, afetar a percepção temporal.
Expectativa de baixa velocidade Um modelo bayesiano da percepção reproduz o efeito kappa tátil e outras ilusões de espaço e tempo no tato, como o efeito tau e a ilusão do coelho cutâneo. Nesse modelo, os circuitos cerebrais codificam a expectativa de que os estímulos táteis tendam a se mover lentamente. O modelo chega a uma inferência probabilística ótima ao combinar informações sensoriais incertas sobre espaço e tempo com uma expectativa prévia de movimento em baixa velocidade. A expectativa de que os estímulos tendam a se mover lentamente faz com que o tempo decorrido entre toques aplicados em rápida sucessão a pontos distintos da pele seja superestimado. Ao mesmo tempo, o modelo subestima a distância percebida entre os estímulos, reproduzindo a ilusão do coelho cutâneo e o efeito tau. Em 2007, Goldreich propôs que uma expectativa prévia bayesiana de baixa velocidade também poderia explicar o efeito kappa visual. Experimentos posteriores deram apoio a essa possibilidade.
Movimento em diferentes contextos O efeito kappa parece depender sobretudo da extensão percebida, e menos da extensão física. O efeito se intensifica à medida que os estímulos se movem mais depressa. Os observadores tendem a aplicar seu conhecimento prévio sobre o movimento a uma sequência de estímulos. Em um experimento com estímulos dispostos verticalmente, o efeito kappa foi mais forte nas sequências que se moviam para baixo. Uma possível explicação é a expectativa de aceleração no movimento descendente e de desaceleração no movimento ascendente, pois a percepção de um movimento acelerado para baixo leva a subestimar o intervalo de tempo entre os estímulos.
Ilusões relacionadas Se os observadores interpretam sequências rápidas de estímulos com base em uma expectativa de velocidade, é de esperar que ocorram ilusões temporais e espaciais. Isso ocorre no efeito tau, quando a distância entre os estímulos é constante e o intervalo de tempo varia. Nesse caso, quanto menor o intervalo de tempo, menor a distância percebida entre os estímulos, e vice-versa. Por exemplo, quando fontes de luz X, Y e Z, igualmente espaçadas, emitem flashes sucessivos no escuro, com um intervalo de tempo menor entre X e Y do que entre Y e Z, X e Y parecem mais próximas entre si do que Y e Z. Em 2007, Goldreich propôs que os efeitos tau e kappa decorrem de uma mesma expectativa quanto à velocidade do movimento. Para ele, quando os estímulos se movem rapidamente pelo espaço, "a percepção encurta acentuadamente a distância e prolonga o tempo decorrido entre eventos consecutivos". Goldreich chamou essas duas distorções perceptivas fundamentais de "contração perceptiva do comprimento", para o efeito tau, e "dilatação perceptiva do tempo", para o efeito kappa, por analogia com a contração do comprimento e a dilatação do tempo da teoria da relatividade. A contração perceptiva do comprimento e a dilatação perceptiva do tempo resultam do mesmo modelo de observador bayesiano, que espera que os estímulos se movam lentamente. De modo análogo, na teoria da relatividade, a contração do comprimento e a dilatação do tempo ocorrem quando uma velocidade física, a velocidade da luz, não pode ser ultrapassada.
Ver também
Cronostase, outra ilusão da percepção temporal Inferência bayesiana, método probabilístico usado em um dos modelos explicativos do efeito kappa
Categoria:Ilusões auditivas Categoria:Ilusões ópticas