Gianguido Bonfanti (São Paulo, 5 de outubro de 1948) é um pintor, gravador, desenhista, escultor e ilustrador brasileiro.Radicado no Rio de Janeiro, desenvolve desde o início da década de 1970 uma obra centrada na figura humana, atravessada pelo desenho de observação, pela gravura em metal e, a partir dos anos 1980, pela pintura a óleo. É professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage desde 1978, sendo o docente com mais tempo de casa na instituição.

Sua produção foi exposta individualmente no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, no Museu Nacional de Belas Artes, no Paço Imperial e no Museu de Arte Contemporânea do Paraná, além de mostras na França, em Portugal e na Itália. Em 2022, teve exposição individual na Accademia delle Arti del Disegno, em Florença, e assinou o busto da imperatriz Teresa Cristina instalado na Praça Itália, no centro do Rio de Janeiro.

Biografia

Origens e formação (1948–1967) Bonfanti nasceu em São Paulo, primogênito de Bianca e do pintor Gianfranco Bonfanti, em família de imigrantes italianos; foi o primeiro membro da família a nascer fora da Itália. Dois anos depois de seu nascimento, os pais voltaram a residir no Rio de Janeiro, onde a família se fixou. O avô paterno, Luigi Augusto Bonfanti, natural de Milão, chegou ao Brasil em 1930 e dirigia a companhia de navegação transatlântica Italia di Navigazione, sendo figura de destaque na colônia italiana carioca durante o período fascista.

A partir de 1962, paralelamente aos estudos escolares, passou a frequentar o ateliê do gravador e desenhista Poty Lazzarotto, colega de seu pai na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, que se tornou seu mestre. Com Poty viajou com frequência a Curitiba e às cidades históricas de Minas Gerais, como Ouro Preto e Mariana, desenhando do natural. Expôs pela primeira vez em 1967, em mostra coletiva na Galeria Santa Rosa, no Rio de Janeiro.

Arquitetura e a virada para as artes (1968–1973) Em 1968 ingressou no curso de arquitetura da Universidade Federal do Rio de Janeiro e cursou artes plásticas no Festival de Inverno de Ouro Preto. No contexto do endurecimento do regime militar após o AI-5 e da perseguição a colegas de faculdade, obteve, por intermédio do Consulado Italiano no Rio de Janeiro, transferência para a faculdade de arquitetura de Roma, para onde viajou em 1971.

Chegando à Itália, não chegou a procurar o curso de arquitetura: prestou exame na Academia de Belas Artes de Roma, onde foi aprovado e passou a frequentar o ateliê de modelo vivo e as aulas de gravura em metal. Nesse período, uma exposição de gravuras de Pablo Picasso numa pequena galeria da praça do Panteão teve efeito decisivo sobre sua escolha profissional. Permaneceu em Roma até o fim de 1973.

Retorno ao Brasil, gravura e ilustração (1973–1978) De volta ao Rio de Janeiro, realizou em 1973 sua primeira exposição individual, G. Bonfanti, na galeria do Centro Cultural Lume, com desenhos produzidos na Itália; o catálogo trouxe textos de Flávio Motta e do crítico José Roberto Teixeira Leite.

Em seguida passou a frequentar o curso de gravura em metal ministrado por Marília Rodrigues na Escolinha de Arte do Brasil, instituição fundada por Augusto Rodrigues e associada à introdução da arte-educação no país. Em 1974 realizou a individual Desenhos de G. Bonfanti no Museu de Arte Contemporânea do Paraná, em Curitiba, com texto de catálogo de Paulo Sérgio Pinheiro.

Entre 1975 e 1978 dedicou-se à ilustração, atividade estimulada pelo exemplo de Poty Lazzarotto, colaborando com periódicos como O Pasquim, Opinião, Ele & Ela, o Jornal do Brasil e O Globo, além do livro Sangue, Papéis e Lágrimas, de Doc Comparato. Em 1976 iniciou um projeto inacabado de denúncia social a partir de gravuras e fotogravuras sobre doenças endêmicas, pesquisado junto a instituições médicas do Rio de Janeiro. Em 1978 assinou o projeto do teatro construído no Centro Cultural Cândido Mendes e a cenografia da peça As Gralhas, de Bráulio Pedroso, comentada por Yan Michalski no Jornal do Brasil.

Ainda em 1978 começou a lecionar gravura e fotogravura na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, então dirigida por Rubens Gerchman.

Entrada na cor e na pintura (1979–1987) O ano de 1979 marcou o retorno sistemático ao trabalho de gravura e desenho e a aproximação com a cor, iniciada por meio do pastel seco, entendido pelo artista como técnica intermediária entre o desenho e a pintura. Até então, Bonfanti recusava-se a usar a cor, limitando-se a desenhar e gravar.

Entre 1980 e 1982 lecionou gravura na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e realizou pesquisas sobre materiais e conservação em ateliê de restauração com Marilka Mendes e Edson Motta Filho, preocupação com a permanência física da obra que se tornaria constante em sua trajetória. Elaborou o projeto e acompanhou a construção do ateliê de gravura em metal da Fundação José Augusto, em Natal, onde ministrou o curso inaugural e expôs na Biblioteca Câmara Cascudo. Em 1981 casou-se com a psicanalista Marisa Maia; o casal teve as filhas Pérola, nascida em 1983 e também artista plástica, e Flora, em 1987.

A partir de 1982 recolheu-se ao ateliê e passou a dedicar-se à pintura a óleo, em diálogo com o retrato e com referências como Francis Bacon, Edvard Munch e a transvanguarda italiana. Em 1985, o marchand Franco Terranova organizou a individual Gianguido Bonfanti – pinturas e guaches 1983–1985, no Espaço Petite Galerie, ocasião em que o colecionador Gilberto Chateaubriand adquiriu as primeiras obras do artista para sua coleção. No fim daquele ano morreu seu pai, Gianfranco Bonfanti.

Entre 1986 e 1987, sob a direção de Frederico Morais na EAV, participou da reformulação pedagógica da escola e assumiu o curso de modelo vivo, atividade docente que não voltaria a interromper; lecionou também na Faculdade da Cidade e na Casa de Cultura Laura Alvim. No mesmo período aprofundou o estudo da abstração a partir da obra de Wassily Kandinsky e, depois, de Frank Stella.

Geometria e retorno à figuração (1988–1999) Em 1988, o marchand Thomas Cohn organizou em sua galeria a individual Bonfanti, dedicada às pinturas geométricas do artista, fase comentada por Lígia Canongia no Jornal do Brasil. Pouco depois, Bonfanti abandonou a geometria em favor das velaturas e da organicidade, processo que desembocou na individual realizada em 1991 na Paulo Figueiredo Galeria de Arte, em São Paulo, sobre a qual Daniel Piza escreveu em O Estado de S. Paulo.

Entre 1992 e 1999 desenvolveu a chamada fase vermelha, de forte carga gestual e erótica, construída com empastos e velaturas de violeta de cobalto sobre fundos de laranja de cádmio. Em 1996, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro organizou a individual Bonfanti, com quinze óleos de grande formato e um núcleo de desenhos e gravuras dos anos 1970; a mostra teve ampla repercussão crítica, com textos de Wilson Coutinho e Frederico Morais. O contato com a obra do pintor inglês Frank Auerbach, em Nova York, foi apontado pelo artista como decisivo para a transição seguinte.

Reconhecimento internacional (2000–2009) Em 2000, Bonfanti assinou com Mauro Nogueira o projeto arquitetônico da Anita Schwartz Galeria e inaugurou o espaço com uma individual, enquanto o Museu Nacional de Belas Artes apresentava a mostra Gianguido Bonfanti 1996–2000. Nova individual no mesmo museu, em 2002, reuniu telas de grande formato, gravuras, desenhos a bico de pena e uma série de autorretratos, comentada por Ferreira Gullar no catálogo. O crítico Daniel Piza dedicou coluna em O Estado de S. Paulo à comparação entre os retratos de Bonfanti e os de Gullar. O conjunto de trabalhos desse período, marcado por temas como a morte, a doença e o abandono, é designado pelo artista como as "cenas do purgatório".

Em 2003, no contexto do Ano do Brasil na França, seu trabalho foi apresentado ao adido cultural francês Jean-Paul Lefevre, processo que resultou na individual Bonfanti, peintures et dessins, realizada em setembro de 2005 na Galerie Le Troisième, em Paris, e no início da representação pela marchand francesa Anne-Marie Marquette. No mesmo ano foi publicada a monografia trilíngue Bonfanti, editada na Suíça pela Acatos Publishing, com textos do crítico francês Michael Francis Gibson e de Daniel Piza; a exposição parisiense foi resenhada por Lydia Harambourg em La Gazette de l'Hôtel Drouot e noticiada pela revista Connaissance des Arts. Uma segunda mostra na mesma galeria ocorreu em 2006, em Bordéus.

Em 2004 o Museu Metropolitano de Arte de Curitiba realizou individual com trinta trabalhos, e o artista ilustrou o livro Caligrafias, de Adriana Lisboa, reeditado em 2025 com nova seleção de desenhos. Em 2007 foi convidado pelo escritor Lêdo Ivo a realizar seu retrato para o livro Réquiem (2008). Em 2009 apresentou a retrospectiva Bonfanti, 1969–2009 no Paço Imperial, acompanhada de livro publicado pela editora Contra Capa, com textos de Guilherme Bueno e Viviane Matesco.

Escultura e produção recente (2010–presente) Em 2010 realizou a individual Bonfanti na galeria Gustavo Rebello Arte, no Rio de Janeiro. A partir de meados da década de 2010 passou a dedicar-se também à escultura, modelando cabeças em argila posteriormente fundidas em bronze. Em 2017 apresentou no Paço Imperial a individual Bonfanti: esculturas e pinturas, 2010–2017, comentada pelo pintor Gonçalo Ivo na revista Dasartes; no mesmo ano expôs com a artista Pérola Bonfanti na mostra transHumanizar–transFigurar, na Wozen Gallery, em Lisboa, e voltou a expor na Galerie Le Troisième, em Bordéus.

Em junho de 2022, a Accademia delle Arti del Disegno, em Florença, apresentou individual do artista em sua Sala Esposizioni, com curadoria do arquiteto Giacomo Pirazzoli e catálogo com texto da historiadora da arte Cristina Acidini. Em outubro de 2023, a EAV Parque Lage organizou a exposição Gianguido Bonfanti: massas de energia no espaço, com curadoria de Daniele Machado e Alberto Saraiva, celebrando os 55 anos de carreira do artista; embora lecionasse na escola havia 45 anos, era a primeira individual que ali realizava. A mostra reuniu cerca de setenta trabalhos inéditos nas Cavalariças e na Capelinha, entre desenhos, pinturas e uma grande instalação de cerâmicas queimadas. Em setembro de 2024 apresentou um conjunto inédito de trinta pinturas, desenhos e esculturas na Galeria Evandro Carneiro, na Gávea, com lançamento de um livro-objeto concebido a partir das cerâmicas exibidas no Parque Lage, e em 2025 realizou a mostra Rétrospective Gianguido Bonfanti, no espaço La Sphère, em Paris.

Busto da imperatriz Teresa Cristina Em 14 de março de 2022, data do bicentenário de nascimento da imperatriz Teresa Cristina das Duas Sicílias, foi inaugurado na Praça Itália, na Avenida Presidente Antônio Carlos, no centro do Rio de Janeiro, um monumento à imperatriz esculpido por Bonfanti e doado pelo Consulado Geral da Itália. A obra, de 1,95 metro de altura, combina o busto fundido em bronze com chapas de aço que desenham a silhueta da imperatriz em traje da época imperial; na base, imagens vazadas de uma jarra e de um cocar aludem ao intercâmbio cultural entre Itália e Brasil.

Obra A obra de Bonfanti é organizada em ciclos que atravessam o desenho a bico de pena e a gravura em metal dos anos 1970, os pastéis secos do fim daquela década, a pintura a óleo iniciada nos anos 1980, a fase geométrica de 1988–1990, a fase vermelha de 1992–1999, as cenas do purgatório da década de 2000 e, mais recentemente, a escultura em bronze e as cerâmicas. A figura humana permanece como eixo constante, tratada menos como assunto narrativo do que como suporte de uma investigação sobre a matéria pictórica.