Jerônimo de Souza Lobo (Vila Rica, 15 de março de 1717 — Vila Rica, provavelmente entre 1798 e 1803) foi um compositor, organista, violinista e flautista brasileiro do período colonial. Integrante de uma das mais importantes famílias de músicos de Minas Gerais, os Sousa Lobo, atuou de forma marcante em Vila Rica (atual Ouro Preto) entre as décadas de 1740 e 1810. Sua produção musical, essencialmente sacra, inclui ladainhas, antífonas, matinas e responsórios, sendo a Ladainha em Dó uma de suas obras mais difundidas e executadas até os dias de hoje.
Biografia
Jerônimo de Sousa Lobo nasceu em Vila Rica, atual Ouro Preto, em 15 de março de 1717. Era irmão de Antônio de Souza Lobo, considerado o "patriarca musical de Vila Rica", e juntos atuaram em um conjunto musical que ficou conhecido como "Os Lobos".
A trajetória biográfica de Jerônimo de Souza Lobo é marcada por lacunas documentais e por uma complexa questão de homonímia. Pesquisadores como Francisco Curt Lange foram os primeiros a localizar documentos históricos sobre a família Sousa Lobo, porém suas interpretações nem sempre foram fundamentadas e apresentam contradições. O musicólogo André Cardoso organizou os dados e as hipóteses levantadas por Lange, demonstrando que a distinção entre os vários membros da família — Jerônimo de Sousa Lobo, Jerônimo de Sousa Lobo Lisboa e Jerônimo de Sousa Lobo Queirós — é um dos maiores desafios da musicologia mineira. As fontes musicais do século XIX frequentemente omitem o nome completo do compositor, atribuindo as obras genericamente a "Jerônimo de Souza".
O primeiro registro documental que menciona Jerônimo de Sousa Lobo data de 1746, e o último, de 1761, quando é citado em um processo contra a Ordem Terceira de São Francisco da Penitência. Sua morte ocorreu em data incerta, provavelmente entre 1798 e 1803.
Atuação musical
Jerônimo de Sousa Lobo foi organista, violinista e flautista, além de compositor. Atuou como organista da Irmandade do Santíssimo Sacramento de Vila Rica, na Matriz de Nossa Senhora do Pilar, a partir de 1780, e também como organista da Ordem Terceira de Nossa Senhora de Monte do Carmo. Foi membro da Irmandade de São José dos Homens Pardos, o que indica sua inserção social e profissional no contexto das irmandades religiosas mineiras.
Sua atuação profissional está documentada em diversas irmandades de Vila Rica, e seu nome é recorrente em arquivos de manuscritos musicais em Minas Gerais e São Paulo, sendo atribuída a ele uma significativa listagem de obras.
Obra
A produção musical de Jerônimo de Sousa Lobo é essencialmente sacra e abrange os gêneros típicos da música colonial mineira: ladainhas, antífonas, matinas e responsórios. Entre suas obras mais conhecidas, destacam-se:
Ladainha em Dó — Uma das obras mais difundidas do compositor, teve grande aceitação junto ao público mineiro e frequente utilização nas cerimônias religiosas locais, como atestam as diversas cópias manuscritas produzidas em épocas e cidades distintas. Uma edição moderna foi publicada pelo Projeto Repertório Sinos, tendo por fonte principal a cópia manuscrita do acervo da Orquestra Lira Sanjoanense, produzida pelo copista Novaes em 1883.
Salve Regina — Antífona de Nossa Senhora para coro, cordas, trompas e flautas. Uma edição foi publicada em 2006 pela Editora Pontes, com pesquisa e edição de Márcio Miranda Pontes.
Vide Domine afflictionem meam — Obra para trompa, coro, flauta transversa e orquestra de cordas, com edição de Márcio Miranda Pontes.
O Patriarcha Pauperum — Obra para trompa, tenor, quarteto de cordas e flauta transversa, com edição de Carlos Alberto Figueiredo.
Defecit in dolore — Obra para trompa, coro, flauta transversa e orquestra de cordas.
O Vos Omnes — Obra para trompa, coro, flauta transversa e orquestra de cordas.
Salve Virgem — Obra para coro, cordas, trompas e flautas, com edição de Márcio Miranda Pontes.
Setenário de Nossa Senhora das Dores — Obra de aproximadamente 15 minutos para coral misto (SATB), 2 flautas, 2 trompas, 2 violinos, violas, violoncelos e contrabaixos.
Matinas de Santo Antônio e Responsórios de São Francisco de Assis — Obras mencionadas nas fontes bibliográficas.
Ofícios de Trevas (Quarta, Quinta e Sexta-feira Santa) — Conjunto de obras para o Ofício de Trevas, preservadas em cópias manuscritas no arquivo da Orquestra Lira Sanjoanense.
Importância e legado
Jerônimo de Sousa Lobo é uma figura central para a compreensão da música colonial mineira e da atuação das famílias de músicos em Vila Rica. Sua obra, embora marcada por incertezas de atribuição, representa um elo fundamental na cadeia de transmissão da prática musical sacra entre os séculos XVIII e XIX. A Ladainha em Dó, em particular, teve uma circulação notável, sendo copiada e executada em diferentes cidades mineiras ao longo do século XIX, o que atesta a aceitação e a relevância de sua música.
Suas composições integram a Coleção Música Sacra Mineira, publicada pela Funarte, que reúne obras de compositores mineiros dos séculos XVIII e XIX. A Coleção disponibilizou em formato digital, em 2021, os volumes 2 e 3, que incluem obras de Jerônimo de Sousa Lobo, João de Deus de Castro Lobo e outros compositores mineiros.
Ver também
Família Sousa Lobo Vila Rica
Referências
Ligações externas
Jerônimo de Souza Lobo – Musica Brasilis Jerônimo de Sousa – IMSLP Partitura de Salve Virgem – SABRA
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