A história da antropometria inclui o uso dessa prática como uma ferramenta inicial para a antropologia, para identificação, para compreensão da variação física humana na paleoantropologia e em várias tentativas de correlacionar características físicas com características raciais e psicológicas. Em vários momentos da história, certas medidas antropométricas foram utilizadas por defensores da discriminação e da eugenia, frequentemente como parte de algum movimento social ou por meio alegações pseudocientíficas.

Craniometria e paleoantropologia

Em 1716, Louis-Jean-Marie Daubenton, que escreveu muitos ensaios sobre anatomia comparada para a Académie Française, publicou a obra Memórias sobre as Diferentes Posições do Forame Occipital no Homem e nos Animais (Mémoire sur les différences de la situation du grand trou occipital dans l'homme et dans les animaux). Seis anos depois, Pieter Camper (1722–1789), que se destacou tanto como artista quanto como anatomista, publicou algumas palestras que forneceram as bases para a produção de muitos trabalhos. Camper inventou o "ângulo facial", uma medida destinada a determinar a inteligência entre várias espécies. De acordo com essa técnica, um "ângulo facial" era formado traçando duas linhas: uma horizontal, da narina à orelha; e a outra perpendicular, da parte avançada da maxila superior até a parte mais proeminente da testa . As medições do ângulo facial feitas por Camper tinham inicialmente o intuito de comparar os crânios de homens com os de outros animais. Camper afirmou que as estátuas antigas apresentavam um ângulo de 90°, os europeus de 80°, os da África Central de 70° e o orangotango de 58°.

O professor sueco de anatomia Anders Retzius (1796–1860) foi o primeiro a usar o índice cefálico em antropologia física para classificar restos humanos antigos encontrados na Europa. Ele classificou os crânios em três categorias principais: "dolicocéfalo" (do grego antigo kephalê, "cabeça", e dolikhos, "longo e fino"), "braquicéfalo" (curto e largo) e "mesocefálico" (comprimento e largura intermediários). A pesquisa científica foi continuada por Étienne Geoffroy Saint-Hilaire (1772–1844) e Paul Broca (1824–1880), fundador da Sociedade Antropológica da França em 1859. Os paleoantropólogos ainda dependem da antropometria craniofacial para identificar espécies no estudo de ossos de hominídeos fossilizados. Espécimes de Homo erectus e espécimes atléticos de Homo sapiens, por exemplo, são praticamente idênticos do pescoço para baixo, mas as diferenças entre seus crânios podem ser facilmente identificadas.

Samuel George Morton (1799–1851), cujas duas principais monografias foram Crania Americana (1839) e An Inquiry into the Distinctive Characteristics of the Aboriginal Race of America e Crania Aegyptiaca [tradução literal: Uma investigação sobre as Caracteristicas Distintivas da Raça Aborigene da América e da Crania Aegyptiaca] (1844), concluiu que os antigos egípcios não eram negroides, mas caucasóides, e que caucasianos e negros já seriam distintos há três mil anos. Visto que a Bíblia indica que a Arca de Noé encalhou no Monte Ararat apenas mil anos antes, os filhos de Noé não poderiam ser a origem de todas as raças na Terra. De acordo com a teoria do poligenismo de Morton, as raças estiveram separadas desde o início. Josiah C. Nott e George Gliddon levaram as ideias de Morton adiante. Charles Darwin, que acreditava que a hipótese da origem única era essencial para a teoria da evolução, opôs-se a Nott e Gliddon em sua obra de 1871, A Descendência do Homem, defendendo o monogenismo.

Em 1856, trabalhadores encontraram em uma pedreira de calcário o crânio de um hominídeo neandertal do sexo masculino, acreditando que se tratava dos restos mortais de um urso. Eles entregaram o material ao naturalista amador Johann Karl Fuhlrott, que repassou os fósseis ao anatomista Hermann Schaaffhausen . A descoberta foi anunciada em conjunto no ano de 1857, dando origem à disciplina da paleoantropologia . Ao comparar esqueletos de macacos com os de humanos, T.H. Huxley (1825–1895) corroborou a teoria da evolução de Charles Darwin, expressa pela primeira vez em A Origem das Espécies (1859). Ele também desenvolveu o " princípio da Pithecometra ", o qual estabelecia que o homem e o macaco descendiam de um ancestral comum.

A descoberta de Eugène Dubois (1858–1940), em 1891, na Indonésia, do " Homem de Java ", o primeiro espécime de Homo erectus a ser descoberto, revelou a ancestralidade profunda da humanidade fora da Europa. Ernst Haeckel (1834–1919) ficou famoso por sua " teoria da recapitulação ", segundo a qual cada indivíduo espelha a evolução de toda a espécie durante sua vida.

Tipologia e personalidade

Os testes de inteligência foram comparados com a antropometria. Samuel George Morton (1799–1851) coletou centenas de crânios humanos de todo o mundo e começou a tentar encontrar uma maneira de classificá-los de acordo com algum critério lógico. Morton afirmava que podia avaliar a capacidade intelectual pela capacidade craniana . Um crânio grande indicava um cérebro grande e alta capacidade intelectual; um crânio pequeno sinalizava um cérebro pequeno e capacidade intelectual reduzida. A ciência moderna confirmou posteriormente que existe uma correlação entre o tamanho do crânio (medido de várias maneiras) e a inteligência, medida por testes de QI, embora que essa correlação seja fraca, em torno de 0,2. Atualemnete, o volume cerebral medido por meio de ressonância magnética também encontra uma correlação entre o tamanho do cérebro e a inteligência em cerca de 0,4.

A craniometria também era usada na frenologia, que supostamente determinava o caráter, os traços de personalidade e a criminalidade com base no formato da cabeça. Na virada do século XIX, Franz Joseph Gall (1758–1822) desenvolveu a "cranioscopia" (do grego antigo kranion "crânio", scopos "visão"), um método para determinar a personalidade e o desenvolvimento das faculdades mentais e morais com base no formato externo do crânio. A cranioscopia foi posteriormente renomeada como frenologia (phrenos: mente, logos: estudo) por seu aluno Johann Spurzheim (1776–1832), que escreveu extensivamente sobre o "Sistema fisionômico de Drs. Gall e Spurzheim". Todos eles alegavam ter a capacidade de prever traços de personalidade ou inteligência e foram praticados intensivamente no século XIX e na primeira parte do século XX.

Durante a década de 1940, William Sheldon utilizou a antropometria para avaliar seus somatótipos, segundo os quais as características do corpo podem ser traduzidas em características da mente. Inspirado pela antropologia criminal de Cesare Lombroso, ele também acreditava que a criminalidade poderia ser prevista de acordo com o tipo físico. A divisão antropométrica básica dos tipos de corpo nas categorias endomórfica, ectomórfica e mesomórfica, derivadas das teorias de somatótipos de Sheldon, é hoje popular entre as pessoas que praticam musculação. 

Antropometria forense

Bertillon, Galton e a criminologia

Em 1883, o francês Alphonse Bertillon introduziu um sistema de identificação que recebeu o seu nome. O sistema "Bertillonage" baseava-se na descoberta de que diversas medidas de aspectos físicos, como as dimensões das estruturas ósseas do corpo, permanecem relativamente constantes ao longo da vida adulta. Bertillon concluiu que, quando essas medições fossem feitas e registradas sistematicamente, qualquer indivíduo poderia ser distinguível. O objetivo de Bertillon era encontrar uma forma de identificar criminosos reincidentes. Anteriormente, a polícia só podia registrar descrições gerais. Fotografar criminosos havia se tornado algo comum, mas não havia uma maneira fácil de organizar as milhares de fotografias, exceto por nome. A esperança de Bertillon era que, por meio do uso de medições, um conjunto de números de identificação pudesse ser inserido em um sistema de registro arquivado em um único gabinete.

O sistema envolvia 10 medidas: altura, envergadura (distância do ombro esquerdo ao dedo médio do braço direito levantado), busto (tronco da cabeça ao assento, na posição sentada), comprimento da cabeça (coroa à testa) e largura da cabeça (têmpora a têmpora), largura das bochechas e "comprimentos" da orelha direita, do pé esquerdo, do dedo médio e do côvado (do cotovelo à ponta do dedo médio). Foi possível, por exaustão, organizar as fichas nas quais esses dados estavam registrados (juntamente com uma fotografia) até que um pequeno número deles apresentasse as medidas do indivíduo procurado, independentemente do nome.

O sistema logo foi adaptado para que policiais pudessem usá-lo, já que impedia a falsificação de identidade e podia demonstrar irregularidades.

O Bertillonage logo passou a estar representado em Paris por uma coleção de cerca de 100.000 fichas e tornou-se popular nos sistemas judiciais de vários outros países. A Inglaterra fez o mesmo, quando, em 1894, uma comissão enviada a Paris para investigar os métodos apresentou resultados favoráveis ao uso de medições para a classificação primária, além de recomendar a adoção parcial do sistema de impressões digitais sugerido por Francis Galton, então em uso em Bengala, onde as medições foram abandonadas em 1897, após a adoção do sistema de impressões digitais em toda a Índia Britânica. Três anos mais tarde, a Inglaterra fez o mesmo e, como resultado de uma nova investigação ordenada pelo Ministério do Interior do Reino Unido, baseou-se apenas em impressões digitais.

O sistema apresentou alguns defeitos e foi sendo gradualmente substituído pelo sistema de impressões digitais e, posteriormente, pela genética . Inicialmente, Bertillon usou para medição variáveis que acreditava que eram independentes – como o comprimento do antebraço e o comprimento da perna – mas Galton percebeu que ambas eram resultado de uma única variável causal (neste caso, a estatura) e desenvolveu o conceito estatístico de correlação .

Outras complicações foram: a dificuldade de determinar se os indivíduos presos eram réus primários ou não; os instrumentos utilizados eram caros e sujeitos a avarias; eram necessários medidores qualificados; os erros eram frequentes e praticamente irremediáveis; e era necessário repetir as medições três vezes para se chegar a uma média como resultado.

Fisiognomia A fisiognomia afirmava haver uma correlação entre características físicas (especialmente as faciais) e traços de personalidade. Tornou-se famosa graças a Cesare Lombroso (1835–1909), o fundador da criminologia antropológica, que afirmava ser capaz de identificar cientificamente conexões entre a natureza de um crime e a personalidade ou aparência física do criminoso. Criador do conceito de "criminoso nato" e defensor do determinismo biológico, Lombroso tentou reconhecer criminosos por meio de medidas em seus corpos. Ele concluiu que as características do crânio e da face eram indícios para a criminalidade genética e que tais aspectos poderiam ser medidos com craniômetros e paquímetros, utlizando os resultados obtidos para uma pesquisa quantitativa. Algumas das 14 características identificadas em um criminoso incluem mandíbulas grandes; projeção da mandíbula para a frente; inclinação baixa da testa; maçãs do rosto altas; nariz achatado ou arrebitado; orelhas em forma de alça; narizes aquilinos ou lábios carnudos; olhos duros e inquietos; barba rala ou calvície; insensibilidade à dor; braços longos; e assim por diante.

Filogeografia, raça e origens humanas