A Aplysia californica, vulgarmente conhecida como lebre-do-mar-da-califórnia, é um molusco gastrópode marinho desprovido de concha externa que habita as águas temperadas e subtropicais do Oceano Pacífico Oriental, distribuindo-se principalmente ao longo da costa que vai do estado da Califórnia, nos Estados Unidos, até ao Golfo da Califórnia, no México. Este invertebrado herbívoro, que se alimenta essencialmente de algas marinhas e pode atingir dimensões impressionantes de até 75 centímetros de comprimento e cerca de 7 quilogramas de peso, possui uma coloração que varia entre o avermelhado, o esverdeado e o castanho-escuro (uma característica diretamente influenciada pela sua dieta e que lhe confere uma excelente camuflagem nos ecossistemas rochosos e intertidais onde vive), destacando-se ainda pela capacidade de ejetar uma tinta roxa opaca quando se sente ameaçado, com o objetivo de desorientar e repelir potenciais predadores. No entanto, a sua verdadeira notoriedade advém do seu papel pioneiro na história da ciência contemporânea, uma vez que a espécie se converteu no modelo animal ideal para o desenvolvimento da neurobiologia moderna e para o estudo fisiológico da aprendizagem e da memória; dotada de um sistema nervoso central extremamente simples, composto por apenas cerca de 20.000 neurónios (em contraste flagrante com os milhares de milhões do cérebro humano), a Aplysia californica apresenta células nervosas excecionalmente grandes — algumas das quais visíveis a olho nu — e organizadas em gânglios perfeitamente identificáveis e invariáveis entre diferentes espécimes. Esta arquitetura celular simplificada permitiu ao prestigiado neurocientista austro-americano Eric Kandel, ao longo das últimas décadas do século XX, mapear circuitos neuronais com precisão microscópica e demonstrar, através da análise de reflexos defensivos simples como a retração da brânquia e do sifão, que processos de aprendizagem elementares, tais como a habituação e a sensibilização, provocam modificações químicas e estruturais duradouras nas conexões entre os neurónios (as sinapses), uma descoberta revolucionária que provou que a memória resulta do fortalecimento e da maleabilidade dessas mesmas ligações sinápticas e que culminou com a atribuição do Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina no ano de 2000.
Categoria:Aplysiidae Categoria:Animais descritos em 1863 Categoria:Fauna do México Categoria:Organismos modelo