Abu Numai II, nascido Abu Numai Maomé ibne Baracate (; – 22 ou 23 de ) foi xarife e emir de Meca, membro da família dos catádidas. Filho de , foi associado ao Emirado de Meca ainda criança, inicialmente sob a soberania do Sultanato Mameluco do Cairo. Em 1517, após a conquista otomana do Egito, chefiou a delegação enviada pelo pai ao sultão , levando ao Cairo as chaves da Caaba, presentes e relíquias sagradas e formalizando a submissão do Hejaz ao Império Otomano. Com a morte do pai em 1525, tornou-se o único emir de Meca. Durante seu longo governo, Abu Numai desempenhou papel importante na consolidação das relações entre os xarifes de Meca e o governo otomano. Envolveu-se nos assuntos do Iêmem e de Gidá, na proteção das caravanas da haje e na defesa do Mar Vermelho contra os portugueses, participando da resistência ao ataque contra Gidá em 1541.
Embora tenha entrado em conflito em diferentes ocasiões com autoridades e militares otomanos, permaneceu reconhecido por Istambul e conseguiu preservar a administração xarifiana de Meca. Associou sucessivamente seus filhos Amade e Alhaçane ao emirado e, nos últimos anos de vida, transferiu progressivamente a Alhaçane a condução dos assuntos de governo. Abu Numai morreu em em 1584 e foi sepultado no , em Meca. As fontes lhe atribuem também tratados e poemas. Seus descendentes dividiram-se posteriormente nos ramos zaídida, abedálida e baracátida, e dele descenderam os emires que governaram Meca durante os séculos seguintes até o estabelecimento do domínio saudita.
Vida
Abu Numai Maomé ibne Baracate nasceu em 9 de Dulrija de 911 A.H. (3 de maio de 1506). Era filho do emir de Meca e pertencia aos catádidas, da linhagem haçânida da dinastia haxemita, descendente do clã dos haxemitas. Aos oito anos de idade, foi enviado pelo pai ao Egito, onde o sultão Cançu Algauri o reconheceu como governante do Hejaz e de Iambo e lhe concedeu um diploma de xarife para que compartilhasse o Emirado de Meca com Baracate. Após a conquista otomana do Egito pelo sultão , Baracate decidiu reconhecer a nova soberania e enviou o filho ao Cairo para obter a confirmação do emirado e declarar sua submissão. Segundo uma tradição registrada por Feridun Emecen, Selim cogitara enviar tropas para conquistar Meca e seus arredores, mas , antigo cádi de Meca exilado no Cairo, convenceu-o de que Baracate se submeteria voluntariamente e, depois de obter garantias do sultão, aconselhou o emir a enviar Abu Numai. As fontes divergem ligeiramente sobre a data da chegada de Abu Numai ao Cairo: a situa em 15 de Jumada Atani de 923 A.H. (5 de julho de 1517), enquanto indica 13 de Jumada Atani (3 de julho). Em 6 de julho, Abu Numai compareceu ao divã, onde apresentou a Selim I os presentes enviados pelo pai, as chaves da Caaba e algumas relíquias sagradas e declarou a submissão de sua família. Foi recebido com grandes honras e, em 12 de julho, voltou à presença do sultão, beijou-lhe a mão, recebeu um e obteve permissão para regressar.
Selim entregou-lhe um diploma de investidura e outro quilate destinados a Baracate, enviou 200 mil dinares de ouro e grande quantidade de provisões para a população das Duas Mesquitas Sagradas e libertou alguns notáveis de Meca que Algauri havia encarcerado no Cairo, permitindo que regressassem com Abu Numai. A missão formalizou o reconhecimento da soberania do Império Otomano sobre o Hejaz e foi associada ao início do uso do título de pelos sultões otomanos. Após regressar a Meca, Abu Numai continuou a compartilhar o emirado com o pai. Com a morte de Baracate, em 1525, tornou-se o único emir e recebeu do sultão um novo diploma de investidura. Seu longo governo coincidiu com o período de consolidação da administração otomana no Hejaz e foi marcado por questões relacionadas ao Iêmem, revoltas locais, segurança das caravanas da haje e divergências com funcionários e soldados otomanos, que em geral foram solucionadas sem evoluir para rupturas graves. Uma das primeiras disputas ocorreu com Salmane Reis acerca das receitas do porto de Gidá. Em 932 A.H. (1526), Salmane chegou à cidade e confiscou a metade das receitas que pertencia ao xarife. Os saques praticados pelos e por grupos árabes provocaram uma grande escassez, conhecida como . Abu Numai, que aparentemente tivera participação nos distúrbios, posteriormente acalmou os grupos árabes e solicitou a que contivesse os levendes. A chegada a Meca de milhares de homens de Salmane e Cairadim deixou o xarife apreensivo, e naquele ano ele não acompanhou os peregrinos até o monte Arafate, permanecendo na cidade.
Em 944 A.H. (1537), Abu Numai marchou contra Jizã, na costa do Mar Vermelho, e submeteu-a à sua autoridade. Pouco depois, porém, , que regressava de sua expedição à Índia e empreendia a conquista otomana do Iêmem, tomou o controle de Jizã e expulsou o representante instalado pelo emir. Abu Numai procurou preservar boas relações com Solimão Paxá quando este foi a Meca para realizar a peregrinação e pediu-lhe que levasse seu filho Amade a Istambul. Amade foi recebido pelo próprio Solimão I e recebeu um diploma que o associava ao pai no Emirado de Meca. Em 1540, Abu Numai e Amade entraram em conflito com , emir do haje de Damasco, depois que objetos pertencentes aos peregrinos sírios foram roubados em Meca. Segundo o relatório de Solimão Paxá, pai e filho conseguiram solucionar pessoalmente a disputa e os distúrbios decorrentes. No ano seguinte, uma força portuguesa que penetrara no Mar Vermelho com o objetivo de atacar a frota otomana em Suez desembarcou nas proximidades de Gidá, em . Abu Numai participou, ao lado do bei de Gidá, dos combates que repeliram os portugueses. Em recompensa por sua atuação, Solimão I aumentou sua participação nas receitas alfandegárias de Gidá; o sultão concedeu-lhe metade das receitas alfandegárias do porto, divisão que posteriormente se tornou permanente, ficando uma metade com o sanjaco-bei de Gidá e a outra com o xarife de Meca.
Em 1551, Abu Numai entrou em conflito com , emir da haje egípcia. Em consequência de uma queixa deste, o então governador otomano do Egito, , expediu em 1552 uma ordem destituindo Abu Numai e Amade e determinando sua substituição por , membro dos , mas a decisão não chegou a ser executada. Relatórios enviados a Istambul indicam que Ali Paxá pretendia colocar Meca e Gidá sob administração otomana mais direta e até nomear um sanjaco-bei para a região. O governo central, contudo, não adotou o projeto e decidiu manter Abu Numai e seu filho no emirado. Após a morte de Amade, em 1554, Abu Numai solicitou a Istambul que outro de seus filhos, Alhaçane, fosse associado ao governo. Um diploma datado de 22 de Xaual de 961 A.H. (20 de setembro de 1554) confirmou Alhaçane no emirado, e Abu Numai permaneceu durante algum tempo auxiliando-o no exercício do poder. Em uma petição redigida em turco e enviada a Istambul, informou que as caravanas de peregrinos haviam realizado a haje e regressado em segurança e elogiou os serviços prestados por Alhaçane na proteção das Duas Mesquitas Sagradas. Em 1557, pai e filho entraram em conflito com as tropas otomanas de Medina e seu comandante, , e enviaram , também conhecido como , a Istambul para apresentar suas queixas, sem obter resultado. Depois desse episódio, Abu Numai parece ter transferido a condução cotidiana dos assuntos do emirado a Alhaçane, embora continuasse a ser mencionado juntamente com o filho nas ordens e correspondências oficiais enviadas pelo governo otomano.
Abu Numai voltou a aparecer nas fontes otomanas em 1571, quando chegou a Meca com numeroso séquito durante a campanha otomana no Iêmem. Segundo , o emir receou as intenções de Sinane e não compareceu a um banquete que havia preparado para ele. Irritado, o paxá mandou que cavalos pisoteassem as mesas e permitiu que fossem saqueadas, embora posteriormente os dois tenham se reconciliado. Provavelmente após esse episódio, Abu Numai abandonou definitivamente os assuntos administrativos e retirou-se para o Iêmem, onde passou a viver de maneira reclusa. Morreu em , em 9 ou 10 de Moarrão de 992 A.H. (22 ou 23 de janeiro de 1584), aos 77 anos. Seu corpo foi transportado para Meca e sepultado no . As fontes do período caracterizam Abu Numai como um administrador bem-sucedido e afirmam que a população do Hejaz viveu em relativa tranquilidade durante seu longo governo. Também lhe são atribuídos alguns tratados e poemas. Após sua morte, seus descendentes formaram os ramos conhecidos como zaídida, abedálida e baracátida, e todos os emires de Meca que o sucederam até o estabelecimento do domínio saudita pertenceram à sua descendência.
Bibliografia
Categoria:Árabes do século XVI Categoria:Xarifes de Meca Categoria:Árabes do Império Otomano Categoria:Árabes do Sultanato Mameluco do Cairo Categoria:Pessoas sepultadas no Cemitério de Almuala Categoria:Catádidas