Galibe ibne Muçaíde () foi xarife e emir de Meca de 1788 a 1813 ou 1814, pertencente aos zaídidas (Du Zaíde). Seu longo governo foi marcado sobretudo pelo conflito com o Primeiro Estado Saudita e o movimento uaabita, cuja expansão a partir do Négede ameaçou progressivamente a autoridade dos xarifes e do Império Otomano no Hejaz. Depois de inicialmente impedir a entrada dos uaabitas nos lugares sagrados, Galibe alternou períodos de confronto e negociação com os emires sauditas, até perder temporariamente Meca para as forças de em 1803. Galibe recuperou Meca poucos meses depois, mas, após novo cerco, submeteu-se aos sauditas em 1806 em troca da conservação do emirado. Permaneceu à frente da cidade durante o período de domínio saudita-uaabita, quando a soberania otomana efetiva sobre Meca foi interrompida.
Em 1813, colaborou secretamente com as forças egípcias comandadas por , enviadas pelo governador Maomé Ali Paxá, contribuindo para a recuperação de Meca e o restabelecimento da autoridade otomana no Hejaz. Apesar de sua colaboração, Galibe foi pouco depois deposto por iniciativa de Maomé Ali e substituído por seu sobrinho Iáia ibne Surur. As fontes divergem entre 1813 e 1814 quanto à data de sua deposição. Foi então enviado para Salonica, acompanhado de seu filho Abede Almotalibe, que posteriormente também exerceu o Emirado de Meca. Durante seu governo, Galibe manteve ainda relações diplomáticas com o Imamato Zaidita do Iêmem e exerceu patronato sobre estudiosos e religiosos estabelecidos em Meca, entre eles o sufi .
Vida
Galibe ibne Muçaíde era filho do emir Muçaíde ibne Saíde e pertencia aos zaídidas (Du Zaíde), ramo dos catádidas da linhagem haçânida da dinastia haxemita, descendente do clã dos haxemitas. Após a morte de seu irmão Surur ibne Muçaíde, em 18 de Rabi Alarrir de 1202 A.H. (27 de janeiro de 1788), o emirado passou brevemente a outro irmão, Abede Almuine ibne Muçaíde, que renunciou poucos dias depois em favor de Galibe. A notícia da morte de Surur chegou a Constantinopla em meados de Xabã, e o sultão confirmou Galibe no governo. O firmã imperial e a veste de investidura chegaram a Meca em 29 de Dulcada de 1202 A.H. (1788). Pouco depois de sua ascensão, Galibe enfrentou a oposição de alguns de seus irmãos, que deixaram Meca e obtiveram apoio entre grupos dos hudailitas. Em 19 de Dulrija de 1202 A.H. (1788), Galibe derrotou-os numa batalha nas proximidades da cidade. Os rebeldes tentaram posteriormente tomar Taife e, depois de novos confrontos, aliaram-se aos taquifitas, conseguindo ocupar a cidade em Jumada Aluala de 1203 A.H. (1789). Galibe convocou então o auxílio das tribos beduínas e concentrou suas forças em Maabada, levando seus irmãos a desistir de avançar sobre Meca. Em 24 de Jumada Aluala, as partes chegaram a um acordo mediado por Nácer ibne Mastur e por vários estudiosos de Meca.
Nos primeiros anos de seu emirado, Galibe também teve de enfrentar a crescente expansão do Primeiro Estado Saudita e do movimento uaabita no Négede. Seu antecessor havia permitido que os uaabitas visitassem os lugares sagrados, inicialmente mediante o pagamento de uma taxa e, posteriormente, sem condições. Em 1787, Galibe revogou essa permissão, iniciando um prolongado conflito com o emir . Em 1798, contudo, celebrou um acordo pelo qual o Emirado de Meca reconheceu formalmente os uaabitas e lhes foi novamente permitido entrar livremente em Meca. Em 1214 A.H. (1799), , agindo em nome de seu pai, participou de negociações com Galibe e o governador otomano de Baguedade, Solimão Paxá, que resultaram num acordo relacionado à reabertura da rota da haje. As relações, entretanto, voltaram a deteriorar-se à medida que a expansão saudita-uaabita alcançava o Hejaz. Durante esse período, Galibe também manteve relações com o Imamato Zaidita do Iêmem; , que desempenhava funções políticas junto ao governo iemenita, participou da correspondência mantida entre o imamato, Galibe e Abedalazize ibne Maomé ibne Saúde. Galibe também exerceu patronato sobre figuras religiosas estabelecidas em Meca. Por volta de 1799, o estudioso e sufi marroquino , fundador do , estabeleceu-se na cidade e recebeu sua proteção. Galibe destinou-lhe e a seus discípulos o , onde puderam desenvolver suas atividades.
A ocupação francesa do Egito em 1798 afetou diretamente o governo de Galibe. A interrupção da caravana egípcia, das remessas destinadas aos Lugares Santos e de parte do comércio entre Suez e Gidá prejudicou a economia do Hejaz. Por determinação do governo otomano, Galibe reforçou as defesas de Gidá e supervisionou a restauração de suas fortificações. Ao mesmo tempo, manteve correspondência com Napoleão Bonaparte, que procurava assegurar o funcionamento da peregrinação e restabelecer o comércio entre os portos egípcios e Gidá. Galibe adotou uma política pragmática: respondeu às iniciativas francesas e negociou a continuidade das relações comerciais, mas também apoiou a mobilização de habitantes do Hejaz contra a ocupação, fornecendo armas e embarcações para transportar voluntários ao Egito. A dimensão comercial dessas relações aparece em 1213 A.H. (1799), quando nove dau provenientes de Gidá chegaram a Suez transportando café, especiarias e outras mercadorias; cerca de quinhentas cargas de café pertenciam ao próprio Galibe, das quais cinquenta foram isentas de direitos alfandegários pelas autoridades francesas como incentivo à retomada do comércio.
O conflito com os sauditas atingiu seu ponto crítico em 1803. Depois de conquistar Taife em fevereiro, Saúde ibne Abedalazize avançou contra Meca. O irmão de Galibe, Abede Almuine, procurando evitar um massacre e o saque da cidade, facilitou a entrada das forças inimigas, e Meca foi ocupada em 30 de abril. Galibe retirou-se para Gidá, enquanto Saúde deixou Abede Almuine como emir de Meca. Durante sua permanência na cidade, os uaabitas destruíram diversos locais de visitação e mandaram demolir as cúpulas erguidas sobre sepulturas, preservando a Caaba e o . Depois de deixar Meca, Saúde avançou contra Gidá, mas Galibe e o governador da cidade, Xarife Maomé Paxá, organizaram sua defesa e repeliram as forças atacantes. Aproveitando a retirada de Saúde e a pequena guarnição deixada em Meca, Galibe, auxiliado pelo governador de Gidá, iniciou em 12 de julho de 1803 o cerco da cidade. Após 25 dias, conseguiu reconquistá-la e reassumiu o emirado. Saúde concordou em deixá-la sob sua autoridade mediante determinadas condições, entre elas a cessão de Medina e a isenção de impostos para seus partidários que se dirigissem a Gidá. A morte de Abedalazize ibne Maomé, em novembro daquele ano, e a ascensão de Saúde não encerraram o conflito. No final de 1805, as forças sauditas voltaram a sitiar Meca. Depois de aproximadamente três meses e sem receber o auxílio esperado dos otomanos, Galibe concordou, em janeiro de 1806, em entregar a cidade, sob a condição de permanecer como emir. Galibe conservou, assim, formalmente o Emirado de Meca durante o período de domínio saudita-uaabita sobre a cidade, embora sua autonomia tivesse sido consideravelmente reduzida. A cutba em nome do sultão otomano foi proibida sob a alegação de que constituía uma inovação religiosa, e a soberania efetiva do Império Otomano sobre Meca foi interrompida.
A situação modificou-se depois que o governador otomano do Egito, Maomé Ali Paxá, recebeu a missão de recuperar o Hejaz. Galibe estabeleceu contato secreto com , filho de Maomé Ali, e colaborou com as forças egípcias enviadas contra os sauditas. Meca foi recuperada em 1813, encerrando o período de domínio saudita sobre a cidade. Depois da recuperação das cidades sagradas, Galibe procurou manter boas relações com os novos ocupantes e enviou presentes a Maomé Ali e Toçune Paxá. Sua posição, contudo, tornou-se incompatível com os planos do governador egípcio para o Hejaz. Por solicitação de Maomé Ali, foi deposto e substituído por seu sobrinho Iáia ibne Surur. As fontes reunidas pela TDV İslâm Ansiklopedisi apresentam cronologias divergentes para o episódio: o verbete sobre as situa a deposição em novembro de 1813, enquanto o verbete sobre Meca a data de 1814. Depois de deposto, Galibe foi enviado a Salonica, acompanhado por seu filho Abede Almotalibe, nascido em Meca em 1794. A deposição de Galibe não eliminou a influência de sua família no Hejaz. Os Daui Zaíde permaneceram envolvidos nas disputas pelo Emirado de Meca, e Abede Almotalibe regressou posteriormente à região, chegando a exercer o emirado em diferentes períodos do . A memória do governo de Galibe também permaneceu ligada ao ambiente religioso de Meca: quando Amade ibne Idris regressou à cidade em 1817, persistiam tensões entre os grupos xarifianos ligados à antiga casa do emir e as forças de Maomé Ali Paxá.
Bibliografia
Categoria:Árabes do século XVIII Categoria:Árabes do século XIX Categoria:Xarifes de Meca Categoria:Árabes do Império Otomano Categoria:Zaídidas Categoria:Pessoas do Primeiro Estado Saudita