Ganga-Zumba é um romance histórico do escritor brasileiro João Felício dos Santos, publicado no Rio de Janeiro em 1962 pela Civilização Brasileira. Escrito entre 1959 e 1961, o romance utiliza o Quilombo dos Palmares e a resistência dos seus habitantes à escratura como matéria narrativa. Em 1963 foi premiado pela Academia Brasileira de Letras.

A narrativa acompanha inicialmente Antão, identidade ficcional atribuída pelo autor ao jovem Ganga Zumba, desde a vida no cativeiro até à fuga e chegada a Palmares. Nas partes seguintes, personagens e acontecimentos documentados são combinados com construções ficcionais; entre elas está a fusão narrativa de Ganga Zumba e Zumbi, figuras distintas na documentação histórica.

O romance recebeu apreciações favoráveis na crítica literária de 1963, embora a sua representação das personagens negras tenha posteriormente originado leituras críticas divergentes. Serviu de base ao longa-metragem Ganga Zumba, de Cacá Diegues, produzido entre 1963 e 1964 e lançado comercialmente no Rio de Janeiro em 9 de março de 1964, e foi uma das fontes literárias utilizadas por Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri em Arena Conta Zumbi, estreada em 1965. Contexto literário

Ganga-Zumba insere-se numa tradição de representação literária do Quilombo dos Palmares que remonta ao século XIX. Em 1869, Apolinário Porto-Alegre começou a publicar em folhetins, na Revista do Partenon Literário, o romance histórico Os Palmares. O tema voltou à ficção em Palmares, de Joaquim de Paula Souza, publicado inicialmente no jornal A Constituinte em 1880 e em livro em 1885, e em Quilombo dos Palmares, romance de Araripe Júnior publicado em 1882.

No século XX, a memória de Palmares passou também a ser reelaborada a partir de uma perspectiva de afirmação negra. Em «Canto dos Palmares», publicado em Poemas d'uma vida simples (1944), Solano Trindade tomou o quilombo como símbolo de resistência e liberdade; o poema voltou a ser publicado em Cantares ao meu povo, em 1961. Publicado no ano seguinte, Ganga-Zumba retomou esse universo pela forma do romance histórico, centrando a narrativa na trajectória ficcionalizada de Ganga Zumba e na formação e organização de Palmares.

Ganga-Zumba insere-se nessa tradição de reelaboração literária de Palmares, organizando a narrativa em torno da trajectória de Antão, identificado ficcionalmente com Ganga Zumba, e da construção da comunidade palmarina.

Composição e publicação Ganga-Zumba foi escrito no Rio de Janeiro entre 1959 e 1961. A apresentação autoral da obra situa Palmares e os quilombolas no centro da matéria histórica e literária do romance. A obra foi publicada numa fase em que João Felício se dedicava com frequência ao romance histórico, depois de João Abade, de 1958, e Major Calabar, de 1960.

A primeira edição foi publicada pela Civilização Brasileira em 1962. Tinha 235 páginas e integrava a Coleção Vera Cruz, volume 38, com desenho da capa e ilustrações da autoria de Carybé, e montagem da capa por Eugênio Hirsch.

Há provas de circulação comercial do romance fora do Rio de Janeiro ainda no ano da publicação. A Biblioteca Pública do Espírito Santo conserva uma nota fiscal de 1962 referente à compra de um exemplar em Vitória pelo escritor e folclorista Guilherme Santos Neves, na firma Moacyr Barbosa & Cia. Em 23 de dezembro de 1962, Última Hora incluiu Ganga-Zumba numa selecção de obras de ficção brasileira sugeridas como presentes de Natal.

Enredo

O romance está dividido em três partes. A primeira, «O vento que vem do mar», acompanha Antão durante a vida num engenho de açúcar. Nascido no cativeiro, Antão cresce em contacto com relatos sobre Palmares e com a expectativa da fuga. Ao final da primeira parte, Antão e outros escravos dirigem-se para o quilombo.

Na segunda parte, «Agrestes germinados», o grupo alcança a região da Serra da Barriga. Antão é recebido em Palmares e passa a ser identificado como Ganga Zumba. A narrativa desloca então o seu centro para a organização dos mocambos, a agricultura, as defesas e as relações sociais e políticas da comunidade. É nessa fase da narrativa que surge Dandara, personagem secundária que se integra em Palmares e se liga afectivamente ao protagonista.

A terceira parte, «Carrapinhas de ouro», concentra-se nas campanhas contra Palmares e nos conflitos com as forças coloniais. Personagens documentadas, como Fernão Carrilho e o governador D. Pedro de Almeida, são incorporadas à narrativa juntamente com episódios ficcionais. Ao final, depois de novos combates, Ganga Zumba recebe do seu próprio povo a designação de «Rei Zumbi», completando a fusão narrativa entre as duas figuras históricas.

Personagens

Antão é o protagonista da obra e constitui uma identidade ficcional atribuída por João Felício a Ganga Zumba. Na recensão publicada em 1963, João Décio destacou, além de Antão, Cipriana, Rita e Zacaria Passarinho. O crítico deteve-se particularmente na construção de Rita, cuja experiência de mulher escravizada submetida a violências físicas e morais utilizou como exemplo da caracterização psicológica da obra.

O romance incorpora também figuras historicamente documentadas em Palmares, como Ganga Zumba, Ganga Zona e Zumbi, mas reorganiza algumas das relações existentes entre elas. Ganga Zona, por exemplo, aparece na tradição documental como irmão de Ganga Zumba, enquanto a ficção o integra numa genealogia diferente.

Dandara ocupa um papel secundário e surge já durante a fase palmarina do enredo. Estudos dedicados à personagem assinalam que a representação que posteriormente se consolidou na memória pública se afastou em vários aspectos da construção apresentada por João Felício em 1962.

História e ficção

João Felício incorporou no romance material proveniente da tradição documental sobre Palmares. A epígrafe da obra reproduz elementos da descrição de Ganga Zumba como soberano palmarino presente na chamada Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do governador D. Pedro de Almeida, de 1675 a 1678, documento seiscentista posteriormente difundido por uma publicação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

O aproveitamento da documentação histórica é selectivo. A Relação apresenta Ganga Zona como irmão de Ganga Zumba; no romance, os nomes são reorganizados numa genealogia ficcional que culmina na transformação do protagonista em Zumbi. A narrativa também não reproduz o acordo firmado em 1678 entre Ganga Zumba e as autoridades coloniais. Em seu lugar, Fernão Carrilho tenta convencer o protagonista a aceitar uma negociação que, no plano do romance, ocorre sem autorização do governo. Ganga Zumba continua posteriormente a resistência e acaba chamado de «Rei Zumbi».

Outro episódio atribui a D. Pedro de Almeida a decisão de enviar deliberadamente pessoas infectadas para disseminar doenças em Palmares. A crítica teatral identificou esse episódio, bem como a genealogia ficcional dos dirigentes palmarinos, entre os elementos posteriormente aproveitados por Arena Conta Zumbi.

Temas e estilo

O crítico literário Domício Proença Filho descreveu a obra como conduzida por um narrador omnisciente que alterna o relato dos acontecimentos com comentários explicativos e frequentemente cede a voz às personagens. O crítico destacou também o uso de africanismos, o carácter rítmico das falas e a dimensão de «prosa poética» da narrativa.

Na recensão contemporânea de 1963, João Décio salientou o lirismo, o ritmo, a análise psicológica, os elementos folclóricos e o trabalho de linguagem. Para o crítico, o interesse literário do romance encontrava-se na transfiguração da matéria histórica em ficção, e não na sua simples reprodução.

A liberdade, a resistência à escravatura e a construção de Palmares como espaço de autonomia são elementos recorrentes nas leituras críticas da obra. O historiador Márcio de Sousa Soares relacionou ainda alguns elementos míticos da narrativa, nomeadamente o «reino encantado de Zambi» e a transformação final de Ganga Zumba em Zumbi, à vertente do realismo mágico.

Recepção crítica Em 1963, Ganga-Zumba recebeu um prémio da Academia Brasileira de Letras. Uma notícia publicada por O Estado em 1967 regista a premiação e o ano, mas não identifica a distinção; a Associação Brasileira de Imprensa confirmou posteriormente que o romance fora premiado pela Academia.

A primeira recensão literária substancial localizada foi publicada por João Décio no volume 3 da revista Alfa, em 1963. Décio classificou Ganga-Zumba como um «romance de fundo histórico» e avaliou favoravelmente a transformação do material histórico em ficção, a linguagem e a caracterização das personagens.

No mesmo ano, Aguinaldo Silva, na coluna «Livros da Semana» de Última Hora, comentou favoravelmente o romance e observou que João Felício ainda era pouco conhecido pelo grande público, manifestando a expectativa de que o filme então em preparação ampliasse a sua notoriedade.

A recepção posterior não foi uniforme. Em 1989, o escritor Beto Mussa incluiu Ganga-Zumba entre os exemplos que utilizou para discutir a permanência do estereótipo do «negro selvagem» na literatura brasileira. Segundo a sua leitura, a proposta de valorização de um passado negro heroico não eliminava representações racializadas ligadas, entre outros elementos, à sexualidade e à animalização.

Em sentido distinto, Domício Proença Filho, em 2004, destacou no romance elementos que considerou valorizadores da contribuição negra na literatura brasileira, entre eles a linguagem, o ritmo e a altivez das personagens. O crítico literário Luiz Henrique Silva de Oliveira incluiu a obra, em 2014, na tradição do chamado «negrismo» no romance brasileiro.

Adaptação cinematográfica

O romance serviu de base a Ganga Zumba, de Cacá Diegues. Segundo a Cinemateca Brasileira, o filme foi produzido entre 1963 e 1964 e lançado comercialmente no Rio de Janeiro em 9 de março de 1964. Os créditos formais atribuem o roteiro a Diegues e a adaptação a Diegues, Leopoldo Serran e Rubem Rocha Filho, identificando o romance de João Felício como obra de origem.

A adaptação utiliza sobretudo a primeira parte do livro, acompanhando Antão desde o engenho até à chegada a Palmares, deixando de fora grande parte dos acontecimentos desenvolvidos posteriormente no romance.

O próprio João Felício participou no processo de desenvolvimento cinematográfico: Um catálogo de materiais relacionados ao filme regista um documento de cerca de 78 páginas intitulado Ganga Zumba. Argumento de João Felício dos Santos, associado a Diegues, Serran e Rocha Filho e proveniente do acervo da Embrafilme. Essa participação não se traduz, contudo, num crédito formal de João Felício como roteirista ou adaptador na ficha técnica preservada pela Cinemateca.

Influência

Ganga-Zumba foi uma das fontes literárias utilizadas por Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri na criação de Arena Conta Zumbi, que estreou no Teatro de Arena de São Paulo em 1 de maio de 1965. A crítica teatral Iná Camargo Costa observa que a peça aproveitou construções do romance, incluindo aspectos da genealogia ficcional de Palmares e o episódio de disseminação deliberada de doenças.

A obra teve ainda continuidade na produção carnavalesca do próprio João Felício. Segundo depoimento de Ricardo Cravo Albin reproduzido pela Associação Brasileira de Imprensa, o escritor foi autor do enredo Ganga Zumba, apresentado em 1970 pelo Clube Carnavalesco Canários das Laranjeiras. O Dicionário Cravo Albin regista que o samba Ganga Zumba foi composto sobre o enredo e o livro de João Felício, integrando o desfile com que a agremiação alcançou o tetracampeonato em 1970.

História editorial