Espigão, na geomorfologia, é uma faixa de terreno elevado, com formato alongado e topos geralmente estreitos ou suavemente aplanados, que separa dois vales ou duas bacias hidrográficas vizinhas e funciona como divisor de águas.
O termo é de uso corrente no Brasil, tanto na linguagem técnica quanto na popular, e aparece como sinônimo aproximado de interflúvio, divisor topográfico e cumeada, embora tenham sentidos estritos diferenciados.
A chuva que cai sobre um espigão escoa para lados opostos, alimentando redes de drenagem distintas, e por isso a linha que acompanha seu topo costuma ser usada para delimitar bacias em mapas e em estudos de planejamento.
Terminologia A palavra ganhou peso na geografia brasileira a partir dos estudos de Aziz Ab'Sáber sobre o sítio urbano de São Paulo, nos quais o autor descreveu o chamado Espigão Central como um "alongado e estreito divisor de águas" entre as bacias do Tietê e do Pinheiros. Espigões condicionaram o traçado de ferrovias, a localização de cidades e a escolha de áreas agrícolas, e exercem influência local sobre a temperatura do ar, a ocorrência de geadas e a circulação de poluentes.
Na literatura técnica em português, o espigão é tratado dentro do conjunto de feições que marcam a separação entre bacias. O glossário do Instituto Mineiro de Gestão das Águas define o interflúvio como a "área elevada (topo de morro, montanha, chapada) que delimita a bacia hidrográfica, a partir de onde a água da chuva que cai escoa em diversas direções", registrando divisor de água como sinônimo. Espigão, nesse vocabulário, designa sobretudo a forma alongada do interflúvio, enquanto divisor de águas se refere à sua função hidrológica e linha de cumeada à linha que une os pontos mais altos.
A distinção entre forma e função tem consequência prática: nem toda linha de cumeada coincide com o divisor de águas, e nem todo espigão é uma elevação nítida na paisagem. No Planalto Ocidental Paulista, por exemplo, os espigões que separam os grandes afluentes do Paraná correspondem a colinas amplas de topos aplanados, com desníveis modestos em relação aos vales. Em outros casos, como o do Espigão Mestre, o nome se aplica a um divisor regional de grande extensão que, no terreno, se apresenta como borda de chapadão ou escarpa, e não como crista estreita.
Origem e evolução Os espigões resultam da dissecação de uma superfície pela rede de drenagem. À medida que os rios aprofundam e alargam seus vales, as porções de terreno entre dois cursos d'água adjacentes permanecem mais altas, formando faixas alongadas cuja orientação acompanha a dos próprios rios. Em regiões onde a drenagem principal corre de forma paralela, os espigões também se dispõem em faixas paralelas, como ocorre no oeste do estado de São Paulo, onde o Tietê, o Aguapeí, o do Peixe e o Paranapanema correm em direção ao rio Paraná separados por longos divisores.
A forma final de um espigão depende da rocha e da estrutura geológica sobre as quais ele se desenvolve. Em terrenos sedimentares pouco deformados, como os arenitos da Bacia do Paraná no Planalto Ocidental Paulista, predominam colinas amplas com topos aplanados ou tabulares, vertentes de baixa declividade e vales rasos. Em áreas de rochas mais resistentes ou fraturadas, a erosão diferencial tende a produzir divisores mais estreitos e de flancos íngremes. Estudos no Planalto de Santa Catarina mostraram que falhas, fraturas e rupturas de declive orientam a migração dos canais fluviais e, com isso, a posição e o traçado dos divisores regionais.
Mobilidade dos divisores Um espigão não é uma feição fixa na escala do tempo geológico. Quando os rios de um lado do divisor erodem com mais intensidade que os do lado oposto, a cabeceira mais agressiva avança e pode incorporar trechos da drenagem vizinha, processo conhecido como captura fluvial. O divisor, então, migra em direção à bacia que perde área. Na Serra da Mantiqueira, afluentes do rio Paraibuna, que descem a frente escarpada da serra, dissecam o relevo com mais vigor do que os rios que drenam o planalto interiorano em direção ao rio Grande, deixando no terreno cotovelos de captura e divisores rebaixados.
Nem sempre um dos lados prevalece. Na Serra do Espigão, em Santa Catarina, divisor entre as bacias do Uruguai e do Iguaçu, foram identificadas capturas fluviais para ambos os lados, sem que fosse possível apontar uma bacia agressora; os autores atribuíram essa dinâmica ao papel dos níveis de base locais.
Exemplos
Espigão Central de São Paulo O Espigão da Paulista, também chamado Espigão Central, é o exemplo urbano mais conhecido do país. Trata-se do divisor entre as águas que seguem para o Tietê e para o Pinheiros, cujo topo, com cotas entre cerca de 800 e 820 metros, orientou a ocupação original da colina histórica de São Paulo e o sentido de sua expansão. Ab'Sáber observou que o Espigão Central é particularmente visível para quem decola do aeroporto de Congonhas em direção ao norte da cidade.
Espigões do Planalto Ocidental Paulista No oeste paulista, a sucessão de espigões paralelos entre os grandes rios da margem esquerda do Paraná definiu a geografia da expansão cafeeira no início do século XX. As companhias ferroviárias seguiram a linha dos divisores, de modo que cada zona servida por uma ferrovia passou a corresponder a um espigão. A Noroeste ocupou o divisor entre o Tietê e o Aguapeí; a Paulista, o espigão entre o Aguapeí e o rio do Peixe, que deu origem à região conhecida como Alta Paulista; a Sorocabana, o espigão entre o Peixe e o Paranapanema. A Araraquarense avançou pelo setor noroeste do estado, sobre o divisor do rio São José dos Dourados. Na época, os espigões eram vistos como faixas de acesso e reconhecimento facilitados, e os núcleos de povoamento foram se assentando ao longo deles, junto às estações.
Espigão Mestre O Espigão Mestre marca o limite entre Goiás e Tocantins, a oeste, e Minas Gerais e Bahia, a leste, separando as bacias do Tocantins e do São Francisco. A leste do divisor estendem-se chapadões sustentados pelos arenitos cretáceos da Formação Urucuia, que armazenam água no Aquífero Urucuia e alimentam afluentes da margem esquerda do São Francisco.
Serra do Espigão Em Santa Catarina, a Serra do Espigão integra a área do Planalto Catarinense onde se encontra o tríplice divisor das bacias dos rios Itajaí, Paraná e Uruguai. O divisor corresponde a um planalto largo, com altitudes entre 1000 e 1350 metros, limitado por flancos íngremes nos quais afloram arenitos da Formação Botucatu sob os basaltos do Grupo Serra Geral.
Influência no clima Os espigões interferem no clima em escala local, na faixa que a climatologia chama de topoclima ou mesoclima. O efeito mais conhecido está ligado à drenagem do ar frio durante noites calmas e de céu limpo. O ar resfriado junto ao solo, mais denso, escoa pelas vertentes e se acumula nas baixadas e nos fundos de vale, onde fica protegido do vento e atinge temperaturas mais baixas do que nas áreas vizinhas. Por essa razão, as porções mais altas e bem drenadas de um espigão tendem a sofrer menos com a geada do que os terrenos côncavos situados abaixo delas, fenômeno relacionado à inversão térmica noturna.
A regra, porém, tem exceções. O Zoneamento Agrícola de Risco Climático do café arábica, publicado pelo Ministério da Agricultura, recomenda evitar, nas regiões elevadas de São Paulo, do sul de Mato Grosso do Sul e do Paraná, não só os fundos de vale, as baixadas e as encostas baixas, mas também os "espigões planos extensos" e as bacias com gargantas estreitas a jusante, porque essas configurações dificultam o escoamento do ar frio e elevam o risco de dano por geada. Em topos muito largos e planos, o ar frio formado sobre a própria superfície não encontra declive suficiente para escoar.
Os espigões também influenciam a ventilação e a dispersão de poluentes. O Atlas Ambiental do Município de São Paulo, ao dividir o território paulistano em climas locais e mesoclimas, tratou separadamente os topos, as colinas intermediárias e as várzeas, e reconheceu unidades próprias para os morros e espigões do Alto Juqueri e do Alto Pinheiros. Segundo o mesmo levantamento, o divisor entre as bacias do Tietê e do Juqueri, na Serra da Cantareira, com altitudes de 900 a 1000 metros, favorece a dispersão de poluentes e altera os fluxos de ar próximos ao solo na Zona Norte. Em contraste, os vales do Tietê, do Tamanduateí e do Pinheiros comportam-se como bacias aquecidas que concentram poluição.
No Espigão Central, o efeito do relevo se sobrepõe ao da urbanização. O Atlas incluiu o espigão no núcleo da ilha de calor paulistana, onde a verticalização da Avenida Paulista forma cânions urbanos com menor circulação de ar e maior capacidade de armazenar calor.
Importância para o uso do território Por delimitarem bacias, os espigões servem de base para a divisão de unidades de gestão de recursos hídricos e para o traçado de limites administrativos. Sua posição elevada e a menor suscetibilidade a inundações fizeram deles, historicamente, locais preferidos para caminhos, ferrovias e núcleos urbanos no interior paulista.
Ver também
Divisória de águas Bacia hidrográfica Rede de drenagem Captura fluvial Cuestas Arenítico-Basálticas Relevo do Brasil
Categoria:Acidentes geográficos Categoria:Termos geográficos Categoria:Hidrografia