Terepaima, também grafado Terepayma nas fontes antigas, foi um principal indígena activo na região centro-norte da actual Venezuela durante a segunda metade do século XVI. Uma relação do governador Juan de Pimentel, datada de 1578 e conservada numa cópia autenticada de 1585, chama-lhe expressamente «indio principal», explicando que uma elevação conhecida como lomba de Terepayma recebia esse nome porque o principal vivia nela ou nas suas proximidades.Arquivo Geral das Índias (AGI), PATRONATO,294,N.12, ff. 2r–2v, Relación de Nuestra Señora de Caraballeda y Santiago de León, 1 de Dezembro de 1578; cópia autenticada de 9 de Maio de 1585.
As fontes e a historiografia atribuem-lhe papéis diferentes nos conflitos que acompanharam a expansão espanhola na região de Caracas. Juan de Castellanos, na primeira edição das Elegías de varones ilustres de Indias (1589), individualizou Terepayma como combatente e atribuiu-lhe a morte de Carpío, trespassado por uma longa lança; na própria sequência de Castellanos, Carpío é uma personagem distinta de Juan Rodríguez Suárez.. Mais de um século depois, José de Oviedo y Baños associou Terepaima aos arbacos, descrevendo uma acção coordenada com Guaicaipuro.. No século XX, Nectario María passou a apresentá-lo como cacique dos meregotos e comandante de um grande contingente indígena contra Luis de Narváez..
A documentação e as tradições posteriores não permitem fixar com segurança uma data ou circunstância única para a sua morte. Autores do século XX transmitiram versões incompatíveis, ora colocando-a até 1573 e relacionando-a com as campanhas de Diego de Losada, ora situando-a em meados da década de 1570 depois de uma paz e de um novo conflito atribuídos a Garci González de Silva...
Registo documental do século XVI
Pimentel e a lomba de Terepaima
A Relación de Nuestra Señora de Caraballeda y Santiago de León, preparada em 1578 sob o governo de Juan de Pimentel, constitui uma das fontes documentais mais importantes para identificar Terepaima como pessoa histórica. O texto conservado usa as formas Terepaima e Terepayma e, ao explicar a origem de um topónimo, declara que a lomba se chamava Terepayma por um «indio principal» desse nome que vivia nela ou junto dela.
A mesma passagem enquadra a lomba nos acontecimentos ligados a Juan Rodríguez Suárez e a Luis de Narváez. Segundo Pimentel, Rodríguez Suárez, depois de sair para combater Lope de Aguirre, foi morto com seis soldados pelos indígenas naturais da província na lomba de Terepaima, após dois ou três dias de combate. O texto acrescenta que, depois da sua morte, Francisco Fajardo continuou como capitão na região; posteriormente, o governador Alonso Bernáldez enviou Narváez com sessenta homens para pacificar os indígenas e socorrer Fajardo, mas Narváez e quase todos os seus homens foram mortos, escapando apenas seis ou sete, numa acção também situada na lomba de Terepayma.
Pimentel não individualiza Terepaima como comandante desses dois confrontos. Depois de narrar a derrota de Narváez e explicar o nome da lomba, atribui a acção subsequente aos «dichos indios naturales», que, animados pela vitória, avançaram contra o povoado de San Francisco. A edição documental da relação, publicada por Antonio Arellano Moreno em 1964, permite consultar o texto no conjunto das relações geográficas da província..
Outros testemunhos administrativos e judiciais próximos dos acontecimentos também descrevem a derrota de Narváez em termos colectivos. Numa informação de 1564, Alonso Bernáldez situou o local aproximadamente a meia légua do rio Tuy, também chamado vale do Câncer, sem nomear Terepaima.Arquivo Geral das Índias (AGI), JUSTICIA,93,N.1, f. 1029r, pergunta 4 da informação de Alonso Bernáldez, 1564. Uma relação de Antonio Barbudo de 1574 atribuiu igualmente aos naturais das serranias de Caracas as mortes de Rodríguez Suárez e Narváez, sem individualizar Terepaima.Arquivo Geral das Índias (AGI), PATRONATO,294,N.10, relação de Antonio Barbudo, 1574.
Castellanos e Carpío
A tradição impressa quinhentista introduz uma atribuição pessoal que não aparece na formulação de Pimentel. Na primeira parte das Elegías de varones ilustres de Indias, publicada em Madrid em 1589, Juan de Castellanos inclui Terepayma no episódio de Rodríguez Suárez, afirmando que o indígena trespassou Carpío com uma longa lança, fazendo-o cair morto.. Na sequência do poema, Rodríguez Suárez, Carpío e, logo depois, o «mancebo Fajardo de Guevara» são figuras diferentes.. A primeira edição lê ainda «cuerpo mortal»; a forma «cuerpo carnal», presente em algumas transmissões historiográficas posteriores, não corresponde ao texto da edição de 1589.. A fonte quinhentista individualiza Terepaima como combatente, mas conserva os dois homens como personagens distintas..
A pacificação recordada em 1603
Outra referência documental a Terepaima surge numa informação de méritos de Sebastián Díaz de Alfaro. Em 22 de Dezembro de 1603, Alonso Ruiz de Vallejo declarou ter visto Sebastián participar na «pasificación del Principal Terepaima», mencionando no mesmo bloco outros principais.. A declaração encontra-se na documentação de encomiendas do antigo Archivo Nacional de Venezuela, tendo sido publicada por Vicente Dávila.. Ruiz de Vallejo afirma ter visto ele próprio Sebastián presente na pacificação..
No início do século XVII, Antonio Vázquez de Espinosa empregou ainda a forma plural «Caracas Terepaimas» ao recordar a rebelião de populações da região de Caracas..
Tradição historiográfica dos conflitos
Francisco Fajardo
Oviedo y Baños, escrevendo em 1723, desenvolveu uma narrativa pormenorizada da relação de Terepaima com Francisco Fajardo. Segundo o cronista, ambos mantinham amizade e «estrecha correspondencia». Quando Fajardo regressava em direcção ao vale de Caracas, encontrou Terepayma na lomba das Cocuizas; Oviedo afirma que lhe ofereceu uma vaca e que a relação amistosa lhe permitiu prosseguir a viagem.. Esta versão foi amplamente retomada pela historiografia posterior. No século XIX, Baralt e Díaz já descreviam Terepaima como dirigente dos arbacos, referindo as pazes ajustadas por Fajardo no seu trajecto para o vale de San Francisco..
Juan Rodríguez Suárez e Guaicaipuro
No episódio de Rodríguez Suárez, Oviedo apresenta Terepaima como cacique dos arbacos, descrevendo uma acção coordenada com Guaicaipuro. O cronista afirma que Guaicaipuro convocou Terepayma; este teria inicialmente recusado por causa da sua amizade com Fajardo, mas acabou convencido a participar. Terepayma aproximou-se «con las tropas de sus Arbacos», enquanto Guaicaipuro o seguia com os seus teques..
A historiografia do século XIX também consolidou a atribuição de comando pessoal. Baralt e Díaz escreveram em 1841 sobre «arbacos mandados por Terepaima» no complexo narrativo de Rodríguez Suárez,. formulação mais específica do que a de Pimentel, que atribui os acontecimentos aos indígenas colectivamente.
Luis de Narváez
As versões sobre a derrota de Luis de Narváez mostram uma diferença semelhante entre documentação e historiografia. Pimentel coloca o desastre na lomba de Terepayma, mas atribui a acção aos indígenas sem nomear Terepaima como comandante. A informação de Bernáldez de 1564 situa geograficamente a derrota junto do Tuy ou vale do Câncer e também não o nomeia.Arquivo Geral das Índias (AGI), JUSTICIA,93,N.1, f. 1029r, pergunta 4, 1564.
Oviedo y Baños associa o conflito aos meregotos chamados pelos arbacos, não nomeando Terepaima na frase relativa à acção contra Narváez.. Na monografia especializada de 1966, Nectario reformulou a identificação: chamou Terepaima de «cacique de los Meregotos», colocou os meregotos «al mando de Terepaima» e atribuiu-lhe a reunião de cerca de quatro mil indígenas que teriam esperado o momento favorável para atacar Narváez... A actual entrada do Diccionario de Historia de Venezuela, da Fundación Empresas Polar, conserva a mesma associação geral, apresentando Terepaima como cacique dos meregotos e atribuindo-lhe a derrota de Narváez na região do Tuy.
Diego de Losada e Garci González de Silva
A biografia moderna de Terepaima prolonga a resistência para além das campanhas de Rodríguez Suárez e Narváez. A entrada da Fundación Empresas Polar afirma que, quando Diego de Losada avançou para a região central em 1567, encontrou primeiro a «tribo de Terepaima», não conseguiu submetê-lo e que apenas Garci González de Silva teria conseguido fazê-lo.
A documentação quinhentista recuperada para as campanhas de Garci entre os meregotos é mais limitada quanto à identificação pessoal. Na informação de méritos de Garci González de Silva, formada em 1590, as passagens legíveis falam de um «cacique dellos», «un principal» e «su principal», sem fornecer o nome desse dirigente. Referem ainda uma filha, também sem nome, cuja captura foi relacionada pelas testemunhas com a paz dada colectivamente pelos meregotos e com a sua posterior prestação de serviço. O expediente sustenta, portanto, uma campanha de Garci González contra os meregotos e uma paz atribuída colectivamente a esses indígenas, mas as passagens legíveis não identificam o principal anónimo como Terepaima.Arquivo Geral das Índias (AGI), PATRONATO,80,N.2,R.4, Méritos y servicios: García González de Silva: Dorado, 1590, imagens 5, 40 e 67.
Identidade, autoridade e território
«Principal» e «cacique»
A designação directamente documentada para Terepaima em Pimentel é principal. O termo «cacique», embora corrente na historiografia e na memória venezuelanas, pertence a um vocabulário colonial usado de maneira variável para traduzir formas indígenas de autoridade.
Horacio Biord Castillo chama a atenção para os problemas de interpretar as chefias indígenas centro-venezuelanas através de categorias políticas rígidas. Ao discutir os teques e grupos vizinhos, recorda que a relação de Pimentel negava a existência, na província de Caracas, de caciques ou senhores com propriedade e senhorio equivalentes às instituições espanholas, admitindo formas de liderança cuja extensão podia variar em função do contexto..
Arbacos e meregotos
Não há uniformidade nas fontes quanto à associação étnica de Terepaima. A documentação quinhentista aqui utilizada chama-lhe principal, mas não lhe atribui explicitamente um etnónimo pessoal. Oviedo y Baños é uma fonte muito posterior e apresenta-o como cacique dos arbacos, chegando a falar das «tropas de sus Arbacos»..
Nectario María, pelo contrário, reinterpretou no século XX essa arquitectura étnica. Na obra de 1966 sustentou que os grupos chamados arbacos ou aruacos por Oviedo eram, na realidade, meregotos, e passou a designar Terepaima como cacique dos meregotos.. Esta identificação tornou-se influente e está presente na actual entrada da Fundación Empresas Polar.
Lomba, serranias e reconstruções territoriais
O território que pode ser ligado directamente ao nome de Terepaima no século XVI é, antes de mais, a lomba de Terepayma: Pimentel explica a própria denominação pela residência do principal no local ou nas suas proximidades.
A entrada moderna do Diccionario de Historia de Venezuela propõe uma área mais extensa, desde o vale superior do rio Tuy, passando pelas Lagunetas e serranias de Terepaima, até San Pedro, nos actuais estados de Arágua e Miranda.
Tradições sobre a morte
A data e as circunstâncias da morte de Terepaima são transmitidas de forma contraditória. Vicente Dávila, em Investigaciones históricas, afirmou em 1923 que em 1573 já haviam morrido Rodríguez Suárez às mãos de Guaicaipuro e Terepaima e, por sua vez, estes às de Diego de Losada.. Uma tradição diferente aparece na família textual associada a Carlos Alarico Gómez. Em Los caciques de Venezuela (1996), Terepaima é apresentado numa sequência em que Garci González de Silva estabelece tratos ou paz com ele, o principal volta posteriormente à guerra e morre em combate em meados da década de 1570..
Formação da imagem historiográfica