Alhaçane ibne Abi Numai (; Meca, 932 A.H. (1525/6) – Négede, 3 de Jumada II de 1010 A.H. ()) foi um xarife e emir de Meca de 1554 a 1601, inicialmente como corregente de seu pai, , e posteriormente como governante principal. Pertencia aos catádidas, da linhagem haçânida da dinastia haxemita, descendente do clã dos haxemitas. Foi associado ao emirado após a morte de seu irmão mais velho , em 1554, e teve sua nomeação confirmada pelo sultão Solimão, o Magnífico. Com o progressivo afastamento de Abu Numai dos assuntos políticos e sua retirada para o Iêmem em 1571, Alhaçane assumiu a administração efetiva de Meca, tornando-se o único governante principal após a morte do pai em 1584.

Seu longo governo foi marcado pela manutenção da segurança de Meca e das rotas do haje, pela estreita relação do emirado com a corte do Império Otomano e pelo patrocínio de estudiosos, escritores e poetas. Alhaçane também realizou campanhas para afirmar a autoridade dos xarifes no Négede: em 1578, atacou , posteriormente incorporada a Riade, e, diante de nova rebelião, empreendeu em 1581 uma expedição pelo , na qual tomou fortalezas em , e Iamama. Durante seu governo, foram ainda concluídas as , destinadas ao ensino das quatro escolas jurídicas sunitas, e uma chave roubada da Caaba foi recuperada no Iêmem por Sinane Paxá e devolvida à cidade sagrada.

Nos últimos anos de vida, Alhaçane reproduziu a prática de governo compartilhado de seu pai e associou sucessivamente ao emirado seus filhos Huceine, Maçude, Abede Almotalibe e Abu Talibe, embora as fontes divirjam sobre a disposição precisa das últimas corregências. Abu Talibe foi formalmente proclamado emir ainda em vida do pai, em 1601. No mesmo ano, Alhaçane morreu durante uma nova campanha no Négede e foi sepultado no Cemitério de Almuala, em Meca. Sua numerosa descendência continuou a dominar o emirado nas gerações seguintes, incluindo e Zaíde ibne Mucine, de quem derivaram os zaídidas (Du Zaíde), e os descendentes de , conhecidos como abedálidas (Du Abedalá).

Vida

Primeiros anos e corregência

Alhaçane nasceu em Meca em 932 A.H. (1525/6), filho do emir . Pertencia aos catádidas, da linhagem haçânida da dinastia haxemita, descendente do clã dos haxemitas. Recebeu boa educação e entrou na sucessão do emirado após a morte de seu irmão mais velho Amade, que havia sido associado ao governo pelo pai. Abu Numai solicitou ao governo otomano que Alhaçane ocupasse o lugar do irmão, destacando sua atuação na proteção das cidades sagradas e dos peregrinos. O pedido foi encaminhado pelo governador otomano do Egito e aceito pelo sultão Solimão, o Magnífico . Sua nomeação foi confirmada por um berat datado de 22 de Xaual de 961 A.H. (20 de setembro de 1554). O documento reconhecia Alhaçane como emir de Meca e lhe atribuía autoridade sobre as povoações, aldeias e áreas desérticas do Hejaz, incumbindo-o da proteção da população e dos peregrinos e da segurança das rotas do haje.

Em 964 A.H. (1557), ambos entraram em conflito com Piri, comandante das tropas otomanas estacionadas em Medina. As fontes atribuem a disputa tanto às acusações de abusos cometidos pelo comandante contra a população como à resistência de Abu Numai às tentativas de limitar sua autoridade no Hejaz. Para defender sua posição perante a corte otomana, os xarifes enviaram o historiador a Constantinopla. Ele partiu em 5 de Moarrão de 965 A.H. (28 de outubro de 1557) e, após uma viagem de cerca de seis meses, apresentou as queixas dos xarifes aos dignitários otomanos, mas a tentativa de obter a destituição de Piri não teve êxito. Abu Numai posteriormente transferiu grande parte da administração para Alhaçane, embora ambos continuassem a ser mencionados conjuntamente nos documentos oficiais. Depois que Abu Numai se retirou para o Iêmem em 978 A.H. (1571), Alhaçane assumiu integralmente a administração de Meca. Apesar disso, Abu Numai conservou formalmente sua posição até morrer em 992 A.H. (1584), quando Alhaçane se tornou o único governante principal do emirado.

Governo

Alhaçane procurou conservar a ordem interna e a segurança das rotas utilizadas pelos peregrinos. Os cronistas atribuem ao período central de seu governo cerca de dezessete anos de relativa tranquilidade em Meca, durante os quais teria moderado algumas das práticas mais autoritárias associadas ao governo de seu pai. A segurança dos peregrinos tinha particular importância nas relações do emirado com o governo otomano, e ordens enviadas pela corte reiteravam a responsabilidade do xarife pela proteção das estradas contra ataques e pilhagens. Durante seu governo, aumentou o número de peregrinos e de pessoas que se estabeleceram em Meca. Alhaçane também se distinguiu pelo patrocínio de estudiosos, escritores e poetas, aos quais concedia recompensas. Residiu numa casa que mandou construir diante das portas de Ume Hani e Ajiade, conhecida como Dar Assaada ("Casa da Felicidade"), e possuía ainda uma residência utilizada no verão em Marre Azarã.

O período coincidiu ainda com importantes obras religiosas e educacionais em Meca. As , cuja construção havia começado em 973 A.H. (1565/1566), tornaram-se centros destinados ao ensino das quatro escolas jurídicas sunitas. Alhaçane também acompanhou a manutenção dos serviços relacionados à Caaba. Em 996 A.H. (1588), uma chave da Caaba que havia sido roubada foi localizada no Iêmem por Sinane Paxá e devolvida a Meca. Sua administração permaneceu estreitamente ligada à corte otomana. A investidura dos xarifes dependia da confirmação do sultão, e Alhaçane recebeu ao longo de seu governo vestes de honra e comunicações imperiais. Os registros otomanos mostram que o governo central continuava a dirigir-lhe ordens relativas à segurança, à administração das cidades sagradas e às necessidades dos peregrinos. Em contrapartida, o emir mantinha a corte informada sobre os acontecimentos no Hejaz e enviava representantes à capital em ocasiões políticas importantes.

Alhaçane realizou ainda sucessivas campanhas no Négede. Em 986 A.H. (1578), marchou com um grande exército contra , povoação posteriormente incorporada a Riade, que sitiou por um período prolongado. Capturou vários de seus chefes e levou-os para Meca, onde permaneceram presos durante cerca de um ano até aceitarem suas condições. Alhaçane libertou-os e colocou Maomé ibne Fadle à frente da administração local. Os habitantes da região voltaram a rebelar-se e, em 989 A.H. (1581), Alhaçane organizou uma nova expedição, desta vez com numeroso exército e artilharia. Avançou pelo e tomou fortalezas em , e Iamama, além de posições nas regiões montanhosas. Depois de estabelecer administradores e condições para a submissão das localidades conquistadas, iniciou o regresso. No caminho, foi interceptado por um contingente dos , que foi derrotado; muitos de seus homens foram mortos e Alhaçane capturou cavalos e camelos.

Sucessão e morte

Com o avanço da idade, Alhaçane passou a confiar parcelas crescentes da administração a seus filhos. Inicialmente designou Huceine para representá-lo no emirado, mas este morreu pouco depois. Foi sucedido nessa função por Maçude, descrito pelas fontes como homem corajoso e vigoroso, que também morreu ainda durante a vida do pai. Abede Almotalibe exerceu igualmente funções na administração durante um breve período. As fontes divergem, contudo, quanto à disposição precisa das últimas corregências: enquanto algumas apresentam Abu Talibe e Abede Almotalibe compartilhando o emirado, outras colocam Abede Almotalibe antes da associação formal de Abu Talibe. Em 1008 A.H. (1599/1600), Alhaçane pediu ao sultão Maomé III, o Justo que reconhecesse formalmente Abu Talibe como seu associado no emirado. O pedido foi aceito e um menşur foi enviado a Meca. O documento justificava a transferência progressiva das funções pela idade de Alhaçane e reconhecia a capacidade de Abu Talibe para assumir a administração. Em 4 de Dulrija de 1009 A.H. (5 de junho de 1601), Abu Talibe foi formalmente proclamado emir, embora Alhaçane permanecesse vivo e conservasse sua posição na casa xarifal.

Ainda em 1010 A.H., Alhaçane partiu novamente em direção ao Négede para restabelecer a autoridade do emirado na região. Morreu ali em 3 de Jumada II de 1010 A.H. (29 de novembro de 1601), antes de concluir a reorganização administrativa. Seu corpo foi transportado para Meca e sepultado no Cemitério de Almuala. Alhaçane deixou uma família particularmente numerosa. As fontes atribuem-lhe 27 filhos e divergem quanto ao número de filhas, indicando 16 ou 25. Vários de seus descendentes exerceram posteriormente o emirado de Meca. Seus filhos Idris e Fuaide participaram do governo no início do século XVII, enquanto Huceine foi pai de , de quem nasceu Zaíde, ancestral epônimo dos zaídidas (Du Zaíde). Outro filho, Abedalá, tornou-se ancestral dos abedálidas (Du Abedalá).

Bibliografia

Categoria:Naturais de Meca Categoria:Catádidas Categoria:Árabes do século XVI Categoria:Árabes do Império Otomano Categoria:Xarifes de Meca Categoria:Pessoas sepultadas no Cemitério de Almuala Categoria:Árabes do século XVII