Nossa Senhora da Amazônia é um título atribuído à Virgem Maria pela Arquidiocese de Manaus, no estado do Amazonas, Brasil, concebido como expressão de inculturação da fé católica junto aos povos amazônicos. A imagem que lhe dá rosto foi criada em 2011 pela artista amazonense Lara Denys, vencedora de um concurso nacional promovido pela Arquidiocese, e representa Maria e o Menino Jesus com feições indígenas e caboclas, apoiados sobre uma vitória-régia e cercados por orquídeas, elementos da flora típica da região amazônica.
A devoção deu origem à Área Missionária Nossa Senhora da Amazônia, criada pela Arquidiocese em 2015 e instalada no ano seguinte, e a um santuário mariano em construção às margens do rio Negro, na zona oeste de Manaus, cujo projeto arquitetônico busca incorporar elementos da fauna, da flora e das tradições indígenas amazônicas. Sua festa litúrgica é celebrada em 12 de agosto. Reproduções da imagem já foram entregues, em audiência, aos papas Francisco e Leão XIV.
História A origem da devoção remonta a 3 de novembro de 2010, quando a família Loureiro doou à Arquidiocese de Manaus, por escritura pública, um terreno de cerca de onze mil e setecentos metros quadrados no bairro Ponta Negra, na zona oeste da cidade, onde mais tarde seria erguida uma igreja em honra a Nossa Senhora.
No ano seguinte, sob a orientação do então arcebispo de Manaus, Dom Luiz Soares Vieira, a Arquidiocese promoveu um concurso nacional de design para a criação de uma imagem de Maria que dialogasse com a cultura e a realidade dos povos amazônicos, tarefa coordenada pelo padre Reneu Stefanello. Venceu a proposta da artista amazonense Lara Denys, então com vinte e três anos. A nova imagem foi apresentada aos fiéis em missa campal celebrada por Dom Luiz Soares Vieira em uma praça pública do centro de Manaus, em frente ao Teatro Amazonas, reunindo cerca de dois mil fiéis. A data da primeira missa celebrada no terreno doado pela família Loureiro, 12 de agosto, tornou-se a data em que anualmente se celebra a festa de Nossa Senhora da Amazônia.
Em 9 de dezembro de 2015, por decreto lavrado na Cúria arquidiocesana, foi criada a Área Missionária Nossa Senhora da Amazônia, a quarta erigida pela Arquidiocese de Manaus. A instalação solene ocorreu em 13 de março de 2016, quando o então arcebispo de Manaus, Dom Sérgio Eduardo Castriani, empossou o padre Reneu Pegararo Stefanello, da Sociedade do Apostolado Católico, como primeiro pároco da nova área missionária.
Iconografia Na imagem criada por Lara Denys, Maria é retratada com feições e pele caboclas, envolta em um manto de tom mais escuro do que o azul tradicionalmente associado às representações marianas, e em um véu branco, símbolo da pureza. Seu vestido apresenta uma estampa inspirada na arte do povo indígena Waimiri-Atroari. Ao colo, carrega o Menino Jesus, também de traços indígenas, preso ao corpo da mãe à maneira como as mulheres indígenas amazônicas carregam seus filhos.
A figura de Maria apoia-se sobre uma vitória-régia — planta aquática de grande porte, típica dos rios da Amazônia —, cercada por orquídeas brancas. Segundo a artista, a vitória-régia foi escolhida por representar força e resistência, por crescer em solo pouco fértil e suportar grande peso sobre suas folhas; as orquídeas, por sua vez, simbolizam o elemento feminino, enquanto a própria flor da vitória-régia é associada à pureza e à dignidade de Maria. A iconografia insere-se em uma tradição mais ampla de representações marianas com traços étnicos regionais, comparável às de Nossa Senhora de Guadalupe, no México, e de Nossa Senhora de Nazaré, também venerada na Amazônia brasileira.
Devoção No âmbito da Igreja Católica, a devoção a Nossa Senhora da Amazônia é apresentada como exemplo do processo de inculturação da fé nos territórios amazônicos, pelo qual comunidades locais recebem, com aprovação eclesiástica, novas invocações marianas ligadas à sua própria identidade étnica e cultural, à semelhança do que ocorreu com Nossa Senhora do Líbano e Nossa Senhora da África. Em reportagem da Folha de S.Paulo sobre a criação da imagem, o antropólogo Ademir Ramos, da Universidade Federal do Amazonas, avaliou que a iniciativa também respondia à concorrência da Igreja Católica com as igrejas pentecostais na região, ao favorecer a identificação dos fiéis com uma santa de traços semelhantes aos seus. A devoção conta com hino próprio, composto pelo poeta e músico amazonense Celdo Braga, e com oração específica dirigida à padroeira. Estudos de antropologia da religião sobre o catolicismo popular na Amazônia têm analisado a devoção como exemplo de "regionalização" da figura mariana.
Santuário Atualmente, os fiéis são atendidos por uma pequena igreja construída no terreno doado em 2010, nas proximidades do rio Negro. O projeto arquitetônico do santuário definitivo foi inicialmente concebido em formato de canoa, em referência a uma embarcação tradicional da região amazônica. Em 2023, a proposta apresentada pela diretoria da Igreja Nossa Senhora da Amazônia à Prefeitura de Manaus passou a adotar uma configuração inspirada na vitória-régia. O edifício terá mais de 2 000 m² de área construída, distribuídos entre térreo e mezanino. O projeto também prevê vitrais com representações de aves, peixes e flores da região, além de um espelho-d'água ao redor da fachada. A pedra fundamental do santuário foi abençoada em dezembro de 2023. Em setembro de 2026, as obras permaneciam em andamento.
Controvérsias Associação incorreta com a Pachamama Durante o Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, realizado no Vaticano em outubro de 2019, esculturas de madeira representando uma mulher grávida nua estiveram presentes em diferentes atividades ligadas ao encontro, entre elas uma cerimônia nos Jardins do Vaticano, com a presença do Papa Francisco, e uma exposição permanente na Igreja de Santa Maria em Traspontina, próxima ao Vaticano, tendo recebido da imprensa o nome da divindade andina Pachamama. As imagens foram interpretadas de formas diferentes por distintos setores: o prefeito do Dicastério para a Comunicação do Vaticano, Paolo Ruffini, declarou, a título pessoal, vê-las como um símbolo da vida, enquanto outras vozes as associaram à mãe-terra ou, de forma equivocada, à própria Virgem Maria.
Diante de relatos que aproximavam as estátuas do título de Nossa Senhora da Amazônia, fontes da Rede Eclesial Pan-Amazônica esclareceram à agência ACI Prensa que não se tratava dessa devoção, contrariando uma referência nesse sentido feita dias antes por um canal da Vatican News em português. Na mesma linha, o bispo emérito da Prelazia de Marajó, Dom José Luís Azcona Hermoso, manifestou-se publicamente contra a identificação das estátuas com a Virgem Maria, defendendo, em homilias proferidas naquele mês, que a titular mariana da Amazônia era Nossa Senhora de Nazaré, e classificando o episódio como motivo de escândalo entre parte dos fiéis da região. As esculturas foram furtadas da Igreja de Santa Maria em Traspontina em 21 de outubro de 2019 e lançadas no rio Tibre; recuperadas dias depois, o Papa Francisco pediu desculpas a quem se sentira ofendido pelo episódio.
Relação com o papado Reproduções da imagem de Nossa Senhora da Amazônia foram entregues por representantes da Igreja de Manaus ao Vaticano em mais de uma ocasião. Uma primeira reprodução chegou às mãos do Papa Francisco em 2019, quando este pediu a intercessão de Nossa Senhora pelo Sínodo dos Bispos para a Amazônia, realizado naquele ano. Em 22 de outubro de 2024, durante um intervalo da assembleia do Sínodo sobre a Sinodalidade, o cardeal Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, e o padre jesuíta Adelson Araújo dos Santos, professor da Pontifícia Universidade Gregoriana, entregaram ao Papa Francisco um quadro com a imagem, enviado por uma comunidade de Manaus que a tem como padroeira; o papa agradeceu o presente e enviou uma bênção à Igreja da Amazônia. Em 7 de setembro de 2026, o Papa Leão XIV recebeu, em audiência particular no Palácio Apostólico, o cardeal peruano Pedro Ricardo Barreto Jimeno, ex-presidente da Conferência Eclesial da Amazônia, e o padre Adelson Araújo dos Santos, que lhe entregaram uma pequena escultura em madeira reproduzindo a mesma imagem; ao agradecer o presente, o papa manifestou alegria ao saber da construção do novo santuário em Manaus.
Ver também Nossa Senhora de Nazaré Nossa Senhora da África Inculturação Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica
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