A Congregação de São Pedro ad Vincula (latim: Congregatio a Sancto Petro in Vinculis; francês: Congrégation de Saint-Pierre-aux-Liens; espanhol: Congregación de San Pedro ad Vincula), de sigla S.P. ad V., é uma congregação religiosa católica clerical de direito pontifício, formada por padres e irmãos. Foi fundada em 1 de agosto de 1839, em Marselha, na França, pelo padre Charles-Marie-Joseph Fissiaux, conhecido em português como padre Carlos Fissiaux, para a educação moral, religiosa e profissional de jovens detidos nas prisões e de crianças órfãs ou abandonadas. Seus membros são chamados de fissionianos.
Expulsa da França em 1903, a congregação consolidou-se na Espanha, onde fica sua casa geral, em Barcelona, e expandiu-se para a Argentina, em 1951, e para o Brasil, em 1961. O superior-geral é o padre brasileiro Evando Batista de Moraes, eleito em 2019, e o vigário-geral é o padre Marcos Rogério, eleito em 2025. Nove de seus religiosos e três leigos que os abrigavam, mortos em 1936 e 1937 durante a Guerra Civil Espanhola, foram beatificados em 2018.
História O fundador miniaturadaimagem|upright=0.8|Retrato artístico do padre Carlos Fissiaux em vestes eclesiásticas. Charles-Marie-Joseph Fissiaux nasceu em Aix-en-Provence em 1806 e cresceu em Marselha. Estudou no colégio dos jesuítas de Aix e, com o fechamento do colégio em 1828, seguiu para Friburgo, onde começou a teologia, concluída no seminário maior de Marselha. Foi ordenado padre em 17 de dezembro de 1831 pelo bispo de Marselha, Dom Eugênio de Mazenod.
Vigário da paróquia de São Ferréol a partir de 1833, dedicou-se aos doentes durante a epidemia de cólera de 1834–1835. Em 1835, tornou-se um dos diretores do orfanato criado por Mazenod para as meninas que haviam perdido os pais na epidemia, a obra da Providência, da qual foi nomeado capelão em 1 de março de 1837. Em 1839, abriu a Casa da Madalena, destinada a mulheres e jovens condenadas pelos tribunais.
Fundação e primeiras obras (1839–1867) miniaturadaimagem|upright=0.8|Representação artística do padre Carlos Fissiaux, com hábito religioso, cruz e livro. A pedido de autoridades do serviço penitenciário, Fissiaux criou em Marselha um reformatório para jovens detidos, que ficavam misturados aos adultos nas prisões. A Casa de São Pedro foi inaugurada em 7 de março de 1839, na rua da Fare. Depois de visitar instituições semelhantes, como a colônia agrícola de Mettray, concluiu que precisava de religiosos dedicados à obra e fundou a congregação, aprovada pelo bispo de Marselha e datada de 1 de agosto de 1839, festa de São Pedro ad Vincula, que recorda a libertação do apóstolo da prisão. Por isso a chamou Societas Sancti Petri ad Vincula. Em 1843, publicou Le pénitencier agricole et industriel de Marseille, em que descreve o método da casa.
O reformatório combinava oficinas de ofícios, aulas diárias de leitura, escrita e cálculo, educação religiosa, uma banda de música e um corpo de bombeiros formado pelos internos. Segundo o fundador, dos 141 jovens que deixaram a casa entre 1839 e 1840, apenas seis saíram sem um ofício. Em 1847, o governo francês concedeu a Fissiaux a Legião de Honra. Ele recusou três vezes a nomeação para bispo, entre elas para a nova diocese de Argel.
Os religiosos assumiram outras obras: a prisão central de Aniane (1841), o reformatório de São Carlos em Turim, a pedido do rei Carlos Alberto da Sardenha (1845–1848), um orfanato agrícola em Aix (1849) e um orfanato em Nîmes (1850–1856). Em 1853, Fissiaux comprou o domínio de Beaurecueil, perto de Aix, onde instalou uma colônia agrícola que chegou a receber duzentos jovens e ganhou medalhas em exposições agrícolas; em 1855, abriu outra colônia em La Cavalerie, na diocese de Avinhão, para menores de dez anos.
miniaturadaimagem|upright=0.8|Representação do padre Carlos Fissiaux, primeiro superior-geral da congregação. Em 27 de setembro de 1853, o papa Pio IX concedeu à congregação o decretum laudis (decreto de louvor), antes do prazo habitual de dez anos. Em 1 de maio de 1854, Fissiaux fez os votos religiosos e foi eleito o primeiro superior-geral. Morreu em Marselha em 3 de dezembro de 1867, na casa de São Pedro, durante o retiro anual da comunidade, e foi sepultado em Beaurecueil. Segundo sua biografia, mais de 5 mil jovens passaram por suas obras. Naquele ano, a congregação tinha oito padres e 55 religiosos de votos perpétuos. Seus restos foram depositados na capela do castelo de Beaurecueil em 26 de setembro de 1900 e, depois do fechamento da casa, levados para a cripta da igreja de São Vicente de Paulo, em Marselha; seu coração é guardado na casa geral, em Barcelona.
Espanha e expulsão da França (1867–1945) Com a morte do fundador, o Capítulo Geral de 1868 elegeu superior o padre Arnaud. Em fevereiro de 1869, o padre Mariné, primeiro assistente de Fissiaux, deixou a congregação com nove religiosos, no primeiro cisma do instituto. As leis anticlericais francesas de 1880, que proibiram o ensino às congregações não autorizadas, fecharam várias casas. Em 1 de julho de 1884, os religiosos assumiram em Barcelona uma casa municipal de correção, a Escola de Reforma. Com a doação do comerciante Toribio Durán, construíram o Asilo Durán, inaugurado em 11 de dezembro de 1890, que passou a receber os menores de 15 anos detidos pela polícia de Barcelona. A congregação estabeleceu-se também em Sant Feliu de Llobregat, em 1913.
Com a lei de associações de 1901 e a recusa, em 1903, dos pedidos de autorização das congregações, a congregação foi suprimida na França: a ordem chegou ao superior, padre Allaria, em 8 de abril de 1903, e os religiosos foram expulsos de Beaurecueil e das casas de Marselha. Refugiaram-se na Espanha e na Itália, em Ventimiglia, e em 1905 a casa-mãe passou provisoriamente para Barcelona, com a eleição do padre Émile Aillaud. A casa de Ventimiglia foi fechada em 1918. Voltaram a Marselha em 1913, a convite do padre Jean-Baptiste Fouque, e mantiveram na França, entre as décadas de 1930 e 1950, centros de menores em Toulouse (1936–1957), Épron (1938–1945) e Saint-Romain-le-Puy (1938–1940), além de um noviciado em Lozère a partir de 1945. Em 17 de junho de 1931, o papa Pio XI aprovou as constituições revistas segundo o Código de Direito Canônico de 1917; elas passaram a prever capítulos gerais a cada seis anos e mandatos de seis anos para o superior-geral, com uma única reeleição. Durante a Segunda Guerra Mundial, as casas francesas de Saint-Tronc e Notre-Dame foram ocupadas por soldados alemães. O antigo reformatório de Marselha abriga hoje o Centre Fissiaux, um centro de lazer.
Mártires da Guerra Civil Espanhola
No início da Guerra Civil, em julho de 1936, as casas da congregação em Barcelona e em Sant Feliu de Llobregat foram invadidas e saqueadas, e os religiosos se dispersaram. Nove deles foram mortos entre julho de 1936 e fevereiro de 1937, junto com três leigos que os protegiam. Todos eram naturais da província de Burgos.
As mortes ocorreram em três momentos: 26 e 27 de julho de 1936 – depois do assalto à casa de Sant Feliu, o padre Teodoro Illera del Olmo, superior da comunidade, e os irmãos Joaquín Gómez Peña, Máximo Franco Ruiz e Joaquín José Puente González foram executados de madrugada às margens do rio Llobregat, em Pallejà. No mesmo dia, o irmão Bernardo Puente González, reconhecido na rua como religioso, foi fuzilado em Barcelona. 18 de setembro de 1936 – o irmão Estanislao Tajadura Marcos, enfermeiro, foi identificado como religioso, julgado e executado em Alcañiz, na província de Teruel. 15 de fevereiro de 1937 – os irmãos Ángel de la Iglesia Ocina, Ricardo Guerra Villaizán e Acacio María Calleja Santamaría, escondidos havia meses na casa dos irmãos Gregorio e Camila Díez Blanco, foram presos ali com seus anfitriões e com Eliseo Moradillo García, que servia de contato entre os religiosos dispersos. Os seis foram fuzilados na estrada da Rabassada, em Barcelona, e lançados numa vala comum.
Lista dos mártires Nome (nome de batismo) Condição Nascimento Morte Local da morte Teodoro (Cirilo) Illera del Olmo Padre, superior de Sant Feliu 29/03/1883, Las Quintanillas 27/07/1936 Pallejà Joaquín (Jacinto) Gómez Peña Irmão 26/07/1895, Alfoz de Bricia 27/07/1936 Pallejà Máximo (José) Franco Ruiz Irmão, educador do Asilo Durán 24/03/1906, Sotragero 26 ou 27/07/1936 Pallejà Joaquín José Puente González Irmão 25/12/1915, San Andrés de Montearados 27/07/1936 Pallejà Bernardo (Emilio) Puente González Irmão 05/03/1911, San Andrés de Montearados 27/07/1936 Barcelona Estanislao de Kostka (Ismael) Tajadura Marcos Irmão, enfermeiro 17/06/1902, Las Quintanillas 18/09/1936 Alcañiz Ángel de la Iglesia Ocina Irmão 01/10/1913, Nidáguila 15/02/1937 Rabassada (Barcelona) Ricardo (Albino) Guerra Villaizán Irmão 14/09/1913, Arenillas de Riopisuerga 15/02/1937 Rabassada (Barcelona) Acacio María Calleja Santamaría Irmão 07/05/1915, Yudego 15/02/1937 Rabassada (Barcelona) Gregorio Díez Blanco Leigo, funcionário dos bondes de Barcelona 24/12/1899, Nidáguila 15/02/1937 Rabassada (Barcelona) Camila Díez Blanco Leiga, irmã de Gregorio 14/09/1889, Nidáguila 15/02/1937 Rabassada (Barcelona) Eliseo Moradillo García Leigo 10/09/1906, Celada del Camino 15/02/1937 Rabassada (Barcelona) Datas e locais conforme a Arquidiocese de Burgos e o Catholic.net.
Beatificação
O processo diocesano foi aberto na Arquidiocese de Barcelona em 1 de agosto de 2001, festa de São Pedro ad Vincula. A causa reuniu os doze mártires ligados à congregação e quatro religiosas mortas em Barcelona em 1936: três Irmãs Capuchinhas da Mãe do Divino Pastor e uma Irmã Franciscana dos Sagrados Corações. Em 18 de dezembro de 2017, o papa Francisco aprovou o decreto que reconheceu o martírio de "Teodoro Illera del Olmo e 15 companheiros".
miniaturadaimagem|esquerda|upright=0.7|Ilustração devocional em homenagem aos mártires da congregação, mortos durante a perseguição religiosa da Guerra Civil Espanhola, entre 1936 e 1937.
A beatificação foi celebrada em 10 de novembro de 2018, na Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, e presidida pelo cardeal Angelo Becciu, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, com os cardeais Juan José Omella, arcebispo de Barcelona, e Lluís Martínez Sistach, seu antecessor. As celebrações incluíram vésperas na Basílica de Santa Maria del Mar, na véspera, e uma missa de ação de graças na Catedral de Barcelona, no dia seguinte. No Angelus de 11 de novembro de 2018, o papa Francisco lembrou a cerimônia: "Nove religiosos e os leigos pertenciam à Congregação de São Pedro ad Vincula".
Na mesma causa foram beatificadas Andrea (Ramona) Solans Ballesté, María Auxilio (Josefa) Noguera Manubens e Patrocinio (María) Vilanova Alsina, Capuchinhas da Mãe do Divino Pastor, e Carlota de la Visitación (Baudelia) Duque Belloso, Franciscana dos Sagrados Corações. Os mártires da congregação são lembrados nas ilustrações e publicações do instituto, que os chama de "nossos mártires".
América Latina Depois da Segunda Guerra, a comunidade de Barcelona assumiu novas obras na Espanha, como o Tribunal Tutelar de Menores de Salamanca (1950) e o Colégio Virgen de la Vega, em Benavente (1958). Em 1951, os primeiros religiosos seguiram para a Argentina, para dirigir um centro de menores em La Plata; depois, a congregação atuou em Azul, Benavídez e San Clemente del Tuyú, onde mantém um internato de menores, um colégio técnico e uma paróquia.
No Brasil