Charles-Marie-Joseph Fissiaux (Aix-en-Provence, 1806 – Marselha, 3 de dezembro de 1867), conhecido em português como padre Carlos Fissiaux, foi um presbítero católico e educador francês, fundador da Congregação de São Pedro ad Vincula. Em Marselha, dirigiu um orfanato para as meninas que perderam os pais na epidemia de cólera de 1834–1835, abriu uma casa para mulheres condenadas pela Justiça e criou, em 1839, um dos primeiros reformatórios religiosos da França para jovens presos. Para mantê-lo, fundou naquele ano a congregação, dedicada à educação moral, religiosa e profissional da juventude detida e abandonada.

Recebeu a Legião de Honra em 1847 e recusou três vezes a nomeação para bispo. Segundo seus biógrafos, mais de 5 mil jovens passaram pelas obras que fundou. A congregação, hoje com sede em Barcelona, está presente na Espanha, na Argentina e no Brasil.

Biografia Juventude e vocação Filho único, foi batizado no dia em que nasceu, na Catedral de São Salvador de Aix, com o nome de Charles-Marie-Joseph. A família vivia em Marselha. Estudou em Aix com os padres do Retiro e no seminário menor da cidade, e fez retórica no seminário menor de Marselha. Sem certeza da vocação, trabalhou numa casa de comércio marselhesa. Foi o padre Jean-Joseph Allemand, fundador da Obra da Juventude de Marselha, quem o aconselhou a seguir o sacerdócio.

Estudou filosofia no colégio dos jesuítas de Aix. Quando o colégio foi fechado, em 1828, acompanhou os professores a Friburgo, onde começou a teologia, que concluiu no seminário maior de Marselha. Recebeu a tonsura em 4 de abril de 1829 e tornou-se próximo de Eugênio de Mazenod, futuro bispo de Marselha. Foi ordenado subdiácono em 29 de junho de 1830, diácono em 30 de setembro de 1830 e padre em 17 de dezembro de 1831.

Vigário e diretor da Providência Depois de um breve período como ecônomo do seminário menor de Marselha, foi nomeado vigário da paróquia de São Ferréol em 1 de fevereiro de 1833. Durante a epidemia de cólera de 1834–1835, visitava os doentes em suas casas, levava-lhes os sacramentos e ajudava a sepultar os mortos.

Em abril de 1835, Mazenod reuniu senhoras da sociedade marselhesa para criar um orfanato para as meninas que a epidemia deixara sem pais. Fissiaux e o padre Pontier foram nomeados diretores da obra, instalada em 19 de maio de 1835 com doze órfãs. Fissiaux conseguiu um terreno e a construção de uma casa própria, inaugurada em 9 de fevereiro de 1837 com 150 órfãs. Deixou então a paróquia e, em 1 de março de 1837, tornou-se capelão da Providência, como a obra passou a ser chamada. Para dar ofício às meninas, organizou oficinas de costura, de seda e de bordado a ouro, que chegaram a fornecer passamanarias para os uniformes da Marinha. Em 1839, abriu a casa também a meninas surdas e cegas.

Diante das dificuldades financeiras, foi a Paris em 1840 e pediu ajuda à família real. A rainha Maria Amélia e o rei Luís Filipe doaram 4.500 francos, e o governo concedeu à obra um subsídio anual de 2 mil francos. Para cuidar das órfãs, trouxe as Irmãs de São José de Bourg, que o bispo de Belley, Dom Devie, lhe havia inicialmente recusado.

Em 1839 abriu também a Casa da Madalena, na rua da Fare, um asilo para mulheres e moças condenadas pelos tribunais. Até 1861, cerca de 2.900 mulheres passaram por ela. Em 27 de dezembro de 1839 foi nomeado cônego honorário de Marselha.

O reformatório de São Pedro miniaturadaimagem|upright=0.8|Representação artística do padre Carlos Fissiaux, com hábito religioso, cruz e livro. A pedido de autoridades do serviço penitenciário e com o apoio de Mazenod, Fissiaux aceitou criar em Marselha um reformatório para jovens presos, que nas prisões conviviam com criminosos adultos. O Reformatório Industrial de Marselha, depois conhecido como Casa de São Pedro, foi inaugurado em 7 de março de 1839, na rua da Fare. O primeiro ano foi marcado por revoltas semanais dos internos e por boatos, espalhados por suas famílias, de que os jovens eram maltratados; Fissiaux respondeu abrindo a casa à visitação pública.

Para aprender com outras experiências, visitou a prisão da Roquette, em Paris, os reformatórios de Bordéus e de Lyon e a colônia agrícola de Mettray. Concluiu que precisava de religiosos dedicados à obra e, em 1 de agosto de 1839, festa de São Pedro ad Vincula, fundou a congregação que levaria esse nome. Vendeu seus bens de família em Lambesc para comprar uma grande propriedade rural, para onde os jovens foram transferidos em outubro de 1840. Em 1843 descreveu o método da casa no livro Le pénitencier agricole et industriel de Marseille.

O método combinava trabalho em oficinas de ofícios, aulas diárias de leitura, escrita e cálculo, música vocal, uma banda e um corpo de bombeiros formado pelos internos, além de catequese duas vezes por semana. Segundo o próprio Fissiaux, dos dezoito jovens que deixaram a casa no primeiro ano, só três voltaram a delinquir, e dos 141 que saíram entre 1839 e 1840, apenas seis não tinham aprendido um ofício. O povo de Marselha passou a chamá-lo de "Pai Fissiaux".

Reconhecimento e expansão

miniaturadaimagem|esquerda|upright=0.7|Ilustração devocional em homenagem aos mártires da congregação, mortos durante a Guerra Civil Espanhola.

O governo do rei Luís Filipe ofereceu-lhe o episcopado, que ele recusou três vezes, entre elas quando da criação da diocese de Argel. Em 1840, aceitou ser cônego honorário da catedral de Argel, a pedido do bispo Antoine-Adolphe Dupuch, e em 1847 recebeu a cruz de cavaleiro da Legião de Honra.

Seus religiosos assumiram a prisão central de Aniane (1841–1843) e o reformatório de São Carlos em Turim, a convite do rei Carlos Alberto da Sardenha (1845–1848). Fissiaux abriu ainda um orfanato agrícola em Saint-Jean, perto de Aix (1849), e um orfanato em Nîmes (1850–1856), e em 1852 assumiu a direção de um reformatório em Montpellier, a pedido do cônego Soulas.

Em março de 1853, comprou por 180 mil francos o domínio de Beaurecueil, perto de Aix. A colônia agrícola foi aberta em 21 de abril de 1853 com cinco religiosos e quinze jovens e, em 1857, podia receber duzentos. Os religiosos recuperaram um antigo canal de três quilômetros e construíram uma barragem para irrigar a propriedade, e Fissiaux passou a inscrever os produtos de suas colônias em exposições agrícolas, nas quais recebeu dezenas de medalhas entre 1843 e 1855. Em 1855, abriu a colônia de La Cavalerie, na diocese de Avinhão, para menores de dez anos. Fissiaux foi vice-presidente da Sociedade de Agricultura de Aix e jurado em concursos agrícolas.

Aprovação da congregação miniaturadaimagem|upright=0.8|Representação do padre Carlos Fissiaux, primeiro superior-geral da congregação. Em 27 de setembro de 1853, o papa Pio IX concedeu à congregação o decreto de louvor, antes do prazo habitual de dez anos. Em 1 de maio de 1854, Fissiaux fez os votos religiosos nas mãos do bispo de Marselha e foi eleito por unanimidade o primeiro superior-geral. Nas constituições, deixou a regra de que os religiosos deveriam "dispor do supérfluo em favor dos pobres" e recomendou a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e o retiro mensal na primeira sexta-feira.

Nos últimos anos, abriu um pensionato para moças em Marselha, na rua Saint-Savournin, depois transferido para um terreno ao lado do reformatório, e outro em Roquevaire, confiado às Irmãs de São José. Em 1859, seus religiosos fundaram uma colônia agrícola para órfãos em Ligny e, em 1861, assumiram um orfanato na ilha de Santo Honorato, em Lérins, a pedido do bispo de Fréjus.

Morte Doente do coração, sofreu uma crise grave quando servia como jurado num concurso agrícola em Carcassonne. Em 3 de dezembro de 1867, depois de visitar suas obras, participou do retiro da comunidade na Casa de São Pedro. Recolheu-se às 22 horas e morreu pouco depois, após receber a unção dos enfermos, aos 61 anos. Naquele momento, a congregação tinha oito padres e 55 religiosos de votos perpétuos.

O bispo de Marselha, Dom Charles-Philippe Place, deu a absolvição solene na catedral, e o corpo foi levado para Beaurecueil, onde o arcebispo de Aix, Dom Georges Chalandon, fez a oração fúnebre. Em 26 de setembro de 1900, seus restos foram depositados na parede da capela do castelo de Beaurecueil, sob uma lápide em latim. Com o fechamento da casa, foram levados para a cripta da igreja de São Vicente de Paulo, em Marselha. Seu coração, retirado após a morte, é guardado na casa geral da congregação, em Barcelona.

Legado miniaturadaimagem|upright=0.7|Logotipo da Congregação de São Pedro ad Vincula. Expulsa da França pelas leis anticlericais de 1901–1903, a congregação fundada por Fissiaux fixou-se em Barcelona, onde dirigiu o Asilo Durán, e expandiu-se para a Argentina, em 1951, e para o Brasil, em 1961, onde trabalha em Goiás e em Minas Gerais. Em 31 de dezembro de 2024, tinha 7 casas e 29 membros.

Nove religiosos da congregação, mortos em 1936 e 1937 durante a Guerra Civil Espanhola, foram beatificados com três leigos que os abrigavam em 10 de novembro de 2018, em Barcelona.

O prédio do antigo reformatório de São Pedro, em Marselha, abriga hoje o Centre Fissiaux, um centro de lazer, e uma travessa próxima leva seu nome. Os religiosos da congregação são chamados de fissionianos, e o aniversário de sua morte é lembrado anualmente pelo instituto. Sua biografia, escrita pelo padre Émile Aillaud, quinto superior-geral, foi traduzida para o português pelo Seminário São Pedro de Goiânia em 1996.

Obras

Ver também Congregação de São Pedro ad Vincula Eugênio de Mazenod

Bibliografia

Ligações externas Congregação de São Pedro ad Vincula no GCatholic

Categoria:Padres católicos da França Categoria:Fundadores de ordens religiosas Categoria:Naturais de Aix-en-Provence Categoria:Cavaleiros da Legião de Honra