thumb|280px|Brasões do Livro da Nobreza e Perfeiçam das Armas, famoso armorial português.
Heráldica ou armaria é um sistema de identificação visual e simbolismo criado na Europa no século XII, baseado nos brasões de armas ou escudos. O termo também designa a arte de elaborar os brasões e a ciência que estuda suas regras, formas, tradições, simbolismos e significados históricos, políticos, culturais e sociais.
As origens da heráldica são incertas, mas provavelmente derivou de sistemas de identificação visual cultivados desde a Antiguidade. Segundo a tradição os brasões surgiram para distinguir os participantes das batalhas e dos torneios, mas serviu também para registrar visualmente os serviços por eles prestados, que eram simbolizados nos seus escudos, mantendo essa função identificadora ao longo de toda a sua história. Embora a palavra escudo seja comumente utilizada para se referir ao brasão de armas no seu todo, na realidade o escudo é apenas um dos seus elementos, e muitas vezes ele é o único elemento existente ou conhecido. A composição tradicional de um brasão segue uma série de regras mais ou menos estritas, e sua descrição é feita através de uma linguagem própria, o brasonamento. O escudo pode ser acompanhado por outros elementos, como suportes, coronéis, listéis com motes (ou lemas). No escudo são gravadas figuras, objetos ou sinais, que configuram um conjunto identificador, às vezes num campo (fundo) indiviso, às vezes subdividido de variadas maneiras.
Nos primeiros séculos de existência da heráldica a adoção de brasões ou escudos era livre, e de modo geral qualquer pessoa podia criar um para uso pessoal ou familiar. Entre os séculos XIII e XIV, com efeito, os brasões se multiplicaram prodigiosamente em todos os estratos sociais, além de identificarem corporações de ofícios, Estados, cidades, comunidades leigas e religiosas, irmandades, associações, partidos políticos e outras entidades formais ou informais, tornando-se uma linguagem visual onipresente e muito apreciada por todos. A partir do século XV as monarquias passaram a tentar regulamentar a criação e uso de brasões através de legislação especial, objetivando restringir sua posse à nobreza, aos patriciados, ao alto clero, às autarquias civis e instituições ilustres, mas, salvo em poucos países, essa legislação restritiva teve escasso efeito prático, continuando a serem usados pela plebe extensiva e ininterruptamente até a contemporaneidade. Mesmo assim, esse processo influenciou o desenvolvimento de uma falsa percepção da heráldica como uma prática exclusiva da aristocracia.
Depois de um período de relativo descrédito no início do século XX, causado pela abolição de muitas das antigas monarquias, recuperou uma grande popularidade, difundindo-se por todo o mundo, e ao mesmo tempo conheceu uma significativa flexibilização em seus princípios, devido ao seu cultivo por uma multidão de leigos, um desenvolvimento que é criticado pelos tradicionalistas. Hoje a heráldica é estudada como uma ciência auxiliar da História e outros campos do saber, oferecendo informações valiosas para a reconstituição de usos e costumes sociais, das genealogias e cronologias, e para o conhecimento dos significados e práticas vinculados à iconografia, à simbologia e às artes visuais.
História e significado
Origens
As origens da heráldica se perdem no tempo e são hoje bastante controversas, mas um panorama evolutivo geral foi bem estabelecido. Desde a pré-história a humanidade dedicou-se a criar imagens simbólicas, que transmitissem informações através de formas plásticas. Isso se revela no mundo da arte, e também na heráldica. Primeiro, acredita-se, surgiram sinais simples, mais tarde evoluindo para composições complexas, abstratas ou figurativas, ou mesclando elementos de ambas.O Marquês de Abrantes. Introdução ao Estudo da Heráldica. Série Biblioteca Breve, vol. 27. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992Campos, Nuno C. J. Património e Simbologia: os casos de Silves e Faro. Dissertação de Mestrado. Universidade Aberta, 2007, p. 4-23
O uso desses elementos na Antiguidade foi amplamente disseminado. Escudos de guerreiros, estandartes processionais e emblemas encontrados no Egito, na Pérsia, na Grécia e Roma, entre outros lugares, costumavam apresentar desenhos identificadores. O falcão de Hórus, protetor dos faraós, o leão de Judá, identificador da tribo hebraica, e a águia de Roma, representando o poder imperial, são exemplos famosos, mas pouco se sabe sobre as regras de aplicação dessas decorações e seus significados precisos.Fox-Davies, Arthur Charles. A Complete Guide to Heraldry. T. C. & E. C. Jack, 1909 Da mesma forma, povos indígenas de várias partes do mundo, bem como culturas muito antigas e sofisticadas como a japonesa e a árabe, desenvolveram sistemas de simbolismo visual que de muitas maneiras são comparáveis à heráldica europeia, tanto nas formas de codificação da linguagem como no uso e na ampla difusão, mas produzindo emblemas e signos que para os ocidentais parecem decididamente exóticos e não familiares.
A prática da Antiguidade não pode ser caracterizada como heráldica no senso mais estrito da palavra, embora esteja em sua raiz e em essência almeje os mesmos objetivos. Como hoje é conhecida, a heráldica se articulou na Europa medieval, consolidando-se em meados do século XII, padronizando usos regionais diferenciados através de uma série de regras que no geral ainda se mantém em vigor, servindo como um identificador de pessoas, famílias, lugares, nações, e expondo publicamente conquistas, ideologias, valores, dignidades, pertencimentos e ligações de parentesco. A heráldica foi o primeiro sistema de codificação do uso de cores, símbolos, figuras e formas criado na Europa para fins de identificação e diferenciação entre organizações, grupos e indivíduos, mas várias tradições regionais diferenciadas se desenvolveram aplicando regras próprias a partir de um sistema básico de uso geral.Costa, Ludmila Leite Madeira da; França, Rayssa Lisbôa; Andrade, Rosemere Gomes de. "A Heráldica como ferramenta paraa leitura de manifestações culturais brasileiras. Experiências de ensino e extensão no Curso de Museologia da UNIRIO". In: Anais do Museu Histórico Nacional, 2021 (55): 1-21
Tradicionalmente considerava-se que teria se originado da necessidade dos guerreiros serem identificados facilmente em campo de batalha, mas essa opinião foi em parte desacreditada, uma vez que os escudos pintados só podem ser lidos claramente a uma distância pequena. Além disso, registros apontam que até o fim do século XI os mesmos guerreiros podiam usar, conforme a ocasião, diferentes emblemas em seus escudos e bandeiras. Isso é bem exemplificado na Tapeçaria de Bayeux (c. 1070), que retrata a conquista normanda da Inglaterra, onde os guerreiros trazem em seus escudos vários símbolos heráldicos, mas seu uso não é consistente. Vários personagens foram retratados mais de uma vez, mas a cada aparição os ornamentos dos seus escudos são diferentes, e nenhum dos seus descendentes usou escudos semelhantes àqueles representados na tapeçaria.Woodward, John; Burnett, George. Woodward's a treatise on heraldry, British and foreign: with English and French glossaries. W. & A. B. Johnson, 1892, pp. 29–31 A heráldica se tornou mais útil em campo de batalha depois da introdução dos elmos fechados, que ocultavam a face completamente, e que ocorreu na mesma época da consolidação da heráldica, servindo para a identificação do guerreiro pelos seus próprios companheiros."The Elements of Armories: A Very Short History of Heraldry". Royal Ontario Museum, 18 de março de 2015
Apesar da ampla aceitação dessas teorias, as evidências visuais nos primeiros tempos da heráldica são muito escassas, sua datação frequentemente é controversa, há pouca informação complementar relacionada aos brasões, e a rigor é impossível uma determinação inequívoca dos motivos de seu surgimento, da amplitude inicial do seu uso e das formas primitivas de sua transmissão. Além disso, muitas vezes as imagens mais antigas são mal desenhadas ou pequenas demais, impedindo uma identificação segura como verdadeiros brasões.
Consolidação thumb|Godofredo de Anjou com suas armas
Os primeiros brasões conhecidos aparecem em selos entre as décadas de 1120 e 1130, mas segundo Steen Clemmensen há indícios de que algumas poucas famílias francesas e inglesas já usassem armas pelo menos uma ou duas gerações antes. Um dos mais antigos documentados está na tumba de Godofredo V, Conde de Anjou, que carrega um escudo de campo azul com leões rampantes, que teria sido concedido por Henrique I em 1128, mas a pintura foi executada na década de 1170.Clemmensen, Steen. "Early arms - as attributed, adopted or documented". In: The Coat of Arms, 2016; 12 (232): 61-88 Em Portugal estão entre os primeiros exemplos os escudos da linhagem dos Sousões encontrados no Claustro de Dom Dinis do Mosteiro de Alcobaça. A maioria das imagens dos primeiros brasões pessoais parece ter sido escolhida por motivo puramente ornamental, mas alguns surgiram como identificadores de territórios e só mais tarde foram adotados por famílias, ou foram ilustrações do significado de nomes (armas falantes), como por exemplo o da família Candavène, condes de Saint-Pol-en-Ternoise, que desde 1125 cunhou moedas com a figura de um feixe de espigas de aveia (avène), mais tarde incorporado ao seu brasão. Clemmensen, Steen. "The proverbial banner — an axiom revisited: a re-examination of the evidence of early heraldry pre-1200". In: 30th Congress of the International Confederation of Genealogy and Heraldry. Maastricht, 2012
A difusão da heráldica parece ter sido muito rápida. Em meados do século XII uma prática mais ou menos organizada já era documentada em várias regiões da Europa, e provavelmente em torno de 1200 já estava consolidada, aparecendo as primeiras descrições literárias usando a linguagem típica do brasonamento em torno de 1230-1240 e os primeiros armoriais (catálogos de brasões) em torno de 1240-1250.Staroskolskaya, Daria. "Heraldic Language in French Narrative of 12th-13th centuries". In: Heraldica Nova: Medieval and Early Modern Heraldry from the Perspective of Cultural History, 25 de novembro de 2020 Michel Pastoureau propôs uma cronologia: gestação (1080-1120); surgimento (1120-1160); difusão (1160-1200); estabilização (1200-1240); amadurecimento (1200-1330) e codificação (até c. 1500).
Ao longo dos séculos a bibliografia heráldica se multiplicou, aparecendo muitos tratados teóricos e normativos. Também foram produzidos numerosos e importantes armoriais, alguns deles com ilustrações da mais alta qualidade estética, a exemplo do Livro do Armeiro-Mor e do Livro da Nobreza e Perfeiçam das Armas, ambos portugueses. A despeito do dogmatismo de muitos tratadistas, a heráldica nunca foi estática ou uniforme e nem suas regras alcançaram um consenso universal. Diferentes regiões estabeleceram suas próprias tradições, e as regras propostas pelos tratadistas e heraldos oficiais frequentemente foram ignoradas. Sendo uma verdadeira linguagem, a heráldica sempre sofreu influência de contextos históricos, culturais e políticos e ideologias estéticas em permanente mudança, preferências pessoais ou de grupo e outros fatores.Costa, Ludmila Leite Madeira da; França, Rayssa Lisbôa; Andrade, Rosemere Gomes de. "A Heráldica como ferramenta para a leitura de manifestações culturais brasileiras. Experiências de ensino e extensão no Curso de Museologia da UNIRIO". In: Anais do Museu Histórico Nacional, 2021 (55) Michel Pastoureau assinalou que em todas as épocas e regiões sempre houve uma grande distância entre a heráldica dos tratados e a heráldica prática.Pastoureau, Michel. "L'historien et les traités du blason (XIVe – XXe siècles)". In: Harmignies, Roger (ed.). Sources de l'Héraldique en Europe Occidentale. Académie Internationale d'Héraldique / Archives Générales du Royaume, 1985, p. 129