Esta é uma cronologia da Revolução dos Cravos que, em 25 de Abril de 1974, pôs fim a 48 anos de ditadura em Portugal, abrindo caminho para a implementação de um governo democrático.
23 de Abril 11h00min Chegada a Santarém do capitão Candeias Valente, oficial do Movimento dos Capitães, portador da ordem de operações para a EPC (Escola Prática de Cavalaria). Candeias liga para casa do tenente Ribeiro Sardinha, a informar que já estava na cidade, na Pastelaria Bijou. Sardinha contacta, como combinado, Salgueiro Maia e decidem encontrar-se na pastelaria. 11h30min O capitão Salgueiro Maia desloca-se à Pastelaria Bijou, no Largo do Seminário, em Santarém, para se encontrar com Candeias Valente e receber a ordem de operações. 11h40min Na viatura de Salgueiro Maia, estacionada no exterior da EPC, junto ao Jardim da República, é entregue a ordem de operações e são acertados alguns pormenores. Uma viatura da PIDE/DGS ronda a zona e segue o capitão à distância. 24 de Abril 03h00min Um agente de ligação entrega ao major Albuquerque, do Centro de Instrução e Condução Auto 1 (CICA 1), as ordens de operações referentes às unidades da Zona Norte. 05h00min Dá-se a recepção, no Regimento de Infantaria N.º 14 (RI 14), em Viseu, da ordem de operações. O capitão Ferreira do Amaral transmite as instruções a Lamego e o Capitão Aprígio Ramalho à Guarda. 08h00min O capitão Castro Carneiro e o alferes Pêgo, do CICA 1, iniciam a viagem destinada a entregar as ordens de operações às unidades de Lamego (capitão Delgado da Fonseca), Vila Real (capitão Mascarenhas) e Bragança (Capitão Freixo). 08h30min Os oficiais da Escola Prática de Cavalaria, ligados ao MFA, iniciam nas paradas, no maior sigilo, os contactos com os cerca de cinquenta graduados (oficiais subalternos do Quadro Permanente, alferes, aspirantes, furriéis e cabos milicianos), individualmente, comunicando-lhes que, se a senha e contra senha forem para o ar, a operação decorrerá nessa madrugada. 09h30min Capitão Santa Clara Gomes, oficial de ligação, entrega ao major Cardoso Fontão a ordem de missão referente ao Batalhão de Caçadores 5 (BC 5). 10h00min Álvaro Guerra comunica a Carlos Albino a escolha definitiva de Grândola Vila Morena como senha nacional, garantindo este a sua transmissão. Enquanto isso, o Major Otelo envia, da estação dos CTT da rua D. Estefânia, o telegrama cifrado a Melo Antunes, contendo o GDH. 11h00min Carlos Albino adquire na então livraria Opinião o disco "Cantigas do Maio", para garantia, já que, desde Dezembro de 73 havia indícios de que a PIDE/DGS se preparava para um assalto aos escritórios do Limite, na Praça de Alvalade. O capitão Costa Martins contacta João Paulo Diniz e informa-o que o sinal foi antecipado em uma hora. 11h30min Saída para Lisboa do comandante da EPC, coronel Augusto Laje, para ir a uma consulta médica. 13h30min Dá-se o render da parada na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém. Entrada do oficial de dia à unidade, o tenente miliciano Sousa e Silva. 14h00min O tenente Ribeiro Sardinha, que tinha por missão "vigiar" o comandante da EPC, constata não poder vir a cumprir a missão, por ausência do vigiado. O jornal República insere uma curta notícia, intitulada "LIMITE", com o seguinte teor: "O programa "Limite" que se transmite na Rádio Renascença diariamente entre a meia-noite e as 2 horas, melhorou notoriamente nas últimas semanas. A qualidade dos apontamentos transmitidos e o rigor da seleção musical, fazem de "Limite" um tempo radiofónico de audição obrigatória. O major Neves Rosa comunica a Otelo que o último elemento de ligação tinha cumprido a missão. 15h00min O encontro decisivo de Carlos Albino com Manuel Tomás (técnico da Rádio Renascença e um dos responsáveis pelo programa Limite que regressara de Moçambique com fama de democrata) para a execução da senha e garantia da sua transmissão. Sendo o Limite um programa independente, era obrigado a passar por duas censuras: a da Rádio Renascença e a oficial, esta última corporizada num coronel que acompanhava as emissões em direto e visava previamente os textos. Para maior segurança, retiram-se dos estúdios para um local seguro. 15h30min Na Igreja de S. João de Brito, simulando rezar, combinam todos os pormenores técnicos da senha. Hora e meia mais tarde, os tenentes Balula Cid, Ramos Cadete e Silva Aparício saem da Escola Prática de Cavalaria e dirigem-se a Lisboa, com a missão de "controlar", "aliciar" alguns oficiais e tentar "inoperacionalizar" algumas viaturas blindadas do Regimento de Cavalaria N.º 7. Manuel Tomás convoca Leite de Vasconcelos (um outro responsável pelo referido programa, companheiro de Manuel Tomás em Moçambique), em dia de folga na locução do Limite, para "gravar poemas". Carlos Albino escreve textos para serem visados pelo censor. 17h00min Toca à ordem na Escola Prática de Cavalaria. Os tenentes Balula Cid, Ramos Cadete e Silva Aparício saem da EPC e dirigem-se ao Regimento de Cavalaria Nº 7 e Polícia Militar, na Ajuda, em Lisboa, com a missão de "controlar", e "aliciar" alguns dos oficiais e tentar "inoperacionalizar" algumas viaturas blindadas destes regimentos. 17h30min Os graduados milicianos da Escola Prática de Cavalaria ultimam os preparativos para a operação, designadamente quanto a material e equipamentos. 19h00min Os censores na Rádio Renascença autorizam os textos e o seguinte alinhamento do bloco com a duração de 11 minutos: quadra, canção Grândola, quadra, poemas Geografia e Revolução Solar, da autoria de Carlos Albino, e a canção Coro da Primavera. Na Rádio Renascença, Leite de Vasconcelos procede à gravação dos textos que lhe são apresentados, desconhecendo o seu objetivo. 20h00min A partir do Regimento de Engenharia de Lisboa, instalado no quartel da Pontinha, começam os preparativos para a sublevação das tropas. Na tenda anexa ao Regimento começa a sintonização e captação de sinal para dentro das instalações. As janelas são forradas com cobertores e são organizadas rondas no Regimento para aumentar a segurança dos revoltosos. Os oficiais sublevados, entre eles Otelo Saraiva de Carvalho, entram no quartel a fim de fazer desenrolar os acontecimentos. Tenente-Coronel Garcia dos Santos é designado responsável pelas transmissões. Otelo entrega ao capitão António Ramos, no Jornal do Comércio, o conjunto de documentos finais e um saco com granadas. Pede-lhe para permanecer toda a noite junto de Spínola, juntamente com outros oficiais de confiança, assegurando-lhe que uma força militar iria garantir a segurança próxima da residência do general, sita na Rua Rafael Andrade, ao Paço da Rainha. Os oficiais da Força Aérea (tenente-coronel Sacramento Gomes, majores Costa Neves e Campos Moura e capitães Correia Pombinho, Mendonça de Carvalho, Santos Silva e Santos Ferreira) que constituem o "10º Grupo de Comandos" reúnem-se em frente ao Grill do Hotel Ritz e iniciam a vigilância ao Rádio Clube Português. 21h30min Fecha-se a porta de armas da Escola Prática de Cavalaria. Os militares contactados, que haviam saído da unidade, fazem a sua entrada, trajando à civil, para não alertar os elementos da PIDE/DGS que rondam o quartel. O tenente miliciano Sousa e Silva, oficial de dia à unidade, é substituído pelo capitão tirocinante Pedro Aguiar, para poder tomar parte na operação. É detido, na Figueira da Foz, o comandante da unidade militar do Regimento de Artilharia Pesada N.º 3 (RAP 3), localizado na cidade. É a primeira detenção realizada na sequência da Revolução, horas antes de as tropas avançarem. 21h45min O capitão Santos Coelho, do Regimento de Engenharia 1 junta-se aos seus camaradas do 10º grupo de comandos e distribui-lhes armas e munições. Procede, em seguida, à leitura da ordem de operações e à recapitulação das missões. 21h50min O tenente miliciano Sousa e Silva, oficial de dia na Escola Prática de Cavalaria é substituído nesta função, para poder tomar parte na operação. Otelo regressa ao Regimento de Engenharia N.º 1, onde se farda. 22h00min O capitão Salgueiro Maia, que vai comandar a coluna militar da Escola Prática de Cavalaria, na "Operação Fim Regime", dá início a uma breve reunião, no piso dos quartos dos oficiais, para dar a conhecer a Ordem de Operações, distribuir missões e definir detalhes para o desencadear da operação. 22h30min No Posto de Comando, instalado secretamente no quartel da Pontinha, em Lisboa, encontra-se reunido o Estado Maior do Movimento das Forças Armadas, dirigido pelo major Otelo Saraiva de Carvalho e constituído pelos tenentes-coronéis Garcia dos Santos e Nuno Fisher Lopes Pires, major Sanches Osório, capitão Luís Macedo, adjunto operacional, e comandante Vítor Crespo, que assegura a ligação com a Marinha, garantida pela presença permanente do comandante Almada Contreiras no Centro de Comunicações da Armada (CCA). Contam, também, com a colaboração de quatro oficiais do Regimento de Engenharia 1 (Frazão, Máximo, Reis e Cepeda). Na Escola Prática de Cavalaria, é montada segurança reforçada, composta por rondas. 22h48min Uma falha técnica suspende, durante alguns minutos, a transmissão dos Emissores Associados de Lisboa, facto que causa natural apreensão nas largas dezenas de militares que aguardam ansiosamente o primeiro sinal para entrar em ação. 22h50min Após vários problemas técnicos, Vitor Alves envia para o Major Sanches Osório os quatro comunicados a serem lidos pelo Costa Neves na Rádio Clube. Capitão Luís Macedo encarrega-se de os levar ao Costa Neves. O Regimento de Infantaria n.º 1, na altura sediado na Amadora decide não participar na sublevação. Seriam responsáveis pela tomada do Forte de Caxias, pertencentes à PIDE/DGS na altura, e a proteção do General Spínola. Nas imediações do Rádio Clube Português, um grupo de oficiais revoltosos, liderados pelo Major Costa Neves, aguarda a primeira senha de modo a tomar o Rádio Clube Português. 22h51min Restabelecida a emissão dos Emissores Associados de Lisboa. 22h55min É transmitida a canção "E depois do Adeus", de Paulo de Carvalho, pelo jornalista João Paulo Diniz, dos Emissores Associados de Lisboa. Esta foi a primeira das senhas previamente combinadas pelos revolucionários para sincronizar as operações. A voz de João Paulo Diniz anuncia aos microfones dos Emissores Associados de Lisboa: "Faltam cinco minutos para as vinte e três horas. Convosco, Paulo de Carvalho com o Eurofestival 74 "E Depois do Adeus". Era o primeiro sinal para o início das operações militares a desencadear pelo Movimento das Forças Armadas. 23h00min Na Escola Prática de Artilharia (EPA), em Vendas Novas, os oficiais do movimento aguardam a primeira senha de modo a tomar o Regimento e começar a movimentação para o Cristo Rei, Almada onde tomariam posições com 6 bocas de fogo e regular o tiro para Monsanto onde achariam que se refugiariam os Ministros do Governo. Os capitães Mira Monteiro e Oliveira Patrício e os tenentes Marques Nave, Cabaças Ruaz, Sales Grade, Andrade da Silva e António Pedro procedem à detenção dos comandante e 2º comandante da unidade, respectivamente coronel Mário Belo de Carvalho e tenente-coronel João Manuel Pereira do Nascimento, ocupam as centrais rádio e telefônica e assumem o controlo do quartel. Capitão Mira Monteiro, juntamente com Tenente Cabaças Ruaz e outros oficiais, estavam no escritório do Comandante Belo de Carvalho a discutir a visita do Ministro do Exército no dia seguinte, quando Tenente Andrade e Silva juntamente com outros oficiais do movimento entram armados, de rompante, no escritório. Recolhem à Escola Prática de Infantaria (EPI) as forças que se encontravam em exercícios de campo.