Circo Máximo () foi um antigo circo — um estádio utilizado para corridas de bigas — e a maior arena de entretenimento de Roma. Situada no vale entre o Aventino e o Palatino, media 621 metros de comprimento e 118 metros de largura e podia acomodar mais de espectadores. Em sua forma mais completa, tornou-se o modelo para todos os demais circos do Império Romano. Atualmente o local é um parque público.

Eventos e usos O Circo Máximo era a maior arena dedicada aos jogos públicos que eram realizados nos principais festivais religiosos. Os jogos eram geralmente patrocinados pelos cidadãos mais ricos ou pelo próprio estado romano com o objetivo de agradar ao povo e aos deuses anualmente ou em intervalos bem estabelecidos. Também eram realizados para cumprir um juramento ou promessa ou durante a celebração de um triunfo. Segundo a tradição romana, os mais antigos jogos realizados no Circo Máximo foram prometidos pelo rei Tarquínio, o Soberbo, a Júpiter já no final do período monárquico (século VI a.C.) por sua vitória contra PoméciaHumphrey, p. 66–67.. thumb|esquerda|Restos escavados na extremidade sul. Os maiores jogos começavam com uma pomposa parada (pompa circensis) no Circo Máximo, muito similar uma parada triunfal, que explicava ao povo o objetivo dos jogos e introduzia os participantesDionísio de Halicarnasso, Antiguidades Romanas VII.72.1–13, complementado pela história de Quinto Fábio Pintor.. Contudo, alguns eventos realizados no Circo aparentemente eram relativamente pequenos e reservados. Em 167 a.C., "flautistas, atores e dançarinos" atuavam em um palco temporário, provavelmente erigido no centro da arena, entre as seções centrais das duas arquibancadas. Outros eram eventos enormes e imensamente caros, ocupando todo o espaço. Uma veação (venatio) realizada em 169 a.C., uma das várias ocorridas no século II a.C., empregou "63 leopardos e 40 ursos e elefantes", com os espectadores presumivelmente protegidos por grandes barreiras.

Conforme a República se expandia, os jogos passaram a ser cada vez mais faustosos e novos jogos foram inventados pelos políticos que competiam pelo apoio popular e divino. Nos anos finais da República, os jogos ocupavam 57 dias do anoBunson, Matthew, A Dictionary of the Roman Empire, Oxford University Press, 1995, p. 246., mas não se sabe quantos destes exigiriam a utilização do Circo. Na maior parte do resto do ano, jóqueis e condutores praticavam utilizando a pista. Nos dias restantes, a arena servia de curral para os animais negociados no vizinho Fórum Boário, que ficava bem ao lado dos carceres (os portões de largada). Abaixo das arquibancadas, perto das múltiplas entradas do Circo, ficavam oficinas e lojas. Na época de Cátulo (meados do século I a.C.), o circo era "um empoeirado espaço aberto com lojas e bancas [...] uma colorida e lotada área de baixa reputação"Humphrey, p. 72, citando T. P. Wiseman, "Looking for Camerius. The Topography of Catullus 55," Papers of the British School at Rome, 1980, pp. 11–13. frequentada por "prostitutas, malabaristas, adivinhos e artistas de rua".

Os imperadores romanos atenderam a crescente demanda popular por jogos regulares e a necessidade de arenas mais especializadas como obrigações essenciais de sua função e de seu culto. Durante os vários séculos de seu desenvolvimento, o Circo Máximo se tornou a arena dedicada à corrida de bigas. No final do século I, o Coliseu passou a abrigar a maior parte dos jogos gladiatoriais e caçadas de animais menores; a maior parte das competições atléticas eram realizadas no Estádio de Domiciano, com exceção das corridas de longa de distância, que ainda eram realizadas no Circo (segundo Plínio, elas podiam chegar a 128 milhas). A partir daí, os jogos passaram a ocupar 135 dias do ano.

Mesmo no auge de seu desenvolvimento como pista de corrida de bigas, o Circo permaneceu sendo o espaço mais apropriado em Roma para procissões religiosas de grande porte e também para grandes caçadasHumphrey, pp. 71–72. — no final do , o imperador Probo realizou uma caçada espetacular na qual os animais eram perseguidos através de uma floresta de árvores num cenário especialmente construídoHumphrey, p. 128, citando a História Augusta, Vida de Probo XIX.2–4.. Com o advento do cristianismo como religião estatal do Império Romano, os jogos gradualmente foram perdendo popularidade. A última caçada realizada no Circo Máximo ocorreu em 523 e a última corrida foi patrocinada pelo rei ostrogodo Tótila em 549Bowersock, G., Green, P., Grabar, O., Late Antiquity: A Guide to the Postclassical World, Harvard University Press, 1999, p. 674; citando Procópio, Guerras Góticas III. 37. 4.Humphrey, p. 131..

Topografia e construção

Era monárquica O Circo Máximo ficava no antigo Vale de Múrcia (), entre os montes Aventino e Palatino. Nos primeiros anos de Roma, o vale provavelmente era uma rica área agricultural, propensa a ser inundada pelo Tibre e cortada por um córrego. Pontes sobre este córrego provavelmente foram construídas ainda muito cedo nos dois pontos onde a pista o atravessava e as primeiras corridas provavelmente ocorriam num cenário completamente rural, "com nada além dos postes de virada, bancos para os expectadores se sentarem e alguns santuários e lugares sagrados"Humphrey, p. 11..

Em "Ab Urbe Condita", Lívio conta que o primeiro rei de Roma etrusco, Lúcio Tarquínio Prisco, construiu uma arquibancada elevada de madeira para os cidadãos mais ilustres da cidade (os patrícios e os equestres), provavelmente na encosta do Palatino e com uma cobertura móvel para proteger do sol e da chuva. Seu neto, Tarquínio Soberbo, acrescentou a primeira arquibancada para a plebe, ou ao lado ou na encosta oposta (do Aventino, que já era uma área predominantemente plebeia). Além disto, o Circo era provavelmente pouco mais do que uma pista atravessando as fazendas vizinhas. É possível que, nesta época, a região já tenha sido drenada, mas toda a estrutura de madeira provavelmente apodrecia e precisava ser reconstruída. Os postes de virada ("metas"), cada uma formada por três pilares cônicos, podem ter sido as primeiras estruturas permanentes do Circo; um canal de escoamento entre os postes pode ter servido como "espina", ou a barreira central da pista.

Período republicano O patrocinador dos jogos () geralmente se sentava ao lado de imagens dos deuses que assistiam ao espetáculo, num banco elevado e conspícuo chamado "pulvinar"; mas os bancos imediatamente no perímetro da pista é que ofereciam a melhor visão, muito mais próxima. Em 494 a.C., nos primeiros anos da República Romana, o ditador Mânio Valério Máximo e seus descendentes receberam o direito a uma cadeira curul na curva sudeste, um excelente local para assistir às corridas — uma cadeira propriamente dita era levada até o local e é improvável a existência de um assento permanente nesta faseHumphrey, p. 61.. Em 190 a.C., assentos permanentes de pedra passaram a ser construídos exclusivamente para uso dos senadores. Segundo Lívio, a plebe se sentava "promiscuamente" ()Humphrey, 70.. thumb|direita|Imagem do Circo Máximo no Atlas van Loon (1649) mostrando claramente a espina. O obelisco menor, à esquerda, é o Obelisco Flamínio. O maior, no meio, é o Obelisco Laterano.thumb|direita|Gravura com a vista do Circo ao nível do chão. À esquerda, o Palatino e o pulvinar imperial. À direita, o Aventino. Baias individuais de partida ("carceres") permanentes de madeira foram construídas em 329 a.C.. Elas tinham portões, eram pintadas de cores brilhantesLívio, Ab Urbe Condita VIII.20.1 e estavam escalonadas para igualar as distâncias de cada uma delas em relação à espina. Em teoria, elas podiam abrigar até 25 carruagens de quatro cavalos lado-a-lado, mas quando a corrida em times foi introduzida, elas foram ampliadas e o número de baias se reduziu. No final do período republicano ou início do período imperial, havia doze baias. Na frente das divisões entre elas estavam hermas que serviam como fecho para os portões de molas (com tensionadores similares aos das balistas, feitos de tendões retorcidos), o que permitia que doze quadrigas ou bigas iniciassem simultaneamente a corrida. Os locais de partida eram sorteados e os vários times eram identificados por coresHumphrey, p. 171-175; pp. 137–138: os "vermelhos" e os "brancos" eram os mais proeminentes na literatura republicana e os "verdes" e os "azuis" no período imperial. Tipicamente, eram sete voltas por corrida e, a partir de pelo menos 174 a.C., elas eram contadas utilizando grandes ovos de metal &mdash: Castor e Pólux, que nasceram de um ovo, eram os patronos dos cavalos, cavaleiros e dos equestres. Em 33 a.C., um sistema adicional para contar voltas com grandes golfinhos de bronze (euripus) foi acrescentado e posicionado acima da espina para máxima visibilidadeHumphrey, pp. 261–5..

As obras de Júlio César no Circo, começando a partir de 50 a.C., ampliaram as arquibancadas para toda a volta da pista, com exceção dos carceres e da entrada processional na extremidade semi-circularHumphrey, pp. 69, 97ff.. A pista media aproximadamente 621 metros de comprimento e 150 metros de largura. Havia um fosso entre o perímetro da pista e as arquibancadas para proteger os espectadores e ajudar na drenagem das chuvasHumphrey, pp. 75, 84.. O terço mais baixo da arquibancada era chamado de cavea e a seção frontal ao longo da reta principal era reservada aos senadores; o período imediatamente atrás era reservado aos equestres. As fileiras exteriores, dois-terços do total, eram utilizadas pela plebe e pelos não-cidadãos. Elas eram de madeira e acomodavam abaixo lojas e as entradas para a arquibancada. O número total de assentos é incerto, mas provavelmente estava na ordem de ; a estimativa de feita por Plínio é improvável.

Período imperial Os danos provocados por um incêndio em 31 a.C. foram provavelmente reparados por Augusto, que, de forma modesta, assumiu o crédito apenas por um obelisco e um pulvinar no local, mas ambos foram obras grandiosas. O obelisco foi trazido de Heliópolis, um transporte imensamente custoso, e foi erigido bem no meio da espina. Foi o primeiro obelisco de Roma, um objeto sagrado exótico e uma lembrança perene da vitória de Augusto sobre seus inimigos e seus aliados egípcios na recente guerra civil. Graças ao imperador, Roma conseguiu uma paz duradoura e uma rica nova provínciaHumphrey, pp. 268–272. O pulvinar foi construído em escala monumental, incluindo a construção de um templo no alto da arquibancada. Era dali que, às vezes, Augusto assistia aos jogos, junto com os demais deuses. Ele também reconstruiu o Templo de Ceres, que ficava acima dos carceres, que provavelmente também foi danificado pelo incêndio. Este é o circo descrito por Dionísio de Halicarnasso ( 30 a.C. - 8 d.C.) como "uma das mais belas e admiráveis estruturas de Roma", com "entradas entradas e escadas para os espectadores em todas as lojas, de forma que incontáveis milhares de pessoas podiam entrar e sair sem nenhuma inconveniência"Humphrey, pp. 72–73..

O local permaneceu propenso a inundações, como atesta a transferência dos Jogos Marciais de 12 d.C. por conta disto, provavelmente pelas baias de partida, uma situação que permaneceu até uma reforma patrocinada por Cláudio, que provavelmente incluía um aterro contra inundações. Incêndios no apinhado perímetro de lojas de madeira e nas arquibancadas eram um perigo muito maior. Um incêndio em 36 a.C. aparentemente começou na oficina de um artesão de cestos sob as arquibancadas do lado do Aventino; o imperador Tibério compensou os vários pequenos lojistas pelos seus prejuízosHumphrey, pp. 100–101. Em 64, durante o reinado de Nero, um grande incêndio começou na extremidade semi-circular do Circo, se alastrou pelas arquibancadas e lojas e destruiu grande parte da cidade. Mas jogos e festivais continuaram a ser realizados no Circo Máximo, que foi reconstruído anos depois.