Resumo do Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 realizado em Jacarepaguá em 26 de março de 1989. Primeira etapa do campeonato, foi vencido pelo britânico Nigel Mansell, da Ferrari, com Alain Prost em segundo pela McLaren-Honda e Mauricio Gugelmin em terceiro pela March-Judd.

Resumo O acidente de Philippe Streiff Eram aproximadamente onze da manhã de 15 de março de 1989 quando um acidente com a AGS do piloto francês Philippe Streiff interrompeu os testes de pré-temporada que a Fórmula 1 realizava no Autódromo de Jacarepaguá. Naquele instante, o bólido modelo JH23B perdeu o controle na Curva do Cheirinho a uma velocidade aferida entre 220 e 260 km/h, bateu contra o guard rail, voou sobre a tela de proteção e caiu de cabeça para baixo ao atingir o solo, num impacto que descolou o santantônio e prensou o corpo de Streiff. Desacordado, o piloto foi vítima de um atendimento demorado, irregular e improvisadoː não havia colar cervical disponível, removeram o capacete de Streiff sem autorização antes de levarem o piloto à Clínica São Vicente, localizada a 30 quilômetros do circuito. Estabilizado, ele deveria realizar a cirurgia para a fixação da coluna no momento seguinte, mas a família preferiu transferi-lo para a capital francesa sob os cuidados do médico Gerard Saillant. Uma vez em Paris, constatou-se a tetraplegia de Philippe Streiff. Em 2017, o médico brasileiro Dino Altmann assegurou que o piloto não estava tetraplégico ao sair do Rio de Janeiro.

A ausência de marcas de frenagem na pista indicava uma quebra de suspensão como causa do acidente, mas outra coisa também foi notada. "Se ele tivesse batido na caixa de brita, teria ficado. Mas como a área é pequena, ele passou por cima e nada mais o conteve", afirmou o major Paulo Roberto Pinheiro, supervisor de operações do Corpo de Bombeiros. Além do que, o resgate de Streiff envolveu um risco adicional, pois o macacão do piloto estava encharcado de gasolina e a equipe de socorro teve que debelar um princípio de incêndio. Devido às capotagens resultantes do impacto, a AGS estava a oitenta metros do local do acidente. O bombeiro Roosevelt Rodrigues abaixou-se quando o carro voou sobre o aramado, mas sofreu cortes na testa ao ser atingido por uma roda solta, enquanto José Alício de Souza, operário responsável pela instalação de um módulo de arquibancadas, fraturou o pé esquerdo.Em 28 de setembro de 1986 o piloto Nelson Balestieri faleceu durante uma sessão de testes da Fórmula Ford em Jacarepaguá. Com o autódromo deserto e parte da pista ainda fechada, ele deixou os boxes às seis da manhã e teve sua visão ofuscada pelo sol batendo numa barra de ferro situada à altura de seu capacete, morrendo instantaneamente.

Philippe Streiff estreou na Fórmula 1 pela Renault no Grande Prêmio de Portugal de 1984. Seu melhor resultado foi o terceiro lugar no Grande Prêmio da Austrália de 1985 pela Ligier, correndo depois pela Tyrrell antes de assinar com a AGS, disputando 53 corridas.

Brabham de volta às pistas Fruto de uma sociedade entre Jack Brabham e Ron Tauranac, a Brabham estreou no Grande Prêmio da Alemanha de 1962. Campeã mundial de pilotos e construtores com o próprio Jack Brabham em 1966 e Denny Hulme em 1967, foi comprada por Bernie Ecclestone em 1972 e nela o brasileiro Nelson Piquet foi campeão em 1981 e 1983. O comando da equipe manteve-se inalterado até 1987 quando findou o contrato com a BMW e o papel de Bernie Ecclestone como presidente da FOCAA extinta FOCA precedeu uma série de entidades antes de originar o Formula One Group, comprado pela Liberty Media em 2017. exigia atenção integral do magnata britânico, motivo pelo qual a Brabham não correu em 1988, encerrando sua primeira passagem pela Fórmula 1 com os títulos descritos anteriormente, além de 39 pole positions e 35 vitórias em 328 corridas disputadas. No final deste ano o empresário suíço Joachim Lüthi adquiriu a Brabham e a inscreveu para o certame de 1989 com os pilotos Martin Brundle e Stefano Modena.

O passado vitorioso da Brabham não a livrou de ser uma das nove equipes a disputar a pré-classificação no Brasil, a maioria das quais (Brabham, Osella, Zakspeed e Onyx) terá dois carros na pista, grupo da qual a AGS está alijada por ora. Brundle e Modena ocuparam os primeiros lugares nesse treino, à frente da EuroBrun de Gregor Foitek e a Osella de Nicola Larini. Após o ocorrido com a equipe de Streiff, a FISA aumentou para cinco as vagas da classificação prévia, e assim Bernd Schneider foi contemplado para a satisfação da Zakspeed. Na seara dos estreantes, apenas Gregor Foitek avançou para o próximo nível, enquanto Bertrand Gachot, Joachim Winkelhock (com a última AGS presente) e Volker Weidler ficaram pelo caminho, assim como a equipe Onyx.

Enquanto alguns retornam, outros nem puderam estrear. Reprovada no teste de impacto ordenado pela FISA para os interessados em competir na Fórmula 1, a FIRST Racing continuará restrita à Fórmula 3000 Internacional. Fundada em 1987 pelo ex-piloto Lamberto Leoni, a equipe contava com o brasileiro Ricardo Divila em seu corpo técnico e tinha Gabriele Tarquini como piloto.

Igual ao ano que passou? Celebrado como o "Rei do Rio" graças às cinco vitórias logradas em Jacarépaguá, Alain Prost terminou o ano de 1988 em alta ao vencer o Grande Prêmio da Austrália, mas o clima de festa no certame em questão eclipsou as mais ferinas declarações do bicampeão a respeito da McLaren em sete temporadas pelo time britânico.Alain Prost correu pela McLaren ao lado de John Watson (1980), Niki Lauda (1984, 1985), Keke Rosberg (1986), Stefan Johansson (1987) e por fim, Ayrton Senna (1988, 1989). Numa entrevista aos jornalistas franceses naquele instante, o francês acusou a Honda de favorecer Ayrton Senna. Alegando "não contar tudo o que sabia" afim de evitar sua demissão, ele afirmou que pretende deixar a McLaren em 1989, quando termina o seu contrato, ou, no máximo, em 1990. O cerne de suas lamúrias está na intimidade de Ayrton Senna com os funcionários da montadora japonesa, razão pela qual Osamu Goto deu o melhor carro ao brasileiro durante os testes em Monza, além de, conforme Prost, conceder ao rival o direito a longas "discussões privadas" nas quais Senna esmiuçava detalhes no acerto do carro enquanto as necessidades do francês ficavam em segundo plano.

Enquanto Alain Prost vituperava contra sua própria equipe, a Ferrari preferiu agirː trouxe ao Brasil o modelo F1 640 (ou F1-89). Projetado por John Barnard e testado por Roberto Moreno, o novo carro possuía como novidade o câmbio semiautomático acionado por duas "borboletas" presas ao volante. Tal sistema permitiria um engate de marchas mais rápido e manteria em alta a rotação do motor V12 que impulsionava os bólidos vermelhos. Confiabilidade à parte, Nigel Mansell e Gerhard Berger não se desgarrariam do volante ao longo das provas e usariam a embreagem apenas para tirar o F1-89 da inércia, ganhando terreno diante da concorrência graças ao motor em rotação constante e ao acionamento mais rápido do carro na hora da largada.

Com uma reputação vencedora a zelar, a Williams disputará o campeonato de 1989 com uma versão revisada do FW12 até que o novo bólido da equipe esteja pronto. Para empurrar seus carros, Frank Williams e Patrick Head uniram-se à Renault, cujos motores V10 ao dispor de Thierry Boutsen e Riccardo Patrese possuem acionamento pneumático, recurso que dispensa molas para acionar as válvulas do motor e permite dosar a rotação extraída dos mesmos, diminuindo as chances de quebra. Patrese, aliás, fez o melhor tempo no treino de sexta-feira, deixando Ayrton Senna para trás. Projetista da McLaren, Gordon Murray foi direto ao pontoː "Vão dar mais trabalho que as Ferrari".

Trinta pilotos foram à pista no sábado com o fito de disputar vinte e seis vagas disponíveis para a corrida e destes o mais rápido foi Ayrton Senna. Logo em sua primeira tentativa ele cravou o melhor tempo, retornando ao asfalto na parte final da sessão quando marcou 1:25.302 com a McLaren, recorde da pista de Jacarépaguá (a marca anterior pertencia ao próprio Senna em 1986 ao volante da Lotus) confirmando a trigésima pole position de sua carreira. Mesmo prejudicado por uma avaria no motor, Riccardo Patrese foi o segundo colocado graças ao tempo obtido na sexta-feira, mesmo cenário que garantiu a Gerhard Berger o terceiro lugar. Nas posições seguintes estavamː Thierry Boutsen, Alain Prost e Nigel Mansell, formando um grid no qual McLaren, Williams e Ferrari exibiam a nova relação de forças na Fórmula 1, bem diferente das corridas de 1988, quando a equipe fundada por Bruce McLaren esmagava a concorrência com facilidade. Neste cenário o "melhor do resto" foi Ivan Capelli, sétimo colocado com a March. Quanto aos demais brasileiros, Nelson Piquet terminou em nono com a Lotus e Mauricio Gugelmin em décimo segundo na outra March.

Merece destaque o décimo lugar do estreante Johnny Herbert. Contratado pela Benetton como substituto de Thierry Boutsen, o piloto britânico quase teve a perna direita amputada num acidente na Fórmula 3000 em Brands Hatch a 21 de agosto de 1988 quando Gregor Foitek atingiu Herbert por trás. Desgovernado, o bólido atingiu o muro e o impacto expôs as pernas de Johnny Herbert, que foram esmagadas num segundo choque. Graças às cirurgias e a um tratamento médico intensivo, ele estreou na Fórmula 1, embora tivesse que ser carregado para entrar e sair do carro. Herbert, inclusive, não foi o único remanescente daquele dia a chegar na Fórmula 1, pois o também estreante, Olivier Grouillard, classificou-se em vigésimo segundo, na 200ª (ducentésima) corrida da Ligier. Menos sorte tiveram Gregor Foitek e os veteranos Yannick Dalmas, René Arnoux (a bordo da outra Ligier) e Roberto Moreno, desbastados no treino. Restaram vinte e seis pilotos habilitados a largar.

Mais um erro do campeão "Ayrton Senna. Não há a menor dúvida de que ele foi o responsável pela batida". Com apenas uma frase, Paul Catalano, dirigente da FISA presente no Autódromo de Jacarepaguá, resumiu a perplexidade de quem assistia a corrida, pois logo nos primeiros metros, o ídolo brasileiro estava fora de combate. "Dei uma bobeada. Demorei alguns segundos para largar e, depois, troquei muito cedo a primeira pela segunda marcha". Grosseira de tão simples, a explanação de Senna é um eufemismo para descrever sua má largada. Na hora que as luzes foram apagadas, a Williams de Riccardo Patrese saiu à frente enquanto a McLaren de Ayrton Senna mal teve forças para reagir, afinal o campeão de 1988 foi alcançado pela Ferrari de Gerhard Berger, cujo ímpeto o fez emparelhar com Ayrton Senna. Este, para não ser ultrapassado, bloqueou seu rival austríaco por dentro e depois pela direita, obrigando a Ferrari a por as rodas na grama. Berger, entretanto, não se intimidou e logo havia três carros na curva um de Jacarepaguá. Com espaço diminuto, Senna estava cercado pelos dois lados e nisso um choque entre ele e Berger tirou da prova o piloto da Ferrari e uma trombada com a Williams de Patrese fez o brasileiro perder o bico do carro.

Obrigado a parar nos boxes, Ayrton Senna aguardou por duas voltas até que trocassem a asa dianteira do carro, mas na quinta volta retornou para corrigir novos problemas na McLaren e ficou estacionado mais uma volta. Carregando tamanho prejuízo, ele sequer pôde figurar entre os coadjuvantes da prova, afinal terminou a corrida em décimo primeiro, a duas voltas do vencedor. Zerar na pontuação foi um desastre para Senna, todavia o maior prejuízo reside nos três erros crassos cometidos em apenas dez meses, algo incomum para um campeão mundial.