A Batalha de Itororó foi a primeira batalha ocorrida na Dezembrada, série de batalhas vencidas pela Tríplice Aliança durante a Guerra do Paraguai. A batalha ocorreu em 6 de dezembro de 1868, sob o comando do então Marquês de Caxias, depois da queda da Fortaleza de Humaitá (em 25 de julho de 1868), quando os países da aliança, Brasil, Argentina e Uruguai, perceberam que haviam superestimado o poderio militar do Paraguai. O período de campanha na direção da conquista de Assunção, capital do Paraguai, deu-se no mês de dezembro e essa época ficou conhecida na história como Dezembrada.
Contexto histórico
A questão platina Com a fragmentação do Vice-Reino do Rio da Prata em consequência da queda do Império espanhol, Buenos Aires continuou com o prestígio de capital da unidade do Prata, proclamando sua independência em 1810 e reafirmando-a em 1816 no Congresso de Tucumán. Com esse passo, o processo de fragmentação da região ganhou força e, no ano de 1811, José Gaspar Rodríguez de Francia proclama a independência do Paraguai, um país que, àquela época, era constituído por índios predominantemente da nação Guarani. Entretanto, como o pequeno país encontrava-se em um local pouco estratégico, considerado, ainda, território argentino por Buenos Aires, e não possuía saída para o mar, precisava tornar seu poderio mais forte para garantir a navegação pelo estuário. Essa manobra era vital para a sobrevivência da nova nação paraguaia.
Francia fechou o país e governou-o como um ditador de 1814 a 1840, quando de sua morte. Durante esse período, o país foi isolado e sua economia estatizada. Carlos Antonio López, seu sobrinho, fez-se eleger em 1844, substituindo-o no governo, dando continuidade à ditadura até o ano de 1862, quando morre. Contudo, o governo de Carlos Antonio López reatou as relações com os países da região platina a fim de modernizar a economia atrasada do país e investir em tecnologia.
No ano de 1854, a Argentina reconhece a independência do Paraguai e o país começa a navegar com mais liberdade pelos rios da Prata e Paraná. A partir desse momento, o Paraguai inicia a sua modernização militar, sendo toda a infraestrutura, técnica e mão de obra importadas da Inglaterra. Todavia, o Brasil tinha problemas com o Paraguai, pois este último criava dificuldade de navegação dos navios brasileiros na região, mesmo com o tratado de livre navegação assinado entre os dois países em 1856, e não aceitava o princípio do uti possidetis, que consiste no direito gerado por ocupação como definidor de uma fronteira. Essa difícil relação do Paraguai com a Argentina e o Brasil fez com que aquele aumentasse seus investimentos militares.
Uruguai e Paraguai
thumb|esquerda|Venâncio Flores.
Com a independência do Uruguai em 1828, o país foi dividido em dois partidos políticos: os blancos, considerados conservadores, e os colorados, considerados liberais. Essa divisão partidária trouxe mais dificuldades para o Brasil, pois os blancos eram hostis ao Brasil e aos brasileiros que viviam em solo uruguaio. Após vários problemas causados pelos blancos aos brasileiros, o Império do Brasil pediu explicações ao Uruguai. Este, por sua vez, pediu ajuda ao governo argentino de Bartolomeu Mitre, que havia permanecido neutro no conflito até então, e concordou aproximou-se do governo brasileiro. Assim sendo, o governo uruguaio procurou o governo ditatorial paraguaio de Francisco Solano López, filho e sucessor de Carlos Antônio López, a fim de propor uma aliança.
Com a invasão do Uruguai por Venâncio Flores, um colorado, em 1863, o Paraguai percebe que precisa agir, pois o cenário é bastante intranquilo para seu governo. Em 1864, porém, sobe, ao poder, um blanco, tornando o contexto político bastante hostil e sensível na região. O Brasil, com receio de que seus nacionais fossem prejudicados, apresenta uma proposta de governo ao Uruguai, a qual é rejeitada. Desta forma, o exército brasileiro invade o território uruguaio em 1864, forçando o governo a ser entregue a Venâncio Flores. Essa medida não agradou aos paraguaios, os quais resolveram entrar de vez na guerra contra o Brasil, apreendendo o navio brasileiro Marquês de Olinda, em Assunção, em 11 de novembro de 1864 e invadindo o Mato Grosso em dezembro do mesmo ano. Não satisfeito, Solano López invade a província de Corrientes em abril de 1865 e ataca o Rio Grande do Sul em junho do mesmo ano.
A resposta brasileira veio com a Batalha Naval do Riachuelo, comandada pelo Almirante Barroso, em 11 de junho de 1865, que destroçou a marinha paraguaia. Em setembro de 1865, as tropas paraguaias rendem-se no Rio Grande do Sul, a chamada Rendição de Uruguaiana. Neste momento, o jogo inverte-se e os aliados passam a atacar e a invadir o Paraguai em abril de 1866.
Itororó
thumb|esquerda|Marechal Marquês de Caxias.
O Rio Itororó é um rio fundo, forte e caudaloso. Sua estreita ponte, famosa pela batalha, cobre um caminho muito acidentado, cheio de desfiladeiros e rochedos com altura de três a quatro metros.
A Batalha de Itororó recebeu esse nome por ter sido travada na ponte do arroio em Itororó, no dia 6 de dezembro de 1868. O exército brasileiro chegou à cidade de Santo Antônio, às margens do Rio Paraguai, e seguiu para o sul onde encontrou a ponte que deveria ser transposta. A missão do exército brasileiro era a de garantir que o exército inimigo se afastasse da ponte e seguisse para o interior, permitindo o avanço das tropas aliadas. Após algumas investidas do exército da Tríplice Aliança, os paraguaios retiraram-se de Itororó, seguindo para o Rio Avaí, onde se deu a segunda batalha da Tríplice Aliança, no total de três, que são conhecidas como Dezembrada. Marquês do Erval, chefiando o Terceiro Corpo de Exército, foi incumbido de perseguir o inimigo e manter contato com o mesmo para que não escapasse.
Estratégia e números
miniaturadaimagem|Antigo selo brasileiro retratando o Duque de Caxias na Batalha de Itororó.
A Batalha de Itororó aconteceu em apenas um dia, quando o Marechal Marquês de Caxias, investindo de diversos modos com seu exército contra o inimigo, resolveu, no meio do combate, arremeter contra os paraguaios entrincheirados. Neste momento, o marechal grita para seus compatriotas:
Essa demonstração de coragem insuflou ânimo nos aliados, conseguindo atacar com mais força, fazendo com que a resistência fugisse para outro ponto do país invadido. Depois desta medida extremada, a cavalaria do Marquês do Erval, a qual havia feito um enorme rodeio tentando um ataque lateral contra as tropas inimigas, consegue, ainda em tempo, chegar para perseguir os fugitivos.
Estima-se que o Brasil tivera cerca de 1 800 homens fora de combate somente nesta batalha, enquanto o Paraguai registrara cerca de 1 200 homens sem condições de continuar no conflito. Além das baixas humanas, o exército paraguaio também registrara a perda de munição e armamento.
Descrição da batalha Detalhamento das unidades thumb|esquerda|Distintivo dos Corpos de Voluntários da Pátria. O exército imperial brasileiro recebia uma nova ordem: o 48º Corpo de Voluntários da Pátria, sob o comando do major Secundino Filafiano de Melo Tamborim, passava da 9ª para a 5ª Brigada de Infantaria do coronel Fernando Machado de Sousa. A partir de então, este destacamento contava com os 1º e 13º Batalhões de Infantaria e com os 34º e 48º Corpos de Voluntários.
A Brigada do coronel Fernando Machado, a qual estava reunida com a 2ª Brigada de Infantaria do coronel Domingos Rodrigues Seixas, formava a 2ª Divisão de Infantaria do Coronel Salustiano Jerônimo dos Reis, do 2º Corpo de Exército do marechal Alexandre Gomes de Argolo Ferrão Filho, que seria responsável pela garantia de segurança assim que o exército desembarcasse em Guarda de Santo Antônio, mais precisamente no barranco da margem esquerda. No dia 4 de dezembro de 1868, deu-se o embarque da Infantaria e Artilharia que estavam alojadas na região do Chaco. A Cavalaria, sob as ordens do brigadeiro José Luis de Mena Barreto, seguiu por terra até a cidade fronteiriça de Santa Helena, situada no estado do Paraná, ponto escolhido para o desembarque na margem esquerda do rio.
O exército paraguaio era comandado pelo general Bernardino Caballero, com uma força de cinco a seis mil homens, distribuídos em dezesseis batalhões de infantaria, seis regimentos de cavalaria, além de doze canhões. No comando da infantaria estava o tenente-coronel Germano Serrano, a cavalaria dividia-se em duas alas, sob comando respectivo do coronel Valois Rivarola e do major Juan Lanson. No alto da colina, pouco além da ponte sobre o arroio estava a artilharia, comandada pelo major Moreno.cdr.unc.br - pdf
Preparativos
thumb|Planta da Batalha de Itororó.
Segundo José Bernardino Bormann, no dia 5 de dezembro, o Marechal Caxias chega para inspecionar o acampamento, a tropa e sua disposição para a empreitada. Interrogado pelo Marquês de Caxias a respeito da ocupação da ponte sobre o arroio Itororó e suas imediações, o General Argolo Ferrão respondeu que não era possível por não dispor de cavalaria suficiente e nem mesmo de mulas para auxiliar na tração da artilharia.
Embora com notícias desagradáveis sobre a ocupação do arroio, Caxias resolveu seguir adiante e ocupar a posição pretendida enviando os Esquadrões de João Niederauer Sobrinho e dois Batalhões de Infantaria, com a promessa de aumentar a força e o poder de fogo com mais infantaria e artilharia assim que chegassem animais para transportar maior carga. O caminho que levava à margem do arroio era tortuoso, com uma vegetação bastante densa que dificultava a movimentação das unidades; no entanto, quando João Niederauer Sobrinho chegou ao local, os paraguaios já se encontravam entrincheirados do outro lado do rio.
Ao cair da noite, Niederauer avisa ao General Argolo sobre o posicionamento inimigo e, por isso, aguarda novas ordens de Caxias. Já na escuridão e sendo o terreno acidentado e pouco conhecido, o Marechal ordenou que Niederauer recuasse, porém que assinalasse ao General as posições estratégicas em que as forças avançadas deveriam permanecer até o amanhecer. Durante a espera, relata-se que as tropas tinham um ar festivo; os soldados estavam à vontade, dançando e cantando ao redor de fogueiras.
A batalha
thumb|Caxias liderando as tropas brasileiras na Guerra do Paraguai.
Após uma noite de alegria e festividades para contornar o nervosismo, o dia 6 de dezembro chega com silêncio e apreensão. Com o toque de alvorada, os soldados iniciam seus afazeres e aprontam-se para o conflito inevitável.
Para se chegar à ponte de Itororó por meio da cidade de Santo Antônio, as tropas brasileiras percorreriam mais de três quilômetros, por um caminho difícil para a cavalaria e artilharia. Para a segurança do grupo, a Brigada do Coronel Fernando Machado composta por quatro Batalhões seguia na retaguarda, fazendo a segurança do 2º Corpo de Exército. Esta última assegurava a proteção do primeiro grupo, o Esquadrão de Cavalaria da Brigada do Coronel Niederauer Sobrinho.
Quando a força-tarefa aliada chegou à ponte de Itororó, o exército comandado pelo Coronel Serrano já se encontrava no local, aguardando para o confronto com os brasileiros. Por ordem do Marechal Argolo Ferrão Filho, o exército imperial brasileiro iniciou o ataque, enquanto o 1º Batalhão de Infantaria seguia na retaguarda da Brigada do Coronel Fernando Machado para garantir sua segurança. O coronel ordenou, ainda, que cavalarias, brigadas e bocas de fogo seguissem para a ponte para o enfrentamento.
Do lado paraguaio, o Coronel Serrano reforçou a defesa do terreno ocupado, sabendo que a luta na ponte seria difícil, engrossando o número de soldados na ponte apenas com as tropas que estavam mais próximas. A luta dependeria mais da destreza de seus homens do que a quantidade de combatentes sobre o rio. Além disso, uma boca-de-fogo fora colocada estrategicamente próxima à ponte para eliminar qualquer soldado que a ultrapassasse da outra margem.
Primeira investida