Domínio morfoclimático e fitogeográfico, também chamado de forma abreviada de domínio paisagístico, é a unidade de um sistema de classificação geográfico baseado em critérios geomorfológicos, climáticos e botânicos.AB'SABER, 1977b, p. 20-21.

Tal esquema de regionalização foi desenvolvido pelo geógrafo Aziz Ab'Saber, em diversos trabalhos ao longo dos anos 1960 e 1970, tendo sido empregado também por outros autores.DANTAS et al., 2008.

Conceito Cada domínio constitui uma área do espaço geográfico com dimensões subcontinentais, na qual predominam certas características morfoclimáticas – de relevo e clima – semelhantes, além de um certo tipo de vegetação, com base na composição florística das espécies vegetais presentes em tal área. As áreas core ou núcleo dos domínios são separadas por faixas de transição. A regionalização usando o conceito dos domínios apresenta certa semelhança com os esquemas de regiões fito e biogeográficas. Entretanto, no interior de um domínio, podem ocorrem diversos tipos vegetacionais secundários, além do tipo predominante. Por exemplo, no domínio fitogeográfico do Cerrado, predomina o tipo de vegetação cerrado sensu lato, com seus vários biomas, no entanto, ocorrem também nesse domínio outros tipos vegetacionais, como a floresta estacional semidecídua, a qual é mais comum no domínio da Mata Atlântica.BATALHA, M.A. The Brazilian cerrado is not a biome. Biota Neotrop. v. 11, n. 1, 2011. link.

Classificações A terminologia, a abrangência e o detalhamento dos esquemas de classificação por domínios morfoclimáticos e fitogeográficos variam entre diferentes trabalhos.

Ab’Saber (1970) De acordo com um dos primeiros esquemas, de autoria de Ab'Saber, podem ser identificados seis "domínios morfoclimáticos" no Brasil:AB'SABER, 1970b, p. 20, 22-23. 1. Domínio das terras baixas florestadas da Amazônia: "domínio das terras baixas equatoriais, extensivamente florestadas, da Amazônia Brasileira"; 2. Domínio das depressões interplanálticas semi-áridas do Nordeste: "domínio das depressões intermontanas semiáridas, pontilhadas de inselbergs, dotadas de drenagem intermitente, e recobertas por caatingas extensivas"; 3. Domínio dos mares de morros florestados: "domínios das regiões serranas, tropicais úmidas, ou dos “mares de morros” extensivamente florestados"; 4. Domínio dos chapadões recobertos por cerrados e penetrados por florestas galerias: "domínio dos chapadões tropicais, a duas estações, recobertas por cerrados e penetrados por florestas galerias". 5. Domínios dos planaltos de araucárias: "domínio de planaltos subtropicais, recoberto por araucárias e pradarias de altitude"; 6. Domínio das pradarias mistas: "domínio das coxilhas subtropicais uruguaio-sul-rio-grandenses, extensivamente recobertas por pradarias mistas".

Ab’Saber (1977a) Anos mais tarde, o mesmo autor expandiu a classificação de "domínios climático-geomorfológicos e fitogeográficos" para o restante da América do Sul (em negrito, os domínios brasileiros):AB'SABER, 1977a, p. 16.MORRONE, 2011. 1. Domínio equatorial amazônico 2. Domínio equatorial pacífico 3. Domínio tropical atlântico 4. Domínio dos cerrados 5. Domínio Roraima-Guianense 6. Domínio intermontano subequatorial do llanos da Venezuela e Colômbia 7. Domínio dos Andes equatoriais 8. Domínio das caatingas 9. Domínio subequatorial caribe-guajira 10. Domínio do Chaco Central 11. Domínio dos desertos costeiros pacíficos 12. Domínios das punas e desertos intercordilheiranos dos altos Andes Centrais 13. Domínios dos planaltos sul-brasileiros com araucárias 14. Domínio andino subtropical e temperado com araucárias 15. Domínio das pradarias mixtas subtropicais 16. Domínio da Pampa Úmida 17. Domínio dos páramos 18. Domínio do monte com cactáceas e bolsones residuais 19. Domínio do monte estépico 20. Domínio patagônico 21. Domínio dos Andes subantárticos 22. Domínio da finisterra sub-úmida 23. Domínio das tundras subantárticas 24. Paisagens das serras úmidas e piemotes da faixa tucumano-boliviana 25. Paisagens rochosas 26. Paisagens dos glaciários residuais 27. Paisagens dos enclaves glaciários de altitude

Ab’Saber (1977) Neste artigo de 1977, Ab'Saber apresenta um mapa, cuja datação original remete a 1965, em que é utilizada uma nomenclatura abreviada para os "domínios morfoclimáticos" ou "domínios paisagísticos":AB'SABER, 1977b, p. 22-23; AB'SABER, 2003, p. 16-17. Domínio I: Amazônico Domínio II: Cerrado Domínio III: Mares de morros Domínio IV: Caatingas Domínio V: Araucária Domínio VI: Pradarias

Ab'Saber (2003) Neste livro, uma coletânea de artigos publicados originalmente entre 1963 e 2002, os quais passaram por leves alterações, em especial nos títulos, Ab'Saber, são apresentados os seguintes termos variantes para nomear os "domínios de natureza" do Brasil:

1. Macrodomínio da AmazôniaAB'SABER, 2003, p. 65. 2. Domínio dos chapadões centrais recobertos por cerrados, cerradões e campestres e penetrados por florestas-galeriaAB'SABER, 2003, p. 13. (ou domínio dos cerrados)AB'SABER, 2003, p. 115. 3. Domínio dos sertões secosAB'SABER, 2003, p. 83. 4. Domínio tropical atlânticoAB'SABER, 2003, p. 45. 5. Domínio dos planaltos de araucáriasAB'SABER, 2003, p. 101. 6. Domínio das pradarias mistas

Dantas et al. (2008) Neste esquema, com a distinção do Pantanal, são definidos sete "domínios geomorfológicos" brasileiros, além de seus principais "padrões morfológicos":

1. Domínio das terras baixas florestadas equatoriais da Amazônia Planícies de inundação Tabuleiros de terra firme; Superfícies de aplainamento Planaltos e serras residuais 2. Domínio dos chapadões semiúmidos tropicais do Cerrado Topos dos chapadões Planaltos dissecados Depressões interplanálticas Planície do rio Araguaia 3. Domínio das depressões semi-áridas tropicais da Caatinga Superfícies de aplainamento da Depressão Sertaneja Chapadas sustentadas por rochas sedimentares Serras isoladas e brejos de altitude; Planalto da Borborema 4. Domínio dos mares-de-morros úmidos tropicais da Mata Atlântica Planícies litorâneas Tabuleiros do Grupo Barreiras Alinhamentos serranos da Fachada Atlântica Mares-de-morros florestados Planalto da Bacia do Paraná 5. Domínio dos planaltos úmidos subtropicais da Mata de Araucárias Primeiro Planalto Paranaense ou Planalto Atlântico; Segundo Planalto Paranaense ou Depressão Periférica; Terceiro Planalto Paranaense ou Planalto Arenítico-Basáltico; Planalto dos Campos Gerais 6. Domínio das coxilhas úmidas subtropicais da Campanha Gaúcha Planalto Sul-Rio-Grandense; Depressão do rio Ibicuí; Coxilha de Haedo; Planalto de Uruguaiana 7. Domínio da planície inundável semi-úmida tropical do Pantanal Planícies aluviais do rio Paraguai Planícies flúvio-lacustres “Cordilheiras”

Descrição dos domínios brasileiros

A paisagem natural brasileira vem sofrendo sérias devastações, diminuindo sua extensão territorial e sua biodiversidade.

A Amazônia, desde muito tempo, sofre com as queimadas, efetivadas para práticas agrícolas, apesar de seu solo não ser adequado a tais atividades. Com as queimadas, as chuvas, constantes na região, terminam por atingir mais intensamente o solo (antes protegido pelas copas das árvores), que, conseqüentemente, sofre lixiviação, perdendo seu húmus, importante para a fertilidade da vegetação. Intenso desmatamento também é realizado na região para mineração e para extração de madeira.

Também a Mata Atlântica, imprópria para a agricultura e para a criação de gado, sofre agressões antrópicas, principalmente na caça e pesca predatórias, nas queimadas e na poluição industrial. Em função disso, o governo federal estabeleceu que a Chapada Diamantina seria uma área de preservação ambiental.

Sofrem ainda o Pantanal, os manguezais e as araucárias.

Domínio amazônico

Ocorrência - Na Região Norte, Mato Grosso, e oeste do Maranhão. Clima - Equatorial (super-úmido). Flora - Perenefólia, higrófila, latifoliada. Fauna - Primatas, onças, insetos, répteis, anfíbios, aves, entre outros. Solo - Lateríticos e sedimentar (pobre).

Situado, em sua maior parte, na região Norte do país, o domínio amazônico compõe planaltos, depressões e uma faixa latitudinal de planície e apresenta vegetação perenifólia, latifoliada (de folhas largas), rica em madeira de lei e densa, o que impede a penetração de cerca de 95% da luz solar no solo e, portanto, o desenvolvimento de herbáceas.

No verão, quando a Zona de convergência intertropical se estabelece no sul do país, os ventos formados no anticiclone dos Açores são levados pelo movimento dos alísios ao continente e, ao penetrá-lo, assimila a umidade proveniente da evapotranspiração da Floresta Amazônica. Essa massa de ar úmida é chamada de massa equatorial continental, sendo responsável pelo alto índice pluviométrico da região. Além de úmida, a Floresta Amazônica também é quente, apresentando, em função de sua abrangência latitudinal, clima equatorial.

No inverno, quando a Zona de convergência intertropical se estabelece no norte do país, a massa polar atlântica, oriunda da Patagônia, após percorrer o longo corredor entre a Cordilheira dos Andes e o Planalto Central, chega à Amazônia seca, porém ainda fria, o que ocasiona friagem na região e, com isso, diminuição das chuvas.

A vegetação da Amazônia, além de latifoliada e densa, possui solo do tipo latossolo pobre em minerais e uma grande variedade de espécies, geralmente autofágicas, em virtude da grande presença de húmus nas folhas. Observa-se a presença de três subtipos: a mata de terra firme, onde nota-se a presença de árvores altas, como o guaraná, o caucho (do qual se extrai o látex) e a castanheira-do-pará, que, em geral, atinge 60 metros de altura, a mata de igapó, localizada em terras mais baixas, zonas alagadas pelos rios e onde vivem plantas como a vitória-régia, e a mata de várzea, onde se encontram palmeiras, seringueiras e jatobás.

Domínio do cerrado

Ocorrência - Na Região Norte, no Tocantins e Rondônia, na Região Nordeste, na Bahia, Maranhão e Piaui, na Região Sudeste, em Minas Gerais, e em toda a Região Centro-Oeste. Clima - Tropical (semi-úmido). Flora - Ecótema, Mesófita, Subcaducifólia (subergrosso, invertido e tortuosas). Fauna - Animais crípticos e arborívolos. Solo - laterítico (ácido e profundo).

Com localização, em sua maior parte, na porção central do país,o Cerrado constitui, em geral, uma vegetação caducifólia, ou seja, as plantas largam suas folhas sazonalmente para suportar um período de seca, exatamente porque o clima da região é o tropical sazonal, com duas estações bem definidas (típicas): verão úmido e inverno seco.

A umidade do verão se deve principalmente à atuação da massa tropical atlântica, úmida, por se formar no arquipélago dos Açores, e quente, em função da tropicalidade.

Na região encontram-se ainda os escudos cristalinos do Planalto Central.

Domínio da caatinga

Ocorrência - No Sertão da Região Nordeste e no norte de Minas Gerais. Clima - Semi-árido. Fauna - Roedores, serpentes, calangos, araras, entre outros. Solo - Raso (baixa Flora: xerófitas fertilidade).

A Caatinga está localizada na região Nordeste, apresentando depressões e clima semi-árido, caracterizado pelas altas temperaturas e pela má distribuição de chuvas durante o ano.

A massa equatorial atlântica, formada no arquipélago dos Açores, ao chegar ao Nordeste, é barrada no barlavento do Planalto Nordestino (notadamente Borborema, Apodi e Araripe), onde ganha altitude e precipita (chuvas orográficas), chegando praticamente seca à Caatinga.

Apesar de sua aparência, a vegetação da Caatinga é muito rica, variando a maioria delas conforme a época de chuvas e conforme a localização. Muitas espécies ainda não foram catalogadas.

Domínio dos Mares de Morros

Ocorrência - Do litoral do Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul. Clima - Tropical úmido. Flora - Perenefólia, higrófila e latifoliada.