A guerra civil espanhola ou guerra da Espanha,«Entrevista a David Jorge: “La Guerra Civil debe conocerse como la Guerra de España. La elección del término no es casual”.» Público. Consultado em 28 de outubro de 2017.Avilés Farré, Juan (1998). Las grandes potencias ante la guerra de España. Arco Libros. .Tusell, Javier; García Queipo de Llano, Genoveva (1993). El catolicismo mundial y la guerra de España. Biblioteca de Autores Cristianos. .Moradiellos, Enrique (2012). La guerra de España (1936-1939): estudios y controversias. Barcelona: RBA. . conhecida naquele país como a guerra civil por excelência, foi uma guerra — que mais tarde repercutiria também em uma crise econômica — que se desencadeou na Espanha após o fracasso parcial do golpe de Estado de 17 de julho de 1936, perpetrado por parte das forças armadas contra o Governo eleito da Segunda República. Após o bloqueio do estreito de Gibraltar e a posterior ponte aérea que, graças à rápida colaboração da Alemanha Nazista e da Itália fascista, transferiu as tropas rebeldes do protetorado espanhol de Marrocos para a Espanha peninsular nas últimas semanas de julho, começou assim uma guerra civil que concluiria em 1 de abril de 1939 com o último parte de guerra assinado por Francisco Franco, que declarou sua vitória e estabeleceu uma ditadura que duraria até sua morte, em 20 de novembro de 1975.

A guerra teve múltiplas facetas, pois incluiu luta de classes, guerra de religião, enfrentamento de nacionalismos opostos, luta entre ditadura militar e democracia republicana, entre contrarrevolução e revolução, entre fascismo e comunismo.

Às partes do conflito costuma-se denominar lado republicano e lado rebelde:

O lado republicano, também denominado «lado leal» ou «lado governamental», foi constituído em torno do Governo, formado pela Frente Popular, a qual era composta pelos republicanos da Esquerda Republicana e União Republicana, os socialistas do PSOE, os marxistas-leninistas com orientação estalinista do Partido Comunista da Espanha, os marxistas-leninistas não estalinistas do POUM, o Partido Sindicalista de origem anarquista e na Catalunha os nacionalistas de esquerda liderados pela Esquerda Republicana da Catalunha. Era apoiado pelo movimento operário, a FAI e os sindicatos UGT e CNT, os quais também buscavam realizar a revolução social. Também se havia inclinado pelo lado republicano o Partido Nacionalista Basco, devido ao fato de que as Cortes estavam prestes a aprovar o Estatuto de Autonomia para o País Basco.

O lado rebelde, que se autodenominou «Movimento Nacional», foi organizado em torno de parte do alto comando militar, institucionalizado inicialmente na Junta de Defesa Nacional, a qual foi substituída pela Junta Técnica do Estado após a nomeação de Francisco Franco como generalíssimo e chefe do Governo do Estado. Politicamente, foi integrado pelos fascistas da Falange Espanhola das JONS, os monárquicos carlistas da Comunhão Tradicionalista, os monárquicos afonsinos da Renovación Española e grande parte dos eleitores da CEDA, a Liga Regionalista e outros grupos conservadores. Socialmente foi apoiado por aquelas classes às quais a vitória nas urnas da Frente Popular lhes fez sentir que sua posição estava em perigo; pela Igreja católica, acossada pela perseguição religiosa desatada pela esquerda assim que o conflito estourou e por pequenos proprietários temerosos de uma revolução proletária. Nas regiões menos industrializadas ou primordialmente agrícolas, os rebeldes também foram apoiados por numerosos camponeses e operários de firmes convicções religiosas.

Ambos os lados cometeram graves crimes na frente e nas retaguardas, como sacas de presos, passeios, desaparecimentos de pessoas ou tribunais extrajudiciais. Na posterior ditadura de Franco foram investigados e condenados severamente os fatos delituosos cometidos na zona republicana, chegando inclusive a instruir uma Causa Geral com escassas garantias processuais. Por sua vez, os delitos dos vencedores nunca foram investigados nem julgados, apesar de que alguns historiadores e juristas«La dictadura de Franco fue fascista y genocida», El Plural, 19 de julho de 2006.«El último genocidio negado: 'Verdad, justicia y reparación' para las víctimas de todas las formas de genocidio», Nueva Tribuna, 2 de março de 2010. defendem que, além de subverter a ordem institucional, os rebeldes teriam tentado exterminar a oposição política.

As consequências da guerra civil marcaram em grande medida a história posterior da Espanha, por serem excepcionalmente dramáticas e duradouras: tanto as demográficas — mortalidade e queda da natalidade que marcaram a pirâmide populacional durante gerações — como as materiais — destruição das cidades, da estrutura econômica e do patrimônio artístico —, intelectuais — fim da denominada Era de Prata das letras e ciências — e políticas — a repressão na retaguarda de ambas as zonas, mantida pelos vencedores com maior ou menor intensidade durante todo o franquismo, e o exílio republicano —, e que se perpetuaram muito além da prolongada pós-guerra, incluindo a excepcionalidade geopolítica da manutenção do regime de Francisco Franco até 1975.

Antecedentes

Em janeiro de 1930 o general Miguel Primo de Rivera reconhece o fracasso de a ditadura que havia instaurado em setembro de 1923 com o apoio do rei e renuncia. Afonso XIII nomeia então como presidente do governo ao general Dámaso Berenguer, mas este não consegue devolver à monarquia a «normalidade constitucional» (este período foi conhecido como «Dictablanda») e é substituído em fevereiro de 1931 pelo almirante Juan Bautista Aznar, que convoca eleições municipais para o domingo 12 de abril. As eleições são ganhas nas cidades pelas candidaturas republicano-socialistas surgidas do Pacto de São Sebastião de agosto de 1930 e na terça-feira, 14 de abril, o rei Afonso XIII, diante das dúvidas da Guarda Civil e do Exército sobre usar a força para frear as multitudinárias manifestações pró-republicanas que inundam as principais cidades, abandona o país. Em Madri o «comitê revolucionário» republicano-socialista proclama a República e assume o poder como Governo Provisório presidido por Niceto Alcalá-Zamora.

Durante o primeiro biênio da Segunda República Espanhola é aprovada a nova Constituição republicana e o governo de coalizão de republicanos de esquerda e de socialistas presidido por Manuel Azaña, formado em 15 de dezembro de 1931 após rejeitar o Partido Republicano Radical sua participação no mesmo por estar em desacordo com a continuidade no governo dos socialistas, aprofunda as reformas iniciadas pelo Governo Provisório cujo propósito é modernizar a realidade econômica, social, política e cultural espanhola. O novo governo se formou após a eleição de Niceto Alcalá-Zamora como presidente da República, que confirmou Manuel Azaña como presidente do Governo.

No entanto, o amplo leque de reformas que empreendeu o governo «social-azañista» encontrou grande resistência entre os grupos sociais e corporativos aos quais se tentava «desalojar» de suas posições adquiridas: os latifundiários, os grandes empresários, financistas e patrões, a Igreja católica, as ordens religiosas, a opinião católica, a opinião monárquica ou o militarismo «africanista». Este último organizou um fracassado golpe de Estado em agosto de 1932 liderado pelo general José Sanjurjo. Também existiu uma resistência ao reformismo republicano de sinal contrário: a do revolucionarismo a qualquer custo, que lideraram as organizações anarquistas (a CNT e a FAI). Para eles, a República representava a «ordem burguesa» (sem muitas diferenças com os regimes políticos anteriores, ditadura e monarquia) que deveria ser destruída para alcançar o «comunismo libertário». miniatura|page=7|Capa da Constituição da República Espanhola (1931). Em setembro de 1933 a coalizão liderada por Azaña se desfez e foram convocadas eleições para novembro de 1933, nas quais votaram pela primeira vez as mulheres, que foram ganhas pela direita católica da CEDA e pelo centro-direita republicano do Partido Republicano Radical de Alejandro Lerroux. Este formou governo com o objetivo de «retificar» as reformas do primeiro biênio, não anulá-las, para incorporar à República a direita «acidentalista» (que não se proclamava abertamente monárquica, embora suas simpatias estivessem com a monarquia, nem tampouco republicana) representada pela CEDA e pelo Partido Agrário, que lhe deram seu apoio parlamentar. Quando a CEDA entrou no governo em outubro de 1934 desencadeou-se uma fracassada insurreição socialista que só se consolidou na Astúrias durante um par de semanas (o único lugar onde também participou a CNT), embora finalmente também foi sufocada pela intervenção do Exército, que trouxe do protetorado espanhol de Marrocos as tropas coloniais de regulares e legionários e, uma vez finalizada, produziu-se uma forte repressão. O mesmo aconteceu quando o presidente da Generalidade da Catalunha, Lluís Companys, proclamou o «Estado Catalão» dentro da «República Federal Espanhola» em 6 de outubro.

A Revolução de outubro de 1934 fez aumentar no governo radical-cedista os temores de que uma próxima tentativa de uma «revolução bolchevique» acabasse triunfando. Isso acentuou a pressão sobre o Partido Radical para levar adiante uma política mais decididamente «contrarrevolucionária». Em última instância, os sucessos de outubro de 1934 convenceram a CEDA de que era necessário chegar a alcançar a presidência do governo para poder dar a «virada autoritária» que o regime, segundo eles, necessitava. O líder da CEDA, José María Gil Robles, encontrou sua oportunidade quando estouraram o escândalo do estraperlo e o do assunto Nombela que afundaram Lerroux e o Partido Republicano Radical, do qual não se recuperaria. Mas o presidente da República, Alcalá-Zamora, se negou a dar o poder a uma força «acidentalista» que não havia proclamado sua fidelidade à República e encarregou a formação de governo a um independente de sua confiança, Manuel Portela Valladares, que forma em 15 de dezembro um gabinete republicano de centro-direita que aguenta o poder Executivo até que Alcalá Zamora convoca eleições para 16 de fevereiro de 1936.

O resultado das eleições de fevereiro de 1936 foi uma distribuição muito equilibrada de votos com uma leve vantagem das esquerdas (47,1%) sobre as direitas (45,6%), enquanto o centro se limitou a 5,3%. Mas como o sistema eleitoral privilegiava os vencedores, isso se traduziu em uma folgada maioria parlamentar para a coalizão da Frente Popular.

O Governo da Frente Popular (fevereiro-julho de 1936)

miniatura|Manuel Azaña reunido com um grupo de militares, entre os quais se encontra Francisco Franco (à direita).

Na quarta-feira, 19 de fevereiro de 1936, Manuel Azaña, o líder da Frente Popular, formava um governo que, conforme o pactuado com os socialistas, só estava integrado por ministros republicanos de esquerda (nove da Esquerda Republicana e três da União Republicana). Uma de suas primeiras decisões foi afastar dos centros de poder os generais mais antirrepublicanos: o general Manuel Goded foi destinado ao Comando Militar das Baleares; o general Francisco Franco, ao das Canárias; o general Emilio Mola ao governo militar de Pamplona. Outros generais significados como Luis Orgaz, Rafael Villegas, Joaquín Fanjul e Andrés Saliquet ficaram em situação de disponíveis. miniatura|esquerda|Logo das Juventudes de Ação Popular (JAP), grupo que foi adotando a retórica fascista e aclamaram o líder da CEDA José María Gil Robles como seu "Chefe". Após as eleições de fevereiro de 1936, muitos afiliados às JAP passaram a se integrar nas milícias da Falange Espanhola.