Jan Mayen () é uma ilha vulcânica localizada no Oceano Ártico, com 55 km de comprimento máximo (sudoeste-nordeste) e 377 km2 de área, parcialmente coberta por glaciares (que ocupam uma área de 114,2 km2 em torno do vulcão Beerenberg), um grande estratovulcão ativo. A ilha é composta por duas partes desiguais, ligadas por um istmo com apenas 2,5 km de largura: a parte maior, a nordeste, conhecida por Nord-Jan, é constituída pelo cone do Beerenberg; a parte menor, para o sul, conhecida por Sør-Jan, é ocupada por colinas. A ilha situa-se a cerca de 600 km a nordeste da Islândia (495 km a NE de Kolbeinsey), a cerca de 500 km a leste da zona central da Gronelândia e a 900 km a noroeste de Vesterålen, na Noruega. A ilha é montanhosa, tendo o seu ponto mais alto a 2277 m de altitude, no cume do vulcão Beerenberg, no norte da ilha. No istmo localizam-se duas lagunas de grande dimensão, a Sørlaguna (Laguna do Sul) e a Nordlaguna (Laguna do Norte), a que se junta uma terceira laguna, a Ullerenglaguna (Laguna de Ullereng) na costa sul do Beerenberg. A ilha de Jan Mayen resulta da existência de um ponto quente do manto terrestre, o Jan Mayen hotspot, e pode ser geologicamente considerada um microcontinente. Com clima polar, caracterizado por temperaturas baixas e ventos constantes, a ilha é um território sob soberania da Noruega, desabitado à exceção de uma pequena guarnição que mantém em funcionamento uma estação meteorológica e uma base de telecomunicações. A única localidade existente no território é Olonkinbyen.

Estatuto e economia Embora sejam territórios administrados separadamente, na norma ISO 3166-1, as ilhas Jan Mayen e Svalbard são designados coletivamente como Svalbard e Jan Mayen, com o código de país de duas letras "SJ". A ilha Jan Mayen é parte integrante do Reino da Noruega. Desde 1995, o território de Jan Mayen é administrado pelo governador (statsforvalter) do condado de Nordland, no norte da Noruega, a parte do território norueguês do qual a ilha está mais próxima. No entanto, alguma autoridade sobre Jan Mayen está atribuída ao comandante da estação da Organização Logística de Defesa Norueguesa, um ramo das Forças Armadas Norueguesas, que funciona na ilha.

Apesar de ter sido uma importante base de baleação no Ártico, a ilha Jan Mayen tem presentemente apenas um recurso natural explorável, cascalho, recolhido de um local localizado em Trongskaret. Em terra, a atividade económica está limitada à prestação de serviços para os funcionários das estações de comunicações via rádio e de meteorologia do governo da Noruega localizadas na ilha.

Jan Mayen é servida um aeródromo com pista de aterragem não pavimentada, o Jan Mayensfield, com 1585 m de comprimento. A linha de costa, com 124,1 km de comprimento, não tem qualquer porto praticável, sendo servida apenas por ancoradouros.

Os únicos habitantes da ilha são funcionários que trabalham para as Forças Armadas Norueguesas e para o Instituto Meteorológico da Noruega (o Meteorologisk institutt). Em termos médios, 18 pessoas passam o inverno na ilha, mas a população pode quase dobrar, para cerca de 35 pessoas, durante o verão, quando é realizada a manutenção pesada das infraestruturas ali existentes. Os funcionários servem na ilha por seis meses ou um ano e são trocados duas vezes por ano, em abril e outubro. A equipe de apoio, incluindo mecânicos, cozinheiros e uma enfermeira, é composta por militares.

Os militares operaram uma base Loran-C, a Estação Loran-C Jan Mayen, até esta estrutura ter sido desativada no final de 2015 por obsolescência tecnológica. Tanto o transmissor Loran-C quanto a estação meteorológica estão localizados a poucos quilómetros do povoado de Olonkinbyen (vila de Olonkin), assentamento onde se concentram todos os alojamentos.

Recursos naturais Existem recursos pesqueiros importantes nas águas em torno da ilha, e a existência de Jan Mayen estabelece uma grande zona económica exclusiva ao seu redor. Uma disputa entre a Noruega e Dinamarca sobre a zona de exclusão de pesca entre Jan Mayen e a Gronelândia foi resolvida em 1988, concedendo à Dinamarca a maior área de soberania. Existem indicações que apontam para a presença de depósitos significativos de petróleo e gás natural sob os fundos marinhos em torno de Jan Mayen.

Transportes e comunicações O transporte para a ilha é fornecido por aviões C-130 Hercules de transporte militar operados pela Força Aérea Real da Noruega que pousam na pista de cascalho de Jan Mayensfield. Os aviões voam de Base Aérea de Bodø oito vezes por ano. Como o aeroporto não tem capacidade de aterragem por instrumentos, é necessária boa visibilidade durante a operação, não sendo raro os aviões terem de regressar a Bodø, a duas horas de distância, sem aterrar.

Para mercadorias pesadas, os navios de carga visitam a ilha durante o verão, mas como não há portos, os navios são obrigados a ancorar ao largo, sendo feito o transbordo para barcaças que levam as cargas até terra.

Apesar da ilha não ter população residente permanente, o território tem atribuído o código de país da norma ISO 3166-1 alfa-2 «SJ» (juntamente com Svalbard). Apesar disso, está ali em uso o código de domínio de topo na Internet (ccTLD) .no (embora .sj esteja alocado, não é usado) e é usado o código de dados «JN». Jan Mayen tem telefone e conexão de Internet via satélite, usando números de telefone noruegueses (código de país 47). O prefixo de radioamador usa o indicativo de chamada «JX».

Tem um código postal, NO-8099 JAN MAYEN, mas o tempo de entrega postal é incerto, especialmente durante o inverno.

História A história de Jan Mayen, tal como das restantes ilhas do Atlântico Norte, está emersa em muitas incertezas já que o seu comprovado reconhecimento por navegadores europeus foi tardio. Dada a rudeza do clima e os escassos recursos naturais disponíveis, a ilha nunca foi habitada em permanência, sendo antes utilizada como ponto de apoio na baleação e para fins militares.

Descoberta não verificada de uma terra nullius

Entre os séculos V e IX (400–900 CE), numerosas comunidades de monges originárias da Irlanda (Papar) navegaram pelo Atlântico Norte em barcos de couro, explorando e às vezes estabelecendo-se em ilhas distantes onde suas comunidades monásticas poderiam ser separadas do contacto próximo com outras pessoas. Existem fortes indícios de sua presença nas ilhas Faroe e na Islândia antes da chegada dos Viking, e crónicas gaélicas medievais, como o famoso Viagem de São Brendan, o Abade, testemunham o grande interesse pela exploração na época. Uma viagem transatlântica moderna provou a capacidade dos primeiros navegadores de alcançar todas as terras do Atlântico Norte situadas ainda mais longe da Irlanda do que Jan Mayen, o que poderiam fazer, com ventos favoráveis, a uma velocidade aproximadamente igual à dos iates modernos. Embora haja forte probabilidade de ter ocorrido, não há nenhum traço físico direto de desembarques ou assentamentos medievais em Jan Mayen.

A terra chamada Svalbarð ("costa fria") pelos vikings no início do livro medieval Landnámabók pode ter sido Jan Mayen (em vez de Spitsbergen, renomeada como Svalbard pelos noruegueses nos tempos modernos). A distância da Islândia para Svalbarð mencionada naquela crónica é de dois dias de navegação (com ventos favoráveis), consistente com os cerca de 550 km que medeiam entre as costas islandesas e Jan Mayen e não com os mais de 1550 km que dista Spitsbergen.J. M. Wordie (1922), "Jan Mayen Island", The Geographical Journal Vol 59 (3), pp. 180–194

Contudo, por mais que Jan Mayen possa ter sido conhecido na Europa naquela época, foi posteriormente esquecido por vários séculos, já que registos seguros do conhecimento da sua existência só surgem na primeira metade do século XVII.

A partir das primeiras décadas de 1600 foram muitas as reivindicações de redescoberta da ilha, estimuladas pela rivalidade na exploração das áreas de baleação do Ártico. Nesse período a ilha recebeu diversos nomes consoante os relatos de (re)descoberta.

De acordo com Thomas Edge, um capitão baleeiro do início do século XVII conhecido pela imprecisão dos seus relatos, teria sido um «William Hudson» a descobrir a ilha em 1608, tendo-a denominado de «Hudson's Touches» (ou Tutches). No entanto, o conhecido explorador Henry Hudson só poderia ter ali passado na sua viagem de 1607 (se tivesse feito um desvio ilógico) e não faz dessa improvável visita qualquer menção no seu diário.

De acordo com William Scoresby,William Scoresby, 1820: p. 154. referindo-se à crença hoje considerada errónea de que os neerlandesas haviam descoberto a ilha em 1611, a redescoberta teria sido obra de alguns baleeiros de Hull teriam encontrado a ilha «mais ou menos na mesma época» (isto é por volta de 1611) e a teriam denominado de "Ilha da Trindade". Samuel Muller interpretou esses relatos como significando que aqueles baleeiros encontraram Jan Mayen em 1611 ou 1612,Samuel Muller, 1874: pp. 190-191. o que foi repetido por múltiplos autores subsequentes. Contudo, de facto, não houve baleeiros de Hull a partir para o mar em nenhum desses anos, sendo que a primeira expedição baleeira de Hull foi enviada para a região em torno da ilha apenas em 1616. Tal como acontece com a reivindicação anterior feita por Thomas Edge, não é conhecida qualquer prova cartográfica ou escrita para esta suposta descoberta.

Exploração neerlandesa As primeiras viagens comprovadas a Jan Mayen foram feitas por três expedições separadas que ocorreram no verão de 1614, provavelmente com um mês de diferença entre si. O neerlandês Fopp Gerritsz, que comandava uma expedição baleeira enviada pelo inglês John Clarke, de Dunkirk, afirmou (em 1631) ter descoberto a ilha em 28 de junho daquele ano de 1614, tendo-lhe dado o nome de «ilha Isabella».Louwrens Hacquebord, "The Jan Mayen Whaling Industry" em Jan Mayen Island in Scientific Focus, Stig Skreslet, editor, Springer Verlag 2004.Hart, S. De eerste Nederlandse tochten ter walvisvaart (1957), p. 50. Hart aponta o ano como sendo 1613.

Em janeiro de 1614 foi criada a Noordsche Compagnie (Companhia do Norte), inspirada na Companhia Holandesa das Índias Orientais. A empresa tinha como objetivo apoiar a caça à baleia feita por neerlandeses no Ártico. Dois de seus navios, financiados por mercadores de Amsterdam e Enkhuizen, chegaram a Jan Mayen em julho de 1614. Os capitães desses navios eram Jan Jacobszoon May van Schellinkhout (de cujo nome deriva a atual designação da ilha), ao comando do Gouden Cath (Gato Dourado), e Jacob de Gouwenaer, ao comando do Orangienboom (Laranjeira). Estes capitães terão acordado dar à ilha o nome de Joris Eylant (ilha de Joris), em homenagem ao cartógrafo holandês Joris Carolus, que estava a bordo de um dos navios e mapeou a ilha. Estes mesmos capitães reconheceram que um terceiro navio holandês, o Cleyn Swaentgen (Pequeno Cisne), capitaneado por Jan Jansz Kerckhoff e financiado pelos acionistas da Noordsche Compagnie de Delft, já havia estado na ilha quando eles ali chegaram. Terão presumido que este último último, que batizou a ilha de Maurits Eylandt (ou ilha Maurício), em homenagem a Maurício de Nassau, Príncipe de Orange, relataria a sua descoberta aos Estados Gerais. No entanto, os comerciantes de Delft decidiram manter a descoberta em segredo e retornaram em 1615 para caçar baleias para seu próprio benefício. A disputa que se seguiu só foi resolvida em 1617, embora ambas as empresas tenham sido autorizadas a balear em Jan Mayen nesse período.