Laranjeiras é um bairro tradicional de classe média alta da Zona Sul do município do Rio de Janeiro, capital do estado homônimo. É celebrado por ser um dos pontos mais descontraídos e charmosos da Cidade Maravilhosa e conhecido por seus elegantes prédios antigos, como o Palácio Guanabara e o Palácio das Laranjeiras, este situado no Parque Guinle. A região também é conhecida por suas charmosas e boêmias praças, como a Praça São Salvador, cercada por bares descolados, e a Praça do Choro, na Rua General Glicério, coração de uma famosa feira popular; em ambas, há anos, tradicionais apresentações de choro encantam moradores e visitantes semanalmente.

É também conhecido como o bairro onde se situa a sede do Fluminense Football Club, um dos quatro grandes clubes de futebol do Rio de Janeiro; daí vem a alcunha "Tricolor das Laranjeiras", frequentemente associada ao clube em questão.

Toponímia "[E]m um documento de 1780, apareceu o nome Laranjeiras pela primeira vez em referência à região que ficava no interior do vale, e que passou a se distinguir das áreas da Glória e do Catete, também na bacia do rio Carioca, no entanto, mais próximas da baía".Ao contrário do que se pode intuir, o nome do bairro não se deve à suposta existência de laranjais no local. A montanhosa região do atual bairro, coberta em toda sua extensão por extensas chácaras, lembrava a também acidentada região de Laranjeiras na região alta de Lisboa, o que levou à nomeação do bairro carioca.

Uso de artigo Conquanto a via principal do bairro seja denominada "Rua das Laranjeiras", o uso correto do artigo na referência ao bairro é o abaixo: Uso correto "de Laranjeiras"

"em Laranjeiras" "a Laranjeiras", "por Laranjeiras"Uso incorreto "das Laranjeiras"

"nas Laranjeiras" "às Laranjeiras" "pelas Laranjeiras" Geografia “Muito antes de existir o Rio de Janeiro, existia o rio Carioca”

"Descendo do alto da serra da Carioca, no maciço da Tijuca perto do Corcovado (...) o rio Carioca ou das Caboclas formava um verde vale que se estendia desde o futuro Cosme Velho até a Guarda dos Marinheiros na praia do Sapateiro ou do Flamengo, ou melhor dois, porque dele outro menor saía do Campo das Pitangueiras (ou Largo do Machado) para a Glória, o riacho do Catete".miniaturadaimagem|204x204px|O rio Carioca

Topografia Parafraseando Alceu Amoroso Lima, que lá também residiu, antes de existir Laranjeiras, existia o Rio Carioca, que deu origem ao bairro e a cidade como um todo. Com nascente na Floresta da Tijuca, o rio percorre os bairros de Cosme Velho, Laranjeiras, Catete e Flamengo e deságua na Baía de Guanabara, na altura da Praia do Flamengo.

Laranjeiras se expandiu ao longo do vale do Carioca - que chegou a ser conhecido como Vale das Laranjeiras -, crescendo nas áreas baixas ao redor das margens e pelas encostas dos morros ao seu redor. Nos morros, de um lado, cresceu sobre os morros Silvestre, Inglês, Dona Marta e Mundo Novo; de outro, se alastrou pelos morros Formiga, São Judas Tadeu, Chico e Nova Cintra.

Limites O bairro fica em uma localização estratégica e faz limite com os seguintes bairros: Botafogo Cosme Velho Catete Catumbi, através do Túnel Santa Bárbara Flamengo Rio Comprido, através do Túnel da Rua Alice Santa Teresa

História "Para o historiador e arquiteto Nireu Cavalcanti, de 69 anos, é impossível falar sobre a fundação do Rio sem mencionar Laranjeiras. Morador do bairro desde 1974, Cavalcanti lembra que era por esta região que escoava a melhor água da cidade.

— Era a área mais importante da cidade, pois é por onde corre o Rio Carioca. A bacia do rio era chamada de Região da Carioca. É dessa forma que os documentos antigos se referem quando alguma chácara instalada nessa região era citada — diz o historiador, destacando que, no fim do século XVIII e início do século XIX, a Região da Carioca começou a se dividir e passou a ter os bairros do Catete, do Flamengo e Cosme Velho".

O Globo, 16 de abril de 2014miniaturadaimagem|237x237px|Laranjeiras em 1821. Desenho de Maria Callcott - "Journal of a Voyage to Brazil, and Residence There, During Part of the Years 1821, 1822, 1823"

Período colonial Laranjeiras, em virtude de sua localização, é um dos bairros mais antigos da cidade do Rio de Janeiro. Na análise da Brasiliana Iconográfica, "a região era, na época da chegada dos portugueses, habitada pelos Tamoios, depois foi encontrada pelos franceses, até ser tomada pelos portugueses ainda no século XVI".

O acesso às águas puras do rio Carioca foi um dos grandes atrativos para a mobilização rumo à região. Assim, a partir de 1567, a ocupação formal aconteceu com a divisão da área em sesmarias entre aqueles que lutaram para expulsar os franceses. Inicialmente, as terras foram divididas e doadas a Cristóvão Monteiro, primeiro ouvidor do Rio, que logo construiu uma torre e um moinho.

O início da ocupação do bairro e o nascimento de sua identidade são bem representados por Brasil Gerson no seu clássico História das Ruas do Rio: "[C]omo o do Catete, o das Laranjeiras surgiu também como um bairro de chácaras, no começo rústicas, para o abastecimento da cidade, com verduras, laranjas, etc., e mais tarde aristocráticas, para a moradia de fidalgos e outros homens ricos. (...) Os carros de boi, costeando o rio, traziam os seus produtos até o Flamengo no começo do Seiscentismo, para que em canoas mais facilmente chegassem à praia (agora rua) de D. Manuel, lugar de abastecimento dos cariocas. (...)

Uma dessas chácaras era "A Ilhota", do futuro ministro da Fazenda de Pedro I, José Antônio Lisboa, cujas cercas avançavam pela rua adentro para a proteção de um jequitibá de sua estimação. motivo, porém, de amargas pendências não só com a Ilustríssima Câmara, como também com seus vizinhos (...). Quase defronte da "Ilhota" era a chácara da duquesa de Cadaval, francesa e viúva de um primo de D. João VI (...). No Séc. XVII, o Carioca começou a ter suas águas captadas para o abastecimento da cidade. Tendo sido levado, inicialmente, até a atual Cinelândia, posteriormente foi conduzido ao Centro pelos icônicos Arcos da Lapa.

Laranjeiras no Brasil Império nenhum|miniaturadaimagem|600x600px|Laranjeiras - 1852 - Lemercier & Cie No início do séc. XIX, Laranjeiras passou por grande mudanças, impulsionadas pela transferência das lavouras de café para o Vale do Paraíba e pela chegada da família real e toda a corte em 1808. Assim, houve uma ocupação mais sistematizada do bairro, fazendo surgir, na região, chácaras rústicas e luxuosas ocupadas por fidalgos, homens ricos e movidas a trabalho escravo. Conquanto a maior parte há muito tenha desaparecido, duas construções que exemplificam o período perduram no bairro: a antiga residência do Conde Modesto Leal, à Rua das Laranjeiras, 304, e o antigo Palácio Isabel, residência da Princesa Isabel e do Conde D’Eu, rebatizado de Palácio Guanabara.

A circulação da nobreza e da fidalguia pela região é bem exemplificada pela conhecida Bica da Rainha, fonte construída no séc. XIX no vizinho Cosme Velho e celebrizada pelas visitas da rainha Carlota Joaquina de Bourbon e, mais notoriamente, de sua sogra, a rainha Maria I de Portugal. Brasil Gerson conta que "D. Maria, a Louca, a visitava sempre quando vivia no convento das Carmelitas, e sempre rodeada de damas de companhia, e que é de onde veio o ´Maria vai com as outras´ popularizado pelos cariocas do Oitocentismo". Já no Segundo Império, a presença da Princesa Isabel no palacete da Rua Guanabara, atual Rua Pinheiro Machado, contribuiu para o seu crescimento, haja vista que o principal caminho de acesso ao palacete imperial, era a Rua Paissandu, que fazia a conexão com a praia e foi ornamentada, a pedido da princesa, com belíssimas palmeiras-imperiais existentes até os dias de hoje.

Na década de 1880, a região sofreu grande transformação com a implantação da Companhia de Fiações e Tecidos Aliança, instalada na Rua General Glicério. Com a fábrica, surgiram no bairro as primeiras vilas operárias, como a Vila Olga, até hoje existente. "A Companhia Aliança foi uma das mais importantes fábricas de tecido da cidade e faz parte da história do desenvolvimento fabril do Rio de Janeiro. A fábrica, que chegou a ter cerca de 2 mil pessoas em seu quadro de funcionários, foi uma das responsáveis por atrair, para a então longínqua zona sul carioca, moradores que não faziam parte das elites econômicas da cidade – assim como as fábricas do Jardim Botânico, Gávea e Botafogo". miniaturadaimagem|377x377px|Companhia de Fiação e Tecidos Aliança (Laranjeiras) – Circa 1880|esquerdaminiaturadaimagem|Rua das Laranjeiras, esquina com a rua Soares Cabral - Circa 1910. |154x154pxOutro importante agente de transformação do bairro na década de 1880 foi a instalação de linhas de bonde, que trouxeram os primeiros comerciantes, bares, restaurantes, bailes e ranchos populares. Os bondes elétricos, criados pela Companhia Jardim Botânico, iam até ao local conhecido como a Bica da Rainha, no Cosme Velho, chegando depois até a Ladeira dos Guararapes.

Brasil Gerson aponta outros aspectos do desenvolvimento urbano do bairro no século XIX, notando que "com o decorrer do tempo [Laranjeiras] cresceu e o carioca deixou de correr ao seu lado a céu aberto. Deram-lhe, como novidade, uma praça de touros, de pedra e tijolos, com funções aos domingos nas temporadas tauromáquicas vistas no Rio a partir de 1895". Laranjeiras no séc. XX

Primeiras intervenções do século "Nasci no Catete e depois fui morar em Laranjeiras. Vi o campo do Fluminense ser feito, lá de cima do Mundo Novo".

Cartola No começo do século, a região próxima ao Palácio Guanabara se desenvolveu, com a abertura da passagem à Rua Farani e a fundação do Fluminense Football Club, cujo estádio fica ao lado da antiga morada da Princesa Isabel. nenhum|miniaturadaimagem|380x380px|Ligação das ruas Guanabara e Farani - Circa 1914

Início da verticalização Na primeira metade do séc. XX, Laranjeiras viveu três grandes empreendimentos imobiliários, que até hoje marcam a arquitetura do bairro e conferem notável graça e charme à região.

Nos anos 20, a Companhia Sul América abriu a Rua Pires de Almeida para abrigar 23 edifícios e uma praça, hoje chamada Praça Múcio Leitão; o projeto é de 1927, e as obras foram concluídas três anos depois. "O Jardim Sul América – atual Rua Pires de Almeida – é um conjunto de edifícios construído na década de 1920 pela empreiteira Monteiro Aranha para servir de vila dos funcionários da Cia. de Seguros Sul América, em terreno de quinze mil metros quadrados, no Bairro de Laranjeiras, Rio de Janeiro. Composto por 23 edifícios em estilo art déco, as 158 unidades de 1 a 4 quartos se destinavam a abrigar desde os diretores até os serventes da empresa".

miniaturadaimagem|440x440px|Rua Pires de Almeida, com o Corcovado e o Cristo Redentor ao fundo|esquerdaminiaturadaimagem|Publicidade do lançamento do empreendimento Cidade-Jardim Laranjeiras, na hoje rua General Glicério Em 1939, a Cia de Tecidos Aliança encerrou suas atividades, levando a mais uma transformação e ao segundo grande empreendimento imobiliário de Laranjeiras no séc. XX. Sem a fábrica, a maioria dos operários mudou-se para os bairros de subúrbio, alterando mais uma vez a composição da população de Laranjeiras, que firmou-se como área de classe média e classe alta.

Em 1945, o espaço ocupado pela fábrica deu lugar a novas ruas e a um grande conjunto de edifícios de apartamentos. O empreendimento, lançado como "Jardim Laranjeiras", se destaca pela beleza arquitetônica e pelo agradável aspecto urbanístico de suas vias. Até hoje, a região da Rua General Glicério (Rio de Janeiro) estão entre as mais charmosas da cidade.