O Paquistão é um dos países criados com a dissolução do império colonial britânico da Índia, em 1947. A história antiga do Paquistão se inicia a cerca de .

Antecedentes da independência O governo britânico passou a exercer o controle direto da Índia a partir da revolta dos sipais, de 1857, quando revogou as prerrogativas de que gozava, desde 1756, a Companhia das Índias Orientais. O Partido do Congresso foi criado em 1885 com o propósito de representar a imensa maioria hindu do subcontinente indiano; em reação, a Liga Muçulmana (All-India Muslim League) foi instituída em 1906 para preservar os interesses daquela minoria. Apesar do crescente número de conversões ao islã, os muçulmanos ressentiam-se da posição dominante dos hindus na indústria, no comércio, na educação e no setor público. Quando o Congresso e a Liga se decidiram, ambos, pela independência, não lograram acordar uma fórmula que permitisse a proteção dos direitos políticos, econômicos e religiosos dos muçulmanos.

A origem do nome Paquistão é motivo de debate. Para alguns, significa "o país dos puros" (pak, "puro"; stan, "terra, país") em urdu.Outras fontes afirmam que os termos pak e stan são de origem persa. Para outros, proviria de um acrônimo para os territórios de população muçulmana no sul da Ásia, criado por Choudhary Rahmat Ali, nacionalista muçulmano e estudante de Cambridge, divulgado pela primeira vez em 28 de janeiro de 1933: P de Punjabe; A para as terras afegãs; K de Kashmere (Caxemira); S de Sind; e tan de Baluchistan (Baluchistão).

Atribuída a Syed Ahmad Khan, político muçulmano, antigo magistrado e criador de escolas e universidades, a ideia de um Estado separado foi formalizada pelo poeta e filósofo Allama Muhammad Iqbal durante um discurso perante a sessão anual da Liga Muçulmana em 1930, em Allahabad. Em 23 de março de 1940, em Lahore, a Liga , presidida por Muhammad Ali Jinnah, adotou oficialmente a teoria das Duas Nações, por meio da Declaração de Lahore.

Nascimento do Paquistão A Segunda Guerra Mundial constituiu-se em oportunidade para nacionalistas indianos, perante um governo britânico desejoso da cooperação indiana durante o conflito. Gandhi e o Congresso lançaram então o movimento Quit India ("Saia da Índia", bordão dirigido aos britânicos), ao qual a Liga Muçulmana não se associou de maneira formal. Seguiu-se um período de violência descontrolada na Índia, provocado pela repressão ao movimento de desobediência civil de Gandhi e agravado pela fome catastrófica que levaria à morte três milhões de pessoas na Bengala, em 1943.

Partição e independência Decididos a abandonar a Índia a partir de 1945, os britânicos depararam em 1946 com a multiplicação dos confrontos sangrentos entre a comunidade muçulmana, de um lado, e as comunidades siques e hindus, de outro. A Liga, que continuava a exigir a criação de um Estado distinto nas regiões de maioria islâmica, sagrou-se vencedora na maior parte das zonas eleitorais muçulmanas nas eleições de 1946. Os britânicos decidiram-se, então, em favor da partição do país, apesar da oposição de Nehru e Gandhi. A Lei de Independência Indiana (Indian Independence Act) aprovada pelo parlamento britânico, entrou em vigor à 00:00 h do dia 15 de agosto de 1947, momento em que o Reino Unido transferiu a soberania local para os novos Estados independentes da Índia e do Paquistão, que se tornam então membros da Commonwealth.

O novo Estado O Paquistão, de maioria muçulmana, viu-se imediatamente dividido em duas regiões distintas, separadas por 1 700 km: o Paquistão Oriental (que se declararia independente em 1971 com o nome de Bangladesh), e o Paquistão Ocidental, composto pelo Sind, Punjabe Ocidental, Baluchistão, província da Fronteira Noroeste e alguns outros territórios menores.

A partição deu causa a enormes deslocamentos populacionais. Mais de seis milhões de muçulmanos indianos refugiaram-se no novo Estado paquistanês, enquanto igual número de hindus e siques abandonaram o Punjabe rumo à Índia, devido à violência e aos massacres de fundo étnico que deixaram mais de 500 000 vítimas. Não obstante, um terço dos muçulmanos continuou a residir na Índia.

Formação do Estado Muhammad Ali Jinnah, denominado Qaid-i-Azam ("Luz da Nação"), tornou-se o governador-geral do novo Estado, com Liaquat Ali Khan no cargo de primeiro-ministro. O Paquistão deu início a sua vida nacional sem funcionários públicos qualificados e sem infraestrutura administrativa na capital improvisada de Carachi. Mesmo assim, foi confrontado com a necessidade de lidar com refugiados, dar partida numa economia autônoma e instituir e treinar forças armadas.

Após o fim do domínio britânico, o dirigente hindu do Jammu e Caxemira, marajá Hari Singh, da dinastia Dogra, pediu o auxílio do exército indiano para rechaçar as incursões de tribos pachtuns provenientes do Paquistão e apoiadas por parte da população local e, veladamente, pelo exército paquistanês. Em 26 de outubro de 1947, em que pese o fato de a maioria da população de Jammu e Caxemira (78 por cento) ser muçulmana, o marajá assinou o tratado de adesão à Índia, abrindo caminho para que as forças indianas entrassem naquele principado. O Paquistão não aceitou a decisão do marajá caxemira, que marcou o início de uma série de conflitos armados entre as forças armadas indianas e paquistanesas. O cessar-fogo negociado sob a égide da ONU entrou em vigor em janeiro de 1949 e, com base na chamada linha de controle (que separa as forças dos dois países), a Índia manteve o controle de dois terços da Caxemira, que passaram a formar o estado federal indiano de Jammu e Caxemira, com capital em Srinagar; o Paquistão administra o terço restante, que subdividiu em Caxemira Livre (com capital em Muzaffarabad) e Territórios do Norte (com capital em Gilgit).

De imediato, o país sofreu com a instabilidade no plano político e foi confrontado com grandes dificuldades econômicas. Jinnah morreu em 1948 e o primeiro-ministro Liaqat Ali Khan foi assassinado em outubro de 1951 por um fanático afegão. A escassez de líderes não foi resolvida nem com os primeiros-ministros Nazimuddin (1951-1953) e Muhammad Ali (1953-1955), nem com o governador-geral Ghulam Muhammad (1951-1955).

Uma onda de descontentamento percorreu o Paquistão Oriental, que se sentia posto de lado por um governo federal geograficamente distante. A Liga Muçulmana fracassou em diversas eleições, especialmente em 1954: um novo pleito então foi organizado e formou uma nova Assembleia Nacional que já não era controlada pela Liga. Com Chaudhri Muhammad Ali no cargo de primeiro-ministro e Iskander Mirza como governador-geral, a Assembleia Nacional elaborou uma nova constituição.

Com a promulgação daquela constituição, em 23 de março de 1956, o Paquistão tornou-se a primeira república islâmica do mundo; Mirza foi eleito presidente provisório. A instabilidade política prosseguiu, porém, devido à falta de uma maioria clara na Assembleia, que levava a frequentes mudanças de governo, bem como à corrupção generalizada no meio político e à precária situação econômica, apesar da ajuda internacional.

Confrontado com a impossibilidade de controlar a agitação no Paquistão Oriental, o Presidente Mirza voltou-se para o comandante das forças armadas, General Mohammad Ayub Khan. Em 8 de outubro de 1958, Mirza revogou a constituição e declarou a lei marcial.

Golpe militar e criação do Bangladesh (1958-1972) Vinte dias depois, os militarem forçaram o Presidente Mirza a exilar-se, permitindo que o General Ayub Khan assumisse o poder no Paquistão e instituísse uma ditadura militar. Seguiu-se uma série de reformas, como a agrária, um plano de desenvolvimento econômico, restrições à poligamia e ao divórcio e, em 1962, uma nova constituição que estabeleceu como línguas oficiais o bengali e o urdu. Islamabade tornou-se a capital nacional e Daca, a capital legislativa.

Os problemas no Paquistão Oriental continuaram. A Liga Awami (socialista) reuniu os descontentes bengalis em detrimento da Liga Muçulmana. Apesar de alguns avanços diplomáticos, as relações com a Índia continuavam tensas, em parte por conta da questão da Caxemira, e também devido aos conflitos intercomunitários dentro do território indiano, como o massacre de milhares de muçulmanos em Madhya Pradesh, em 1961. As relações com o Afeganistão também se deterioraram entre 1961 e 1963, após incidentes de fronteira incentivados pela URSS, que desejava a criação de um "Pachtunistão" independente.

Após uma segunda guerra travada em 1965 por motivo da Caxemira, o presidente Ayub Khan e o primeiro-ministro indiano Lal Bahadur Shastri assinaram a Declaração de Tasquente, mediada pela URSS, segundo a qual as duas partes acordavam um cessar-fogo, a retirada para as posições pré-conflito e o reatamento de relações diplomáticas. A questão da Caxemira continuou em aberto. Zulfikar Ali Bhutto, ministro do exterior durante a guerra, demitiu-se por causa do que entendeu ser o abandono da Caxemira pelo Paquistão e formou o Partido Popular Paquistanês (PPP), mais próximo do socialismo.

O Presidente Ayub Khan demitiu-se em março de 1969 após grande convulsão interna ocorrida no fim de 1968, transmitindo o poder ao General Muhammad Yahya Khan, que decretou nova lei marcial.

Nas eleições de 1970, a Liga Awami do xeque Mujib-ur-Rahman conquistou 153 dos 163 assentos atribuídos ao Paquistão Oriental, enquanto o PPP de Bhutto passou a dominar o restante da Assembleia. A sessão inaugural da nova legislatura foi por duas vezes adiada por Yahya Khan, quem terminou por anular os resultados eleitorais. A Liga Awami foi proibida e o Xeque Mujib-ur-Rahman, detido no Paquistão Ocidental.

Nessas condições, o Paquistão Oriental declarou então a sua independência, com o nome de Bangladesh, em 26 de março de 1971. Em reação, o governo central paquistanês declarou lei marcial no Paquistão Oriental e determinou que o exército ocupasse aquele território. A guerra civil subsequente deixou centenas de milhares de civis mortos e 10 milhões de refugiados, acolhidos pela Índia. Esta prestou seu apoio ao Bangladesh e finalmente entrou no conflito em dezembro de 1971. Após uma guerra de quinze dias - a terceira entre Paquistão e Índia - as tropas paquistanesas renderam-se e declarou-se um cessar-fogo. Um acordo assinado em Shimla em 1972 contribuiu para reduzir as tensões e o Xeque Mujib-ur-Rahman foi solto e autorizado a retornar ao Bangladesh, que foi reconhecido pelo Paquistão em 1974.

Governo civil e Ali Bhutto (1971-1977) Em seguida à derrota frente à Índia, Yahya Khan demitiu-se do cargo de presidente em favor de Zulfikar Ali Bhutto, do Partido Popular Paquistanês (PPP), conformando-se então o retorno dos civis à alta administração do país. Em 1973, adotou-se uma nova constituição, de modelo federalista. A figura presidencial tornou-se principalmente simbólica, com os poderes do Estado transferidos para o primeiro-ministro, para cujo cargo a Assembleia Nacional elegeu Bhutto.

Desde 1972, Bhutto dera início a um vasto programa de nacionalizações, principalmente das indústrias de base, e a um ambicioso projeto de reforma agrária. Todos os bancos foram nacionalizados em janeiro de 1974. Os militares foram alijados dos cargos de decisão política, mas o orçamento destinado à defesa nacional foi ampliado para 6 por cento do PIB. Não obstante, as iniciativas de Bhutto geraram descontentamento, em especial entre os empresários, ressentidos com as nacionalizações, e entre os religiosos, que rejeitavam a política de tendência socialista.