A Guerra Fantástica, Guerra do Mirandum ou Guerra do Pacto de Família, foi a participação de Portugal na Guerra dos Sete Anos (1756–1763), fruto de um terceiro Pacto de Família Bourbon. O conflito desenrolou-se no período de 9 de maio a 24 de novembro de 1762.

O episódio ficou conhecido por Guerra Fantástica porque, apesar da humilhante derrota infligida aos invasores, os recontros mais importantes não foram batalhas convencionais mas acções de guerrilha conduzidas pelas milícias locais, tendo o resultado da guerra ficado decidido por uma série de sucessivas e brilhantes movimentações de tropas sob o comando do conde de Lippe, um dos melhores soldados da sua era. A vitória de Lippe foi um exemplo clássico da vitória da estratégia sobre os números, assim como da vitória da guerrilha e movimentos militares sobre a guerra convencional. O plano e estratégia de Lippe seriam novamente postos em ação, de uma forma mais sistematizada, por Wellington durante a terceira invasão francesa em 1810–11.

Contexto Tanto Portugal como a Espanha haviam se mantido neutrais na Guerra dos Sete Anos, que havia sido declarada oficialmente em 1756. Sob o reinado de Fernando VI de Espanha aquele país mantinha boas relações com os britânicos, e desse modo não se juntou ao seu tradicional aliado, a França, contra os ingleses no conflito. Esse cenário mudou com a sucessão de um novo monarca, Carlos III de Espanha cujo governo pendeu para uma política mais pró-francesa e, em fins de 1761 os dois estados entraram em conflito.

O plano espanhol original era o de tomar a praça-forte de Almeida e, em seguida, avançar pelo Alentejo sobre Lisboa. Entretanto, com a nomeação do marquês de Sarriá como comandante-em-chefe, este decidiu começar por um ataque pela região norte, tendo o Porto como objetivo. Este seria um duro golpe para os britânicos, que tinham grandes interesses comerciais naquela cidade, e também seria agradável para Isabel Farnésio, a Rainha Mãe, que ainda tinha muito poder por trás do trono espanhol e que desejava poupar a posição de sua filha Mariana Victoria, rainha consorte de Portugal. Em qualquer caso, não havia nenhuma vantagem em hostilizar Portugal indevidamente e, caso o país não fosse atacado em sua capital a reação não seria tão forte.

Península Ibérica

Invasão de Trás-os-Montes, Abril a Junho

Um exército franco-espanhol, com um efectivo de cerca de 42 000 homens sob o comando do general Nicolás de Carvajal y Lancaster, o marquês de Sarriá, invadiu Portugal pela fronteira de Trás-os-Montes, conquistando Miranda, Bragança e Chaves, sendo derrotado pelas guerrilhas — sobretudo quando tentaram cruzar o Douro para ocupar a cidade do Porto e atravessar as montanhas de Montalegre, com o mesmo fim — e forçado a retirar para Espanha. Os espanhóis abandonaram todas as praças anteriormente ocupadas, com excepção de Chaves, e o comandante espanhol foi substituído pelo conde de Aranda.

Invasão da Beira, Junho a Outubro

Perante esta derrota, seguiu-se uma segunda invasão pelas Beiras, conquistando os espanhóis Almeida, Castelo Bom e Castelo Branco, entre outras praças. miniaturadaimagem|O conde de Lippe. Em resposta, formou-se um exército anglo-português, com cerca 14 000 a 15 000 homens, sob o comando do Conde de Lippe, que se posicionou para defender Lisboa nas colinas a nordeste de Abrantes, onde foram construídas várias obras de defesa. O exército aliado e camponeses da Beira Baixa puseram em prática uma muito eficaz tática de Terra Queimada e foram levadas a cabo acções de guerrilha na rectaguarda dos invasores, que viram a sua linha de comunicações com Espanha praticamente cortada. Enquanto os anglo-portugueses, protegidos e entricheirados nas colinas a Norte da "Península de Lisboa" (definida a Oeste pelo Oceano Atlântico e a Sul e Este pela formidável barreira do Rio Tejo), podiam ser abastecidos por mar, os Franco-Espanhóis viam as suas fileiras serem dizimadas pela fome, deserção e guerrilhas. Assim, o exército invasor viu-se forçado a escolher entre ficar em frente a Abrantes e morrer de fome ou retirar. O conde de Lippe, apercebendo-se da situação desesperada do inimigo, completou-a com um movimento audacioso que decidiu a guerra: enviou uma força de soldados portugueses comandada por George Townshend deslocar-se num movimento de cerco em direção à retaguarda do reduzido e desmoralizado exército Espanhol. Este retirou logo para Castelo Branco, mais perto da fronteira. miniaturadaimagem|Regimento de Infantaria da Corte. Um segundo movimento de cerco levado a cabo pela mesma força de Townshend, que pretendia aprisionar o exército espanhol em Castelo Branco, levou à retirada definitiva do exército Franco-Espanhol para Espanha. Mais uma vez, um movimento militar, — e não uma batalha formal — decidia a guerra.

Os invasores foram assim derrotados e perseguidos até Espanha, sofrendo perdas terríveis (cerca de 25 000 homens) provocadas quer pelas tropas regulares quer pelos camponeses, fome, deserção e doenças. O quartel-general Franco-Espanhol em Castelo Branco, cheio de feridos e doentes abandonados durante a fuga do exército espanhol, foi conquistado, bem como todas as praças anteriormente ocupadas pelos bourbónicos, com as únicas excepções de Chaves e Almeida.

Tentativa de invasão do Alentejo, Novembro de 1762

Em novembro de 1762 foi assinado um acordo de cessar-fogo depois de pequenas batalhas travadas no Douro, Montalegre, Valência de Alcântara e Vila Velha do Ródão e do fracasso de forças espanholas diante de Marvão e Ouguela.

América do Sul miniaturadaimagem|349x349px|Pedro de Cevallos

Quando o Governador de Buenos Aires, Pedro Antonio de Cevallos, soube que o Tratado de Madrid (1750) havia sido anulado por meio do Tratado de El Pardo (12 de fevereiro de 1761) e, portanto, a linha do Tratado de Tordesilhas tinha que ser restabelecida, ele escreveu duas vezes ao Governador do Rio de Janeiro, Gomes Freire de Andrade, conde de Bobadela, (que também era responsável pelo governo do Rio Grande e Santa Catarina), pedindo a devolução dos territórios espanhóis ocupados pelos portugueses e a permissão para que os índios das missões jesuítas, que haviam sido expulsos pelos portugueses na Guerra Guaranítica, pudessem retornar às suas aldeias. Sem resposta, escreveu novamente em 12 de julho de 1762. Também intimou o governador da Colônia do Sacramento a evacuar as ilhas Martin Garcia e Duas Irmãs, no Rio da Prata.

Em janeiro de 1762, a Espanha se juntou à França contra a Grã-Bretanha na Guerra dos Sete Anos, de acordo com o Pacto da Família. O plano era atacar Portugal, até então um país neutro, mas importante aliado comercial da Grã-Bretanha. Em 9 de maio de 1762, Espanha invadiu o território português na Europa (Guerra Fantástica) e também decidiu atacá-lo na América do Sul, e em particular tomar a Colônia do Sacramento durante a disputa.

Não obtendo a devolução dos territórios que reclamava, Cevallos iniciou os preparativos para a guerra, para isso, enviou José de Vera com milícias de Santa Fé a Maldonado, abasteceu as guarnições de Montevidéu e Buenos Aires, formou um batalhão de milícias e colocou 1000 índios das missões em movimento em direção ao Rio da Prata.

Conquista da Colónia do Sacramento por Espanha miniaturadaimagem|Soldado espanhol do regimento de dragões. Nos primeiros dias de janeiro de 1762, a fragata Victoria, com 26 canhões, comandada pelo Tenente Carlos José de Sarriá, partiu de Cádiz para Buenos Aires com ordens para que o governador do Rio da Prata, Pedro de Cevallos, atacasse a Colônia do Sacramento.

Cevallos começou a preparar secretamente suas forças e em setembro de 1762 organizou homens e navios suficientes para o ataque. No início de setembro partiu a frota composta pela fragata Victoria, o navio de registro armado Santa Cruz, mais três embarcações (incluindo o San Zenón), doze grandes lanchas armadas e quinze transportes. 2 700 milicianos cruzaram o Rio da Prata e o desembarque ocorreu de 7 a 14 de setembro. No dia 26 daquele mês, foram acrescentadas a artilharia e munições de Montevidéu em 113 carros. Em seguida, o exército foi aumentado por uma força de 1 200 missionários indígenas em 27 de setembro. No dia 1 de outubro as forças começaram a deslocar-se para Sacramento e no dia 5 de outubro começou o cerco da cidade.

As relações entre Cevallos, que comandava o exército, e Sarriá, que comandava a frota, eram muito ruins. Após o desembarque do exército e sem a aprovação de Cevallos, Sarriá partiu com a frota de 16 navios para a enseada de Barragán, onde permaneceu até 29 de outubro com os navios sob seu comando: Victoria, Santa Cruz, mais três embarcações, oito barcos menores e três navios corsários. No dia 14 de outubro, 4 brigues portugueses conseguiram sair da Colônia do Sacramento evacuando alguns residentes civis e levando objetos de valor, sem a intervenção da frota espanhola. Três deles voltaram a Colônia em 17 de outubro com comida para os sitiados.

Felizmente, para os espanhóis, os portugueses estavam mal preparados e em 31 outubro de 1762 Vicente da Silva da Fonseca, o governador da cidade, rendeu-se e os espanhóis entraram em Sacramento em 2 de novembro de 1762, sendo a ilha de Martin Garcia também ocupada junto com a ilha de São Gabriel. Os prisioneiros portugueses foram, então, enviados ao Rio de Janeiro em navios próprios, enquanto grande parte dos civis foi transferida para Cuyo.

Invasão Anglo-Portuguesa do Rio da Prata miniaturadaimagem|291x291px|Sul do Brasil antes da guerra. Enquanto isso, na Inglaterra, um plano de invasão do Rio da Prata estava sendo elaborado desde o início de 1762, contando com a Colônia do Sacramento como base de apoio. Esse plano envolvia o governo português (liderado pelo Marquês de Pombal), o gabinete inglês de Thomas Pelham-Holles e a Companhia Britânica das Índias Orientais. De acordo com este plano, a Banda Oriental (Uruguai) ficaria para os portugueses e a Banda Ocidental (Argentina) para os britânicos.

Em 14 de janeiro de 1762 a Companhia das Índias Orientais adquiriu da marinha britânica o navio HMS Kingston (de 60 canhões), sob o comando do Capitão MacNamara, e a fragata Ambuscade (de 40 canhões), sob o comando do Capitão William Roberts, a frota partiu de Londres em julho de 1762, com destino a Lisboa, com 700 homens.

De Lisboa partiram para o Rio de Janeiro no dia 30 de agosto. Lá o governador Gomes Freire de Andrade, reforçou a frota com a fragata Nossa Senhora da Glória, de 38 canhões, oito brigues de transporte e uma força de 600 homens sob o comando do tenente coronel Vasco Fernandes Pinto Alpoin. Gomes Freire recomendou também o desembarque de MacNamara na enseada de Barragan, pela sua profundidade e por ainda não estar protegida.

Já em dezembro, próximo à Montevidéu, a esquadra de MacNamara apreendeu um pequeno barco espanhol que os avisou da rendição da Colônia do Sacramento, o que os fez partir diretamente para Buenos Aires. No entanto, por falta de pilotos portuários (os pilotos fluviais portugueses haviam sido capturados por Cevallos e mandados prisioneiros para o Rio de Janeiro), ele não conseguiu localizar o canal de acesso à cidade, cercada por bancos de areia, então voltou-se para Montevidéu. miniaturadaimagem|292x292px|Ataque da frota anglo-portuguesa à Colônia do Sacramento em 1763. Cevallos, que permaneceu em Sacramento, apesar de ter sofrido um forte ataque de malária, manteve-se na linha de frente da defesa. Sem saber onde os britânicos e portugueses iriam desembarcar, enviou parte de suas tropas a Maldonado e Montevidéu, deixando 500 homens em Sacramento e 100 na Ilha de São Gabriel.