Cabinda é uma das 21 províncias de Angola, localizada na região norte do país, sendo a mais setentrional e também único exclave da nação. A capital é a cidade e município de Cabinda.
Segundo as projeções populacionais de 2018, elaboradas pelo Instituto Nacional de Estatística, conta com uma população de 801 374 habitantes e com uma área territorial de 7 283 km², sendo a província mais densamente povoada de Angola depois de Luanda.
Administrativamente, a província é constituída pelos municípios de Angoio, Belize, Buco-Zau, Cabinda, Cacongo, Liambo, Miconje, Massabi, Necuto e Tando Zinze.
Etimologia Segundo o historiador e padre Joaquim Martins, o nome "Cabinda" tem origem da junção do termo "Mafuca" com o nome próprio "Binda", onde a aglutinação da última sílaba da palavra "Mafuca" — que nos antigos reinos de Loango, Cacongo e Angoio-Nagoio era uma espécie de intendente-geral do comércio e dignitário do rei que, em nome deste último, tratava de todas as transações comerciais — junta-se a "Binda", que era o nome do "Mafuca" naquela época. Este intendente-geral do comércio de nome Binda era, portanto, um importante funcionário público que tratava questões de interesse dos reinos nativos com os portugueses.
Por sua vez o nome próprio "Binda" deriva do termo mbinda, nome popular do muntual — um dos antílopes mais abundantes na província cabindina.
Geografia O território é um exclave angolano, sendo limitado ao norte pela República do Congo, a leste e ao sul pela República Democrática do Congo e a oeste pelo Oceano Atlântico.
Clima Segundo a classificação climática de Köppen-Geiger predomina em toda a província o clima tropical de savana (Aw/As), com precipitações anuais em torno de 800 mm, com alta pluviosidade ao longo do ano. A temperatura média anual varia entre os 25 e os 30º Celsius.
Demografia A população de Cabinda pertence na sua quase totalidade aos povos bantos, majoritariamente grupo dos congos e subgrupo dos ibindas. Os ibindas estão distribuídos em oito tribos/clãs: bauóio, bacuacongo, balinge, baluango, basundi, baiombe, bavili e bacochi. Presença relevante de outras frações étnicas ou de nacionalidades distintas há basicamente na capital provincial, com o restante do território etnicamente mais homogêneo.
A principal língua falada é o português, com o principal idioma tradicional o ibinda, considerado um dialecto da língua congo.
Ecologia, flora e fauna Toda a faixa leste e litorânea, com frações no extermo norte da província, é dominada pela ecorregião das "savanas e florestas de escarpa angolanas", com flora de árvores altas rodeadas de ervas altas, com áreas de mangais e pântanos nas margens dos rios, especialmente na Laguna de Massabi, no Lago Lumbo e no Pântano de Lândana, com manchas de floresta nublada nas partes mais montanhosas e bosques secos de pastagens arborizadas. Já no centro, oeste e norte da província predomina a ecorregião das "florestas equatoriais atlânticas", região de florestas húmidas de folhas largas, com especial destaque para a "floresta de Maiombe".
Dentre as espécies da fauna da província cabindina destacam-se o morcego-frugívoro-menor-angolano, o elefante-da-floresta, o sapo-nariz-de-Perret, a rã-de-garras-de-André, o papagaio-do-congo, o muntual, o gorila-ocidental-das-terras-baixas e o chimpanzé-central.
Hidrografia O principal curso d'água é o rio Chiluango, que nasce no Congo-Quinxassa, tendo como afluentes os rios Luali, Lufe e Lombe. Outros flúmens importantes são os rios Lubinda (formador da Laguna de Massabi), Lulondo e Lucola. A Laguna de Massabi é o maior reservatório natural de água cabindina, além de ser importante polo pesqueiro, bem como as lagoas de água doce de Sassa-Zau, Manenga e Chuquisse.
Proteções litorâneas Os principais marcos litorâneos de Cabinda são as baías de Cabinda, Malembo e Lândana, importantes polos pesqueiros marítimos e referenciais de navegação.
Relevo As elevações mais relevantes se encontram nos Maciços de Maiombe e em sua extensão, a Serra do Muabi. Destaque também para o Morro do Chizo, para as Pedras do Chinga e para as escarpas litorâneas do Chiazi-Fútila. Há também as relevantes planícies do Malembo, da Sanga, de Massabi-Chicamba, de Chipita e a planície pantanosa de Lândana.
História Contatos com europeus miniatura|200px|esquerda|Uma tampa proverbial de madeira cuidadosamente esculpida, parte das tradições do clã bauóio e do reino de Angoio. A simbologia presente na tampa provavelmente faz referência aos provérbios sobre a injustiça social e aos desassistidos socialmente, uma vez que retrata (abaixo) um homem em uma maca de resgate carregado por dois outros homens, e (acima) um homem aleijado ou ferido, apoiado em uma bengala. Exploradores, missionários e comerciantes portugueses chegaram à foz do rio Congo na metade do século XV, fazendo contacto com o manicongo (nome pelo qual era chamado o mandatário do Reino do Congo). O manicongo controlava grande parte da região através da afiliação com reinos minoritários, tais como os de Loango, Cacongo e Angoio-Nagoio, todos eles tributários do antigo reino do Congo e situados parcial ou totalmente em terras que correspondem atualmente a Cabinda.
O reino de Cacongo, um dos Estado confederados do reino do Congo e mais importante ente soberano a se desenvolver naquele território, mantinha capital em Caio-Caliado (actual cidade de Tando Zinze). Em 1490 Cabinda resumia-se a um pequeno povoado de pescadores e caçadores que vivia a beira-mar. A partir das cercanias de 1530 torna-se a mais importante saída marítima do reino de Cacongo. Mercadores portugueses interessados no comércio do cobre, marfim e escravos começaram a estabelecer feitorias no reino do Cacongo entre as décadas de 1600 e 1610, com destaque particular para Jorge Rodrigues da Costa e Duarte Dias Marques, os primeiros a ter titulação de arrendatário.
Com o passar dos anos, portugueses, neerlandeses e britânicos estabeleceram postos de comércio, fábricas de extração de madeira e de óleo de palma em Cabinda. O comércio continuou e a presença europeia cresceu, resultando em conflitos entre as potências coloniais rivais, com destaque especial para a Expedição de Cabinda, em 1723, onde uma aliança luso-brasileira investiu contra as posições britânicas e as derrotou.
No restante do século XVIII escravidão passou a se tornar o maior foco do comércio cabindino, desestabilizando a relação entre as entidades que dominavam o território, com os reinos do sul e do litoral, Cacongo e Angoio, sustentando-se no tráfico de escravos capturados nas tribos do norte, sob influência de Loango, nas zonas mais interiores das Cordilheiras de Maiombe.
Primeiras revoltas, presença brasileira e fim da escravidão Em 1783 Angoio aliou-se ao Cacongo e a França para destruir o Fortaleza Portuguesa de Cabinda, tentativa bem sucedida, mas que trouxe um período de instabilidade especialmente para as terras cabindinas que, diferentemente do restante de Angola, era um território então cercado por zonas de influência francesa, possuidoras de dinâmica comercial distinta. A tormenta regional persistiu até o final das Guerras Napoleônicas, quando o Angoio iniciou o processo de fragmentação política.
Dentro do Tratado do Rio de Janeiro, de 1827 a 1830, a Armada Imperial Brasileira estabeleceu a base naval da Divisão Naval do Leste no território de Cabinda, fazendo deste efetivamente o único território colonial brasileiro fora da América do Sul. A presença brasileira fez o reino Angoio ser dissolvido, dado que quebrou o tráfico de escravos neste.
O fim definitivo do comércio de escravos no território ocorreu entre 1836 e 1847, com as dificuldades financeiras aumentando no Cacongo, e concentrando-se actividades ao redor da Fortaleza de Cabinda, onde passou a existir um movimentado mercado portuário de peixes, de panos lubongo, de sal e de madeira.
Os portugueses tentaram estebelecer acordos comerciais de garantia de comércio com o interior da região em 1853 e 1854 enviando emissários para reuniões com os três principais reinos de Cabinda. Na terceira das reuniões, a comissão lusitana foi recebida com hostilidade, retornando suas posições para a Fortaleza. Conseguindo uma aliança com o rei Mambuco Puna, do Reino Cacongo, a baía de Cabinda foi confirmada como zona de monopólio comercial português em 1855. Um ano antes o príncipe Mpolo, do Principado do Malembo, já havia se aliado a Portugal oferecendo-lhe o monopólio comercial na baía de Malembo.
Em seguida, Portugal lançou então a empreitada de erguer uma missão religiosa na localidade de Cacongo (à época somente uma vila do município de Cabinda), que gerou, na década de 1880, a Prefeitura Apostólica do Baixo Congo no Cubango (ou do Congo Português), fixando um bispo no território, permitindo a cristianização católica da quase totalidade da população.
Protetorado do Congo Português
thumb|200px|esquerda|Posto de Massabi, em 1896. No quadro da "corrida europeia para África", Portugal concluiu em , com os chefes dos reinos ao norte de Angola, o Tratado de Simulambuco que daria a região o status de protectorado da Coroa Portuguesa "sob permissão dos príncipes e governantes do Congo" reservando dessa forma os direitos de governação do território.
Por ocasião da Conferência de Berlim, realizada no mesmo ano — quando simultaneamente nasceram o Congo Belga (antigo Zaire e atual República Democrática do Congo) e o Congo Francês (atual República do Congo ou Congo-Brazavile) —, a atribuição de Cabinda a Portugal foi internacionalmente confirmada, adotando-se a designação Congo Português.
No entanto, como a Bélgica reivindicou uma saída para o Atlântico para o Congo Belga, foi-lhe concedido um "corredor" constituído pelos territórios adjacentes ao rio Congo. Desta maneira foi cortada a ligação por terra, anteriormente existente, entre Cabinda e o restante Reino do Congo.
Do distrito à província Quase junto da formação política do Protetorado do Congo Português, Portugal criou o distrito do Congo (atual província do Uíge), em 31 de maio de 1887, e; na portaria nº. 867, de 10 de julho de 1912, os limites provisórios do distrito do Congo são definidos, com o Protetorado do Congo Português iniciando o processo de ser absorvido neste. A cidade de Cabinda foi a sede do protetorado e do distrito do Congo até 1917, quando passa a ser a cidade de Maquela do Zombo. O protetorado foi haurido como colônia plena no ato de transferência da sede distrital.
Embora já um Protetorado estabelecido na década de 1900, Cabinda sofria de um certo vazio económico em relação ao restante de Angola, além de um alegado vazio populacional longe da faixa litorânea, aliado a ausência de estradas e vias de transporte. Para superar esses três cenários foi fundada, em 1903, a Companhia de Cabinda, com sede administrativa em Lisboa. Dentre outras coisas, a Companhia implantou indústrias de fabricação de óleo de palma e lavouras de café e cacau nas zonas de Buco-Zau, Belize e norte de Caconda, além de estebelecer uma rede de transporte fluvial de canoas e barcos a vapor, que utilizavam como via principalmente o rio Chiluango para acessar os territórios do interior e do norte. Entretanto os estudos demográficos da Companhia atestaram que a população cabindina era flutuante e condicionada aos esforços coloniais belgas e franceses, que se empenhavam em atrair mão-de-obra para construção, respectivamente, do Caminho de Ferro do Maiombe e do Caminho de Ferro Congo-Oceano, esvaziando Cabinda. A questão da força de trabalho só foi resolvida entre as décadas de 1920 e 1930, com a proibição da livre circulação sob pretexto de impedir a miscigenação com as populações dos congos sob domínio belga e francês e a difusão de ideias nacionalistas e tribalistas.