A Serra Leoa, oficialmente República da Serra Leoa (em inglês: Republic of Sierra Leone; , ou , ), é um país da África Ocidental. É delimitada pela Guiné a norte e nordeste, pela Libéria a sudeste, e pelo Oceano Atlântico a sudoeste. Abrange uma área total de e sua população em 2021 era estimada em 6,8 milhões de habitantes. O país tem um clima tropical, com um ambiente diversificado variando de savana para florestas tropicais. É uma república constitucional que compreende quatro províncias, tendo Freetown como capital e outras cidades notáveis como Bo, Kenema, Koidu e Makeni. O país abriga a universidade mais antiga da África Ocidental, Fourah Bay College, fundada em 1827, além de possuir o terceiro maior porto natural do mundo.

Em 1462, a área do atual território do país foi visitada pelo explorador português Pedro de Sintra, que a nomeou Serra Leoa.Room, Adrian (1995). Placenames of the World: Origins and Meanings of the Names for Over 5000 Natural Features, Countries, Capitals, Territories, Cities and Historic Sites. Jefferson, NC: McFarland, 2003, pp 346-7. ISBN 0-7864-1814-1.Enciclopédia Kingfisher Geography. ISBN 1-85613-582-9. pg. 180 O país tornou-se um importante centro do comércio transatlântico de escravos até 11 de março de 1792, quando Freetown foi fundada pela Companhia da Serra Leoa, como forma de servir como um lar para ex-escravos do Império Britânico. Após a conferência de Berlim (1884-1885), o Reino Unido decidiu que era preciso estabelecer maior domínio sobre as áreas do interior e, assim, instituiu o Protetorado da Serra Leoa. Com essa mudança, o Império Britânico passa a expandir seu aparato administrativo na região, recrutando cidadãos britânicos para ocupar postos na administração colonial e excluindo os krios de suas posições no governo, além de expulsá-los das áreas residenciais mais cobiçadas de Freetown. Entre 1991 e 2002 ocorreu a Guerra Civil da Serra Leoa, que devastou o país e resultou na morte de aproximadamente pessoas. Grande parte da infraestrutura do país foi destruída, e mais de dois milhões de pessoas deslocadas em países vizinhos como refugiados; principalmente para a Guiné, que recebeu mais de refugiados serra-leoneses.

A população serra-leonesa compreende cerca de 16 grupos étnicos, cada um com sua própria língua e dialetos. Os dois maiores e mais influentes são os timenés e os mandês – com grande expressão demográfica e cultural, migrantes vindos do atual território da Guiné e do Mali, respectivamente. Dos grupos minoritários, vale destaque aos povos Limba, que assim como os Timenés são uma das populações que já ocupam o território do norte de Serra Leoa desde o período pré-colonial. Embora o idioma inglês seja o oficial, o krio é a principal língua de comunicação entre os diferentes grupos étnicos, falado por cerca de 90% dos habitantes. A religião muçulmana é a predominante, sendo praticada por 60% da população, enquanto as religiões locais são professadas por 30% e o cristianismo por 10% dos habitantes. O país é classificado como um dos mais tolerantes no mundo, no quesito religioso.

Etimologia Originalmente, o nome do país é atribuído à passagem do explorador português Pedro de Sintra pelo território da África Ocidental, ocorrida em 1462. Com este nome, Sintra referia-se à toda região montanhosa situada ao sul de Freetown, hoje conhecida como Montanhas do Leão. Pouco após a passagem do explorador pela região, este nome passou a ser usado como topônimo para identificar todo o litoral da atual área ocidental de África. Conforme o cosmógrafo e militar português Duarte Pacheco Pereira, Pedro de Sintra denominou a região com esta identificação considerando a paisagem serrana, que lhe parecia "agreste e selvagem", e ele metaforicamente a associava a um leão.

Ainda que a origem do nome seja atribuída a Pedro de Sintra, esta informação já foi contestada. Segundo o historiador serra-leonês Cecil Magbaily Fyle, o nome do país é oriundo da denominação dada por outro explorador português desconhecido, ainda antes de 1462, com Sintra tendo sido responsável apenas pela documentação do território em um mapa de navegação. Outra passagem, atribuída a Luís de Cadamosto, afirma que um grupo de portugueses, durante as trovoadas, ouviram trovões "rugindo como um leão, vindo da montanha, com o vento soprando da montanha para o mar", daí a razão pela qual nomearam a região com este nome.

Durante o século XVI, marinheiros ingleses passaram a identificar a região como Sierra Leone. Seu nome moderno é derivado da grafia italiana, que foi introduzida pelo explorador Alvise Cadamosto, alinhado à então República de Veneza e, posteriormente, copiado por outros cartógrafos europeus.Horodowich (2018), p. 34

História

Período pré-colonial thumb|200px|esquerda|Cerâmica pré-histórica encontrada na Serra Leoa Achados arqueológicos mostram que Serra Leoa foi habitada continuamente por pelo menos anos, absorvendo sucessivas ondas migratórias provenientes de outras partes de África. O uso do ferro veio a ser introduzido na região por volta do e a agricultura passou a ser praticada por tribos do litoral por volta do ano 1000. Com o tempo, o clima transmudou consideravelmente, alterando limites entre diferentes zonas ecológicas e afetando a migração e a conquista da região.

Com base na historiografia tradicional, conclui-se que os habitantes viveram com vários conquistadores sucessivos. No entanto, de acordo com estudos linguísticos, os povos sherbros, timenés e limbas têm suas vivências, nas áreas costeiras, registradas há muito tempo. Além disso, povos falantes de línguas mandês, como os mendés, vais e lokos, também tiveram suas longínquas vivências na região exaradas.

A densa floresta tropical e o ambiente pantanoso do lugar eram considerados impenetráveis. A mosca tsé-tsé, que transmitia uma doença fatal para os cavalos e o gado zebu usado pelo povo mandês, se abrigava na região. Este fato acabou por proteger os nativos, evitando a conquista do território pelos mandês e outros impérios africanos e, ainda, limitando a influência do Império do Mali sob a localidade.Utting (1931), p. 33 O Islã acabou por ser introduzido por comerciantes, mercadores e migrantes sossos, vindos do norte e do leste e ligados ao Império Sosso, tendo sido amplamente adotado no século XVIII.Utting (1931), p. 8

Contato europeu

A Serra Leoa foi uma das primeiras nações de África Ocidental a ter contato com os povos europeus no século XV. Pedro de Sintra, explorador português, mapeou as colinas onde agora está situado o porto de Freetown, em 1462, acabando por influenciar em sua etimologia.Kingfisher Geography encyclopedia. ISBN 1-85613-582-9. p. 180 A tradução, na língua espanhola, desta formação geográfica atribuída a Sintra tornou-se conhecida como "Serra Leoa". Mais tarde, esta tradução foi adaptada e, com erros ortográficos, tornou-se o nome atual do país. thumb|250px|direita|Mapa da Serra Leoa em 1732 Logo após a expedição de Sintra, os comerciantes portugueses chegaram ao porto. Em 1495, eles construíram um posto comercial fortificado na costa.LeVert, Suzanne (2006). Culturas do mundo: Serra Leoa. pg. 22. ISBN 978-0-7614-2334-8. Exploradores ligados à República dos Países Baixos e ao Reino da França também estabeleceram comércio na região. Inicialmente, o ouro e o marfim eram o principal atrativo dos portugueses, neerlandeses e franceses, sendo comercializados em particular. Entretanto, a partir da década de 1550, os escravos se tornaram o principal interesse dos europeus, com cada uma destas nações utilizando Serra Leoa como um ponto estratégico para o comércio de escravos. Muitos destes escravos eram trazidos por comerciantes africanos de áreas interioranas que passavam por guerras e conflitos por território. Em 1562, o Reino da Inglaterra iniciou o Comércio Triangular, momento no qual se obteve o registro de que o almirante Sir John Hawkins, da Marinha Real Britânica, transportou trezentos escravos africanos - adquiridos "pela espada e em parte por outros meios" - para a colônia espanhola de Santo Domingo, em Hispaniola, para a área do Mar do Caribe, para as ilhas das Índias Ocidentais e para outras regiões das novas colônias da América, onde ele os vendeu.

Estima-se que, entre 1668 e 1807, mais de 50 000 escravos foram exportados da Ilha Bunce, uma pequena extensão de terra situada no Rio Serra Leoa, com posição estratégica na navegação de navios oceânicos advindos da Europa.Manson e Knight, p. 5

No século XVII, os portugueses foram expulsos pelos comerciantes ingleses. Por iniciativa da Companhia Comercial britânica, foi fundada a cidade de Freetown, que passou a servir de refúgio para os escravos fugitivos das Américas, amparados pelo não reconhecimento da escravidão na Inglaterra.

Período colonial Black Poor e a Província da Liberdade

No final do século XVIII, época marcada pela conquista da independência pelos Estados Unidos, muitos afro-americanos em situação de escravatura reivindicaram a proteção da Coroa Britânica. Havia milhares de lealistas negros - pessoas de ascendência africana que se juntaram às forças militares britânicas durante a Guerra Revolucionária Americana. Muitos desses lealistas foram escravos que escaparam para se juntar aos britânicos, atraídos por promessas de liberdade (emancipação). A documentação oficial, conhecida como Livro dos Negros, cataloga milhares de escravos libertos que os britânicos evacuaram dos Estados Unidos e reassentaram em colônias existentes em outras partes da América do Norte Britânica (do norte ao Canadá ao sul das Índias Ocidentais), com outros passando a viver na própria Inglaterra.Cassandra Pybus, Epic Journeys of Freedom: Runaway Slaves of the American Revolution and Their Global Quest for Liberty, (Beacon Press, Boston, 2006); Graham Russell Hodges, Susan Hawkes Cook, Alan Edward Brown (eds), The Black Loyalist Directory: African Americans in Exile After the American Revolution

Este cenário culminou na criação do Comitê de Ajuda aos Pobres Negros, uma organização de caridade londrina fundada em 1786, cujo objetivo maior era o de fornecer sustento para pessoas de origem africana e asiática que passavam por dificuldades ou que estivessem envoltas em situação de vulnerabilidade social. O trabalho do Comitê incluía, também, campanhas de promoção da abolição da escravidão em todo o Império Britânico. Nesta época, surgiu o nome coletivo Black Poor, o qual se referia a residentes indigentes de Londres que eram de ascendência negra. O núcleo da comunidade era formado por pessoas que haviam sido trazidas para Londres como resultado do comércio de escravos no Atlântico. O número de Black Poor foi aumentado por escravos que fugiram de seus donos e encontraram refúgio nas comunidades de Londres.

Os defensores do sistema escravocrata acusaram os Black Poor de serem responsáveis ​​por uma grande proporção dos crimes cometidos no século XVIII em Londres. Embora a comunidade mais ampla incluísse algumas mulheres, os "Black Poor" parecem ter consistido exclusivamente de homens, alguns dos quais desenvolveram relacionamentos com mulheres locais e muitas vezes se casaram com elas. O casamento interracial mostrou-se extremamente criticado entre a sociedade inglesa. Boa parte dos ingleses acreditavam que transferi-los para a Serra Leoa os tiraria da pobreza, sendo que a proposta de reassentamento dos Black Poor na Serra Leoa partiu inicialmente do entomologista Henry Smeathman, atraindo o interesse de ativistas humanitários como Granville Sharp, que viu na proposta um meio de mostrar ao movimento pró-escravidão que os negros poderiam contribuir para o funcionamento da nova colônia da Serra Leoa.