Boanerges (Adiron) Ribeiro (1919 — 2003) foi um pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, cujo Supremo Concílio presidiu, nos mandatos de 1966 a 1970, 1970 a 1974 e 1974 a 1978. Nesse período saíram da Igreja Presbiteriana do Brasil alguns membros, os quais deram origem a outras igrejas como a Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e Igreja Presbiteriana Renovada, esta de linha pentecostal.

Ministério e atividades religiosas Graduou-se Bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano de Campinas, em 1941, tendo ainda obtido licenciatura em Filosofia, mestrado e doutorado em Ciências Sociais.

Foi pastor da Igreja Presbiteriana do Brás, em São Paulo-SP, tendo sido, a partir daquele pastorado, fundador de 17 outras igrejas na Capital do Estado. Numa delas, a Igreja Presbiteriana do Calvário, no bairro do Campo Belo, exerceu o pastorado durante mais de 30 anos, recebendo o título de pastor emérito, ficando ali até o final de sua vida. Também foi pastor em uma Igreja Presbiteriana, de membros norte-americanos, em Saint Louis, Michigan, nos Estados Unidos da América.

Atuou como professor universitário, em várias instituições, incluso o seminário onde estudou e recebeu a graduação em Teologia. Como representante da Igreja Presbiteriana do Brasil, atuou em congressos e encontros nacionais e internacionais. Foi Preletor do Sínodo Reformado Ecumênico, em Sydney, e da Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana na América, em Jackson, Mississipi, EUA.

Como conferencista e orador religioso, contam-se inúmeros pronunciamentos, muitos deles publicados na imprensa presbiteriana.

Dentre suas atividades foi o fundador da Casa Editora Presbiteriana, a que dirigiu entre 1947 a 1961. Também foi o idealizador do Jornal Brasil Presbiteriano, em 1964, tendo sido, ainda, o seu 1º diretor.

No campo administrativo-educacional, foi membro dos Conselhos Deliberativos do Instituto Mackenzie, Presidente do Instituto Mackenzie e Chanceler da Universidade Mackenzie. Também idealizou e foi diretor do Seminário Teológico Presbiteriano Reverendo José Manoel da Conceição e também da (Fundação JMC), dentre outros.

Na década de 90, recebeu da Câmara Municipal de São Paulo o título de Cidadão Paulistano.

Exerceu o cargo de Presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, entre 1966 e 1978, em três mandatos de 4 anos.

Atuação durante o Regime Militar no Brasil

Em recente entrevista à Revista Veja, Caio Fábio D'Araújo Filho, ex-pastor presbiteriano exonerado à pedido em 2003, tendo exercido o Ministério desde 1977, denunciou o envolvimento do Pastor Presbiteriano Boanerges Ribeiro com a Ditadura Militar no Brasil, sendo este um dos pastores que usou seu cargo para perseguir ideologicamente pessoas contrárias ao Regime e entregá-las ao policiamento do Estado de Exceção:

A igreja evangélica comumente se aproxima do militarismo. Haja vista as fanfarras e bandas marciais de muitas denominações evangélicas, que incluem muitos policiais militares como tocadores de instrumentos. O linguajar evangélico é agressivo e aguerrido. Isso é claramente percebido nas músicas cantadas congregacionalmente e nas mensagens pregadas nos púlpitos – há sempre um inimigo externo a ser derrotado e combatido.  A atração dos evangélicos pelo militarismo é historicamente demonstrada pelo apoio de todos os grupos denominacionais à Ditadura Militar, entre os anos de 1964 a 1985 no Brasil. A Igreja Presbiteriana do Brasil (pela qual nutro um carinho especial), apoiou o Golpe de 1964. Por exemplo, o pastor presbiteriano Boanerges Ribeiro perseguiu aqueles que pensavam diferente e que tinham um pouquinho mais de sensibilidade social, os entregando ao regime. O Rubem Alves, inclusive, foi dedurado pelos próprios amigos e teve que se viver exilado nos Estados Unidos. No meio Batista, o pastor Nilson Fanini entregou muita gente aos militares… Penso que o atual encantamento dos evangélicos pelas armas é apenas a manifestação pública da natureza bélica que sempre tiveram.  

Tal período ficou conhecido na História como "boanergismo", em que os boanergistas eram os conservadores presbiterianos que rivalizam com contrários ao Regime, considerados progressistas à época, dentre eles os adeptos da assim chamada Teologia da Libertação. As características que marcaram o “boanergismo” foram o antimodernismo, o antipentecostalismo, o antiecumenismo (sobretudo, o anticatotilicismo) e o anticomunismo, derivando daí a crítica em relação ao Evangelho Social e a Teologia da Libertação (PAEGLE, 2006):

Tornava-se necessário, para a linha conservadora, no pós-golpe de 1964, uma reestruturação que excluía a linha progressista dos cargos mais importantes da hierarquia da IPB. O pastor Boanerges Ribeiro assumiu a direção do jornal “Brasil Presbiteriano” em substituição ao pastor Domício Pereira de Matos, de linha progressista, porque a “orientação do Rev. Domício, à frente do BP, não representa o pensamento oficial da igreja.” ARAÚJO, João Dias de. Inquisição sem fogueiras (vinte anos de História da Igreja Presbiteriana do Brasil). 2 ed. Rio de Janeiro: ISER, 1982. p.52.

[...]

A primeira reunião do Supremo Concilio durante o regime militar, elegeu o pastor Boanerges Ribeiro, iniciando o período conhecido como “boanergismo” que cobriu do período de 1966 até 1978, com três eleições consecutivas com um período de quatro anos cada um, sendo depois disso eleito Paulo Breda Filho (1978-1986) no período chamado “pós-boanergista.” O pastor Boanerges Ribeiro obteve na eleição para o cargo de presidente na IPB com 133 votos, contra 65 votos para José Borges dos Santos Júnior, com 33 votos para Osvaldo Alves e 2 votos para Júlio Andrade Ferreira PAIXÃO Júnior, Valdir Gonzáles. A era do trovão: poder e repressão na igreja Presbiteriana do Brasil no período da ditadura militar (1966-1978). São Bernardo do Campo, 2000.330f. Dissertação em Ciências da Religião (Mestrado). Universidade Metodista de São Paulo .p.179.

[...]

Havia claramente focos de tensão, discordantes do rumo que havia tomado a IPB, sobretudo com a eleição do pastor Boanerges Ribeiro, acirrando as relações de poder e as disputas entre os conservadores (“boanergistas”) e os teólogos da libertação, diminuindo o espaço para que estes últimos se manifestem. A relativa liberdade que havia no período entre 1962-1966 foi tolhida, pela presidência do estilo linha-dura de Boanerges Ribeiro. Num dos editoriais do “Brasil Presbiteriano” o inimigo é reconhecido, mas buscavam-se novos rumos para a IPB, como explicitado adiante:

É que se vai tornando hábito: e a IPB escolha quem vai serví-lo, sem obedecer a certo caciquismo – quem ela escolher pagará caro; o que vimos de 1962-1966, não nos deixa ilusões sôbre o que veremos, de 1966-1970. Estamos certos de que nossa igreja sabe que valor podem ter certos frutos – quando vêm de certas árvores. Votamos na IPB!Eleito o Rev.. Boanerges Ribeiro – Presidente do Supremo Concílio. In: Jornal Brasil Presbiteriano. Ano IX. Ns. 14\15\16 – 15 jul., 1 e 15 ago. 1966.p.2.

Evidenciava-se que se o período de 1962-1966 na IPB foi período nas palavras de Valdir GonzálesPAIXÃO Júnior, Valdir Gonzáles. A era do trovão: poder e repressão na igreja Presbiteriana do Brasil no período da ditadura militar (1966-1978). São Bernardo do Campo, 2000.330f. Dissertação em Ciências da Religião (Mestrado). Universidade Metodista de São Paulo. da “democracia das ideias”, passava a ser do “conservadorismo boanergista”, baseado na idéia de obediência a hierarquia instituída, que passaria certamente por um processo de “desideologização”, buscando anular os focos dos ideólogos comunistas na IPB. Em outras palavras, a discussão democrática com o pastor Boanerges Ribeiro a partir de 1966, com a sua eleição passou à não mais ser tolerada, evitando os focos que não se sujeitassem a sua autoridade.

Um cenário aonde havia claro confronto entre jovens presbiterianos e os pastores ligados ao “boanergismo” foram os seminários. A IPB interferiu na década de 60 nos três seminários: o de Campinas, Recife e Vitória. Em relação ao Seminário de Campinas, também chamado do Seminário Presbiteriano do Sul, João Dias de Araújo mapeou o conflito em quatro categorias como explicados a seguir, se referindo a acusação dos conservadores em relação aos estudantes, conforme documenta ARAÚJO(1982)ARAÚJO, João Dias de. Inquisição sem fogueiras (vinte anos da Igreja Presbiteriana do Brasil: 1954- 1974).2 ed. Rio de Janeiro: ISER, 1982.p.56-57.:

a. As de ordem piedosa – Há quem zombe da Bíblia, da oração e da vida espiritual; a vida devocional é baixa, os cultos mal assistidos ou desprezados: o círculo de oração combatido.

b. As de ordem doutrinário - desprezo ao calvinismo, apego ao modernismo, negação da Inspiração, etc.

c. As de ordem ética – Há libertinagem, imoralidade, fumo, bebida, amor livre, palavrões, piada atentado à pureza feminina,etc.

d As de ordem administrativa – Há os que desmoralizam a liderança da Igreja, hostilizam pastoresComo fruto dessa onda conservadora que varria a IPB, a partir do manifesto exposto, que funcionou como estratégia eleitoral do pastor. Boanerges Ribeiro pôs em prática as suas ideia, criou o Conselho Especial dos Seminários (CES), que interferiu na administração dessas instituições de ensino. Com essas constantes intervenções, 39 alunos e professores foram expulsos do Seminário de Campinas, 4 pastores expulsos no Seminário de Recife e o fechamento do Seminário do Centenário em Vitória - ESd. p.58-63. O fato de haver um estreitamento cada vez maior da ocupação dos espaços eclesiásticos, expressos aqui na ausência de professores e alunos nos seminários contrários as ideias “boanergistas”, como no jornalismo presbiteriano. Magali Nascimento Cunha num artigo, desenvolveu a ideai que muitos presbiterianos buscavam espaços alternativos, não ligados aos espaços clássicos, como no jornal “Brasil Presbiteriano”, o que foi chamado de contrainformação religiosa.

O alternativo da contra-informação dos anos pós-1964 estava no processo de produção, circulação e uso das mensagens. Ela era criação conjunta, construção de uma idéia distinta daquela apresentada nos meios majoritários. Muitos espaços eram inicialmente clandestinos, mas depois puderam ser institucionalizados pela força do próprio movimento.CUNHA, Magali do Nascimento. Contra o silêncio e o esquecimento: memória de uma experiência de contra-informação religiosa.p.1.In:www.eca.usp.br/alaic/Congreso1999/14gt/MagaliNascimento.doc. Acesso em 25 Out. 2006

Conforme registra PAEGLE (2006), o campo majoritário da IPB estava sendo ocupado pelos “boanergistas” e logo a busca de espaços ecumênicos, reunindo grupos das mais diversas tendências cristãs ligados muitas vezes às lideranças da Confederação Evangélica Brasileira (CEB). Além disso, o Centro Ecumênico de Informação (CEI),d. p.5. Atualmente, as editoras existentes, como CEDI e Koinonia funcionou entre 1964-1975, com o objetivo de reunir os cristãos na luta por justiça social, o que não era conseguido nos jornais denominacionais, já que as cúpulas eram conservadoras.