O sistema fonológico do crioulo cabo-verdiano deriva em grande parte do sistema fonológico do português dos século XV a XVII. Entre características conservadoras o crioulo manteve, por exemplo, as consoantes africadas /ʤ/ e /ʧ/ (escritas «j» (em início de palavra) e «ch», no português antigo) que já não estão em uso no português contemporâneo, e as vogais pré-tónicas não sofreram a redução que se verifica no português europeu contemporâneo. Entre características inovadoras, o fonema /ʎ/ do português (escrito lh) evoluiu para o fonema /ʤ/ em crioulo, e as vogais foram sujeitas a diversos fenómenos fonéticos.
Para o ortografia que será usada neste artigo:
Vogais
No crioulo cabo-verdiano encontramos oito fonemas vocálicos orais, e os correspondentes oito fonemas nasais, perfazendo assim um total de dezasseis vogais:Tude, Rui C. D. (1995)
Sons vocálicos Anteriornão-arredondada Centralnão-arredondada Posteriorarredondada oral nasal oral nasal oral nasal Fechada i ĩ u ũSemifechada e ẽ o õSemiaberta ɛ ɛ̃ ɐ ɐ̃ ɔ ɔ̃Aberta a ã
No entanto, essas vogais não aparecem em qualquer contexto. Só em posição tónica é que podemos encontrar qualquer uma das dezasseis vogais apresentadas acima. Em posição átona pré-tónica normalmente não aparecem as vogais /ɛ/, /ɛ̃/, /a/, /ã/, /ɔ/ ou /ɔ̃/. Em posição átona final só aparecem as vogais /i/, /ɐ/ ou /u/ (no crioulo de Santiago por vezes /e/ ou /o/).
Descrição dos fonemas vocálicos
Fonema Exemplo Significado em português Descrição/i/ mídju /ˈmiʤu/lí /li/sí /si/ milhoaquise Anterior fechada oral não-arredondada, como em português bico./ĩ/ cínza /ˈsĩzɐ/sím /sĩ/ cinzasim Anterior fechada nasal não-arredondada, como em português fim./e/ drêtu /ˈdɾetu/lê /le/bêra /ˈbeɾɐ/sê /se/ bem, direitolerbeiraseu, sua Anterior semifechada oral não-arredondada, como em português dedo./ẽ/ bêm /bẽ/sêm /sẽ/ virsem Anterior semifechada nasal não-arredondada, como em português pensar./ɛ/ cabéça /kɐˈbɛsɐ/béra /ˈbɛɾɐ/Béla /ˈbɛlɐ/séda /ˈsɛdɐ/ cabeçamau, beraBela (nome)seda Anterior semiaberta oral não-arredondada, como em português fé./ɛ̃/ duénça /duˈɛ̃sɐ/sénda /ˈsɛ̃dɐ/ doençasenda Anterior semiaberta nasal não-arredondada, parecida com o e do português fé, mas com nasalidade./ɐ/ cabéça /kɐˈbɛsɐ/cabâ /kɐˈbɐ/pâ /pɐ/ cabeçaacabarpara, por Central semiaberta oral não-arredondada, como em português (europeu) para./ɐ̃/ cansêra /kɐ̃ˈseɾɐ/cambâ /kɐ̃ˈbɐ/ canseiraenfiar-se, desaparecer Central semiaberta nasal não-arredondada, como em português dançar./a/ cábra /ˈkabɾɐ/bála /ˈbalɐ/báda /ˈbadɐ/pá /pa/ cabrabalaidapá Central aberta oral não-arredondada, como em português pá./ã/ bánda /ˈbãdɐ/ lado, banda Central aberta nasal não-arredondada, parecida com o a do português pá, mas com nasalidade./u/ túdu /ˈtudu/bú /bu/múdu /ˈmudu/ tudotumudo Posterior fechada oral arredondada, como em português tu./ũ/ úm /ũ/múndu /ˈmũdu/ ummundo Posterior fechada nasal arredondada, como em português um./o/ lôça /ˈlosɐ/cinôra /siˈnoɾɐ/bô /bo/pô /po/ louçacenouratupôr Posterior semifechada oral arredondada, como em português boca./õ/ bôm /bõ/põ /põ/ bompão Posterior semifechada nasal arredondada, como em português convite./ɔ/ bóca /ˈbɔkɐ/bóla /ˈbɔlɐ/sinhóra /siˈɲɔɾɐ/móda /ˈmɔdɐ/ bocabolasenhoracomo Posterior semiaberta oral arredondada, como em português só./ɔ̃/ spónja /ˈspɔ̃ʒɐ/mónda /ˈmɔ̃dɐ/ esponjamonda Posterior semiaberta nasal arredondada, parecida com o o do português só, mas com nasalidade.
Notas acerca das vogais
Dialectalmente, podem ser encontradas Silva, Baltasar Lopes da (1957) as vogais [ɯ], [ɤ], [ɑ], [æ], [ɒ]. Rigorosamente, a vogal central aberta devia ser representada por [ä], mas para simplificar costuma vir representada como [a]. Lopes da Silva identifica as vogais médias [e̞] e [o̞], mas fonologicamente não se distinguem das semifechadas [e] e [o].
Consoantes e semi-vogais
No crioulo cabo-verdiano encontramos 24 fonemas consonânticos e semivocálicos (aproximantes mediais). Alguns desses fonemas têm alofones fonéticos.
Sons consonânticos e semivocálicos Ponto de articulação → Labial Coronal Dorsal Modo de articulação ↓ Bilabial Labiodental Labiovelar Dental Alveolar Pós-alveolar Palatal Velar Uvular Nasal m n ɲ ŋ Oclusiva p b t d k ɡ Africada ʧ ʤ Fricativa f v s z ʃ ʒ ʁ Aproximante medial w j Vibrante simples ɾ Vibrante múltipla r ʀ Aproximante lateral l ʎ
Descrição dos fonemas consonânticos
Fonema Exemplo Significado em português Descrição/m/ mídju /ˈmiʤu/’mâ /mɐ/ milhoque Nasal bilabial sonora, como em português milho./p/ pédra /ˈpɛdɾɐ/capâ /kɐˈpɐ/ pedracastrar Oclusiva bilabial surda, como em português pedra./b/ bóca /ˈbɔkɐ/cabâ /kɐˈbɐ/grabâ /ɡɾɐˈbɐ/ bocaacabarofender-se, levar agravo Oclusiva bilabial sonora, como em português boca./f/ fídju /ˈfiʤu/fíla /ˈfilɐ/ filhofila Fricativa labiodental surda, como em português filho./v/ aviõ /ɐviˈõ/víla /ˈvilɐ/gravâ /ɡɾɐˈvɐ/ aviãovilagravar (em CD ou K7) Fricativa labiodental sonora, como em português ver./n/ náda /ˈnadɐ/nâ /nɐ/ nadaem Nasal dental sonora, como em português nada./t/ túdu /ˈtudu/tâ /tɐ/ tudopartícula para o aspecto imperfectivo nos verbos Oclusiva dental surda, como em português tu./d/ náda /ˈnadɐ/dâ /dɐ/ nadadar Oclusiva dental sonora, como em português dá./s/ sím /sĩ/cáça /ˈkasɐ/ simcaça Fricativa dental surda, como em português sim./z/ côsa /ˈkozɐ/cása /ˈkazɐ/surrísu /suˈʀizu/ coisacasasorriso Fricativa dental sonora, como em português zero./l/ lí /li/cálu /ˈkalu/fíla /ˈfilɐ/ aquicalofila Aproximante lateral dental sonora, como em francês elle; nunca é velarizado como no português europeu./ɾ/ drêtu /ˈdɾetu/cáru /ˈkaɾu/ bem, direitocaro Vibrante alveolar simples sonora, como no português direito./ʧ/ tchêu /ʧew/tchícra /ˈʧikɾɐ/ muito, muita, muitos, muitasarmadilha para caçar pássaros Africada pós-alveolar surda, como em espanhol chico, inglês chair, italiano cielo./ʤ/ djâ /ʤɐ/djêu /ʤew/bêdju /ˈbeʤu/ jáilhéuvelho Africada pós-alveolar sonora, como em inglês just, italiano giorno./ʃ/ cáxa /ˈkaʃɐ/quexáda /keˈʃadɐ/xícra /ˈʃikɾɐ/ caixaqueixoxícara Fricativa pós-alveolar surda, como em português caixa./ʒ/ lôngi /ˈlõʒi/quejáda /keˈʒadɐ/bêju /ˈbeʒu/ríju /ˈʀiʒu/ longequeijadabeijorijo Fricativa pós-alveolar sonora, como em português já./ɲ/ nhâ /ɲɐ/ meu, minha Nasal palatal sonora, como em português vinho./ʎ/ bilhêti /biˈʎeti/fílha /fiˈʎɐ/ bilhetefilha Aproximante lateral palatal sonora, como em português bilhete./ŋ/ ngúli (Sant.) /ˈŋuli/ olhar de viés Nasal velar sonora, ver esta nota./k/ cretchêu /kɾeˈʧew/cálu /ˈkalu/ namorado, namoradacalo Oclusiva velar surda, como em português caco./ɡ/ ’ngúli (Sant.) /ˈŋɡuli/gálu /ˈɡalu/ engolirgalo Oclusiva velar sonora, como em português gago./ʀ/ róda /ˈʀɔdɐ/cárru /ˈkaʀu/ rodacarro Conforme o falante, este fonema pode ser realizado de três maneiras: – Vibrante alveolar múltipla sonora [r], como em espanhol perro; – Fricativa uvular sonora [ʁ], como em francês (região parisiense) terre; – Vibrante múltipla uvular sonora [ʀ], como em francês (Sul de França) terre;
Notas acerca das consoantes
As consoantes coronais [n], [t], [d], [s], [z] e [l] são pronunciadas com a língua na posição horizontal, e a ponta da língua a tocar os dentes incisivos superiores. É por esse motivo que os linguistas do crioulo cabo-verdiano denominam-nas de dentais, apesar de o AFI denominá-las de alveolares. As consoantes [ɾ] e [r] são de facto alveolares. O fonema /z/ é realizado surdo [s] quando está antes de consoantes surdas ou em fim absoluto da frase. Por ex., a palavra nhâs /ɲɐz/ (meus / minhas) é realizada com [z] em nhâs amígu [ɲɐz ɐˈmiɡu], nhâs minínu [ɲɐz miˈninu], mas com [s] em nhâs coléga [ɲɐs koˈlɛɡɐ], nhâs [ɲɐs]. Acontece o mesmo nas variantes que palatizam o «s» (S. Vic. & S. Ant.): a palavra nhâs /ɲɐʒ/ (meus / minhas) é realizada com [ʒ] em nhâs amíg’ [ɲɐʒ ɐˈmiɡ], nhâs m’nin’ [ɲɐz mnin], mas com [ʃ] em nhâs coléga [ɲɐʃ koˈlɛɡɐ], nhâs [ɲɐʃ]. O fonema /ʎ/ só aparece em palavras importadas recentemente do português. Existem os sons [ʔ] e [h], mas só aparecem em interjeições e onomatopeias. Não têm valor fonémico. Ex.: [ʔmʔm] (interjeição a significar «não»), [mhm] (interjeição a significar «sim»). Dialectalmente, podem ser encontradas as consoantes [n͇], [t͇], [d͇], [ɾʰ], [ʃʷ], [ʒʷ], [c], [ɟ], [x], [ɣ].
Nota acerca da primeira pessoa do singular
O pronome pessoal que representa a forma sujeita da primeira pessoa do singular tem uma pronúncia bastante variável nas várias ilhas.Esse pronome deriva da forma de complemento da primeira pessoa do singular em português «mim» e encontra-se fonéticamente reduzido ao som [m]. Trata-se de uma consoante silábica, constituindo por si só uma sílaba (o que pode ser verificado, por exemplo, na métrica das canções). Rigorosamente, essa consoante devia ser representada por [m̩], mas para simplificar costuma vir representada como [m].Esta pronúncia encontra-se presentemente nas variantes de Barlavento. Nas variantes de Sotavento essa consoante [m] foi reduzida a uma simples nasalidade [ƞ]. Por ex.: m’ andâ [ƞ ɐ̃ˈdɐ] «eu andei», m’ stâ tâ sintí [ƞ stɐ tɐ sĩˈti] «eu estou a sentir», m’ labába [ƞ lɐˈbabɐ] «eu lavara». Antes de consoantes oclusivas ou africadas essa nasalidade transforma-se na nasal homorgânica da consoante seguinte. Por ex.: m’ bêm [m bẽ] «eu vim», m’ têm [n tẽ] «eu tenho», m’ tchigâ [ɲ ʧiˈɡɐ] «eu cheguei», m’ crê [ŋ kɾe] «eu quero».Os falantes fortemente influenciados pelo português tendem a pronunciar esse pronome como uma vogal úm [ũ] em vez de m’ [m].Com algumas formas verbais do verbo sêr, o pronome retoma a sua forma completa mí em todas as variantes: mí ê [mi e] «eu sou», mí éra [mi ˈɛɾɐ] «eu era».
Uma situação paralela acontece com o pronome pessoal que representa a forma de complemento da primeira pessoa do singular.As variantes de Barlavento mantêm a pronúncia original [m]: levó-m’ [leˈvɔm] (Boa Vista, Sal e São Nicolau), levá-m’ [leˈvam] (São Vicente), levé-m’ [leˈvɛm] (Santo Antão), metê-m’ [meˈtem], c’dí-m’ [kdim], pô-m’ [pom], bambú-m’ [bɐ̃ˈbum] (Boa Vista, Sal e São Nicolau), lambú-m’ [lɐ̃ˈbum] (São Vicente e Santo Antão).Nas variantes de Sotavento a pronúncia [m] desapareceu, mas nasalizou a vogal precedente: lebâ-m’ [leˈbɐ̃], metê-m’ [meˈtẽ], cudí-m’ [kuˈdĩ], pô-m’ [põ], bumbú-m’ [bũˈbũ].
Aqui neste artigo, o pronome sujeito é convencionalmente escrito m’, e o pronome complemento é convencionalmente escrito –m’, seja qual for a variante.
Nota acerca do fonema /ŋ/
O fonema /ŋ/ só existe no crioulo de Santiago, em palavras que se supõe serem de origem africana. Ex.: ngúli /ˈŋuli/ «olhar de viés» diferente de ’ngúli /ˈŋɡuli/ «engolir». Não se trata de uma sequência de um som nasal seguido da consoante /ɡ/ (como na palavra portuguesa «pingar»), mas trata-se sim de uma consoante nasal velar, como em inglês king.
Descrição dos fonemas semivocálicos
Fonema Exemplo Significado em português Descrição/j/ bái /baj/ ir Aproximante medial palatal sonora, como em português pai./w/ cêu /sew/ céu Aproximante medial labiovelar sonora, como em português céu.
Notas acerca das semivogais
Presentemente não existe consenso se no crioulo cabo-verdiano existem ditongos crescentesVeiga, Manuel (1982) (pulícia /pu.ˈli.sjɐ/, tuádja /ˈtwa.ʤɐ/) ou se são hiatos (pulícia /pu.ˈli.si.ɐ/, tuádja /tu.ˈa.ʤɐ/).
Bibliografia O dialecto crioulo de Cabo Verde (Silva, Baltasar Lopes da — 1957) Diskrison Strutural di Lingua Kabuverdianu (Veiga, Manuel — 1982) Fonética do crioulo cabo-verdiano (Tude, Rui Calo Dá — 1995) Handbook of the International Phonetic Association (International Phonetic Association — 1999) ISBN 0-521-63751-1 Projecto Diversidade Linguística na Escola Portuguesa (ILTEC) — Crioulo de Cabo Verde (Pereira, Dulce — 2006)
Ligações externas
Crioulo de Cabo Verde Official home page of the IPA
Categoria:Crioulo cabo-verdiano