right|thumb|250px|Reconstrução do autômato. O Turco foi uma máquina de jogar xadrez supostamente provida de inteligência artificial construída na segunda metade do século XVIII. De 1770 até sua destruição num incêndio em 1854, foi exibido por vários proprietários como um autômato, apesar de o seu funcionamento ter sido revelado no início da década de 1820 como um elaborado hoax.Ver SCHAFFER, Simon (1999), "Enlightened Automata", in CLARK et al. (Eds), The Sciences in Enlightened Europe, Chicago and London, The University of Chicago Press, pp. 126-165. Construído em 1770 por Wolfgang von Kempelen (1734–1804) para impressionar a Imperatriz Maria Teresa da Áustria, o mecanismo parecia ser capaz de jogar um partida contra um forte oponente humano, assim como executar o problema do cavalo, onde o Cavalo deve ser movimentado no tabuleiro de modo a ocupar cada casa somente uma vez.
O Turco era na verdade uma ilusão mecânica que permitia a um jogador de xadrez escondido operar a máquina. Com um operador habilidoso, venceu a maioria dos jogos que disputou durante suas demonstrações pela Europa e América por quase 84 anos, incluindo desafiantes famosos como Napoleão Bonaparte e Benjamin Franklin. Embora muitos suspeitassem de um operador humano escondido, o hoax foi inicialmente revelado somente na década de 1820 por Robert Willis.
A máquina foi a inspiração para outros autômatos falsos como o Ajeeb e o Mephisto, e para el Ajedrecista que foi a primeira máquina capaz de executar com precisão um final de partida do xadrez. O Turco também foi tema de peças de teatro, filmes e de livros de ficção científica, sendo a trama principal do enredo em duas ocasiões.
Construção Kempelen foi inspirado a construir O Turco após ter ido à corte de Maria Teresa da Áustria no Palácio de Schönbrunn, onde François Pelletier estava apresentando um espetáculo de ilusionismo. Uma troca após a apresentação resultou em Kempelen prometendo retornar ao palácio com uma invenção que iria superar os ilusionistas.
O resultado do desafio foi o autômato jogador de xadrez, conhecido na atualidade como O Turco. A máquina consiste em um manequim em tamanho real de uma cabeça e torso, com uma barba negra e olhos cinza, e vestido com uma túnica turca e um turbante – “o costume tradicional”, de acordo com o jornalista e autor Tom Standage, “de um mágico oriental.” Seu braço esquerdo segura um longo cachimbo de tabaco turco enquanto descansa, e seu braço direito repousa sobre o topo de um grande gabinete.Standage (2002), pp.22–23 que media aproximadamente três pés e meio (110 cm) de comprimento, dois pés (60 cm) de largura e dois pés e meio (75 cm) de altura. No topo do gabinete ficava o tabuleiro que media dezoito polegadas (aproximadamente 45 cm) quadradas. A frente do gabinete consistia de três portas, uma gaveta que podia ser aberta para revelar um conjunto de peças de xadrez em marfim branco e vermelho.Standage (2002), p.24
O interior da máquina era muito complicado e projetado para enganar os observadores. Quando aberta a esquerda, as portas frontais do gabinete revelavam um sistema de engrenagens similar ao mecanismo de um relógio. A seção foi projetada de modo que as portas traseiras do gabinete eram abertas ao mesmo tempo para que pudessem ver através da máquina. O outro lado do gabinete não continha maquinarias, ao invés uma almofada vermelha e algumas partes móveis, assim como estruturas em latão. Também era projetada de modo a prover uma clara linha de visão através da máquina. Sob as roupas do manequim turco, outras duas portas ficavam escondidas. Também ficavam expostos os mecanismos de um relógio que provinham uma visão desobstruída através da máquina. O projeto permitia ao apresentador da máquina abrir todas as portas disponíveis para o público, mantendo a ilusão.Standage (2002), 24–27.
Tanto o mecanismo de relógio visível no lado esquerdo da máquina quanto a gaveta que guardava o conjunto de peças não se estendia por completo até o fundo gabinete, ao invés estes avançavam até somente um terço do caminho. Um assento móvel também instalado permitia ao operador dentro da máquina se esconder dos observadores quando o apresentador abria várias portas.Standage (2002), 195–199.
right|thumb|Uma ilustração do funcionamento do modelo. Esta é uma medição distorcida baseada nos cálculos de Racknitz, mostrando um desenho impossível em relação a atual dimensão da máquina.Standage (2002), 88 O tabuleiro no topo do gabinete era fino o suficiente para permitir uma ligação magnética. Cada peça de xadrez tinha um pequeno, porém forte imã em sua base, e quando eram colocadas sobre o tabuleiro as peças seriam atraídas ao imã amarrado a um fio sob os lugares específicos no tabuleiro. Isto permitia ao operador dentro da máquina ver que peças eram movidas no tabuleiro.Standage (2002), 202. Embaixo do tabuleiro havia os números correspondentes de, 1 a 64, permitindo ao operador a ver casas do tabuleiro que eram afetadas pelo movimento do oponente. Os imãs internos eram posicionados de modo que forças magnéticas externas não influenciassem as peças, e Kempelen permitiria que algumas vezes um imã maior ficasse ao lado do tabuleiro numa tentativa de mostrar que a máquina não era influenciada pelo magnetismo.
Como outro método de distração, o Turco vinha com uma pequena caixa de madeira semelhante a um caixão que o apresentador colocava no topo do gabinete. Enquanto Johann Nepomuk Mälzel, um proprietário posterior da máquina, não utilizava a caixa,Levitt (2000), p.40 Kempelen algumas vezes espreitava dentro da caixa durante a partida, sugerindo que esta controlava algum aspecto da máquina. Alguns acreditavam que a máquina tinha poderes sobrenaturais, como Karl Gottlieb Von Windisch que escreveu em seu livro Inanimate Reason (1784):
O interior continha também um tabuleiro provido de furos conectado a uma série de alavancas pantográficas que controlavam o braço esquerdo do manequim. O ponteiro de metal no pantógrafo movia o interior do tabuleiro, e permitia simultaneamente mover o braço do Turco sobre o tabuleiro no gabinete. O alcance do movimento permitia ao operador do braço do Turco subir e descer, e movendo a alavanca abria e fechava a mão, permitindo segurar as peças no tabuleiro. Tudo isso era realizado pelo operador sob a luz de uma simples vela, que tinha um sistema de ventilação através do manequim, que, na hora da ventilação, "cachimbava".Levitt (2000), 147–150. Outras partes da máquina permitiam que o mecanismo semelhante ao de um relógio soasse um sino quando o Turco realizasse um movimento e para que o Turco pudesse fazer várias expressões faciais, aumentando o efeito da ilusão da máquina. .Sound: Standage, 27–9. Facial expressions: George Atkinson, Chess and Machine Intuition (Exeter: Intellect, 1998), 15–16. Um sintetizador de voz foi posteriormente incluído após a aquisição de Mälzel, permitindo que a máquina dissesse Échec! (em francês) para anunciar o xeque durante as partidas.
Um operador dentro da máquina tinha também ferramentas para ajudar na comunicação com o apresentador no lado de fora. Dois discos de latão equipados com números eram posicionados opostos um ao outro no interior e exterior do gabinete. Uma varinha podia girar os discos para o número desejado, que funcionava como um código entre os dois.Standage (2002), 203–204.
Exibições O Turco fez sua exibição inicial no Palácio Schönbrunn em 1770, quase seis meses após a apresentação de Pelletier. Kempelen se dirigiu a corte, apresentando o que havia construído, e começou a demonstração da máquina e de suas partes. Como em todas as exibições do Turco, Kempelen começou por abrir as portas e gavetas do gabinete, permitindo que os espectadores inspecionassem a máquina. Em seguida, Kempelen anunciava que máquina estava pronta para um desafiante.Standage (2002), 24–17.
left|thumb|O problema do cavalo, conforme resolvido pelo Turco. A solução fechada permite que o problema seja solucionado de qualquer casa inicial do tabuleiro.Standage (2002), 30–31. Kempelen informava ao desafiante que o Turco utilizaria as peças brancas e teria o primeiro movimento. Entre os movimentos o Turco manteria o braço esquerdo na almofada e acenaria duas vezes com a cabeça se ameaçasse a Dama adversária, e três vezes se colocasse o Rei em xeque. Se o oponente realizasse um movimento ilegal, o Turco agitaria sua cabeça e moveria a peça de volta e faria seu próprio movimento, forçando assim o oponente a abdicar de seu movimento.Levitt (2000), 17. Louis Dutens, um viajante que observava uma exibição do Turco, tentou enganar a máquina “movendo a Dama como o Cavalo, mas meu oponente mecânico não podia ser coagido; ele pegou minha Dama e a recolocou no lugar de onde eu a havia movido.”Louis Dutens, de uma carta publicada no Le Mercure du France (Paris, circa Outubro de 1770; posteriormente traduzida para o Inglês e reimpressa na Gentleman's Magazine (Londres) Durante a exibição Kempelen atravessava a sala e convidava observadores a trazerem magnetos, ferro, e substância imantadas para testar se o gabinete era movido por uma forma de magnetismo ou pesos. A primeira pessoa a enfrentar o Turco foi o Conde Ludwig von Coblenz, um cortesão do palácio. Entre outros desafiantes do dia, ele foi rapidamente derrotado, com os observadores da partida declarando que a máquina jogava com agressividade, e tipicamente derrotava seu oponente dentro de trinta minutos.Standage (2002), 30. Outra parte das exibições do Turco consistia em completar o problema do cavalo, um conhecido problema de xadrez. O problema consiste em mover o cavalo através do tabuleiro, passando somente uma vez por cada casa durante o percurso. Enquanto a maioria dos jogadores experientes da época ainda tinha dificuldade em resolver o problema, o Turco era capaz de completá-lo sem dificuldade iniciando em qualquer casa do tabuleiro, no qual o operador utilizava um cartão perfurado para mapear uma das soluções fechadas possíveis.
O Turco tinha também a habilidade de conversar com os espectadores utilizando um tabuleiro com letras. O operador, cuja identidade durante o período que Kempelen se apresentava com a máquina no palácio Schönbrunn é desconhecida,Standage (2002), 204–205 era capaz de se comunicar em inglês, francês e alemão. Carl Friedrich Hindenburg, um universitário matemático, manteve um registro das conversas durante as exibições do Turco em Leipzig e publicou as em 1789 como Über den Schachspieler des Herrn von Kempelen und dessen Nachbildung. Tópicos das questões colocadas e respondidas pelo Turco incluíam idade, estado civil.Levitt (2000), 33–34.
Turnê pela Europa Após sua estreia, o interesse pela máquina cresceu na Europa. Kempelen, entretanto, estava mais interessado em seus outros projetos e evitava exibir o Turco, algumas vezes mentindo sobre o status de reparo da máquina para potenciais desafiantes. Von Windisch escreveu em algum ponto que Kempelen "se recusava as súplicas de seus amigos, e uma multidão de curiosos de vários países, a satisfação de ver sua famosa máquina".Standage (2002), 37 Nas décadas seguintes a sua estreia no palácio Schönbrunn o Turco enfrentou somente um oponente, Sir Robert Murray Keith, um nobre escocês, tendo Kempelen desmontado a máquina por completo após a partida.Standage (2002), 36–38. Na época disse que sua invenção era uma "mera bagatela" e não estava satisfeito com sua popularidade preferindo continuar trabalhando em máquinas a vapor e máquinas que replicassem a voz humana.
right|thumb|François-André Danican Philidor venceu uma partida contra o Turco em Paris, no ano de 1793. Em 1781, o imperador José II ordenou que Kempelen reconstruísse a máquina e a levasse para Viena para a visita de estado do Grão-Duque Paulo I da Rússia e sua esposa. A exibição foi um sucesso tão grande que o Grão-Duque sugeriu uma turnê pela Europa com o Turco, um pedido que Kempelen relutantemente aceitou.Standage (2002), 40–42.